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Apocalipse: Literatura de Resistência

Religião

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Vamos procurar entender porque o gênero literário Apocalipse é chamado de literatura de resistência. Trata-se de uma das formas que se utiliza, ou que foi usada pelos judeus e cristãos, para ludibriar os dominadores, fortalecer a fé, alimentar a esperança e superar as incertezas. E, no caso específico do livro do apocalipse de João, trata-se de uma mensagem bem específica que “visava animar os primeiros cristãos perseguidos e martirizados por causa da fé. É uma mensagem de esperança para essas comunidades, baseada na fé em Jesus Cristo ressuscitado” (Gorgulho; Anderson, 1981, p. 9).

Enquanto o profeta era um personagem bem situado e contextualizado, o autor do apocalipse precisava se esconder por trás de um pseudônimo. Isso porque a situação sócio-política não era favorável. O profeta, corajosamente, enfrentava o opositor, falando-lhe diretamente o que julgava ser a mensagem de Deus. O autor do texto apocalipse não tinha essa liberdade: os tempos eram outros e o inimigo mais cruel. Além disso, a fé do povo parece mais fragilizada, pois as instituições em que acreditava e que eram símbolos de sua fé, haviam ruído diante do invasor. Os opositores ao regime corriam risco de vida. Por isso a necessidade de se ocultarem nos pseudônimos. Todos esses elementos caracterizam a apocalíptica como literatura de resistência. “A literatura apocalíptica funciona como uma literatura de resistência: através da escrita, Israel se manifesta vivo e atuante. Os céus estão fechados? A história, porém, é ainda possível: através do livro, manifesta-se o Espírito, que garante a identidade do povo de Israel” (Airton, 2008).

Um detalhe importante é o fato enquanto a literatura apocalíptica oculta o autor em um pseudônimo, o autor do apocalipse de João identifica-se com os destinatários de seu texto: trata-se de uma “revelação” da parte de “Jesus Cristo” destinada “aos seus servos” anunciada “por meio de seu anjo ao seu servo João” afirmando aos “leitores e ouvintes” que o “Tempo está próximo” (Ap. 1,1-3). Além disso, o autor do texto é “irmão e companheiro na tribulação” (Ap. 1,9).

Isso leva a afirmação da proximidade. João não está escondido no passado, como os outros textos em que o autor contemporâneo se vale de um personagem do passado para falar aos seus; João está no presente dos seus leitores e ouvintes, por isso se apresenta como “irmão e companheiro na tribulação”.

Resta saber, agora, o porquê de uma literatura de resistência? Por vários motivos: primeiro porque o povo estava dominado por um invasor estrangeiro; segundo porque seus símbolos e instituições haviam sido destruídos; terceiro porque sem pátria e sem instituições nacionais, a fé ameaçava fraquejar, aumentando, ainda mais, o afastamento da mensagem divina; quarto para mostrar aos fieis que Deus não havia perdido o rumo da história e, pelo contrário, mais do que nunca controlava todas as coisas.

Outro elemento importante na literatura apocalíptica é a linguagem simbólica, enigmática. As visões, símbolos e mensagem cifradas além de dar beleza ao texto, asseguram o anonimato e segurança ao autor, pois sua mensagem fica obscurecida para o inimigo embora seja clara para os destinatários. Podemos acrescentar que a linguagem enigmática, simbólica e cifrada tem, também, a finalidade de trazer consolo e coragem na luta contra o invasor e alento para resistir. Era uma forma de ajudar o destinatário a se sentir não mais abandonado, mas eleito por Deus: “vi o numero dos que tinham sido marcados” (Ap. 7,4). Era, além disso, uma forma de preanunciar a paz em tempos de tribulação, justamente porque Deus não havia perdido os rumos da história. Dessa forma, anunciando a paz, dava ao povo alento para transformar a saudade em esperança e a dor e prenuncio de alegria. Além de assegurar a integridade do autor, a linguagem simbólica permitia ao povo se defender contra o opressor, pois não se fazia alusão direta ao tirano. “Quem teu ouvidos ouça o que diz o espírito” (Ap. 2,29; 3,6...). “Aqui é preciso discernimento! Quem é inteligente calcule o número da Besta, pois é número de homem: seu número é 666!” (Ap. 13,18)

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A força do apocalipse não está e sua doutrina, mas em sua subjetividade. Nisso se manifesta sua capacidade de resistir ao dominador, pois não se vale dos argumentos do poder, mas da fragilidade e graça do amor, sugere em vez de impor e aceita a sugestão não os donos do poder, mas os que são livres. “O valor da linguagem dos símbolos está naquilo que é evocado e sugerido. Não é a linguagem doutrinal dos conceitos bem definidos, das fórmulas bem elaboradas, do cálculo ou do conhecimento exato. A linguagem doutrinal procura definir com clareza os contornos da verdade, enquanto a linguagem simbólica conduz à fonte da verdade. A linguagem doutrinal reflete o pensamento da autoridade, enquanto a linguagem simbólica expressa a vivência dos pobres. Sai do silêncio e conduz ao silêncio. É a linguagem dos que não dominam o vocabulário e recorrem à imaginação. É a linguagem da poesia, da atitude sapiencial mais solta, da mística, da contemplação, da celebração, do amor. Convém ler o apocalipse como se contempla uma pintura, se assiste a um teatro, se conversa com um amigo” (Cebi, 2000, p. 96)

O recurso a mensagens cifradas não é exclusivo da Bíblia. Quem viveu o período militar, no Brasil, ou participou de movimentos de resistência sabe muito bem disso. Sabe como se utilizou mensagens cifradas para denunciar o sistema e transmitir esperança ao povo. Hoje quem ouve antigas músicas como “Apesar de Você” ou “Cálice” nem sempre imagina como o conteúdo político que elas possuíam, na época da ditadura e como alentaram muita gente. Furaram a censura e se tornaram popularíssimas justamente por possuírem uma conotação apocalíptica.

Neri de Paula Carneiro: Mestre em Educação pela UFMS. Especialista em Educação; Especialista em Didática do Ensino Superior; Especialista em Teologia; Professor de História e Filosofia na rede estadual, em Rolim de Moura – RO. Filósofo; Teólogo; Historiador; Professor de Filosofia e Ética na Faculdade de Pimenta Bueno (FAP). Jornalista e produtor e apresentador de programa radiofônico.

Referências

BÍBLIA de Jerusalém, São Paulo: Paulinas, 1989

CEBI (Centro de Estudos Bíblicos), Evangelho de João e Apocalipse. São Paulo: Cebi/Paulus, 2000.

CHARPENTIER, Etiene et al. Uma leitura do apocalipse. São Paulo: Paulinas, 1983.

GORGULHO, G.S.; ANDERSON, Ana Flora. Não tenham medo: apocalipse. 3 ed. São Paulo: Paulinas, 1981.

MESTERS, Carlos; OUROFINO, Francisco. Apocalipse de João, Esperança, Coragem e Alegria. 2 ed. São Paulo: Cebi/Paulus, 2002


Publicado por: NERI DE PAULA CARNEIRO

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
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