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Resenha do conto Resenha do conto Venha ver o pôr do sol de Lygia Fagundes Telles

Literatura

Clique e confira a Resenha do conto "Venha ver o pôr do sol" de Lygia Fagundes Telles.

A escolha do cemitério como cenário entre um reencontro entre ex-namorado parece um tanto estranha, e mesmo assustadora se analisada a situação, colocando-se no lugar de Raquel. Porém, a intenção de Ricardo na escolha do local tinha uma finalidade até que romântica, uma vez que queria mostrar à ex-namorada o mais belo pôr do sol.

Raquel decide ir então ao encontro de Ricardo e, enquanto o ex-casal caminha pelo espaço do cemitério, o rapaz, inicialmente demonstra ser tão somente um caso típico de “coração partido”, do tipo de não superou o relacionamento e deseja que o reencontro reacenda o sentimento de Raquel por ele, para que os dois possam ter uma nova chance.

Contudo, em segunda instância a conversa entre os dois passa a se atribuir de um tom um tanto mórbido, uma vez que Ricardo começa a falar dos familiares que perdeu para a morte e que encontram-se enterrados ali mesmo, no tal cemitério abandonado. A partir desta entonação, o rapaz então passa a fazer reflexões profundas sobre o abandono daquele espaço, dos que estão ali enterrados e também sobre a morte em si.

A caminhada dos dois segue, com Ricardo contando sobre seus parentes mortos que foram ali enterrados, sobre uma prima com a qual deixa a entender que teve um relacionamento amoroso. Deixa a entender também que desejaria que Raquel fosse a seu apartamento, elogia sobremaneira sua beleza, ao passo que ela não para de reclamar sobre as condições precárias do local do encontro, a lama e os pedregulhos fazendo barulho na sola de seus sapatos, a possibilidade do novo namorado, ela expõe como “ciumentíssimo” faria se soubesse de seu encontro.

Raquel não consegue acreditar no absurdo que fora aquele encontro em um cemitério, ainda mais para que visse o pôr do sol, Ricardo só poderia estar maluco, parecia mais magro e se dizia mais pobre ainda do que na época em que namoravam, bem como zombava da ex pela falta de resistência que a ‘riqueza’ e a boa vida ofertada pelo novo namorado haviam causado em Raquel.

Após a longa caminhada pelo cemitério abandonado, onde lá embaixo deixavam para trás até crianças brincando de roda, finalmente o ex-casal chega à capelinha onde estavam os mortos de Ricardo. O rapaz afasta das trepadeiras que cobrem o local e abre os portões enferrujados e velhos.

Raquel se surpreende na escuridão do mausoléu com a tamanha sujeira e falta de cuidado do local, até que Ricardo começa a acender um fósforo para iluminar o local, encontrando a lápide da prima Maria Emília, a qual Raquel não enxergara por conta da escuridão.

Ao iluminar a foto e o epitáfio da lápide, Raquel constata que a fotografia estava apagada demais, lendo a data de nascimento e morte da falecida, Raquel derruba o fósforo ao se dar conta de que a tal Maria Emília estava morta há mais de cem anos, isto é, não havia possibilidade de ser prima de Ricardo.

A constatação de Raquel vem um pouco tarde demais, uma vez que quando se vira já que se encontra trancada dentro do mausoléu, com Ricardo olhando-a de fora e com um semblante nada amigável ou pacífico e jovial do que aquele que ela vira anteriormente.

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A partir daí, o final da história fica aberto ao mistério típico atribuído por Telles aos seus contos, sem deixar exatamente claro o que aconteceu, porque aconteceu, qual foi a motivação do que aconteceu. Mas, é possível finalizar esta resenha falando um pouco mais sobre o estilo da autora, que diz muito sobre este conto em si.

Telles foi considerada uma escritora genial, com inspiração em Allan Poe e Lovecraft, passou a se tornar magistrada na arte de apreender toda a atenção dos leitores de seus contos, e ao final de tudo ainda conseguir surpreendê-lo, direcionando a história para um caminho inicialmente inimaginável, sendo que tudo ocorre de maneira tão natural, que sequer é possível esperar o que pode acontecer.

No decorrer das linhas que se seguem em “Venha ver o pôr do sol” é possível notar que o suspense aumente, o clima de tensão passa a se instaurar, assim como alguns detalhes na narrativa passam a dar breves indícios sobre algo que pode ser ou não, mas sempre deixando no ar um desconforto, uma sensação de que algo não está certo, algo, aliás, parece estar muito errado.

O leitor passa então a se envolver com todo o contexto do conto, passa a assumir aquela tensão que a autora deixa velada no texto, passa a se afeiçoar aos personagens, todos os elementos trabalhados por Telles são contagiantes, enveredam de maneira tão profunda que, dependendo da intensidade da leitura, é possível até mesmo acompanhar a história como se estivesse caminhando logo atrás de Ricardo e Raquel, percorrendo o mesmo caminho lamacento do cemitério.

De repente a autora joga o leitor então a um momento de confusão intensa, já que a ideia de fora formulada inicialmente sobre o texto deixa de ser tão concreta e parece agora muito mais incerta do que qualquer certeza que já houvera antes. Neste momento o leitor se atribui de uma única certeza, o pensamento inevitável e inafastável de que “algo de ruim vai acontecer”.

Quando se constata tal fato, porém, é tarde para sair da rede que Telles criou em volta do leitor com sua história, o conto da autora já fisgou completamente seu leitor, este sujeito certamente já se encontra tão envolvido e afoito para descobrir o desfecho do conto, que ao mesmo tempo em que seus pensamentos continuam no “algo de ruim vai acontecer”, seus olhos não deixam por um segundo sequer as palavras de Telles.

O desfecho do encontro de Ricardo e Raquel é, finalmente tudo o que poderia ser quando se aceita encontrar um ex-namorado em um cemitério abandonado, contudo, ainda que agora isto pareça tão óbvio, o direcionamento romântico que Telles inicia a história, faz mudar o pensamento do óbvio para relacionar ao romântico, afastando o leitor de sua razão mais fria e calculada e lançando-se de cabeça nesta história inesperada.


Publicado por: Ricardo Santos David

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
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