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Notas de falecimento e rituais fúnebres em Nossa Senhora da Glória- SE

História

Descrição dos rituais fúnebres da cidade de Nossa Senhora da Glória em SE.

Nota de falecimento e convite!

Assim começa mais uma nota de falecimento anunciada em carros de som que circulam pelas ruas da cidade com o objetivo de “compartilhar” com a comunidade um momento de tristeza e dor para quem perde um ente querido. Mas essa é apenas uma etapa de um ritual que faz parte do cotidiano de muitos brasileiros, sendo que em algumas localidades o ritual funerário envolve uma série de minúcias que representam traços culturais de um grupo.

Tendo o “privilégio” de morar a alguns metros da morada dos mortos, o cemitério local, pude ao longo de dez anos de “vizinhança” perceber algumas características sobre as notas de falecimento e os rituais fúnebres em Nossa Senhora da Glória, cidade localizada no sertão sergipano. Tentarei mostrar algumas peculiaridades ao longo deste texto.

As minúcias começam mesmo antes do anúncio da nota de falecimento. Qual a causa da morte? De quem é parente? Especulações, no caso da morte de um moribundo; acréscimo de informações se a morte for trágica; comentários, murmurinhos, tudo isso antecede o anúncio oficial do falecimento.

É chegada a hora de anunciar o fato: Nota de falecimento e convite, assim inicia o locutor de voz tenebrosa e isso é suficiente para donas de casa desligar os aparelhos TV e correr para frente ou para os fundos da casa para escutar melhor. Outros indivíduos também interrompem seus ofícios para ouvir: “Filhos, parentes e demais amigos cumprem o doloroso dever de comunicar o falecimento de (...), cujo féretro sairá de sua residência as tais horas de tal bairro para o cemitério local.” A família em luto agradece a quem comparecer ao ato de piedade cristã.

Pronto, já se sabe quem foi o desafortunado, de qual família faz parte e o endereço. A próxima etapa é a que leva o cidadão ao tal ato de piedade cristã, ou seja, o velório. Vale lembrar que a causa da morte ou quem era o indivíduo são “atrativos” para quem pretende prestar a sua solidariedade. Por exemplo, casos de morte por acidente desperta o interesse dos curiosos de plantão. Até parece que a dor alheia se transforma numa “distração” para alguns, que vão ao sepultamento para especular sobre as causas da morte.

Mas vamos em frente. Quem era a pessoa falecida ou de que família fazia parte também é motivo para reunir grande quantidade de pessoas em um funeral, afinal de contas, uma coisa é morrer o José ou simplesmente Zé e outra é morrer o José dono de tal comércio, ou José filho de fulano de tal.

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Outro dado curioso são os óbitos ocorridos em período eleitoral (principalmente eleições municipais), quando políticos, candidatos e cabos eleitorais sentem a obrigação de se fazer presente no funeral e bondosamente oferecem sua ajuda: “Qualquer coisa pode contar comigo.” Será que se não fosse ano eleitoral seria assim?

Em meio a lágrimas e lamentações de alguns, e risos e murmurinhos de outros, o cortejo sai da residência do falecido e atravessa as ruas da cidade. Ah, um detalhe, há alguns anos atrás era comum vermos parentes ou amigos mais próximos do finado carregar o caixão. Hoje, essa tarefa fica a cargo de um carrinho (daqueles que são utilizados nos pátios da rede globo de televisão para transportar as celebridades) que conduz o corpo até o cemitério. É a comodidade e a segurança promovendo o bem-estar do falecido (isso sem falar nos outros serviços funerários que não comentarei aqui, uma vez que não faz parte do objetivo deste texto).

Chegando ao portão do cemitério é hora da despedida final para a maioria dos que acompanharam o cortejo, afinal de contas, não é todo mundo que se sente a vontade dentro de um cemitério, por isso preferem voltar da entrada. Para os que acompanham o corpo até a sepultura ainda restam alguns minutos finais para a despedida.

Entre lágrimas e consternação o ritual funerário chega ao fim com a última camada de terra depositada pelo coveiro no túmulo. Hora de voltar para casa. Para a família e os amigos resta apenas o consolo que o tempo se encarregará de dar pela perda do ente querido. Para os curiosos (a maioria dos que acompanharam o cortejo, porém, voltaram do portão do cemitério) fica a expectativa de no dia seguinte ouvir dos alto-falantes de um carro de som mais uma nota de falecimento e convite.

Sobre o autor: Caio César Santos Gomes é graduado em História pela Universidade Tiradentes e pós-graduando em Ensino de História pela Faculdade São Luís de França. É tutor do curso de História da UFS – Universidade Federal de Sergipe.


Publicado por: Caio César Santos Gomes

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Meu Artigo. O Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.