Conceitos-chave da Geografia no Ensino: Teoria e Prática

Breve reflexão sobre os principais conceitos que devem orientar o ensino de Geografia.

Imprimir
A+
A-
Compartilhar
Facebook
X
WhatsApp

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Meu Artigo. Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: https://www.brasilescola.com

As categorias geográficas – espaço, paisagem, território e lugar – constituem os alicerces sobre os quais se estrutura o pensamento geográfico. Mais do que meros conteúdos a serem “transmitidos”, essas categorias funcionam como instrumentos analíticos que permitem ao geógrafo e ao professor de Geografia recortar, interpretar e problematizar a realidade. No contexto do ensino, dominar essas categorias é condição essencial para formar o raciocínio geográfico dos alunos, capacitando-os a compreender o mundo em que vivem e a nele atuar de forma crítica e cidadã.

Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;)

Historicamente, a Geografia – enquanto ciência, curso universitário e disciplina escolar – sempre recorreu a esses conceitos fundamentais. Tais categorias também estão presentes em outras esferas da sociedade, de modo que, anteriormente à experiência escolar, os estudantes já possuem concepções sobre elas. Como alerta Lana Cavalcanti, os conhecimentos prévios e as representações sociais dos alunos constituem a base para a abordagem de qualquer temática geográfica em sala de aula. Cabe ao professor, portanto, não negligenciar esses saberes, mas sim promover o confronto entre o conhecimento cotidiano trazido pelos alunos e o conhecimento sistematizado que estrutura o raciocínio geográfico, indo além do senso comum.

Cada uma das quatro categorias possui especificidades, mas todas se articulam na leitura do espaço geográfico. O espaço, conforme Ana Fani Carlos, é produto das relações entre os seres humanos e destes com a natureza, ao mesmo tempo que interfere nessas mesmas relações. Trata-se de uma totalidade dinâmica, marcada por contradições e em constante transformação. A paisagem, por sua vez, é tudo aquilo que pode ser apreendido pelos sentidos; para Milton Santos, ela representa a materialização de um instante da sociedade, ou seja, é a aparência do espaço, aquilo que se vê, mas que esconde processos e relações mais profundas. Cada tipo de paisagem reflete diferentes níveis de forças produtivas e atende a funções sociais diversas.

O território é definido pelas relações de poder, sejam elas formais (como as fronteiras políticas) ou informais (como o domínio de facções criminosas em uma comunidade). Importa destacar sua multiescalaridade: o território pode ser analisado do local ao global, e sua compreensão exige considerar os agentes que o produzem e as disputas que nele se travam. Por fim, o lugar remete às relações subjetivas e às noções de pertencimento; é no lugar que a vida cotidiana acontece, mediado pelas experiências individuais e coletivas.

No entanto, como adverte Gilmar Trindade, não se ensinam em sala de aula os conceitos básicos elencados acima, mas sim se instrumentalizam esses conceitos, associando-os aos diferentes conteúdos que serão estudados na Geografia Escolar. Em outras palavras, não se “ensinam os conceitos”, mas se ensina “com os conceitos”. Essa distinção é fundamental para a prática docente: o objetivo não é que o aluno decore definições, mas que aprenda a utilizar essas categorias como ferramentas de análise para compreender a produção do espaço, os agentes envolvidos, as escalas em que atuam e o seu próprio lugar nesse processo.

Nesse movimento, os conceitos científicos precisam ser adaptados às condições cognitivas dos alunos, sem perder seu rigor. Para tanto, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) orienta que o ensino de Geografia deve promover o desenvolvimento do raciocínio geográfico, ancorado justamente nessas categorias. Espera-se que o professor, portanto, planeje situações didáticas que possibilitem ao aluno mobilizar os conceitos para analisar problemas concretos, como conflitos territoriais, transformações na paisagem local ou relações de pertencimento ao lugar.

Na prática, isso pode ser feito a partir do entorno da escola. Ao tomar a paisagem do bairro como ponto de partida, o professor pode instigar os alunos com perguntas investigativas: o que existe por trás da paisagem? O que está subjacente a ela? Como se constituiu esse espaço? Quando se iniciou a transformação da paisagem natural em paisagem humanizada? Quais agentes e ações estão envolvidos? Quem exerce poder sobre esse território? Como os moradores se relacionam com o lugar? Esses questionamentos, inspirados na máxima de Marx de que é preciso apreender as essências para além das aparências, conduzem o aluno a uma leitura crítica da realidade.

A partir dessas indagações, o professor pode desenvolver metodologias variadas: produção de fotografias comparadas, entrevistas com moradores antigos, mapeamento participativo, análise de documentos históricos, entre outras. O importante é que o aluno perceba que os conceitos geográficos não são abstrações distantes, mas ferramentas para interpretar sua própria vida. É nesse momento que a Geografia passa a ter sentido, tanto no currículo escolar quanto na trajetória pessoal dos estudantes.

Em suma, o docente tem a seu alcance inúmeras possibilidades de estimular a construção do conhecimento geográfico. Para isso, precisa dominar as categorias analíticas da disciplina, conhecer as teorias do ensino de Geografia e, sobretudo, considerar as características dos estudantes. Como bem sintetizou Pierre Monbeig: “Conhece-se o bom professor pela sua arte em saber adaptar o ensino à idade mental e à qualidade de seus alunos”. Cabe a nós, educadores, exercer essa arte com compromisso e criatividade, formando cidadãos capazes de ler o mundo geograficamente.

Referências

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Educação é a Base. Brasília: MEC, 2018.

CARLOS, Ana Fani. Alessandri. A cidade. São Paulo: Contexto, 1992.

CAVALCANTI, Lana de Souza. Geografia, escola e construção de conhecimento. Campinas: Papirus, 1996.

MONBEIG, Pierre. Papel e valor do ensino da Geografia e de sua pesquisa. Boletim Geográfico do Rio Grande do Sul, n. 5, p. 85-87, 1957.

SANTOS, Milton. Espaço e Método. 4. ed. São Paulo: Nobel, 1997.

TRINDADE, Gilmar Alves. Aplicação dos conceitos geográficos no Ensino Fundamental e Médio. Geografia e ensino: dimensões teóricas e práticas para a sala de aula. Ilhéus, BA: Editus, p. 29-36, 2017.

Publicado por
Francisco Fernandes Ladeira

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Meu Artigo. Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: https://www.brasilescola.com