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Resenha do Diálogo

Filosofia

Resenha do Diálogo, O Banquete ou do Amor, o amor é a essência de todas as coisas, o amor é um desejo, uma vontade de completar-se, o nascimento do amor gera dor e sofrimento.

O Banquete ou do Amor, um dos diálogos mais ricos de Platão, trata-se de uma narrativa, onde são expostos vários discursos de louvor e celebração ao Amor.
Fedro, o primeiro a discursar, fala da inspiração do amor para a virtude, que é um dom e brota de si mesmo. E daí vem a felicidade entre os homens. Pois, a idéia do amor, é uma idéia em si mesma, e participa da idéia do Bem, e nessa participação se torna um com ela. Pausânias fala da duplicidade do amor, que pode corresponder à idéia de Outro que não seja o Bem, e que pode se manifestar no amante. Trata-se do amante popular, que ama o corpo mais que a alma, não é constante, e se prende a interesses não elevados.

Em seguida no discurso de Erixímaco, Eros, o amor, unificado ao Bem, é a essência de todas as coisas, pois através da arte da medicina, constata que o amor está presente em todos os seres. O Ser é a unidade de toda a multiplicidade reunida, passa da desordem para a ordem, estabelecendo a harmonia entre as partes. Na verdade fazem parte de uma composição, de um todo conecto e interligado. E o amor, faz a síntese, a unidade das contrariedades. Aristófanes, por sua vez, narra sobre os três gêneros da humanidade. Éramos um todo, e a essa totalidade dá-se o nome de amor, era essa a nossa antiga natureza. Feita a divisão, o amor tornou-se um desejo, uma vontade de completar-se, está sempre na busca de algo que sabe que lhe falta. A união é a cura, a bem-aventurança e a felicidade. Por isso sendo os homens o amor em essência, buscam-no uns nos outros.
Na seqüência, Agatão faz uma exposição sobre a natureza do amor, de onde vêm tantos dons. E sua morada, segundo ele, está nos costumes e nas almas dos homens. O amor é virtuoso, pois é justo, temperante e corajoso. Tem domínio sobre si e dele surge toda espécie de bem, o mais belo e melhor possível. Mas, é na fala de Sócrates, narrado com um mito, que é demonstrada a essência do amor, o seu ser, a sua idéia. Diante do mito narrado há de se entender porque Eros, o Amor, nasceu esquecido de sua verdadeira origem. Pois, no estado de carência e sono foi gerado. Sua mãe pobre em recursos (Pênia), e seu pai Poros, completamente embriagado, adormecido, conseqüentemente inconsciente. E Eros tem carência daquilo que não lembra. Mas, a busca por si mesmo, pelo amor, é a busca pela verdade. Por aquilo que está esquecido. Lembrar significa preencher a falta, suprir a carência. Tornar pleno aquilo que está faltando: o momento da geração do amor. Esse é o momento da verdade que estava oculta, no véu do sono do esquecimento. Afastando-se o véu, consuma-se o Bem, e a verdade aparece.

O nascimento do amor gera dor e sofrimento, pois não se sabe a si mesmo, está entre o saber, e o não saber, o ser e o não ser, a ordem e a desordem, o bem e o mal. Entre feio e belo, rico e pobre, mortal e imortal. No mundo sensível vê-se dividido, daí o desejo constante de completar-se. Eros é o elo entre os dois mundos (Inteligível-Sensível); é intermediário, está entre o saber e a ignorância; entre a memória e o esquecimento. Eros quer descobrir sua verdadeira natureza. Tem sede de saber, e sua motivação está fixada nessa idéia de descobrir-se, encontrar-se, conhecer o que é em si mesmo. Esquecer é ficar preso às correntes do corpo, é perder sua liberdade. Eros está dividido, tem desejo da unidade. Eros quer apropriar-se do Bem, na união com o Ser amado.

O amor possui extremos, e é preciso que ele percorra os caminhos entre eles, para que possa reconhecer a sua verdadeira origem, e encontre a si mesmo. Eros pelo amor carnal, busca atingir a imortalidade nos corpos, pela continuação da espécie. A beleza que o amor busca nesse estágio, não é elevada, é passageira, inconstante e perecível com o corpo. O corpo é vontade, na busca do prazer e fuga da dor. Esse é o nível do amor corporal, onde Eros fere profundamente a alma. É quando o amor não é nobre. Nesse nível, pode-se dizer que o amor é puro egoísmo, individualista, cego e injusto, pois a beleza de tal corpo, não tocou o sentimento da alma. É onde a natureza aparente está a serviço de si mesma, e não permite a visualização da idéia original, que é a idéia de beleza. Dessa maneira a alma do homem vive tão somente para a conservação do corpo, caído na necessidade.

O que o Amor almeja é a imortalidade (pois não é nem mortal, nem imortal), mas estando preso ao mundo sensível, o que faz é reproduzir filhos mortais, ou seja, essa imortalidade é ilusória. O que Eros busca é a idéia de beleza (eterna), que está na forma, na harmonia das coisas corporais, por isso ela é uma só e a mesma em todos os corpos. A alma sente saudades. Um anseio de voltar a sua morada, mas não sabe explicar. Trata-se de um anseio amoroso, de um pensamento que vem lhe persuadir, admoestar. E esse pensamento, equivale a uma luz na consciência. Pois, a alma ainda tem esperança de livrar-se das suas aflições, de todos os seus tormentos, é isso o que ela mais quer. Nessa passagem podemos verificar a referência que se faz ao amante da sabedoria, o filósofo, como possuidor de tal esperança. E Eros intermediário entre o saber e a ignorância, busca o saber, e ama o que busca, Eros é filósofo. A beleza vem a ser o meio de elevação do amor, transformando o desejo sexual em contemplação pura e desinteressada, permitindo a Eros unir-se à idéia original de que é constituído.

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Eros busca o Bem, pela expressão do belo, e utiliza-se dos atos mais irracionais. O que comanda o seu querer, o seu desejo é o Bem, mas as suas ações dão-se no mundo sensível, regido pelo princípio da causalidade, que correspondem às leis do devir. Desse modo, comete os mais variados disparates e desvios. Daí sua insatisfação e sofrimento. Porque o que cada um busca no outro é algo mais elevado do que a corporeidade, pois “só te ama quem amar a tua alma” (Platão, 1975, p. 241). A ação do Amor nos homens é equivalente a um parto em beleza, tanto no corpo quanto na alma. As divisões de sentimentos da alma se harmonizam, se unificam em um único estado, no seu estado originário, bom, belo, justo e verdadeiro.

O delírio compreende o momento do parto supremo, ou seja, espiritual, da alma. A alma, pelo amor, se vê refletida no belo espelhado no sensível. Agita-se, quer alçar vôo, e elevar-se ao sítio de sua natureza, o plano das idéias. O delírio compreende um intermédio entre emoção e a inteligência. O homem nesse estado esquece tudo, de todas as preocupações e situações da sua vida, lançando o olhar para o alto, querendo voar. Há um encantamento sobre os seus sentidos, e a abertura para o deleite espiritual.
Compreende-se que, tudo é Bem, tudo veio do Bem, nasceu dele e para ele tende a retornar infinitamente. Toda e qualquer contrariedade à idéia do Bem, é carência, falta, anseio de encontrá-lo, donde na essência nunca saiu. A ilusão, a ignorância, encobre essa realidade e Platão, no Banquete, se utiliza do amor, para ilustrar os caminhos que a alma percorre para encontrar a si mesma. Pois, que o amor não poderia ensinar a alma, no sentido de mostrar como ela é, mas no sentido de agitá-la, impulsioná-la através do desejo, a buscar, a procurar saber o que é por si mesma. A resignação em geral ou renúncia corresponde a se liberar das dores do parto. Todo o nosso sofrimento, causados pelas nossas carências ou necessidades, são como dores de parto. Estão sempre anunciando seu nascimento. Liberar-se das dores de parto, é parir a alma. É o desapego da alma do nosso corpo físico. E todo processo de desapego é doloroso como no parto. Parir corresponde a aniquilar e desprezar todas as nossas ilusões, dar passagem para que a alma possa se elevar.
No Banquete, a virtude é identificada como conhecimento. E Eros tem amor ao saber, nasceu entre o saber e a ignorância. Eros busca o belo, e o belo está no Bem, e o Bem produz a verdade, a nossa capacidade de conhecer. E a inteligência é quem pode fazer a separação entre virtudes e vícios, purificando nossa alma. O amor é sublime. O amante é idolatrado, enchendo-se sua alma de amor, e ao ver-se no outro como num espelho, duvida que seja amor, e toma por amizade, e daí nasce a virtude.

O Amor é uma preparação para a morte. No diálogo, vemos que o homem é somente a alma, pois é a alma quem comanda o corpo. O corpo é visto como um empecilho para a elevação da alma, para alcançar o saber. A purificação é uma necessidade da alma. E atingir o estado de pureza, equivale a uma preparação para a morte. A alma centrada em si mesma se liberta da influência dos sentidos. O amor chega ao topo da escada, atinge o último degrau, no seio da morte. Somente aí, encontra-se o amor verdadeiro e puro, que conduz a alma à liberdade absoluta. O amor se reconhece, sua natureza é revelada. Conhecer é morrer em si mesmo, e o amor é transfigurado em virtude. E todas as virtudes vêm do Bem, e o amor é uma idéia que participa do Bem, compõe a sua unidade.
Do exposto de Sócrates, Alcebíades que chega embriagado ao tal Banquete, dá a finalização ao discurso. E refere-se a Sócrates, parafraseando o amor. Tece toda a trajetória ou caminho do filósofo, para tornar-se virtuoso, descrevendo os graus que o amor tem que percorrer, para atingir o autodomínio, ou seja, o belo em si, e passando a produzir a verdadeira virtude.


Publicado por: Neiva da Silva Martinelli

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
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