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Onde está a arte?

Filosofia

onde estão os artistas, onde está a arte, questão estética, o que a arte faz...

O correto não seria perguntar: onde estão os artistas?

Creio que não pois aí já teríamos a resposta: "todo artista tem de ir aonde o povo está", como diz o poeta.

Então permanece a questão: onde está a arte?

Alguns, numa ingenuidade de dar dó, responderão: "ora essa. É só ligar a televisão. As novelas estão transbordando de artistas e o que eles fazem é arte". Essas pessoas querem nos fazer crer que aqueles encenadores, por vezes maravilhosos, são artistas. E suas cenas são expressão de arte.

Outros aficcionados nos dirão que os artistas dos pincéis freqüentemente nos brindam com lindas exposições. São anifestações artísticas estampadas nas telas. Estes querem nos fazer acreditar que a produção dos pintores são manifestações artísticas. Ali estaria a arte.

Alguns, repetindo o som, nos dirão: "Ho! Meu! É Só ligar o rádio, cara. Ligar o ‘som’ que a gente pode curtir uma musiquinha legal" para essa moçada, cantores e compositores são os produtores de arte. Na música estaria a arte.

Olhando assim teríamos que dizer que a arte está na novela, na pintura, na música.

Só?

E estaria mesmo?

Agora é bom que algumas coisas sejam esclarecidas. Primeiramente, não sou o que se costuma chamar de "crítico" de arte. Ou seja, não sou especialista em emitir opiniões com maior fundamentação. E, hoje em dia só se vale pelo diploma que se tem, então... Mesmo assim me reservo e me dou o direito de comentar. Mas meu comentário é o mesmo do crítico profissional, mas do filósofo. A minha questão é a estética e não laudatória ou vexatória.

Sendo assim posso, tranquilamente dizer que gostaria de me deleitar assistindo, olhando, ouvindo... algumas expressões artísticas, algumas expressões de arte. Mas não dá, não consigo, não encontro...

E continuo perguntando: onde está a arte? Onde estariam os artistas?

E veja que não são questões ontológicas, mas pragmáticas...

Entendo que arte é alguma coisa que faz a gente "vibrar" ao entrar em contato. Ela nasce duma intuição subjetiva do artista e é objetivada na obra de arte. É uma intuição e manifestação do interior que o artista exterioriza: arte é algo que dá "tesão", dá prazer, dá paz, emociona. Arte é aquilo que arranca aquela expressão espontânea, sem pucha-saquismo: "que lindo!"

Aí eu ligo a TV. Fico olhando. É gostoso, descontrai. Mas aquela exclamação não sai... Não que os encenadores não se esforcem ou por que são maus profissionais.

Não! Não é isso. O problema é exatamente esse: São profissionais! E se não entrasse dinheiro, do grosso, em suas contas, aquelas maravilhas de encenações não aconteceriam. E não teríamos as novelas, os filmes, os programas humorísticos...

Como não tenho muito tempo para as novelas, procuro a arte da pintura. Olho... Olho... E continuo olhando... E a exclamação não sai. Só vejo confusão de cores que não me dizem nada. Não dá aquele tesão de emoção! E quando estou olhando aquelas produções alguém me diz que posso levar qualquer uma delas. Custam só um montão de dinheiro (às vezes até se fala em dólar!).

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E outra vez a coisa é feita pelo dinheiro.

Meio sem graça volto para casa. Ligo o rádio. Ponho um disco (CD, pois o vinil já está ultrapassado pela tecnologia que rende mais... o DVD ainda não deu pra comprar e o MP3... nem pensar... aliás, o que vem a ser toda essa “sopa de letrinhas”?). Aí invade meus ouvidos uma explosão de sons. Numa linguagem que não me diz nada. Isso quando daquele amontoado de sons se sente sensação sonora semelhante à palavra humana.

Mudo de estação. Troco o disco. Procuro música com sentimento. Quero ouvir a voz maviosa do cantor... Nada. Estou para desistir da busca quando, de repente, encontro... Música comercial, descartável. Tem público e prazo de validade: só vale para uma estação, até que surja outra moda. E onde está a arte?

Já é noite. Abro a janela. Lá no boteco tem alguém fazendo falar um violão. Mas ninguém paga para ele gravar um disco nem para ele cantar na televisão. Sua voz é belíssima. Sua platéia são só os companheiros de copo... que acabam bebendo e cantando juntos.

O problema é que ele está bebendo pinga. Não tem como tomar uísque. Esse parece que é um artista... mas tem um problema – grave – ele é pobre. Sua arte não é comercializada, embora pudesse ser comercializável... Mas se fosse, seria arte? Mas ele sabe mostrar arte. E os que bebem com ele sempre recebem, em troca, uma melodia que podem saborear, com a pinga, alguns versos de sua "arte livre"

Ai eu fico pensando. Nosso país é enorme, transbordante de artistas. Nos botecos, nas feiras, nas escolas... Nas escolas: quanto estudante que, além de “arteiro” é artista!!! Mas não tem espaço para ele...

Até viver de salário-mínimo é uma arte: ou você pensa que é fácil sobreviver com esse valor? O problema é que quase ninguém olha para esses artistas, artistas populares, apenas por que não custa caro. Seu preço é apenas um copo de cachaça e a companhia dos amigos.

Se cobrasse em dólares ou se ele se despopularizasse teria grandes platéias...

Aí eu penso: a arte está naquele poema que se manda para a namorada. Naqueles jovens que improvisam tudo para fazer teatro. Naquela música alegre, que brota do violão, regada pela cachaça.

E aí eu penso: a arte é rebelde. E rebeldes são os artistas...

Neri de Paula Carneiro – Mestre em Educação, Filósofo, Teólogo, Historiador. 


Publicado por: NERI DE PAULA CARNEIRO

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
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