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O Trilema Paradoxal de Epicuro e a Resolução Agostiniana

Filosofia

Estudo sobre o Trilema Paradoxal de Epicuro e a Resolução de Santo Agostinho.

“Se Deus é bom, por que o mal existe? ”. Esta questão foi fortemente cobrada aos cristãos dos primeiros séculos da Igreja Católica, entre eles estava Santo Agostinho. Tal questionamento era alimentado pelo famoso, e até hoje estudado, Paradoxo de Epicuro. Epicuro, filosofo grego do período helenístico, atuou séculos antes do nascimento de Jesus de Nazaré, porém deixou como legado um paradoxo que viria a se tornar uma das maiores problemáticas cristãs. O Paradoxo de Epicuro é nada mais que uma série de inferências logicas que demonstrariam a impossibilidade da existência do Mal e de um Deus bondoso, onipotente e onisciente na mesma realidade.

A primeira informação a se considerar, porém, quando aplicando o Paradoxo de Epicuro ao pensamento cristão, é: O Deus utilizado nas premissas epicuristas possui uma gama predicativa de espantalho do Deus da crença cristã, isto é, ao invés de buscar lidar com a “real” e viva conceituação de Deus, reduz a complexidade do conceito de divindade e Deus, do cristianismo, a poucas características, no caso, especificamente 3, criando, assim, um espantalho do conceito.

É justo, antes de continuar, lembrar que Epicuro não criticara o cristianismo, visto que morrera antes do nascimento de Jesus de Nazaré, logo, o espantalho do objeto de argumentação é realizado pelos pós epicuristas que, também, pós e anticristãos, transferiam seu paradoxo ao embate para com a argumentação dos cristãos.

Mas afinal, como funciona o Paradoxo de Epicuro? O paradoxo de Epicuro se enquadra na retórica e na lógica como um Trilema, isto é, um problema no qual se possui 3 afirmativas, porém a existência de 2 delas necessariamente exclui a terceira. As afirmativas em pauta no Trilema de Epicuro são:

  1. Deus é Onibenevolente (absolutamente e ilimitadamente bondoso).
  2. Deus é Onisciente (tem absoluta ciência de tudo, tanto em objeto quanto em fenômeno).
  3. Deus é Onipotente (possui poder absoluto, irrestrito e ilimitado).

Agora, para encontrar o Trilema basta tentar agrupar em um caso de realidade imaginada, que considere a existência do Mal como verdadeira, as 3 afirmativas como verdadeiras, e verificar que não é possível. Observe:

  1. Se Deus é onisciente e onipotente, então possui conhecimento da existência do Mal (pela onisciência) e poder para acabar com ela (pela onipotência), logo,  se não o faz não pode ser onibenevolente, pois não estaria sendo absoluta e ilimitadamente bondoso ao permitir o Mal. Conclui-se: existindo o Mal, sendo Deus onisciente e onipotente, não pode ser onibenevolente.
  2. Se Deus é onipotente e onibenevolente, então possui poder para acabar com o Mal (pela onipotência) e desejo de assim fazer (pela onibenevolência), logo, se não o faz é porque não tem conhecimento do Mal, isto é, não possui conhecimento absoluto, assim, não é onisciente. Conclui-se: existindo o Mal, sendo Deus onipotente e onibenevolente, não pode ser onisciente.
  3. Se Deus é onisciente e onibenevolente, então possui ciência da existência do Mal (pela onisciência) e vontade de acabar com o Mal (pela onibenevolência), logo, se não o faz é porque não tem poder para tal, isto é, não possui poder ilimitado, assim, não é onipotente. Conclui-se: existindo o Mal, sendo Deus onisciente e onibenevolente, não pode ser onipotente.

Desta maneira o Trilema de Epicuro teria provado que, existindo o Mal, Deus não poderia possuir suas três mais marcantes habilidades (Onipotência, Onisciência e Onibenevolência), somente duas delas, o que configura um paradoxo, enfaticamente para os monoteístas abraâmicos que pregam, como axioma e epílogo de todo seu sistema religioso, a bondade absoluta, o conhecimento total e o poder ilimitado de Deus.

Note, porém, que todo o Paradoxo do Trilema de Epícuro necessita de uma premissa aceita como válida para se sustentar: a existência do Mal. Sem a aceitação da existência do Mal não é possível erguer as inferências previamente descritas pois as questões problemáticas não se põe, observe: Se Deus é onisciente e onipotente e o Mal não existe, ele também pode ser onibenevolente, haja vista que possui ciência da inexistência do Mal, logo, não necessita atuar, por meio de sua onipotência contra ele; assim, a problematização da vigência das 3 características citadas como predicados de Deus não se colocaria.

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Todavia, o comum seria assumir a existência do Mal, sim, dada a experiência com o mundo sensível-material-humano, onde crueldades aparentam ocorrer. Logo, o trilema seria válido, quando validada a existência do Mal. Agora é necessário refletir o seguinte: o que é existir? Para resumir, evitando fugirmos ao tema, é necessário compreender que nem toda existência é ontologicamente positiva, isto é, nem toda existência é verdadeira, há também pseudoexistências, ou seja, fenômenos, que não possuem algo em si, mas são nomeados ou conceituados como se fossem algo por si só, seja intencionalmente, para facilitar a comunicação, seja por descuido, não percebendo a falsidade daquilo que se conceitua.

Tais pseudoexistências são a realidade dos seres ontologicamente negativos, isto é, não existem positivamente, projetando-se, mas negativamente, na ausência. O exemplo mais simples de uma existência ontologicamente negativa (que estamos chamando de pseudoexistência) seria um buraco. Um buraco não existe como ser que se projeta, positivo, ele é, na verdade, a ausência parcial e delimitada de um ser que, por sua vez sim, se projeta. Logo, uma existência ontologicamente negativa é nada mais que a parcial e delimitada privação de projeção, ausência, de/sobre uma existência ontologicamente positiva.

Agora raciocine, se pressupormos a crença cristã de que Deus tudo criou e toda sua criação é muito boa (Gênesis, 1, 31) e somarmos a isso o fato de que não é possível extrair um Mal substancial (ontologicamente positivo/ existência verdadeira) de um universo unicamente Bom, sobram 2 alternativas de conclusão: ou ‘o Mal não existe de maneira alguma, realmente não existe tal manifestação no universo mesmo que de maneiras secundárias, sendo pura e unicamente uma ideia fictícia’, ou ‘o Mal é a existência ontologicamente negativa do Bem, isto é, o Mal é a privação, a ausência, do Bem, o não-Bem’.

Como o Mal não pode existir ontologicamente positivo na crença cristã, como vimos no parágrafo anterior, porém, seria absurdo discordar que maldades são praticadas no mundo dos humanos, como vimos mais atrás no texto, só nos resta uma conclusão: o Mal é a privação do Bem, ocorrendo somente nas práticas dos seres, pois não pode ser algo, só ocorrência. Desta maneira, o Mal é a ação corrompida daquele ser que, dotado de livre arbítrio, opta pelo não-Bem, ou seja, pelo Mal.

A argumentação desenvolvida nos últimos 2 parágrafos é, de fato, uma demonstração simplificada do argumento de Santo Agostinho sobre o Problema do Mal, apresentado em sua Magnum opus “Confissões”, no decorrer do capítulo 12 do livro VII. Agora, você poderia questionar o porquê de um Deus onisciente, onipotente e onibenevolente dotar criaturas de livre arbítrio, de maneira que estas possam optar pelo não-Bem. Se você realizou tal reflexão, meus parabéns, você já alcançou a próxima problemática filosófica agostiniana (que segue logicamente esta trabalhada neste artigo educativo) que é o Problema do Livre Arbítrio, porém, este já é um outro assunto para um outro artigo...

Enfim, compreendemos o Trilema Paradoxal de Epicuro e a Resolução de Santo Agostinho para o mesmo problema, enfatizando que os dois não dialogam em desenvolvimento entre si, visto que seu embate está na premissa da existência do Mal. Agostinho nega a existência substancial do Mal, o que invalidaria o Trilema de Epicuro. Epicuro, por sua vez, afirma a existência real do Mal, o que invalidaria o argumento resolutivo de Santo Agostinho para o problema do Mal. Conclui-se: a lógica de Agostinho é tão válida quanto a de Epicuro (vice-versa), a questão filosófica aqui em debate está no juízo da premissa “existência do Mal” e a justificativa de escolha pela sua validação ou invalidação como verdade.

Bibliografia: 

The Problem of Evil. Michael Tooley. 2010. The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Edward N. Zalta

Confissões, VII, 12. Santo Agostinho. Tradução de Danilo Marcondes. Textos Básicos de Filosofia. Editora Zahar. 2007.

Por Rafael Ferreira Martins


Publicado por: Rafael Ferreira Martins

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