O grilhão, o democrático e a emancipação humana

Clique e confira uma reflexão filosófica sobre o grilhão, o democrático e a emancipação humana.

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O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Meu Artigo. Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: https://www.brasilescola.com

Quando se fala em democracia - esse termo tão aclamado pelo mundo ocidental -, o que nos vem à mente é uma situação onde todos possuem e podem defender direitos. E o guardião desses direitos, aquele que elegemos para os tornar válidos e acessíveis à quem os reivindica, é o Estado. Os contratualistas Hobbes e Rousseau apontam, contudo, que o nascimento do que, hoje, chamamos Estado tem sua origem no grilhão.

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Os grilhões, desde tempos antediluvianos, eram usados para impedir que pessoas como os condenados ou os escravos pudessem se movimentar livremente. Ainda hoje, o grilhão é símbolo da opressão. E é a forma metafórica do termo que se faz uso neste texto.

Hobbes afirma que o Estado teria seu surgimento no medo que os homens tinham uns dos outros. Era o homem, em seu estado de natureza, um ser perigoso à sua própria espécie, o "lobo do homem". É possível que ele tenha usado a palavra "lobo" para afastar a interpretação equivocada de que o homem era mau. Ora, se não havia moral no estado de natureza, não podia, tampouco, existir maldade. Mas, sendo o homem nocivo ao homem, era mister que algum "lobo" mais poderoso pudesse estabelecer a paz. Os homens eram livres, mas a liberdade era extremamente arriscada. O pacto com o "grande lobo" fora selado e tacitamente o homem dizia: Abro mão da minha liberdade, pois tenho medo de perder minha vida. O "grande lobo" me dará sua proteção e eu, em troca, ser-lhe-ei seu. Já não sou livre. 

O grilhão do medo, em vista disso, é a base fundamental para o nascimento do Leviatã.

A hipótese de Rousseau não parte da ideia de que o homem é essencialmente "mau". No estado de natureza, o homem nasce livre e bom, mas o processo de civilização o corrompe e o cerca por grilhões. O grilhão, nesta linha de pensamento, surge a partir do momento em que a propriedade privada existe. É preciso garantir a propriedade. O indivíduo se torna escravo disso e, também, de suas necessidades, vaidades, e daqueles que o cercam. Ele busca reconhecimento, status. As questões que se colocam são: como garantir a liberdade que o homem possuía no seu estado de natureza? E a segurança? E - o que não é menos importante neste novo modo de ser do homem - como assegurar o bem-estar da vida em sociedade?

A resposta que Rousseau apresenta a estas questões é fazer um pacto onde todos doam suas forças, seus direitos, doam-se completamente para todos, unem-se a todos, tornando-se iguais e livres. Todavia, não se trata da liberdade natural que o homem possuía outrora, mas da liberdade convencional.

O contrato social - solução para garantir a liberdade, a segurança e o bem-estar social - não é um acordo formal, um ato real, mas um símbolo. Todas as "cláusulas" são definidas pela natureza do ato, tudo se realiza implicitamente. Mas, e se restassem alguns direitos que fossem particulares de algum ou alguns indivíduos? - A liberdade estaria novamente ameaçada, a associação se tornaria vã e os associados do contrato seriam súditos de um tirano.

No obra "A invenção democrática", Lefort, no capítulo "Direitos do homem e política", apresenta questões que giram em torno da ideia de democracia. A questão basilar é se "temos boas razões para falar de direitos do homem". Se se levar em conta que o homem é o humano, isto é, todos, então, para falar de direitos é imperioso que se faça dentro de um espaço democrático. É nesse âmbito que os grupos defendem seus direitos. Há, por consequência, disputa por direitos. Essa disputa ocorre justamente naquilo que chamamos política. Ou melhor, esta é na realidade, aquela.

A democracia - esse espaço de disputa por direitos - exige mais democracia. Para que certos direitos sejam garantidos é indispensável elaborar leis que os garantam. Se pensarmos no direito à escolarização, por exemplo, vemos que a lei obriga crianças e adolescentes a terem uma vida escolar. As leis de trânsito dizem a todos - porque todos fazem parte do trânsito e não apenas motoristas - o que podem e o que não podem fazer. Em suma, as leis organizam a sociedade dita democrática. Mas, o que são as leis senão grilhões que nos cercam por todos os lados? E dentro da democracia, o uso dos grilhões alega a promessa de uma emancipação, no entanto, sempre se dá um passo atrás, fazendo-se uso do grilhão. E dele nunca escapamos, o que nos leva à conclusão de que a emancipação humana jamais ultrapassará o campo da esperança.

O que se espera? - O grilhão que nos forja, nos conduz ao democrático que, por sua vez, nos leva à emancipação humana. O que se realiza de fato? O grilhão é tudo o que temos.

Publicado por
Verissimo Furtado

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Meu Artigo. Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: https://www.brasilescola.com