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CONTRADIÇÃO DA NATUREZA HUMANA NO CONTO “A IGREJA E O DIABO” DE MACHADO DE ASSIS

Filosofia

Machado de Assis utiliza a ironia em seu conto “A Igreja do Diabo”, para compreender a contraditória natureza humana.

As ações humanas se opõem entre aversões e apetites. Ações que se desenrolam em um cenário onde a meta é a felicidade, ou a satisfação pessoal, ora vestida com o manto da igualdade, ora disfarçada de justiça, ora forjada de liberdade; é preciso organizar as normas de conduta, dizer como elas devem ser executadas e as sanções possíveis. É necessário definir o modus operandi do homem, porque sua natureza é contraditória.

Os homens conhecem sua própria natureza, por isso escolheram alguns para serem chamados legisladores, criaram um ordenamento sistêmico de normas para garantir o mínimo bem-estar social, definiram aqueles que terão autoridade para julgar o semelhante. Toda execução é regulada.

O caos pressupõe o cosmo, porque toda definição de alguma coisa evoca seu contraditório, não é possível dizer que algo é “escuro” sem ter a mínima noção do que seja o “claro”. Ou, ainda, todas as coisas tendem ao seu contrário. Machado de Assis usa da contraditória natureza humana com ironia em seu conto “A Igreja do Diabo”, em que o conceito, a definição ou a busca por uma compreensão da natureza humana é o centro. Em tal texto o diabo decide organizar sua igreja, pois seus “meios discípulos” agem indiscriminadamente, algumas vezes obedecendo a Deus outras vezes ao diabo. A luta contra do bem contra o mal aparece numa alternância pacífica e mansa, sem nada lembrar as odisséias.

Nesta nova organização jurídica o diabo transmuta as virtudes em vícios, o outro lado da moeda de cada pecado capital existe; e se o homem sabe disso intuitivamente, por que não normatizá-los e institucionalizá-los? Com a instituição dos comandos de ação, punição e recompensa serão definidas a fim de motivar ou justificar um comportamento específico.

Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu..." O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos de Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda  pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir  na  boca  e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? (...). (Assis, M. A Igreja e o Diabo. Cap.II)

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Liberdade e igualdade são os maiores desejos do homem. Todos querem ser livre para fazer o que quiserem e alcançar tudo o que desejam, ao mesmo tempo querem ser iguais por não suportarem o sucesso alheio que supostamente subjugaria alguém hierarquicamente; a questão é que ninguém quer ser este alguém. A igreja do diabo aproveita-se desta constatação e parece funcionar, mas o homem nunca está satisfeito, para o homem muito rápido tudo se torna quadrado, e então a balança começa a se desequilibrar.

Se liberdade e igualdade se debatem, ora como binômios, ora como dicotomias, a idéia de Justiça surge transversalmente para equilibrar os pesos. A Justiça é a relação de valor, onde subsistem outras bem-aventuranças. A liberdade é intrínseca ao ser – é qualidade do ente -, mas a igualdade é uma relação formal, mais ideal e abstrata do que fática; ao mesmo tempo, de forma absolutamente contraditória, a liberdade é o ideal humano, enquanto a igualdade só se dá a ver como fato.

Nas relações de poder a força pode servir imperativamente ao serviço do direito, de um ordenamento, ou de uma organização sistêmica de normas de conduta. Mas quando se trata das normas mais elevadas, como aquelas constitucionalizadas ou preceitos religiosos, estando mais próximas do poder constituinte e imperativo não carecem de sanção, e servem de fundamento ao direito ou se postam a serviço da força coercitiva.

O contraditório pode ser entendido, então, como sendo ele mesmo o princípio de igualdade entre as partes. Para finalizar, voltando ao conto de Machado de Assis, a tensão entre as proposições apontam um caráter moralizante; mandamentos hedonísticos revelam uma dualidade de intenções nas ações humanas, talvez influenciadas por uma natureza apolínea. Nada é absoluto; sempre a contradição da natureza humana. Do “nada” Deus criou o mundo, o vazio sempre está presente no coração do homem; ao mesmo tempo em que busca preencher este vazio para o “nada” sente desejo de retornar.

Referências Bibliográficas:

Assis, Machado de. A Igreja do Diabo. Volume de contos. Rio de Janeiro : Garnier, 1884.

Bobbio, Norberto. Igualdade e Liberdade. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996. 

Bobbio, Noberto. Teoria do Ordenamento Jurídico. Tradução: Maria Celeste Cordeiro Leite dos Santos. Brasília: Editora UNB, 1995.


Publicado por: Isabella de Oliveira

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
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