Sobre avaliações, feedbacks e notas

Breve discussão sobre como a produtividade do ensino e do aprendizado passa pelo significado que se constrói para a nota e o feedback intencional dado ao aluno.

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O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Meu Artigo. Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: https://www.brasilescola.com

O que confere a dimensão humana emocional e comportamental necessária para, de fato, a aprendizagem acontecer é o significado que se constroi para a nota, o comentário intencional e o cuidado

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A avaliação dos alunos é parte integrante do processo de ensino-estudo-aprendizagem. É por meio dela que podemos acompanhar o desenvolvimento dos estudantes, fazer intervenções pedagógicas mais assertivas e contribuir para que avancem no conhecimento. No entanto, um novo mundo e um novo aluno pedem um novo olhar para as avaliações. Para além dos instrumentos avaliativos em si e suas aplicações, o que vai dar a dimensão humana emocional e comportamental necessária para, de fato, a aprendizagem acontecer é o significado que se constroi para a nota, o feedback intencional e o cuidado. 

O paradoxo da nota

Nesse contexto, uma pesquisa me persegue há anos — e que apresento com frequência para diretores e coordenadores exatamente porque o resultado contraria o que quase todo mundo espera. Foi conduzida pela psicóloga Ruth Butler, da Universidade Hebraica de Jerusalém, e publicada em 1988. Em seu estudo ficava evidente que, se a nota era boa, os alunos sentiam que não precisavam ler o comentário (feedback). Se a nota era ruim, eles não queriam ler. 

Ela considerou três grupos de estudantes que receberam diferentes feedbacks após a realização de uma tarefa: 1) apenas notas normativas; 2) apenas comentários orientados à tarefa; e 3) notas normativas e comentários. Os grupos que receberam notas — com ou sem comentário — tiveram posteriormente desempenho e interesse mais baixos. O único grupo que apresentou ganho real de aprendizagem foi o que recebeu apenas comentários.

É importante entender o que estava em jogo: as notas usadas no experimento eram normativas, calculadas para refletir o ranqueamento dos alunos entre si e não o que cada um havia aprendido. Os comentários, por sua vez, eram orientados à tarefa, referindo-se especificamente ao desempenho individual e oferecendo direção para a melhoria.

Daí o paradoxo, pois a expectativa seria de que "nota e comentário" fosse a forma mais completa de feedback. No entanto, a presença da nota normativa fez com que os alunos ignorassem o comentário — o interesse e a performance caíam para os mesmos níveis do grupo que recebera apenas notas. Por outro lado, comentários sem nota ativaram o envolvimento na tarefa e no processo de aprendizagem.

O que o estudo revela — e que considero o dado mais incômodo para gestores escolares — não é que notas são sempre prejudiciais, mas que notas normativas — aquelas que dizem onde o aluno está em relação aos outros — anulam o efeito formativo do feedback. O que realmente importa não é a forma (nota ou comentário), mas a substância: o feedback fala sobre o aluno comparado com os colegas ou sobre o aluno em relação ao seu próprio processo de aprendizagem?

Diferença entre o que esperamos receber e o que de fato recebemos

Esses achados dialogam com o conceito de Reward Prediction Error (RPE), ou erro de previsão de recompensa — um mecanismo neural fundamental para a aprendizagem e a adaptação. O termo se refere à diferença entre o que esperamos receber e o que realmente recebemos.

Quando o resultado é melhor que o esperado, os neurônios disparam, consolidando a aprendizagem e reforçando a ação. Se o resultado é igual ao esperado, a atividade neural mantém-se na linha de base, indicando que não há necessidade de atualizar o modelo mental. Caso o resultado seja pior que o esperado, há uma supressão da atividade, sinalizando a necessidade de ajustar a estratégia ou o comportamento.

Os caminhos da motivação

Isso nos mostra que há dois caminhos distintos de motivação — a orientação para a tarefa e a orientação para o ego —, com impactos profundos no aprendizado e no desempenho. Na orientação para a tarefa (task-involving), o foco está no processo de aprendizagem e no desenvolvimento individual. Há uma valorização do esforço, e os erros são vistos como parte do processo. Esse tipo de abordagem tende a aumentar o engajamento e a persistência. Na contramão, a orientação para o ego (ego-involving) valoriza o desempenho e a comparação com os outros, podendo gerar ansiedade e medo de errar.

Como essas orientações são fortemente influenciadas pelo ambiente, professores que consigam — nas práticas cotidianas de avaliação e nas escolhas de como dar feedback — incentivar a orientação para a tarefa, estarão contribuindo, efetivamente, para a mentalidade de crescimento dos alunos. Isso significa não necessariamente eliminar notas, mas garantir que o feedback sempre comunique o que o aluno aprendeu e o que pode fazer para avançar — não onde ele se posiciona em relação à turma.

Diante de um mundo em constante transformação, a capacidade de aprender ao longo da vida - antes uma virtude - agora é exigência. Assim, a escola que ainda avalia comparando alunos entre si — em vez de cada aluno consigo mesmo — está formando para a ansiedade do ranking. E onde fica a autonomia do aprendizado? Por fim, deixo aqui duas questões para os colegas gestores: se amanhã você retirasse as notas normativas da sua escola (por um semestre que fosse) o que seus professores conseguiriam fazer de diferente? E, por fim, o que essa resposta revela sobre o que a avaliação realmente comunica hoje para seus alunos?

Referências

BUTLER, R. (1988). Enhancing and undermining intrinsic motivation: the effects of task-involving and ego-involving evaluation on interest and performance. British Journal of Educational Psychology, 58: 1-14. Disponível em:  https://doi.org/10.1111/j.2044-8279.1988.tb00874.x. Acesso em 9 de junho de 2026.

SCHULTZ, W.; DAYAN, P.; MONTAGUE, P. R. A neural substrate of prediction and reward. Science, v. 275, n. 5306, p. 1593–1599, 1997.  Disponível em:  https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4826767/. Acesso em 9 de junho de 2026.

KLUGER, A. N.; DeNISI, A. The effects of feedback interventions on performance: A historical review, a meta-analysis, and a preliminary feedback intervention theory. Psychological Bulletin, v. 119, n. 2, p. 254–284, 1996.  Disponível em:  https://www.mrbartonmaths.com/resourcesnew/8.%20Research/Marking%20and%20Feedback/The%20effects%20of%20feedback%20interventions.pdf. Acesso em 9 de junho de 2026. 

Escrito por Idelfranio Moreira, diretor de ensino e inovações do SAS Educação

Publicado por
Idelfranio Moreira de Sousa

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Meu Artigo. Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: https://www.brasilescola.com