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Relações humanas, fases do ser humano, estilo...

Quando somos crianças... ou melhor, quando ainda somos feto, diz à medicina que podemos sentir tudo que sente nossa mãe. Não somos um ser à parte, mas um todo com ela. Ainda está em formação nosso cérebro, mas como já podem funcionar nossos sentidos? Mas, dessa forma passamos os três primeiros meses, sendo um só com nossa mãe. Após esse período começamos a ganhar forma mais humana e nossos órgãos vão se desenvolvendo. Logo começamos a ter um coração pulsante, mas que não sente nada além do que lhe é repassado, e nossos sentidos começam a se desenvolver. Começamos a ouvir o mundo exterior. Como? Pelos ouvidos de nossa mãe? Pelos nossos? Ou ainda filtrados pelo que nossa mãe ouve e nos repassa, mas diz à medicina que ouvimos e até conseguimos reconhecer a voz de nosso pai. Como sabemos que é nosso pai? Deve ser através de nossa mãe que fica toda derretida com a chegada dele e seu carinho.

Ao nascermos não sabemos expressar ainda nossos sentimentos. Reconhecemos mais nossa mãe, pois o laço que nos une é mais forte. Somos também egocêntricos ou medrosos de um frio que nunca sentimos, um ar que nunca respiramos, um calor que nunca sentimos, um barulho que nunca nos incomodou, por isso a presença dela nos é tão fundamental. Ela que nos livra ou nos protege de todo esse desconhecido estranho e por isso mesmo assustador.

Ao passar um ano nos desligamos mais de nossa mãe, existe além dela muita coisa interessante. São os dedos ótimos para chupar e coçar a nossa boca irritante, objetos coloridos e bonitos a nos encantar e que levamos logo a boca, pois somos acostumados com o peito ou com nossos dedos camaradas.

A partir daqui começamos uma relação com os objetos, com as pessoas que nos cercam, com o espaço, com o tempo. Sabemos tudo que podemos tocar e queremos tudo que vemos, é um instinto natural. Ouvimos atenciosamente as pessoas e reconhecemos de alguma forma nosso espaço: como o nosso quarto, nossa casa, nosso quintal. São os lugares onde mais nos deixam e percebemos com um tempo à própria noção de tempo, pelo acender e apagar de abajures e outras lâmpadas e ficamos loucos pra acender também. A nossa fome que é diária e vai deixando de ser constante também nos dar noção de tempo.

Logo, logo começamos a sussurrar algumas palavras, que ouvimos bastante, seja nosso pai ou nossa mãe que queiram que falemos logo suas posições pra nós, seja por outra pessoa mais ou menos próxima. Mas o importante é que as palavras não vem de nós. Ouvimos uma, duas ou mais vezes e gostamos dela, aprendemos e falamos.

Começa aqui a nossa produção como sujeito de modo mais intensa, mais visível. Deveremos ser como nosso pai, nossa mãe ou os dois querem que sejamos. Nossa higiene, nosso modo de vestir, nossas roupas, nosso quarto, nossos brinquedos, nossos amigos, nosso comportamento, nosso modo de falar, de comer. Enfim, nossos pais e família são os primeiros construtores do nosso eu. Mas... e nossos mínimos amigos, a creche, nossa vizinhança? Aprendemos algumas coisas deles, mas que passa pela aprovação ou desaprovação de nossos pais que facilmente nos tirará esse costume ruim. O fato de aprender dos outros fora do nosso meio é ainda aquela concepção de descobrir o mundo que de certo modo nasce conosco. Precisamos experimentar, praticar, assimilar para conhecer e daí surgir o hábito, o costume. Quando nos é repelido insistentemente o modo novo, abandonamos. Mas logo virá outro. E assim será até morrermos.

Quando nos tornamos adolescentes, deixamos de lado nossa família, queremos criar nossa própria identidade, saber do que gostamos de vestir, os lugares que gostamos de freqüentar, as comidas que gostamos de comer, o modo que gostaremos de agir, de falar, de andar, porém, ao decidirmos fazer isso encontramos um mundo em andamento, que não parou a nos esperar, mas que criou novas identidades, novas personalidades, e algo que não esperávamos, generalizações, grupos, aos quais se quisermos viver nesse mundo deveremos nos associar.

Começa então uma procura por um grupo que seja mais adequado ao nosso gosto, pois, saímos da casa dos nossos pais com uma carga, seja mínima ou máxima de nossos pais, nossos familiares, nosso ambiente. E podemos de acordo com eles ser agitado ou calmo, criativo ou reprimido, tímido ou dinâmico, músico ou não saber tocar nada, apreciador de música ou crítico exagerado dela, e devido a essa carga que herdamos de nosso lar familiar, procuraremos justamente um grupinho que seja o inverso do que nos ensinou nossos pais. A ansiedade de experimentar o mundo para conhecê-lo ainda nos está impregnado e muitos de nós começam pelo oposto para somente depois procurar as diferenças mais amenas.

A procura para ingressar num grupo social não demora muito, pois crescemos com nossos amigos que também passam pelo mesmo processo. Para entrar é necessário copiar seus gostos, hábitos, costumes, estilos, valores e ter disponibilidade de tempo como eles. No entanto, muitas vezes cria-se uma identidade coletiva e não somente individual, o grupo passa a agir e às vezes até a pensar em comum. Todavia, o estilo próprio, o pensar por si mesmo não desaparece, somos levados quase que inconscientemente pela dinâmica social, as festas, os ritmos, a moda, o consumo, as gírias, as comparações entre melhores grupos, tudo isso nos fascina, nos encanta e nos deixamos ser levados e fascinados sem contudo deixar de refletir, pelo menos alguns de nós.

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Há alguns de nós que possuem famílias modernas na vida, mas prosaica na estrutura e na ideologia e são essas que mais marcam seus descendentes. Não é necessário ser pela ignorância de palavras, gestos ou mesmo pela força. O poder deles consiste na palavra, na cultura repassada cotidianamente e na forma cautelosa que nos permite conhecer o mundo. Contraposto a esse tipo de família, existe aquela que tal como os jovens querem criar seus descendentes diferentes do modo como foram criados e caem no buraco da falta de experiência e nem a psicologia, nem a terapia, nem o diálogo consegue mais ajudar os pais a pôr o limite que não puseram no momento certo. Existem ainda aqueles que são prosaicos e querem ter um controle familiar, mas que o ritmo e novos papeis sociais e necessidades os privam de realmente presenciar o amadurecimento de seus descendentes, deixando-os muitas vezes livres demais e com a mesma concepção de liberdade que tantos outros.

A educação que recebemos de nossos pais, fraca ou forte, repressiva ou libertadora, nos ajudará ou dificultará para inserção em algum grupo, pois cada um se diferencia do outro e por isso mesmo se torna necessário haver uma afinidade que possa unir o grupo, pode ser um estilo de música, de dança, de fala, de leitura, de política, de religião, de comida, etc. A partir de uma afinidade, muda-se o restante dos outros estilos como gosto, valores, cultura, pensamento, concepção, conceitos, comportamento em geral.

Há também aqueles dentre nós que por mais que observem não encontram um grupo em que se encaixe. Nada lhe parece passível de agrado. Nada lhe parece interessante para aventurar-se a experimentar. Esse indivíduo pode ser psicologicamente medroso ou frustrado, ou ... quem sabe original!

Há ainda pessoas que claramente usam objetos, estilos, moda de algum grupo ou pessoa. A psicologia diz que somos natos imitadores e isso é verdade. Vivemos para imitar. Nada do que dissermos ou pensarmos é inteiramente nosso. Por isso existem pessoas que conseguem imitar tão bem outras, que mudam até mesmo seu tom de voz. Afinal, nos tempos modernos, além de nossa família, nossos amigos, nossas vizinhanças, nosso ambiente, ainda têm música, teatro, cinema, novela, propaganda e a televisão como fortes produtoras de estilo, valores, conceitos, personalidade. Não há quem resista a um modo engraçado de um personagem, grito de guerra de outro ou modo de vestir de outro.

O mundo moderno é um lugar de imitações e generalizações, não há lugar onde isso não ocorra. No trabalho existe o falar adequado, o comportamento ideal e a roupa certa - quase farda - para que possamos arrumar um emprego e depois nos mantermos nele. Na escola também há declaradamente um tipo de aluno padrão e por isso generalizante, mas que torna a ser um ponto inicial para começar por lá a diversificação dos grupos e justamente lá que são encontrados os primeiros agrupamentos: os intelectuais, os roqueiros, os que não assistem aula chamados “turistas”, os esforçados, as patricinhas, as rebeldes, as desajeitadas, as perfeitas, as feias, os jogadores de vídeo game, os gaziadores. A escola ajuda a diversificar a sociedade, pois ela também tenta criar identidades, por isso, exclui e inclui alunos aos seus padrões e os legitima a seu bel prazer. Nesse ambiente surgi os grupos periféricos aos dois únicos estabelecidos pela instituição e fadados a seu desinteresse e desaprovação.

A partir da universidade, outro lugar formador de sujeitos, personalidades, valores, a criação de grupos não é diferente e já se verifica uma falta de estranhamento ao diferente. Por isso alguns vêem a faculdade como um outro mundo. E realmente o é. A universidade oferece a você uma oportunidade de tentar ser autêntica, original. Mas... o repetir de conceitos de famosos intelectuais do passado é ser inteligente? Claro, mostra que você conhece a origem e teoria de tais conhecimentos, mas... e sua produção? Na universidade sempre há a questão de produção intelectual autêntica, original, inédita. Mas para ser aceita tem que ter fundamentação teórica em outro pensador, não basta somente o seu pensar. Sua idéia tem que ser primeiramente defendida por um intelectual que geralmente já morreu ou está muito velho ou ainda nem fale a sua língua. Desse modo, seu trabalho é original?

Após sair da universidade inicia-se outro modo de imitação que vai ser necessário para que possa sobreviver nesse mundo dinâmico e gerador de múltiplas personalidades. Para ser aceito continuará a agir como adolescente, juntar-se aos amigos na sexta para beber cerveja ou encontrar-se com as amigas no supermercado ou shopping para por as conversas em dia.

Seu estilo não é seu. Você viu, ouviu, examinou, gostou e imitou. Mas, fique tranqüilo, a partir do momento que você se apropria de algo ele se torna seu. Você mudará enquanto estiver vivo. Mas nem o mundo é imutável. Até as pedras mudam de lugar. Você não é o mesmo hoje do que foi ontem. Mas qualquer que seja seu estilo hoje, ele passou a ser seu desde a primeira vez que o usou. Tenha certeza que seja qual for o traço que imitou de alguém, não imitou perfeitamente e por isso mesmo ele passou a ser seu. A sua falha em imitar é o traço que torna as coisas imitadas em suas. E qualquer um que lhe imite também não conseguirá fazê-lo tal como você e criará o jeito dele. Afinal, nem todos somos comediantes. Mas todos somos imitadores. Originais apenas na forma de falhar como qualquer ser humano.


Publicado por: Maria do Socorro Ramos de Oliveira

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
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