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O Sabor do Saber

Educação

A importância do gosto pelo conhecimento.

Nos bastidores do processo de aprendizagem há muitos ingredientes importantes que podem interferir no sabor do saber. A experiência de cada um modela os caminhos de construção do conhecimento estabelecendo o tipo de relação que o indivíduo pode ter com o verbo “estudar”.

A diversidade que emerge de contextos de vida próprios, pode dar uma conotação positiva ou não a esse conceito e associá-lo a obrigação ou prazer. Diante de tantas informações que o mundo nos oferece, naturalmente colocamos mais atenção naquelas que por algum motivo despertam nosso interesse. Absorvemos os conhecimentos de forma muito ímpar, com estilo e ritmo próprios e isso influencia o grau de inspiração que atingimos em nossa relação com a aprendizagem.

Na trajetória educativa de cada um de nós muitas aprendizagens são mecânicas porque justamente não estabelecemos um verdadeiro vínculo com alguns conhecimentos, a aprendizagem significativa ocorre com aquilo que nós selecionamos e decidimos nos envolver.

Os números, por exemplo, não me atraem, mas são fascinantes para muita gente. Gosto da literatura que fala das pessoas e da vida, a sombria objetividade do mundo numérico não me parece capaz de decifrar a riqueza de um poema ou mensurar todas as equações humanas.

Acho que até mesmo os apreciadores do mundo financeiro já perceberam isso e então resolveram criar os intangíveis para explicar o inexplicável. Há um abismo entre a lógica racional e insensível dos números e a subjetividade imperfeita do mundo literário.

Considero fascinante a mágica possibilidade de poder reinventar o mundo através da leitura e da escrita e esse sempre foi o meu impulso para a aprendizagem. Desde muito cedo quando eu ainda nem sabia interpretar nossos códigos e suas combinações, já me encantavam os livros com suas letras que mais pareciam estrelinhas brilhantes num céu infinito. Os adultos como porta-vozes das histórias me davam a oportunidade de acessar as palavras e eu ficava saboreando-as por algumas horas, as que entendia e as que não entendia.

Acho que por isso, ao aprender a ler, passei a devorar tudo que encontrava pela frente: bulas de remédios, placas de ruas, gibis, folhetos, propagandas, enfim, tudo que combinasse os tais códigos tentando informar alguma coisa, me despertava interesse. Era como se eu quisesse recuperar o tempo “perdido”.

De vez em quando ainda precisava pedir ajuda a algum adulto para entender os textos ou tinha que recorrer ao meu fiel amigo dicionário que me amparava nessas horas difíceis, embora se mostrasse um tanto rebelde em algumas situações. Por saber que eu dependia “dele”, brincava de esconde-esconde com algumas palavras e nem sempre eu as encontrava rapidamente. É claro que depois de algum tempo de relacionamento passei a encontrá-las com mais facilidade e ele já não conseguia escondê-las em lugares tão inusitados assim.

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O tempo passou e meu fascínio pelos livros foi crescendo, mas me chateava um pouco usar meu tempo com algumas leituras que a escola exigia, mas que não me despertavam tanto interesse. Eu queria mesmo era ter mais tempo para dedicar aos assuntos que mexiam com a minha alma e enchiam meus olhos de cores mesmo quando registrados em preto e branco. Algumas coisas não me faziam sentido, eu não conseguia achar um motivo para aprendê-las, ao menos não naquele momento.

Era necessário fazer um esforço para absorvê-las, pois elas não me tocavam. Um dia tentei explicar isso a minha mãe e ela me disse que era importante aprender um pouco sobre tudo, que um dia eu iria utilizar algumas daquelas informações e entender porque as tinha estudado.

Confesso que em alguns casos ela tinha razão e em outros eu na verdade não consegui encontrar uma ligação nem com a minha vivência, nem com a minha alma, mas talvez tenham me servido de suporte para aprender ao que me dediquei com mais amor. Na verdade tudo na vida é assim, temos as coisas necessárias, as importantes e as que gostamos.

As que gostamos deveriam ser as mais importantes, mas penso em separá-las na classificação porque no relacionamento com o mundo deixamos de ser únicos para ser parte de um todo. Aprendemos também quando nos envolvemos (ainda que superficialmente) com o que não gostamos. Aprendemos a respeitar, a criar empatia, a tolerar e a driblar os conflitos da teoria de Freud.

Filosofando sobre tudo isso concluí que minha escolha foi pelo prazer. Acolhi tudo que recebi na minha trajetória escolar e hospedei em alas vips aquilo que retratava minha essência. Estudar é uma forma de renovar nosso ser.

Uma forma de aprender coisas novas, fazer releitura das velhas, exercitar nossa mente para captar as nuances do mundo e ainda conseguir pegar carona nos foguetes que carregam as idéias de um lugar ao outro a cada fração de segundo. Penso que se conseguirmos estabelecer vínculos significativos com a aprendizagem, ela será uma experiência interessante onde podemos transformar e ser transformados.

Nosso desejo de conhecer pode preencher as lacunas encontradas no ambiente do ensino formal que muitas vezes não proporciona uma integração entre as experiências individuais, os conteúdos apresentados e exigências sociais. A escola pode ser um lugar pitoresco se emprestarmos a ela nosso conteúdo interno para dar vida ao que pode em alguns momentos parecer insípido.

Descobrir o que nos move nessa dinâmica de tantas possibilidades é o desafio para uma relação saudável com a aprendizagem tanto em seu caráter formal como em seu caráter informal.


Publicado por: Sandra

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
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