Atualmente, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), estima-se que 795 milhões de pessoas passam fome no planeta e que cerca de 40% da população mundial é afetada pela escassez de água potável. As mudanças climáticas, impulsionadas por ações antrópicas, avançam e ameaçam populações inteiras, tornando-se cada vez mais evidentes nas últimas décadas. Embora esta abertura possa parecer um anúncio de agouros humanitários, a realidade ambiental é crítica e vem se agravando de forma sem precedentes nos últimos dois séculos.
As investidas coloniais europeias, tanto na América quanto, posteriormente, na África, carregaram, desde a Idade Moderna, uma lógica de concentração de riquezas baseada na exploração dos recursos naturais das regiões dominadas. No curta-metragem The Story of Stuff (2007), Annie Leonard evidencia as consequências dessa mentalidade exploratória. Se, no passado, as potências europeias — Portugal, Espanha, Holanda, França e Inglaterra — lideravam esse processo, atualmente muitas corporações transnacionais, sediadas sobretudo em países desenvolvidos, mantêm um ciclo de produção e consumo que provoca intenso impacto ambiental e acelera o esgotamento de recursos naturais finitos. Os efeitos dessa dinâmica atingem toda a sociedade e reforçam a necessidade de romper esse ciclo por meio da educação, entendida como instrumento de transformação social e cultural.
A educação ambiental, desenvolvida nas instituições de ensino — da educação básica ao ensino superior — e também de forma transversal nas empresas e na sociedade civil, reúne perspectivas voltadas à identificação dos principais problemas relacionados à preservação dos recursos naturais, renováveis e não renováveis, bem como à construção de soluções orientadas para o desenvolvimento sustentável.
Em 1968, com a criação do Clube de Roma, intensificaram-se os debates sobre os limites do crescimento econômico e seus impactos ambientais. Posteriormente, na Conferência de Estocolmo, realizada em 1972, as discussões sobre a degradação ambiental resultaram em um plano de ação internacional, com ampla participação da Organização das Nações Unidas (ONU). Essas iniciativas procuraram estabelecer bases para aproximar desenvolvimento econômico e preservação ambiental, reconhecendo as diferentes responsabilidades e interesses entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.
Das disputas políticas, travadas nas conferências, e dos estudos científicos emergem o conceito de ecodesenvolvimento, entendido como uma proposta de gestão dos recursos naturais capaz de harmonizar necessidades econômicas, demandas sociais e preservação ambiental. Essa perspectiva contribuiu para consolidar o que hoje conhecemos como desenvolvimento sustentável. Em 1987, o Relatório Brundtland, intitulado Nosso Futuro Comum, reforçou essa concepção ao defender que o crescimento econômico, os avanços tecnológicos e a utilização dos recursos naturais deveriam ocorrer em equilíbrio com as necessidades das gerações presentes e futuras. É nesse contexto histórico que a educação ambiental deixa de ser uma pauta exclusivamente ecológica para tornar-se um projeto educativo capaz de formar cidadãos conscientes das relações entre desenvolvimento, consumo e preservação ambiental.
O debate ganha novo fôlego com a Rio-92 (Eco-92) e a Agenda 21, marcos importantes para a consolidação da sustentabilidade como princípio orientador das políticas ambientais internacionais. A partir dessas iniciativas, torna-se evidente que o enfrentamento da crise ambiental depende não apenas de avanços tecnológicos, mas também do aperfeiçoamento das relações humanas, do fortalecimento das democracias, da cooperação entre países desenvolvidos e em desenvolvimento e da construção de uma consciência ética voltada para a justiça social e ambiental. Nesse contexto, ciência, educação e justiça constituem pilares indispensáveis para enfrentar desafios que já não admitem indiferença. Quando lideranças políticas relativizam evidências científicas ou minimizam problemas ambientais, comprometem não apenas políticas públicas, mas também o futuro das próximas gerações.
A educação ambiental interessa a toda a sociedade porque os recursos naturais são finitos e a preservação do planeta depende de responsabilidades compartilhadas, embora governos, empresas e cidadãos tenham responsabilidades distintas, o peso de suas decisões é desigual. Entretanto, parte das grandes corporações, inclusive empresas de tecnologia e outros grupos econômicos globais, ainda não incorpora a sustentabilidade como princípio efetivo de suas práticas, como demonstram diversos relatórios internacionais sobre emissões, consumo e responsabilidade socioambiental. Isso envolve a mentalidade econômica que perdura em parte do mercado. Os atuais desastres ambientais revelam contradições de um modelo econômico que, ao mesmo tempo em que alcança avanços científicos e tecnológicos extraordinários, mantém padrões de produção e consumo capazes de ampliar desigualdades sociais, intensificar conflitos e acelerar a degradação ambiental.
Importa, sobretudo aos grupos mais vulneráveis, uma educação ambiental crítica e permanente, presente em todos os níveis de ensino, especialmente na escola pública, onde as desigualdades socioambientais costumam se manifestar com maior intensidade. Trata-se de uma instituição que historicamente convive com os desafios da exclusão social e, não raras vezes, torna-se alvo de discursos que a acusam de promover doutrinação ou ideologização quando aborda temas relacionados à cidadania, aos direitos humanos e à justiça socioambiental. Entretanto, formar cidadãos conscientes das desigualdades e dos impactos ambientais não representa uma prática de doutrinação, mas uma das finalidades da própria educação. Nesse sentido, a educação ambiental deve contribuir para a formação de sujeitos capazes de compreender as relações entre sociedade, natureza e desenvolvimento, respeitando a diversidade e os direitos dos diferentes grupos sociais.
A deterioração da saúde pública decorrente do manejo inadequado dos resíduos também constitui uma questão ambiental e educativa. Muitas pessoas, por desconhecimento ou pela ausência de políticas eficazes de orientação, descartam resíduos em locais impróprios ou acumulam materiais potencialmente nocivos em suas residências. Entre eles destacam-se os resíduos eletroeletrônicos — pilhas, baterias, lâmpadas, carregadores, cabos, celulares e outros equipamentos portáteis. Quando descartados incorretamente, esses materiais liberam substâncias tóxicas e metais pesados, como chumbo, cádmio, mercúrio e berílio, contaminando o solo, os lençóis freáticos e comprometendo recursos essenciais à manutenção da vida. É nesse ponto que a educação ambiental deixa de ser apenas um conteúdo escolar e passa a constituir uma prática cotidiana.
O planeta necessita de uma globalização comprometida com a sustentabilidade e indissociável da justiça social. O desenvolvimento econômico, tanto no Brasil quanto em escala global, precisa ser orientado por uma matriz energética mais limpa, pela redução das emissões de gases de efeito estufa e pelo fortalecimento da logística reversa, construída de forma compartilhada entre o poder público, as empresas e a sociedade civil. O Brasil reúne condições privilegiadas para liderar esse processo, seja por sua riqueza ambiental, seja pelo arcabouço jurídico já existente para a proteção dos recursos naturais. Contudo, transformar esse potencial em realidade exige aproximar os investimentos econômicos dos princípios da educação ambiental, tornando possíveis políticas públicas éticas, socialmente justas e comprometidas com o equilíbrio ecológico. Afinal, discutir educação ambiental na escola é discutir o futuro da própria sociedade.
Referências
OLIVEIRA, Alessandro Silva de. Educação ambiental e sustentabilidade: um caminho para o desenvolvimento econômico sustentável? Pesquisa em Educação Ambiental, [s. l.], v. 18, n. 1, p. 1-18, 2023.
PEREIRA, Gilmara Brandão; MONSORES, Geneci Leme; FERNANDES, Margareth. Gestão de resíduos eletroeletrônicos e as influências culturais: estudo nas universidades da região Sul Fluminense do RJ. Revista Valore, Volta Redonda, v. 4 (Edição Especial), p. 277-288, 2019,
ZORZO, Felipe Bernardi; LAZZARI, Fernanda; SEVERO, Eliana Andrea; GUIMARÃES, Julio Cesar Ferro de. Desenvolvimento sustentável e Agenda 2030: uma análise dos indicadores brasileiros. Gestão e Desenvolvimento, Novo Hamburgo, v. 19, n. 2, p. 160-182, jul./dez. 2022