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Andragogia: Novas possibilidades no ensino do terceiro grau

Educação

O que é andragogia, a andragogia como nova possibilidade de ensino no terceiro grau, ensino superior, didática, adulto,...

“Um país se constrói com bons homens e bons livros”.

Roberto Giancaterino

RESUMO

Os trabalhadores, conscientes do valor da educação para a construção de uma cidadania ativa e para uma formação contemporânea, “tomam” o ensino superior como lugar de desenvolvimento humano e profissional. A rigor, uma vez e quando superadas as funções de reparação e de equalização, estas iniciativas deverão encontrar seu mais marcante perfil: a função qualificadora. Diante da emergência do novo paradigma, voltado para a totalidade dos fenômenos da atualidade (ciência e tecnologia) muito se tem a fazer para que a didática atenda as exigências de educação no terceiro milênio. Desta forma, o presente artigo objetiva descrever a andragogia como nova possibilidade de ensino no terceiro grau. Os resultados apontam, que para tanto, deve-se considerar o cotidiano e a vivência do aluno adulto.

Palavras-Chave: Andragogia, Adulto, Ensino Superior, Didática.

De acordo com Silva (1998), atualmente os profissionais estão se conscientizando de que só conseguirão permanecer no mercado de trabalho se investir em sua aprendizagem contínua, que se processa através da criação e difusão de novos conhecimentos e de mudanças no conhecimento que já foi institucionalizado. Sendo que, o primeiro passo, é o ensino superior, fase em que o profissional é tido como acadêmico.

Tofler (1974), define o acadêmico como o ser histórico, que herdeiro da sua infância, saído da adolescência, a caminho da velhice, continua o processo de socialização do seu ser e da sua personalidade. Portanto, o acadêmico é este ser que procura "acabar-se", completar-se a cada dia, exatamente por ser o acadêmico, um ser inacabado. Neste sentido, busca a sua "adultez", fruto de uma conquista progressiva de autonomia individual em seu "trânsito" pela vida.

A idade adulta traz a independência. O indivíduo acumula experiências de vida, aprende com os próprios erros, apercebe-se daquilo que não sabe e o quanto este desconhecimento faz-lhe falta. Inquestionavelmente os acadêmicos já trazem uma experiência acumulada, a qual, por um lado, favorece a aprendizagem pela capacidade de intercâmbio de acertos e desacertos, de convicções e dúvidas e, por outro lado, exige, em alguns momentos, o desenvolvimento da capacidade de aprender a desaprender, para a aquisição de novos conhecimentos, atitudes e comportamentos.

Assim, as instituições universitárias ainda ensinam com as mesmas técnicas didáticas usadas nos colégios primários ou secundários. Esta evolução, tão gritante quando descrita nestes termos, infelizmente é ignorada pelos sistemas tradicionais de ensino.

Para Cavalcanti (2001), entretanto, falar de educação continuada neste cenário é falar de promoção social, criação de saberes, criatividade, liberdade de pensamento, desenvolvimento de competências e julgamento, evolução de atitudes através das múltiplas formas de educação formal, informal ou invisível.

Salienta Lipmam (1998) que, o processo educativo na sala de aula deveria tomar como modelo o processo de investigação científica, ou seja, ao invés de ensinar soluções, a escola deveria ensinar a investigar os problemas e propiciar o envolvimento dos alunos nos questionamentos, estimulando-os a pensar de forma crítica, criativa e cuidadosa.

Na perspectiva de Mucchielli (1981), educar é assinalar como de relevância a presença de forte identidade e ou intercessão conceitual, quanto à importância dada à experiência, e na ênfase à reflexão e à solução de problemas, características operativas comuns a andragogia ativa da descoberta ou por projeto e que denotam idêntico privilégio à idéia de aprendizagem como processo prazeroso de investigação ativa, proativa, contextualizada e criativa, que valoriza a autonomia, autodireção e a motivação intrínseca do sujeito, como ator/autor de seu processo de aprendizagem.

Revisar os pressupostos da andragogia e os elementos de uma didática para os acadêmicos é contemplar um dos problemas mais antigos e mais atuais da humanidade, a educação permanente do acadêmico.

As novas competências exigidas pelas transformações da base econômica do mundo contemporâneo requerem cada vez mais o acesso ao saber. Aqueles que se virem privados do saber básico e das atualizações requeridas podem se ver excluídos das antigas e novas oportunidades do mercado de trabalho.

Se as múltiplas modalidades de trabalho informal, se o subemprego, o desemprego estrutural, se as mudanças no processo de produção e o aumento do setor de serviços geram uma grande instabilidade e insegurança para todos os que estão na vida ativa, quanto mais para os que se vêem desprovidos de bens tão básicos como o ensino superior.

Para Silva (2001), a educação de adultos é uma prática tão antiga quanto a história da raça humana, ainda que só recentemente ela tem sido objeto de pesquisa científica.

Conforme Adam (apud Rosa, 2001), o conceito de andragogia está fundamentado na etimologia, anner, homem, agogus, conduzir. Complementa este conceito indo mais além, ou seja, operacionalizando e afirmando que a andragogia busca:

- Manter, consolidar e enriquecer os interesses do adulto para abrir-lhe novas perspectivas de vida profissional, cultural, social, política e familiar;

- Orientar o adulto na busca de novos rumos de caráter prospectivo, que levem à idéia de aperfeiçoar e progredir;

- Atualizar o adulto, renovar seus conhecimentos para que siga aprendendo, investigando, reformulando conceitos e enriquecendo suas vidas culturais, científicas e tecnológicas;

- Projetar o conhecimento para a dimensão humana para que chegue a interpretar-se em sua essência e reconhecer seu papel de participante responsável pela vida no planeta.

Os conceitos inerentes ao modelo andragógico têm subjacente, uma definição de adulto que implica a capacidade de este ser responsável por si próprio nos diferentes contextos de vida. Neste sentido, para Lindeman (1926:8-9):

(...) a educação de adulto será através de situações e não de disciplinas. Nosso sistema acadêmico cresce em ordem inversa: disciplinas e professores constituem o centro educacional. Na educação convencional é exigido do estudante ajustar-se ao currículo estabelecido; na educação de adulto o currículo é construído em função da necessidade do estudante. Todo adulto se vê envolvido com situações específicas de trabalho, de lazer, de família, da comunidade, etc. - situações essas que exigem ajustamentos. O adulto começa nesse ponto. As matérias (disciplinas) só devem ser introduzidas quando necessárias. Textos e professores têm um papel secundário nesse tipo de educação; eles devem dar a máxima importância ao aprendiz.

O autor identificou, ainda, pelo menos, cinco conceitos para a educação do acadêmico e que mais tarde transformou-se em suporte de pesquisas. Hoje eles fazem parte dos fundamentos da moderna teoria de aprendizagem de adulto, a saber:

a) Acadêmicos são motivados a aprender na medida em que experimentam que suas necessidades e interesses serão satisfeitos; no entanto, estes são os pontos mais apropriados para se iniciar a organização das atividades de aprendizagem do adulto;

b) A orientação de aprendizagem do adulto está centrada na vida; assim, as unidades apropriadas para se organizar seu programa de aprendizagem são as situações de vida e não disciplinas;

c) A experiência é a mais rica fonte para o adulto aprender; contudo, o centro da metodologia da educação do adulto é a análise das experiências;

d) Adultos têm uma profunda necessidade de serem autodirigidos; todavia, o papel do professor é engajar-se no processo de mútua investigação com os alunos e não apenas transmitir-lhes seu conhecimento e depois avaliá-los.

A fonte de maior valor na educação de adulto é a experiência do aprendiz. Se educação é vida, vida é educação. Aprendizagem consiste na substituição da experiência e conhecimento da pessoa.

Para Rosa (2001), a educação do acadêmico neste cenário, deve ser uma resposta organizada a desejos e necessidades educativas, profissionais e culturais da sociedade em que está e vai nos inserir. Estes desejos educativos de multiculturalidade, de adaptação e mobilidade no mundo do trabalho implicam um maior grau de personalização e de participação, assim como de maiores possibilidades de controle, domínio e antecipação dos acontecimentos.

Nesta concepção de ensino, as tarefas docentes visam organizar a assimilação ativa, o estudo independente dos alunos, a aquisição de métodos de pensamento, a consolidação do aprendido. Isso significa que, sempre de acordo com os objetivos e conteúdos da matéria, as aulas poderão ser previstas em correspondência com as etapas, ou passos do processo do ensino.

De acordo com Libâneo (1994), os passos básicos do método ativo são:

- Colocar o aluno numa situação de experiência que tenha interesse por si mesma;

- O problema de ser desafiante como estímulo à reflexão;

- O aluno deve dispor de informações e instruções que lhe permitam pesquisar a descoberta de soluções;

- Soluções provisórias devem ser incentivadas e ordenadas, com ajuda discreta do professor;

- Deve-se garantir a oportunidade de colocar as resoluções à prova, a fim de determinar sua utilidade para a vida.

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O ensino dos conteúdos deve ser visto como a ação recíproca entre matéria, ensino e o estudo dos alunos. Através do ensino cria-se condições para a assimilação. Isso é necessário, para que tenha sucesso na transmissão de aprendizagem. Neste sentido, pode-se afirmar que a transferência de aprendizagem é definida como a;

Capacidade de um sujeito reinvestir suas aquisições cognitivas no sentido mais amplo em situações novas. Sem o mínimo de transferência toda aprendizagem seria, portanto, totalmente inútil, visto que corresponderia a uma situação passada e não reprodutível em sua singularidade. (Perrenoud, 1999:56).

É importante também que o professor não esqueça que num processo transformador, os objetivos não poderão explicitar apenas a aquisição de conhecimentos. Pelo contrário, deve-se estar voltado eminentemente para a sua reelaboração e produção, além de preocupar-se com o desenvolvimento de habilidades e competências.

Para tanto deverão expressar ações, tais como a reflexão crítica, a curiosidade científica, a investigação e a criatividade. Se a proposta da educação da instituição de ensino for voltada para a totalidade, certamente estes objetivos deverão ser ampliados abarcando outras dimensões do processo educacional, que serão aprofundadas cada vez mais.

Os adultos são conscientes de suas decisões de vida e esperam ser tratados pelos demais como indivíduos capazes de se autogerir. Esta atenção não pode faltar também a outros aspectos que se relacionam com o perfil do estudante adulto.

A flexibilidade curricular deve significar um momento de aproveitamento das experiências diversas que estes alunos trazem consigo como, por exemplo, os modos pelos quais eles trabalham seus tempos e seu cotidiano. A flexibilidade poderá atender a esta tipificação do tempo através de módulos, de combinações entre ensino presencial e não presencial, e de uma sintonia com temas da vida cotidiana dos alunos, a fim de que possam se tornar elementos geradores de um currículo pertinente. É preciso conhecer qual o impacto dos meios de comunicação sobre os estudantes (Ludojoski, 1986).

Assim, o professor deve engajar o educando em todas as etapas de sua formação e utilizando as energias do grupo como tal, sua identidade se constrói a partir de sua experiência, e são as pressões internas que são seus maiores fatores de motivação.

Ante ao exposto, denota-se salientar que conforme Knowles (1990), para se atender as expectativas deste público acadêmico - o adulto - é necessário que sejam introduzidos conceitos andragógico nos currículos e abordagens didáticas dos cursos superiores. Os acadêmicos precisarão de que lhes seja dito o que aprender e lhes seja indicado o melhor caminho a ser seguido. Mas devem ser estimulados a trabalhar em grupos, a desenvolver idéias próprias, a desenvolver um método pessoal para estudar, a aprender como utilizar modo crítico e eficiente, os meios de informação disponíveis para seu aprendizado.

Todavia, é mister destacar que migrar do ensino clássico para os novos enfoques andragógico é, trabalhoso. Para facilitar este processo, o corpo docente envolvido precisa ser bem preparado, inclusive através de programas andragógico. Assim, professor deve estar em formação contínua para atender este público.

O momento de seu ingresso ao curso de formação inicial é apenas um marco numa trajetória de crescimento onde, somado aos constituintes da história de vida deste indivíduo, irão conjugar-se conhecimentos de uma dada área específica, teorias pedagógicas e elementos práticos oriundos da atividade docente e, em conjunto, formam a base sobre a qual a profissão irá se alicerçar (Shulman, 1986; Elliott, 1993).

Neste sentido, Martins (1998) argumenta que, a formação do professor deve-se fazer por meio de treinamentos nos quais são transmitidos os instrumentos técnicos necessários à aplicação do conhecimento científico, fundado na qualidade dos produtos, na eficiência e na eficácia.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste início de século, vivendo a economia digital, mudanças ocorrem em todas as áreas. Quanto mais céleres as mudanças, maior o seu impacto sobre os acadêmicos em geral, porque eles têm que se adaptar rapidamente à nova situação.

É esse processo de adaptação contínua que garante a sobrevivência e o desenvolvimento acadêmico. Essa capacidade do acadêmico de conduzir o seu próprio destino e de modificar o ambiente que o cerca deve-se a sua capacidade de decidir, de mudar, de aprender e de aprender a aprender.

A concepção do aprender a aprender como um processo evolutivo, coloca nas decisões dos acadêmicos contemporâneos a capacidade e a responsabilidade de ser um co-construtor de um projeto de futuro desejado. A convivência com o excesso de informações e sensações impostas pelo mundo atual não lhe deixa outra alternativa que não a de desenvolver essa habilidade de "aprender a aprender".

Assim, as instituições de ensino superior precisam estimular no acadêmico o autodidatismo, a capacidade de autoavaliação e autocrítica, as habilidades profissionais, a capacidade de trabalhar em equipes.

Necessita-se enfatizar a responsabilidade pessoal pelo próprio aprendizado e a necessidade e capacitação para a aprendizagem continuada ao longo da vida. Estes, os princípios da andragogia, que levam em consideração a vivência do acadêmico no processo de ensino-aprendizagem.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAVALCANTI, Roberto de Albuquerque. Andragogia: a aprendizagem nos adultos Disponível in: http://www.secrel.com.br/usuarios/cdvhs/texto3.htm, 2001.

ELLIOTT, J. Action-research for educational change. Mylton Keynes, Open University Press, 1993.

KNOWLES, Malcolm. L'apprenat adulte. Paris: Ed. d’organisation, 1990.

LIBÂNEO, José Carlos. Didática (Coleção magistério 2º grau - série formação do professor). São Paulo: Cortez, 1994.

LINDEMAN, Eduard C. The meaning of adult education. New York: New Republic, 1926.

LIPMAN, Matthew. O pensar na educação. São Paulo: Nova Fronteira, 1998.

LUDOJOSKI, Roque. Andragogia-educación del adulto. (S.l.), Ed. Guadalupe, 1986.

MARTINS, Pura Lúcia Oliver. A didática e as contradições da prática (Coleção magistério: Formação e trabalho pedagógico). São Paulo: Papirus, 1998.

MUCCHIELLI, Roger. A formação de adultos. São Paulo: Martins Fontes, 1981.

PERRENOUD, Philippe. Práticas pedagógicas, profissão docente e formação. Rio de Janeiro: Editora Dom Quixote, 1999.

ROSA, Lair Margarida. A educação de adultos no terceiro milênio. Disponível in: http://www.sinepe-sc.org.br/jornal/out98/geral.htm, 2001.

SHULMAN, L. S. Those who understand: knowledge growth in teaching. Educational Researcher, v. 2, p.15, 1986.

SILVA, Anielson B. Um perfil de administrador na era da informação e do conhecimento (Dissertação - Mestrado). Paraíba: UFPB, 1998.

SILVA, Aurora. Modelo andragógico: uma síntese. Disponível in: http://www.cffh.pt/public/elo6/elo6_13.htm, 2001.

TOFLER, Alvin. Learning for tomorrow. USA: Vintage, 1974.

SOBRE O AUTOR

Prof. Dr. Roberto Giancaterino, PhD, nasceu em 1964, na cidade de Campinas, estado de São Paulo. Residente em São Bernardo do Campo - SP. É Pós-Doutorado em Educação; Doutor em Filosofia, Tecnologia Educacional e Mestre em Ciências da Educação e Valores Humanos. Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional; Valores Humanos Transdisciplinares; Docência do Ensino Superior; Administração e Supervisão Educacional. Também é Bacharel e Licenciado em: Filosofia, Física, Matemática e Pedagogia. Escritor, Pesquisador, Palestrante, Conferencista e Seminarista na área Educacional. É autor de vários trabalhos científicos reconhecidos por acadêmicos, entre eles: O best-seller “Escola, Professor, Aluno - Os Participantes do Processo Educacional” editado pela editora Madras que já é sucesso mundial. Iniciou-se no magistério em 1984 na disciplina de Matemática, posteriormente, ao final da mesma década já lecionava também na disciplina de Física. Atualmente atua como professor universitário em cursos de pós-graduação em disciplinas pedagógicas, e, na rede pública estadual leciona Matemática e Física. Em seu caminhar pela educação, Giancaterino idealiza com uma educação de qualidade e completa para todos, principalmente aos menos favorecidos e que associe todas as dimensões do sujeito como ser humano.

Algumas frases marcantes de sua autoria:

“Quando a escola não é importante para os pais, também não é para os filhos”.

“Um país se constrói com bons homens e bons livros”.

“Enquanto a Educação for utópica em sua complexidade, o sonho é necessário para que possamos trilhar um caminho”.

“O trabalho de um homem perpetua quando atravessa os tempos”.

“Às vezes, as coisas mais reais do mundo são aquelas que não podemos ver”.

“Ceder, nem sempre é sinônimo de derrota, é ser mediador do bom senso para o momento”.

“Existe só uma maneira de superar os obstáculos, ultrapassá-los”.

“O trabalho enobrece o homem quando ele é digno do seu suor”.

“Enquanto houver guerras entre os homens à paz será uma espécie em extinção”.

“Um dos maiores atos de covardia do ser humano, não é errar, mas sim, não assumir seu próprio erro”.

“O espírito de luz é aquele que transforma as coisas ruins em virtudes”.

Contato: prof.giancaterino@terra.com.br / giancaterino@terra.com.br


Publicado por: ROBERTO GIANCATERINO

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
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