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O celular e os solitários

Brasil

Que tipo de fascínio que um celular consegue exercer sobre as pessoas, a ponto de se tornar objeto de culto e adoração?

Quando criança, nos meus dez, se você visse alguém na rua em conversa consigo mesmo, ele era taxado de louco. Mais exatamente, alguém que perdeu o juízo, um doido varrido. Naquela época as pessoas se recusavam caminhar ao seu lado. Tive a oportunidade de presenciar isso muitas vezes. Na verdade, a pessoa se sentia um pária. Minha mãe, na sua simplicidade, pedia-me para tomar cuidado com eles.

O tempo passou... os trinta chegaram. O mundo não é o mesmo. Alguns comportamentos sociais evoluíram para melhor. Ainda bem, pois fico a pensar nos milhares de fãs que desfilam solitariamente com eles pelas ruas. Não sei se são felizes, mas não importa! Às vezes imagino que tipo de fascínio que um celular consegue exercer sobre as pessoas, a ponto de se tornar objeto de culto e adoração. Sua aceitação é grande em todas as classes sociais.

Não se pode negar que ter um celular é estar na moda. É um brinquedo que confere certo prestígio. Principalmente entre as mulheres. Ainda mais se o usuário tiver o último modelo. Nas minhas andanças por aí, vi um com cheiro de fruta, alguns coloridos e outros com recursos de computador. Confesso que uso um. Não sou afeiçoado a ele e nem me causa deslumbre. 

Tenho amigos que não se desgrudam deles por nada, há também os que preferem às suas esposas. Afinal de contas, passam boa parte do dia apalpando-o. Para mim, é essa relação tão íntima e intensa entre eles que beira o amor. Afinal, essa parafernália é capaz, entre outras coisas, de guardar segredos e suas incontáveis utilidades. Por isso, temo que caíam em desgraça algum dia.

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Não tenho dúvida que a humanidade se deixou seduzir pelo celular. Até as crianças. Não me incomoda ter um celular, mas aborrece saber o quanto as pessoas se tornam mais dependentes dele e o quanto estão mais solitárias e tristes, que se falam menos e se negam a olhar de frente o seu semelhante, que contrabalançam suas dificuldades e carências com coisas estranhas.

De outro lado, choca saber que as pessoas têm menos tempo para papear. O celular as consome, dessa forma, não lhes sobra tempo para as coisas simples e importantes da nossa vida. Já presenciei gente fingir ao celular para não falar com outra pessoa. 

Toda essa situação é uma pena. Quanto a mim, ainda bem que esse brinquedo não conseguiu encantar-me e seduzir dessa forma. Não se pode negar que o capitalismo é capaz de criar parafernálias tecnológicas que por vezes são (in) dispensáveis ao homem. É o caso do celular e outros objetos, que se bem utilizados oferece-nos infinitas facilidades no dia a dia.

Pois bem: estou imensamente feliz porque ele não despertou em mim a mesma alegria que sinto ao ver uma linda mulher, num longo vestido vermelho, nem a mesma efusão de alegria que me causa ao ouvir o canto de um sabiá e a gama de sentimentos que tenho diante do sorriso de um lindo bebê. Deixo claro que não me perturba quem não pensa assim.(Ricardo Santos é prof. de História)

 


Publicado por: RICARDO SANTOS

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