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O Trânsito Brasileiro e as "Ciclotransformações"em curso

Atualidades

Veja por que a bicicleta é considerada a alternativa mais viável para o trânsito!

Há muito, estudiosos e especialistas do trânsito-transporte-mobilidade apontam a bicicleta como uma das mais viáveis alternativas aos modais predominantes – cuja maior ênfase é nos veículos automotores – que, como bem se evidencia, perigam entrar em colapso.

O fato novo é que, cansadas de esperar pelas condições favoráveis para pedalar, muitas pessoas resolveram lançar mão daquelas bicicletas estacionadas nas garagens ou expostas nas vitrinas das lojas – pois é perceptível que uma parcela considerável dos “neociclistas” é composta por apaixonados de última hora que, até bem pouco tempo, sequer cogitavam investir dinheiro num veículo desse tipo[i] – e, mesmo se expondo às incontáveis adversidades, foram para as ruas dividir espaço com pedestres, ônibus, automóveis, motocicletas, buracos, materiais de construção, cones, cavaletes e tudo o mais com o que for possível se deparar nas vias públicas brasileiras.

No início deste ano, em entrevista à revista Leis & Letras, indagado sobre o que poderia ser feito para minimizar os problemas do trânsito urbano brasileiro, respondia eu o seguinte: “[...] Que se invista em modais alternativos, incentivando, por exemplo, o uso da bicicleta. Dotar a cidade de ciclovias e ciclofaixas seguras e confortáveis é receita para motivar cada vez mais pessoas a aderir a esse tipo de veículo. Cabe ponderar que, não obstante a Política Nacional de Mobilidade Urbana estabelecer como um de seus princípios a equidade no uso do espaço público de circulação, na maioria das cidades brasileiras realizar deslocamentos na condição de pedestre ou de ciclista são opções por demais arriscadas. E, não raro, representam muito mais uma falta de opção, mesmo”.

Indo além, advertia que “não se pode olvidar que o desprestígio dos pedestres e ciclistas no trânsito é, em alguma medida, decorrência da visão enviesada do próprio Poder Público. Há muito, toda a prioridade e todo o estímulo estatal, inclusive financeiro, como, por exemplo, a redução do IPI, são para que o cidadão adote um veículo automotor. Nesse contexto, abrir vias para combater congestionamentos é tão eficiente quanto afrouxar o cinto para combater a obesidade”[ii].

Apesar de todas as dificuldades indicadas no trecho de entrevista transcrito, levantamento divulgado pela ABRACICLO (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares), demonstra que o segmento de bicicletas fechou 2012 com um incremento de 5,9% na produção, em comparação com o ano anterior. E a tendência, avalio, é que se amplie a demanda.

A venda de bicicletas e seus acessórios deve se tornar um negócio cada vez mais interessante, pois, os ciclistas brasileiros são autênticos desbravadores[iii] e, bem por isso, não se rendem facilmente. São cidadãos e cidadãs que, pelos motivos mais diversos, resolveram descruzar os braços e que, sem nenhuma orquestração e quase nenhuma proteção estatal, diariamente colocam o bloco na rua. E, uma vez na rua, o bloco pede passagem. Os ciclistas mais politizados originam um movimento sóciopolítico denominado cicloativismo, cuja finalidade principal é promover a conscientização da população a respeito da importância da bicicleta como meio de transporte.

Cicloativistas defendem cicloatitudes. São, no geral, pessoas deveras alinhadas com os padrões de comportamentos ecologicamente corretos. Uma das principais posturas que incentivam é, como não poderia deixar de ser, a utilização da bicicleta em todo e qualquer deslocamento onde isso seja possível[iv], pois, raciocinam os ativistas do pedal, quanto mais bicicletas houver na rua, maior será a pressão para que seja criada infraestrutura adequada à prática do ciclismo com segurança e conforto[v].

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Em suma, os ciclistas urbanos brasileiros e, em especial, os cicloativistas deste país, representam uma parcela de nossa sociedade que bem assimilou a lição do poeta paraibano e que, diferentemente da maioria dos estudiosos e especialistas (que, como eu, insiste em teorizar), resolveu fazer a hora, e não mais esperar acontecer[vi].   

O autor:

Luís Carlos Paulino é subtenente da PMCE, especialista em Gestão e Direito de Trânsito, bacharel em Direito, membro da Associação Brasileira de Profissionais do Trânsito (ABPTRAN), associado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e autor do livro Trânsito no Brasil: desafios à efetivação do direito de ir e vir e permanecer vivo. Sobre o tema trânsito/mobilidade


[i] O que em nada lhes diminui a importância.

[ii] Revista Leis & Letras, ano VI, edição nº 26, 2013, p.16-17.

[iii] Desbravador, segundo o Dicionário Michaelis, é “aquele que amansa, que doma. O que destrói a braveza”. É, também, aquele “que põe um terreno em estado de ser cultivado”. O ciclista urbano brasileiro é, no contexto de um território reconhecidamente inóspito (como é o do trânsito que nós fazemos), um indivíduo destemido que ousa tentar domá-lo e, para tanto, arrisca-se a conviver com “senhores do volante” que são capazes de lhe amputar um braço e depois ir para casa dormir, sem maiores preocupações, antes apenas dedicando alguns instantes à tarefa de livrar-se de um estorvo, i.e, jogar o membro que decepou de um “audacioso” ciclista dentro do primeiro córrego encontrado. No que tange à segunda acepção, é um desbravador que se antecipa ao Estado e que, ante a inércia deste, prepara o terreno para que os governos viabilizem as condições adequadas à prática dos deslocamentos na urbe também por ele, o ciclista (ilustrativas do que aqui se afirma são as ações do movimento coletivo Massa Crítica, que promove debates sobre mobilidade e, indo além, faz intervenções na cidade; como, por exemplo, a pintura de ciclofaixas. De se destacar, também, as ações do movimento Fortaleza de Bike ao Trabalho, recém-criado na capital cearense). Tem-se, nessa hipótese, um desbravador que, compreendendo ser imprescindível que se devolva a cidade às pessoas ampliando os espaços de interação social na rua, profere um vigoroso “NÃO!” à cidade pensada exclusivamente em função do automóvel.

[iv] A diferença é que, para eles, é possível transitar de bicicleta em locais e circunstâncias onde, para a maioria das pessoas, isso seria inimaginável.

[v] Esperamos, e aqui faço questão de me incluir, que muito em breve seja inaugurado em todo o Brasil um poderoso círculo virtuoso: mais bicicletas nas ruas, mais visibilidade para os ciclistas e mais pressão sobre os gestores, os quais, por sua vez, diante dessa massa crítica já ocupando as vias, são forçados a atentar para a necessidade de investimentos em prol dos usuários de bicicletas. Investimento feito, melhores condições viabilizadas, mais pessoas estimuladas a aderirem ao uso da bike e o círculo segue sendo retroalimentado (a meu ver, isso já está ocorrendo em algumas cidades brasileiras). 

[vi] Geraldo Vandré, na música Pra não dizer que não falei das flores, composição de 1968 que se tornou um hino da resistência do movimento civil e estudantil que se opunha à ditadura militar. O refrão da canção (se é que existe quem não conheça) diz o seguinte: “Vem, vamos embora, que esperar não é saber; quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.


Publicado por: Luís Carlos Paulino

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
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