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O cinema e a pandemia Covid-19

Atualidades

Breve análise sobre o atual momento da indústria cinematográfica em meio à pandemia da Covid-19.

Após quase 2 anos de Pandemia, a vida que conhecíamos já não é (e talvez nunca volte a ser) a mesma, não há uma área de nossa sociedade que não tenha sido afetada pela Covid-19, mas, neste texto, iremos nos ater à indústria cinematográfica, uma das áreas mais afetadas no meio deste caos.

Onde normalmente encontrávamos diversos cartazes de Filmes em lançamento, agora víamos um espaço vazio, as salas, sempre lotadas, repleta de gritos, risadas e comentários, agora eram um ambiente desértico, quase fantasmagórico. Ao redor do mundo, diversos festivais foram cancelados, salas de cinemas fechadas, filmes adiados inúmeras vezes. A Pandemia acelerou e decretou a crise na indústria cinematográfica, mas, engana-se quem pensa que este é o único motivo que ameaça o Cinema como um todo, mas isso será abordado mais à frente.

Para entendermos a dimensão e o impacto da Pandemia: No dia 19 de Março de 2020, o Festival de Cinema de Cannes, um dos maiores e mais importantes festivais da indústria cinematográfica, anunciou que sua exposição anual não aconteceria devido ao cresceste número de casos de Covid-19. Ao longo da sua ilustre história, Cannes só foi paralisada em duas outras ocasiões, devido à revolução ou guerra. Em 1968, o festival foi suspenso quando greves em todo o país desaceleraram a economia francesa. Antes disso, a primeira edição de Cannes foi interrompida pela eclosão da segunda guerra mundial. No dia seguinte à noite de abertura de 1939, tropas alemãs invadiram a Polônia. O festival não foi lançado novamente até 1946.

Também em 2020, a bilheteria nos EUA, um dos países que mais investe e lucra com o Cinema, encolheu 80% em comparação aos anos anteriores, bilhões de dólares foram perdidos. Foi a pior bilheteria já registrada nos últimos 40 anos.

‘’É um ano como nenhum outro, Nós nunca vimos uma movimentação tão pequena nessa indústria”.
Jim Orr, presidente de distribuição da Universal Pictures

“Mesmo que as pessoas tenham acesso ilimitado às opções em casa, elas ainda procuravam o cinema. As pessoas desejam sair de casa e se divertir. Esse desejo não mudou, mas a capacidade de fazer isso foi profundamente limitada. Os cinemas adotaram protocolos de segurança aprimorados e tiveram maneiras diferentes de fazer as pessoas voltarem aos assentos, mas o comparecimento permaneceu limitado. As pessoas vão aos cinemas para escapar. Se você vai ao cinema onde você tem que usar uma máscara e tem que se sentar à parte e tem que estar hiper consciente do seu entorno, não é assim que experiência deve funcionar”
John Sloss, diretor de mídia da empresa de consultoria Cinetic.

O acontecimento mais revelador dessa crise foi de que no ano de 2020, foi a primeira vez em uma década em que não houve um filme da Marvel Studios a ser exibido nos Cinemas. Filmes estes que sempre estiveram presentes no topo das bilheterias ao longo dos anos. Sem surpresas, as maiores bilheterias de 2020 foram de filmes lançados nos primeiros meses do ano, pré-pandemia. Os investimentos multimilionários de um blockbuster são viáveis pela (quase) certeza de que o filme vai encher cinemas mundo afora e lucrar milhões ou bilhões de dólares. Mas, claro, isso não vem sendo capaz de se concretizar, então, blockbusters são inviáveis no atual cenário de cinemas fechados e salas vazias, então os maiores estúdios adiaram seus lançamentos de maior peso, só agora, final de 2021, alguns grandes filmes estão sendo lançados após a aceleração da vacinação ao redor do mundo e a possibilidade de se frequentar novamente as salas de Cinema, mesmo que com número reduzido.

Já no Brasil, a bilheteria caiu em 78%. Em 2019 a arrecadação foi de 2,8 Bilhões de Reais, já em 2020 ficou próximo à 650 milhões. O número de pagantes caiu de 177 milhões para 40 milhões. (Se não fosse a pandemia, teria sido possível assistir nas telonas a grandes obras da sétima arte. Entre as produções nacionais, o premiado Babenco — Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou, de Bárbara Paz; o esperado Marighella, de Wagner Moura; e A Menina que Matou os Pais, de Mauricio Eça) O fechamento de salas de cinema e a paralisação das gravações em razão da Covid-19 diminuíram drasticamente a produção de longas-metragens: Desde 2013 o Brasil lançava mais de 100 filmes por ano, em 2020, esse número não ultrapassou 24 de acordo com a Agência Nacional do Cinema (Ancine).

A falta de filmes no mercado diminui a diversidade de produções que poderiam se comunicar ou construir certa identidade para com o espectador. Os ‘’filmes arte’’, aclamados em festivais e na cultura cinéfila, focados em uma mensagem reflexiva e profunda, vão perdendo espaço para os blockbusters e filmes comerciais clichês e genéricos que atendem a demanda do público.

“Isso gerou desemprego de equipes inteiras. Empresas fecharam por não conseguir arcar com seus custos e, para socorrer algumas pessoas, tivemos que organizar uma mobilização para comprar cestas de alimentos”,
- Sonia Santana, presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual (Sindcine).

Sabemos que o Cinema está presente em nossa sociedade desde 1895, quando foi criado pelo irmãos Lumière, desde então atravessou incontáveis reformas e transformações, tornou-se, não só um espelho para a sociedade mas também uma das formas de entretenimento mais comuns no mundo, sempre adaptando-se e acompanhando a sociedade e todo o contexto histórico da mesma (Como foi abordado Neste Link).

E, durante a Pandemia do Coronavírus, não foi diferente, não só em questão de exibição mas de conteúdo; diversos filmes foram lançados abordando ou se limitando ao atual estado em que o mundo se encontra. Por exemplo, o cinema de terror absorveu o medo do isolamento. Filmes passaram a ser feitos de forma remota, explorando essa temática, dando início a um novo gênero que especialistas já chamam de ‘’Quar-Horror’’.

Podemos citar o filme ‘’Host’’ que foi um dos primeiros grandes filmes lançados durante a Pandemia e também pertencente à este novo subgênero, o filme foi totalmente gravado por videochamada durante a quarentena, respeitando o isolamento social. Não apenas inovou nos moldes no qual foi feito mas também revitalizou 2 subgêneros do Terror esquecidos pelos fãs, o ‘’screenlife’’ e o ‘’found footage’’. O filme, simples, feito com baixo orçamento, já se tornou um marco hístórico. Ainda neste novo subgênero podemos citar o Longa ‘’Antologia da pandemia’’, filme que reúne 13 curtas que refletem na linguagem do terror a experiência do isolamento social. Os trabalhos são dirigidos por cineastas do Brasil, Argentina, Uruguai, Estados Unidos, Reino Unido e Chipre.

Já no âmbito da ficção científica nem mesmo as séries ficaram de fora, por exemplo, ‘’Grey’s Anatomy’’ e ‘’This Is Us’’, tiveram produções interrompidas no começo da pandemia, porém, após retomarem as gravações, incluirám o Coronavirus como parte do enredo em suas novas temporadas. Desde então vemos episódios que mostram pessoas contaminadas, internadas e também vacinações em massa. Também foram produzidos inúmeros documentários, filmes e curtas com a finalidade de conscientizar a população sobre a doença ou retratar de forma mais descontraída o isolamento social e abordar relacionamentos à distância que foram surgindo. Há uma variedade de produções e temática.

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Destaque para a produção brasileira ‘’A Nuvem Rosa’’, filme nacional que concorreu ao Festival Sundance 2021. Na trama, as pessoas vivem presas em suas casas graças à uma nuvem rosa -que dá nome ao filme- que em questão de segundos mata todos que entram em contato com ela, logo, fazendo com que as pessoas tenham medo de sair de casa e vivam isoladas umas das outras (a vida imita a arte ou a arte imita a vida?) fazendo uma analogia muito boa sobre os momentos que temos vivido. O filme aborda também a figura do influencer digital que espalha a ‘’positividade tóxica’’ para seus seguidores, amigos e familiares que precisaram se afastar por conta do isolamento, relacionamentos que começaram mesmo que à distância enquanto outros acabaram por não suportar a rotina. Vemos também o estado mental dos personagens, a esperança no amanhã por parte de uns, a falta de fé de outros, depressão, ansiedade. Ao mesmo tempo em que é angustiante ver um filme tão real é interessante ver pela perspectiva de como os filmes se adaptaram à esse momento em que vivemos, podemos ver como o cinema não só contextualiza a sociedade mas também é contextualizado por ela.

Agora, para entendermos melhor a atual crise cinematográfica, precisamos voltar alguns anos. Em 2010, uma década atrás, graças ao avanço das tecnologias e da acessibilidade de internet banda larga ao redor do mundo, o Cinema era reinventado mais uma vez, víamos explodir os serviços de ‘’Streaming’’ e desde então surgiram vários focados em filmes e séries, Netflix, Amazon, Hulu, Disney, etc. permitindo o telespectador assistir aos filmes no catálogo à qualquer hora, seja no conforto de sua casa ou utilizando seu celular em qualquer lugar que esteja, tudo isso por uma assinatura mensal.

Não é segredo que os serviços de streaming, por assinatura ou sob demanda, preencheram uma grande lacuna para os fãs de filmes que procuram novos conteúdos após o fechamento dos cinemas. Fato é que, não só durante a pandemia mas após o fim da mesma, os streamings continuarão a competir com os cinemas pelos olhos e dinheiro do consumidor, muitos já acreditam que eles são uma sentença de morte para os cinemas tradicionais.

O que leva muita gente à crer nisso é que novas plataformas (como por exemplo Disney+ e HBO Max) já estão lançando filmes, que à princípio deveriam ser lançados primeiro nos Cinemas, direto em suas plataformas, fazendo com que o assinante já não precise sair de casa para acompanhar um grande lançamento e fazendo com que não haja uma expectativa ou vontade de ir ao Cinema mais próximo para precisar vê-lo. O streaming virou o porto seguro dos fãs de audiovisual que encontraram as salas fechadas durante boa parte dos últimos -quase- 2 anos. Enquanto os cinemas apresentam números em queda, os serviços de streaming vivem sua melhor fase desde sua criação, pela primeira vez, somadas, as plataformas ultrapassaram a marca de 1 bilhão de assinaturas globais.

“O streaming logo ocupou o horário que antes eu dedicava ao cinema — fechado em casa, se tornou meu principal passatempo. A decisão de não voltar aos cinemas foi motivada porque vários serviços de streaming começaram a trazer as estreias junto com as salas ou um tempo depois.”
- Disse o Blogueiro Diorman Werneck

De acordo com a Conviva, empresa especializada em inteligência integrada de dados, já em março de 2020 os serviços de streaming cresceram 20% globalmente em comparação com os números de duas semanas anteriores, antes da expansão da pandemia. No Brasil, o Telecine registrou aumento de mais 500% nas horas consumidas na plataforma entre março e agosto de 2020 em comparação com o mesmo período de 2019.

No início da pandemia, o tempo médio de consumo de conteúdo por usuário aumentou mais de 50%. Ainda no país, uma pesquisa realizada pelo grupo Toluna feita exclusivamente para o Meio & Mensagem, aponta que 9 em cada 10 brasileiros com acesso à internet utilizam as plataformas de streaming. Metade desses assinantes acessam os aplicativos diariamente.

O Globoplay também soube aproveitar o boom dos streamings e mais que dobrou o número de assinantes em 2020, segundo dados divulgados pelo site TechTudo. Apenas no primeiro semestre do ano passado, o serviço de streaming teve um aumento de 145% no número de assinantes, em comparação com o mesmo período de 2019.

A pergunta que fica no Ar é: O que será do Cinema tradicional pós pandemia?

“O cinema não vai acabar porque o ser humano é um ser social e precisa sair de casa eventualmente para desfrutar de programas culturais. Porém, o audiovisual precisa desenvolver mecanismos para passar por esse momento difícil. E, ao que tudo indica, esse esforço já está sendo feito — pelo bem da arte, da economia e do nosso lazer.’’
- Laís Bodanzky, presidente da empresa Spcine Play

Além do catálogo e da facilidade com infinitas opções os serviços de Streaming possuem um outro elemento crucial para atrair seus assinantes: O preço. Com o constante aumento e reajuste nos preços dos ingressos de Cinema (descartando as meia entradas) assinar um serviço de Streaming se tornou uma alternativa mais vantajosa à curto e longo prazo. O cinema e os serviços de streaming também precisam dialogar com as classes sociais. É necessário entender qual o público alvo e as condições financeiras do consumidor. Atualmente o preço de 1 ingresso no Cinema equivale à 1 mês de assinatura em um ou mais streamings, há uma diferença gritante em relação ao Custo x Benefício entre ir à uma sessão de cinema e uma assinatura multitelas para a família inteira. Se essa disparidade não for contornada, o cinema tradicional pode caminhar para se tornar algo elitizado.

Os streamings possuem uma facilidade remota, mas não chegam próximos da experiência de se ir ao Cinema, isso é uma coisa única, é um acontecimento mágico, há todo um impacto social e cultural. Cartazes espalhados, filas para comprar ingressos, pipoca, sessões lotadas, a experiência vivida dentro de uma sala, escura e com um grande ecrã. Quantas memórias, histórias e momentos vividos em uma sala de cinema nós não carregamos conosco? Momentos únicos que passamos com nossos pais, amigos e filhos. É um local onde se criam laços. A agitação, a ansiedade desde o momento em que compramos nosso ingresso até os finais do trailer para enfim começar o filme, a atmosfera contagiante repleta de risadas, gritos, lágrimas e palmas ao final de cada sessão. Quantos incontáveis e indescritíveis momentos aconteceram nestas salas de cinema em seus 126 anos de existência?

A indústria tem essa capacidade de se reinventar, já sobreviveu à guerras, ditaduras, censuras e até mesmo assistiu a ascensão e queda das fitas cassetes, dvds e locadoras, tenho a certeza de que ele pode e vai sobreviver à mais essa batalha, agora contra os serviços de streaming.

Referências:

https://www.dw.com/pt-br/especial-1-ano-de-pandemia-e-o-cinema-sobrevive-ao-coronav%C3ADrus/av-56839150

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2020/05/coronavirus-vai-marcar-o-fim-de-uma-era-no-cinema.shtml

https://vogue.globo.com/lifestyle/cultura/Cinema/noticia/2020/05/o-impacto-da-pandemia-do-coronavirus-na-industria-cinematografica.html

https://canaltech.com.br/entretenimento/filmes-e-series-pandemia-covid-19-183561/

https://www.omelete.com.br/filmes/series-filmes-na-pandemia-do-covid19

https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2020/08/13/interna_cultura,1175578/diretores-transformam-quarentena-em-tema-de-filme-de-terror.shtml

https://www.metropoles.com/entretenimento/cinema/bilheteria-dos-cinemas-encolhe-80-em-2020-pandemia-e-principal-culpada

https://veja.abril.com.br/cultura/o-efeito-da-pandemia-no-cinema-bilheteria-brasileira-caiu-78-em-2020/

https://gente.globo.com/a-relacao-do-brasileiro-com-o-cinema-entre-a-bilheteria-e-o-sofa-da-sala/

https://forbes.com.br/forbes-money/2021/03/um-ano-depois-do-inicio-da-pandemia-plataformas-de-streaming-contabilizam-ganhos/

https://www.institutoqualibest.com/blog/experiencia-e-satisfacao/servicos-de-streaming-tem-crescimento-durante-a-pandemia/

https://www.folhape.com.br/cultura/impulsionados-pela-pandemia-servicos-de-streaming-se-multiplicaram-em/166958/

https://super.abril.com.br/ciencia/streaming-e-pandemia-a-tempestade-perfeita-que-coloca-os-cinemas-em-xeque/

https://www.uol.com.br/splash/colunas/guilherme-ravache/2021/03/23/como-a-pandemia-turbinou-o-streaming-e-roubou-publicidade-das-tvs.htm


Publicado por: Vitor Amoroso

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