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O FIM DE SEMANA É DO SAMBA

Arte

Breve análise dos sambas do carnaval carioca.

Que o samba é do fim de semana ninguém duvida. É de todo dia, de toda hora, mas o fim de semana tem um quê especial, um algo mágico, inexplicável. Haveria tema melhor para um enredo de escola de samba do que um sábado de Sol ou um domingo de alegria? 

Nossa viagem começa no distante ano de 1977, mais precisamente na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. A agremiação insulana escolheu para aquele carnaval um dos mais belos enredos de sua história. Simples, colorido, divertido… Domingo!

Os versos inspirados dos poetas Adhemar Vinhaes, Ione do Nascimento e Aurinho da Ilha embalaram a agremiação àquele que seria o maior desfile de sua história e, segundo críticos à época, o melhor desfile que uma escola de samba já havia realizado, título que nas décadas seguintes seria dedicado a cortejos imortais como “Kizomba” (Vila Isabel, 1988) e “Peguei um Ita no Norte” (Salgueiro, 1993). Muito desse sentimento saudosista era fruto da evolução pela qual estavam passando as escolas de samba durante a década de 1970. Os mais antigos se sentiam incomodados com os correntes modelos de samba enredo e de desfiles, cada vez mais corridos e pasteurizados. A apresentação da União da Ilha do Governador em 1977 foi capaz de resgatar a essência que estava aos poucos se esvaindo, emocionando a todos que presenciaram o espetáculo e denominaram o ocorrido como: “O verdadeiro carnaval”.

A carnavalesca Maria Augusta justifica em suas memórias a escolha do tema baseada em sua infância. Quando menina estudava em um internato e somente era liberada aos domingos, atribuindo ao dia uma aura mágica que se traduziria em um comovente desfile. A imprensa à época não poupou elogios para o enredo que além de “bastante original” também “fugia um pouco dos motivos tradicionalmente apresentados pelas escolas de samba”. De fato a originalidade aliada à simplicidade do tema propiciaram um ar de leveza interessante para o desfile e, principalmente, para a confecção do samba enredo, que se traduziu em alegria e euforia contagiantes dos 1500 componentes da tricolor da Ilha.

A simplicidade percebida na obra musical também refletiu-se no visual do desfile. No lugar de grandiosas alegorias estavam bem acabados tripés, carrinhos de pipoca e até mesmo um barco emprestado pelo Ministério da Marinha. As fantasias, apesar do excelente acabamento e da inspirada concepção, não eram luxuosas. Foi a viagem melódica proporcionada pela trilha sonora campeã do Estandarte de Ouro daquele ano que criou um verdadeiro tom místico durante os minutos daquele desfile e fez com que a União da Ilha deixasse a avenida como franca candidata ao campeonato de 1977.

Alguns anos depois, do outro lado da Baía de Guanabara foi a vez da niteroiense Souza Soares completar o fim de semana com seu desfile de 1981: ‘Por ser um dia de sábado’. A simplicidade proposta anteriormente por Maria Augusta ainda seguia como a tônica da proposta. O samba enredo de Gelson e Bernardo, que se sagrou campeão na noite do dia 29 de Novembro de 19802, seguia a mesma linha poética de seu antecessor insulano. 

Na primeira parte ambos saudavam o amanhecer e a chegada de um novo dia:

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Vem amor
Vem à janela ver o sol nascer

Na sutileza do amanhecer
Um lindo dia se anuncia
(União da Ilha 1977)

Lindo, lindo, lindo
Amanheceu
Que lindo dia
Por ser um dia de sábado
Iremos cantar em poesia
(Souza Soares 1981)

Na sequência o mar, as praias, as morenas e o esporte:

No Rio colorido pelo sol
As morenas na praia

Que gingam no samba
E no meu futebol
(União da Ilha 1977)

Pelas morenas jogando frescobol
Ou pelas areias se banhando ao sol

O surfe nas ondas do mar
Vou tomar cerveja de bar em bar
(Souza Soares 1981)

Se na obra insulana ‘As pipas vão bailando pelo ar’, em Niterói ‘tem asas delta bailando’.

Interessante notarmos a passagem do tempo como fundo poético de ambos os sambas. Essa cronologia é melhor dividida na obra de 1977, ao passo que a Souza Soares apresenta um anoitecer precoce, ainda na primeira parte da composição. Fato é que as noites de sábado são geralmente mais longas para os sambistas e boêmios, já que o dia seguinte ainda não é de trabalho. Se o samba foi propositalmente construído com esse intuito ou se trata-se de uma feliz coincidência nunca saberemos.

Vai o sol e a lua traz no manto
Novas cores, mais encanto

A noite é maravilhosa
(União da Ilha 1977)

A LUA VEM
O SOL SE VAI
ATRÁS DOS MONTES
A TARDINHA CAI
(Souza Soares 1981)

Inspirados pelo grandioso desfile da União da Ilha de 1977, os sambistas de Santa Rosa adentraram a avenida animados. À frente da bateria a belíssima Adele Fátima chamava a atenção da cobertura da TVE, que pela primeira vez transmitia ao vivo os desfiles da cidade pela televisão.

As críticas foram duras por um lado e reveladoras por outro. Ao passo que os jornais definiam como pobres as fantasias e alegorias, elogiavam enormemente as cores e a criatividade empregadas na concepção e realização do desfile. Mais um dos diversos paralelos entre os desfiles separados por quatro anos, mas sempre tão próximos, como um dia após o outro.

Na apuração algumas notas inesperadas, tanto em 1977 quanto em 1981. Para a União da Ilha notas 10 em enredo e samba. Já a simplicidade traduziu grande identidade visual, mas não boas notas, como 7 em fantasia e 9 em alegorias. Por sua vez, a Souza Soares acabou amargando notas 9 em enredo, samba, alegorias e fantasias, obtendo 10 apenas em comissão de frente e evolução. As notas, principalmente de samba enredo foram duramente criticadas por sambistas da própria agremiação e também de outras escolas.

Ao fim da leitura das notas, resultados parecidos. União da Ilha em terceiro lugar no carnaval de 1977 e Souza Soares quarta colocada em 1981. Dias diferentes e desfiles tão similares. Essa dupla é o verdadeiro fim de semana do samba!

REFERÊNCIAS

Tribuna da Imprensa, Edição 08395A de 23/02/1977

O Fluminense Edição 3289 de 28/11/1980, p. 9 - ‘Melhor puxador que vencer como compositor’

O Fluminense Edição 3325 de 10/01/1981, p. 9 - ‘Pré-Carnavalesco começa com escolha do Rei Momo’

O Fluminense, Edição 3368 de 4/03/1981, p. 3 - ‘Desfile das grandes escolas não tem favorita’

O Fluminense, Edição 3369 de 5/03/1981, p. 2 - ‘Explosões de alegria e raiva no bicampeonato da Viradouro’


Publicado por: João Gabriel Costa de França Souza

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Meu Artigo. O Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.