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Uma reflexão sobre a dança no desenvolvimento infantil

Saúde

Breve reflexão sobre a importância dança no desenvolvimento infantil

Nessa breve reflexão sobre a dança no desenvolvimento infantil, assumirei o ballet clássico como principal fonte da pesquisa, mas grande parte das discussões aqui feitas, se não todas, podem ser aplicadas em outros estilos de aula de dança, desde que pautadas em uma metodologia e dadas por profissionais competentes. Essas reflexões serão divididas em quatro grupos: corpo, inteligências, sociedade e cultura.

Corpo

Acreditando ser o que primeiro se identifica, a dança está íntima e completamente relacionada com o corpo, a partir dele que ela se desenvolve, e dessa forma o desenvolve também. Nas aulas de dança, a criança conhecerá o seu corpo e as possibilidades de movimento que ele possui, trabalhando a consciência corporal e coordenação motora fina, grossa, específica e geral. Cada vez mais, as crianças chegam no ensino fundamental com um déficit no desenvolvimento motor, e ao analisar a realidade de grande parte dessas crianças, vemos que muitas brincadeiras que eram feitas na rua, no quintal, correndo, jogando bola com outras crianças, estão sendo substituídas por horas sentadas em frente à televisão ou celular, a ponto de algumas escolas criarem iniciativas para que as crianças e adolescentes do ensino fundamental não utilizem celular nos intervalos e brinquem, tendo atividades programadas nesse período para motivá-los. As crianças que fazem aula de dança conseguem resgatar esse déficit e segundo a pesquisadora Isabelle de Vasconcellos da faculdade de medicina da USP depois de um período fazendo aulas, elas conseguem atingir as habilidades esperadas para sua idade (CISCATI,2021).

Além de conhecer o seu corpo e conseguir coordenar suas partes, a criança desenvolve mobilidade articular, equilíbrio, alongamento, flexibilidade, fortalecimento muscular e esse trabalho resulta em resistência física, melhora na postura, em pisadas supinadas ou pronadas, lordose, dentre outras correções que ela pode gerar por meio do trabalho bem feito. Por ser uma atividade intensa, a dança também ajuda na saúde do coração e pulmão, podendo auxiliar com doenças respiratórias como asma e bronquite crônica, além de combater a obesidade.

Inteligências

Outro trabalho fundamental que a dança faz é com a mente, concentração, memória, imaginação, raciocínio, lógica, criatividade e percepção, são alguns exemplos de inteligências que ela trabalha. As crianças em uma aula de dança devem prestar atenção nos exercícios que o professor propõe, decorá-los para depois reproduzir, ter imaginação para fazer uma dança de um personagem ou para usar um acessório fingindo ser outro. O ballet clássico, mesmo possuindo os passos já definidos, em suas aulas para criança, permite que ela  busque, crie e experimente as possibilidades de movimento que seu corpo tem, usando a criatividade para desenvolver sua própria dança.

A dança também desenvolve a inteligência emocional da criança, ensinando-a a lidar com frustrações e dificuldades e a ter paciência consigo e com o outro, quando, por exemplo, não consegue fazer uma pirueta ou não tem um alongamento, quando vê um colega conseguindo executar um passo e ela não, a criança pode reagir de diferentes formas, e cabe ao professor direcioná-la para o melhor caminho. É preciso ensiná-la a lidar com essa frustração e o mais importante, ensinar a superá-la e não desistir, continuar tentando e treinando para que alcance aquilo que busca. Aprendizados que a criança levará para a vida, acreditando que é possível chegar onde quer, desde que se dedique, tenha paciência e não desista. Vê-se muitos adolescentes, jovens e adultos que têm muita dificuldade em lidar com os problemas que a vida apresenta, com os ‘nãos’, com as situações que não saem como gostariam, causando sofrimento e, por vezes, até doenças como ansiedade e depressão. A dança pode sim preparar a criança para essas situações que encontrará no futuro desde que o professor saiba mostrar, com naturalidade, que dificuldades fazem parte da nossa vida, e que isso não quer dizer que somos piores, ou inferiores, mas que estamos buscando aquilo que queremos e, mesmo não sendo como gostaríamos, devemos perseverar e olhar para as conquistas que, com esforço, já alcançamos.

O auxílio de atividades físicas no tratamento de doenças psicológicas já foi comprovado, ao praticá-las nosso corpo libera hormônios como serotonina e endorfina, responsáveis pelo bem-estar, que reduzem o estresse e a ansiedade e dão para nosso corpo a sensação de felicidade, ajudando tanto na prevenção quanto no tratamento dessas doenças. O uso de medicamento para ansiedade infantil vem aumentando nos últimos anos no Brasil, apesar de ainda ser pouco falada, e muitas vezes dada como ‘frescura’, a ansiedade infantil é um transtorno sério e que pode evoluir para uma depressão´, e a dança pode ser uma grande aliada na sua prevenção.

Em uma apresentação de dança, as crianças passam por um mix de sensações, alegria, adrenalina, medo, ansiedade, “frio na barriga”, e passar por tudo isso fará com que a criança aprenda a lidar com seus sentimentos e emoções pois, apesar de estar sentindo tudo isso, ela entrará no palco e dançará. Muitas vezes a própria família não consegue dimensionar o quão grande é para a criança estar ali se expondo, na frente de tantas pessoas, e a realização que é para ela conseguir mostrar tudo o que trabalhou, ensaiou e superou física e emocionalmente para se apresentar, sendo um momento importantíssimo para a criança e que deve ser valorizado e cuidado.

O professor deve preparar a criança para tudo isso e buscar deixá-la segura do que irá fazer, ensaiar muitas vezes, fazer ensaios gerais com todo o elenco para que a criança experimente em uma escala menor o que será a apresentação. Fazer ensaio com figurinos e elementos cênicos para que ela possa estar confortável, dentre tantos outros detalhes que o professor, sua equipe e os pais devem estar atentos para que ela viva da melhor forma possível essa experiência e carregue consigo, de forma positiva, todos esses aprendizados.  

Um adendo que vale a pena se fazer é que as competições que existem no mundo da dança, muitas vezes, levam o professor a ir para um outro lado: a competição não saudável, no qual não respeita o tempo da criança e faz com que ela se sinta pressionada a atingir resultados e a, constantemente, superar o colega com quem irá competir. Isso leva a criança a ficar insatisfeita consigo, impedindo-a de aproveitar os processos que está passando e aprender com eles. Importante dizer que a competição pode ser positiva, desde que o professor saiba mostrar para as crianças que o principal não é a premiação, mas a evolução delas, o aprendizado que vem ao dançar em um palco, os comentários dos jurados que farão com que elas melhorem ainda mais, a admiração pelos colegas que ganharam a premiação e os que concorreram com elas, tornando a experiência enriquecedora.

Sociedade

A dança é feita de muitas relações: da criança com ela mesma (seja física ou mentalmente), da criança com o professor e da criança com outra criança. Neste texto, já falamos sobre a primeira relação, de como a criança dentro da dança se relaciona com o seu corpo e mente, agora iremos tratar das outras duas relações e de como elas também irão ajudar a criança a viver em sociedade.  Em uma aula de dança, nem sempre a vontade da criança irá prevalecer, pois ela está inserida em um ambiente com diversidade de pessoas e corpos, por vezes uma aluna está com dificuldade em executar um exercício que para outra é fácil, porém todas terão que repetir para ajudar aquela que ainda não conseguiu executar, ou ainda, ao montar uma coreografia, se uma criança consegue subir a perna mais alta que outra, o professor fará com que todas deixem a perna mais baixa, para que possam dançar juntas e iguais e essa criança que tem mais facilidade terá que entender que por fazer parte de um grupo, as decisões devem ser pensadas para o grupo e não apenas para ela. Vale a pena lembrar que dentro da dança também temos os solos e variações, que serão o momento que o aluno poderá ir ao máximo das suas habilidades por estar dançando sozinho. Ainda trabalhando essa relação, muitas atividades em sala de aula são feitas em duplas, trios ou pequenos grupos para que possam experimentar o ouvir e entender o ponto de vista do outro, falar e dar a sua opinião e a partir do que foi dito, chegarem a um consenso e então criarem a coreografia, ou desenvolverem a atividade proposta. Ao levar esses ensinamentos para a vida, a criança poderá ser uma cidadã mais consciente no futuro, compreendendo que vive em sociedade, em um grande grupo, que é preciso ouvir e ter atitudes em prol de todos e não pensar apenas em si.

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A relação professor-aluno dentro de uma aula de dança é baseada no respeito e admiração e isso é gerado pela própria estrutura da aula. A primeira coisa que se faz em uma aula de ballet clássico para crianças é a entrada na sala, na qual a criança espera o professor colocar a música para que ela entre e, assim que chega em seu lugar, ela cumprimenta a professora e então começa a aula. Esse momento é muito importante, pois o aluno compreende que a sala é um lugar importante e que para entrar é preciso esperar o professor chamar. O ato de cumprimentar o professor quando entra na sala também faz com que a criança o vejo como alguém importante, a quem ela deve respeitar. No final da aula, temos outro momento que faz com que o aluno valorize os conhecimentos construídos entre o professor e ele. O último acontecimento da aula é a reverance, no qual o aluno faz um agradecimento por meio da dança ao professor pelos ensinamentos transmitidos e compartilhados naquela aula. Em um momento em que a figura do professor está tão desvalorizada, com tantos atos desrespeitosos direcionados a ele, ter uma atividade que faz com que o aluno o valorize, respeite e admire, assim como também observa-se nas aulas de artes marciais, é um pequeno passo para uma mudança na sociedade.

Cultura

Para finalizar essa reflexão, devemos falar um pouco sobre o acesso à cultura que a aula de dança pode trazer, além dos passos do ballet clássico por si, que já são tão enriquecedores, a criança irá conhecer histórias que são dançadas pelo mundo inteiro há séculos, como o Lago dos Cisnes e O Quebra Nozes, reconhecê-las em livros ou filmes, entrar em contato com a música clássica, orquestras e grandes compositores como Tchaikovisky e Léo Delibes, a ponto de ouvir uma música desses compositores que já tenha dançado e ouvido bastante e reconhecer de que repertório é, como há o relato de uma aluna que aos seis anos reconheceu a música de Tchaikovsky, na época de natal, e na aula seguinte contou que estava no shopping e ouviu a música de O Quebra Nozes. Que significativo é ver uma criança nessa idade, com poucos recursos financeiros, porém tendo acesso à cultura clássica e se apropriando dessa arte. Outro acesso que a dança pode trazer é ir ao teatro, principalmente quando falamos de família de classe C,D e E, que, muitas vezes, não reconhece o teatro como um local  que lhe pertence, por ter poucas oportunidades de frequentá-lo.

Aqui, todo o apoio e solidariedade aos projetos sociais da área da cultura, que apesar de ter pouco incentivo e suporte, seguem fazendo esse trabalho de difundir a dança, a música e a arte como um todo para crianças, jovens e adultos de comunidades e periferias, dando-lhes a oportunidade de conhecer, desenvolver senso crítico, se apropriar dessas artes, de aprendê-las, se sentirem artistas e de se reconhecerem como verdadeiros cidadãos por poder apreciar algo que, infelizmente, ainda é muito elitizado e de difícil acesso.

Para finalizar essa reflexão um ponto que deve ser destacado é a importância de um bom profissional para ministrar as aulas de dança. Infelizmente no Brasil a dança ainda não é levada muito a sério e por isso vemos algumas situações como professores despreparados, bailarinos que não estudaram metodologia ou pedagogia, adolescentes sem preparo dando aulas de ballet clássico infantil. A ideia de que dar aula para criança pequena é fácil, ou que o professor não precisa estudar é uma realidade em nosso país, e escolas de dança que aceitam esse tipo de professor, seja para poder pagar menos, ou as vezes até pensando em ajudar aquela pessoa, fazem com que essa situação cresça ainda mais. Ajude dando formação, estágio e preparando aquele jovem para ser um bom profissional, alguém que saberá lidar com as adversidades que acontecem dentro da sala e conduzir seus alunos para serem não só bons bailarinos, mas pessoas e cidadãos melhores.

Bibliografia

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CISCATI, RAFAEL. Como a Dança pode Ajudar no Desenvolvimento Infantil. Época, 2019, Disponível em: <https://epoca.globo.com/como-danca-pode-ajudar-no-desenvolvimento-infantil-23447582>. Acessado em 05 de Abril de 2021.

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TUCHLINSKI, Camila. Depressão: A dança como aliada no combate à doença. Estadão, 2019. Disponível em: >. Acessado em 07 de abril de 2021.


Publicado por: Juliana Máximo Almeida

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