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Os Desdobramentos Teológico – Pastorais do Concilio Vaticano II

Religião

O Concílio Vaticano II apresenta a Igreja como uma realidade, envolta em mistério, que não pode ser descrita adequadamente por um único conceito.

Introdução

A Igreja, segundo a Constituição Dogmática “Lumen Gentium”, é a própria Esposa de Cristo, que, por Sua vez, é a Cabeça da Igreja (LG 7). No decorrer da História, vários modelos de Igreja foram apresentados por diferentes autores, desde suas raízes no século I até a sociedade hodierna.

Uma particular e expressiva mudança sobre a reflexão sistemática acerca da própria Igreja, porém, se deu com o Concílio Vaticano II e a Constituição Dogmática outrora citada, “Lumem Gentium”, ou “Luz dos Povos”. O referido Documento nos apresenta uma Igreja ministerial, realidade visível e que é sujeito, mas também objeto de fé. A Igreja é uma realidade complexa que, de um lado, tem sua existência somente como fruto da ação divina e, de outro, sofre ações humanas diretamente, já que é composta e dirigida por membros que Dela fazem parte.

Assim, aprofundaremos o tema a seguir com base no modelo apresentado na Constituição Dogmática Lumen Gentium, e, em especial, no material contido nas apostilas da disciplina, sem, contudo, deixarmos de considerar as ricas contribuições que autores deram sobre essa reflexão sistemática no decorrer da História.

O Concilio Vaticano II

De uma maneira geral, o Concílio Vaticano II apresenta a Igreja como uma realidade, envolta em mistério, que não pode ser descrita adequadamente por um único conceito. Por essa razão, o mesmo Concílio ilustra o mistério da Igreja com várias imagens e conceitos que estão concatenados entre si.

O cristão encara a Igreja como resultado comunitário graças à infinita bondade e benevolência de Deus Pai que A criou. Esse resultado dá-se através dessa ação do Pai pelo Filho no Espírito Santo. De fato, a origem da Igreja está no mistério insondável do Pai, pelo Filho, tornado Homem, no Espírito Santo. A Lumen Gentium apresenta a Igreja como “o povo unido pela unidade mesma do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. A Igreja procede da Trindade, é estruturada à imagem da Trindade e caminha para o cumprimento da História na Trindade.

A Igreja está presente no mundo secular e na História, mas não é restrita e submissa a esta. Entretanto, devido nossa capacidade limitada, é pela História que podemos conhecê-La, sabendo que o centro da História é o próprio Cristo.  A Igreja também é pecadora, afirma a Lumen Gentuim. Mas, se assim o é, também é atingida pela Graça do Cristo Redentor (LG 2). E a mesma Constituição afirma que “A Igreja, ou seja, o Reino de Cristo, já presente em mistério, pelo poder de Deus, cresce visivelmente no mundo” (LG 3 e 5). Ela é o início do próprio Reino de Deus na terra, e é também revelação do mistério de Cristo.

Muitos discutem sobre o nascimento da Igreja. Tendo como parâmetro a proposta elaborada para este Trabalho de Conclusão da Disciplina, ou seja, a apresentação de aspectos teológicos e pastorais, podemos constatar que, com base nas apostilas da Disciplina, mais especificamente em sua Unidade 4, na página 8, o texto afirma que “A Igreja nasce da totalidade do mistério do Filho Encarnado” bem como do lado aberto do Senhor crucificado, que deu Sua vida por amor. E essa ação do surgimento da Igreja é atualizada em cada Celebração Eucarística, tendo como base que, sob uma perspectiva sacramental, a Eucaristia em especial “faz a Igreja”, edificando-a em “Corpo de Cristo”.

A ação do Espírito Santo

A Igreja conta com a ação do Espírito Santo. É este Espírito que habita na Igreja e nos corações dos fieis, orientando para a realização do projeto de Deus. E, em sua totalidade, a Igreja é uma comunhão de fieis, ou seja, a Igreja possui, verdadeiramente, o Espírito Santo. Isso a evidencia como uma realidade social e espiritual. Dessa forma, o Espírito é a memória de Jesus que continua viva na Igreja. Isso torna à comunidade dos cristãos possível de contar com um verdadeiro docente, que leva à Igreja o conhecimento da Verdade total (LG 4).

Assim, o Espírito dota a Igreja de carismas e dons, que possibilitam exercer ministérios variados. Aqui cabe uma ressalva que julgamos ser muito pertinente: todo carisma e dom deve ser particularmente apreciado para ser exercido para o bem comum, a fim de que tenhamos uma Igreja, toda Ela, ministerial. E o que seria essa Igreja ministerial? Não outra coisa, senão exatamente, valorizar os carismas de cada um que o próprio Espírito confere por infinita bondade do Pai. Uma Igreja que reconhece os dons de cada membro é uma Igreja rica e que se torna verdadeiramente ministerial.

Quanto aos frutos, o primeiro a ser citado é o amor. Ele é uma realidade do adorno que o Espírito Santo concede à Igreja. Dele derivam a alegria, a docilidade, a mansidão, a bondade e a benevolência.

Desdobramentos teológicos e pastorais

A primeira propriedade da Igreja, conforme afirma a mesma Unidade da Apostila, em sua página 230, é a santidade. Ela é santa e está em contínuo processo de purificação. Essa purificação provém do próprio amor de Cristo pela Sua Igreja, já que Se entregou por Ela. Daí, a afirmação de que todos os cristãos são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade (LG 40).

A Igreja é Una. Isso, entretanto, não deve ser contestado apesar da ferida de Unidade que a História nos apresenta como conseqüência de atos humanos e jamais por desejo divino. Deus não deseja a divisão e o rompimento da Unidade, mas, ao contrário, quer que “todos sejam um”, como nos atesta o Evangelho segundo João. Como há um só Deus, e isso é professado pela Igreja com veemência, há um só povo de Deus. Como Cristo é o único mediador e Cabeça da Igreja, um também é o Espírito Santo o condutor da Igreja (Ef 4,4-5).

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Como Deus é Uno e Trino, esse mesmo Deus é que mantém a Igreja unida. O próprio Jesus rezou pela unidade dos discípulos (Jo 17,21).  E o que fere a unidade profundamente com cisões são comumente duas realidades: o cisma e a heresia. O próprio Cisma do Oriente e do Ocidente explicita quão grave a ferida se torna quando não há unidade entre os cristãos. E, no campo das heresias, sobretudo as conhecidas dos primeiros séculos, a História nos atesta o estrago que elas causaram à unidade do Povo de Deus.

A Igreja, por sua natureza, é católica, ou universal. E, ainda, verdadeira, legítima. Embora haja Igrejas locais, não há uma contraposição entre as mesmas e a catolicidade da Igreja. E Apostólica, pois é seguidora direta dos Apóstolos que o próprio Jesus escolheu para formar o grupo dos Doze.

Em sua composição, todos os cristãos que fazem parte da Igreja são chamados a exercerem o sacerdócio comum que lhes é conferido através do Batismo. Ressalte-se, porém, que não estamos tratando do sacerdócio exercido pelo ministério ordenado, específico a uma porção dos filhos de Deus, mas do sacerdócio comum nos Sacramentos.

Com relação a outras religiões, a Igreja deve estar aberta ao diálogo ecumênico e inter-religioso, respeitando a crença de cada indivíduo. Se, por um lado, a Igreja deve evangelizar, isso não significa impor sua fé a qualquer custo, mas, antes, respeitar a liberdade de cada homem.

As Quatro marcas da Igreja constituem um grupo de quatro realidades, portanto, consideradas como características que descrevem as marcas distintivas da verdadeira Igreja de Jesus Cristo. Essa crença é partilhada pela Igreja Católica, Ortodoxa, Nestoriana, Não-Calcedoniana, e pelo protestantismo histórico.

Tais características foram dogmatizadas pelo Credo Niceno-Constantinopolitano, em 381, que professa: "Creio na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica". Esses termos, embora tenham sido sistematizados na Antiguidade, ainda hoje representam a essência da fé da Igreja sobre Ela mesma. 

Por fim, para uma compreensão mais didática e, ao mesmo tempo, pastoral, apresentamos os atributos de cada um dos termos: Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Há um só Deus e Pai de todos, que atua acima de todos, por todos e em todos”. (Ef 4:5-6). “Una” “descreve a unidade do Corpo de Cristo. Essas palavras do Credo falam dos seguidores de Jesus Cristo, unidos em sua crença em um só Deus, um só Senhor, no Cenáculo. No discurso final de Jesus com Seus discípulos, na noite de sua prisão, ele orou três vezes pedindo que eles pudessem ser apenas "um" (Jo. 17:20-23) Ele reza para que os cristãos possuam unidade, afirmando que esta unidade irá fornecer a evidência mais convincente para o mundo que ele é o seu Salvador.

O termo “santa” significa a procura constante da Igreja pelo aperfeiçoamento e amadurecimento espiritual, uma vez que todos os cristãos foram “chamados a serem santos” (Romanos, 1: 7). Jesus fundou sua Igreja terrestre para continuar Sua obra redentora e santificadora do mundo, sendo a santidade da Igreja derivada da santidade de Cristo. Porém isto não implica que os membros da Igreja estão isentos do pecado.

A palavra "católica" refere-se ao fato de que a Igreja, como Corpo de Cristo, não se limita a um tempo, lugar, raça ou cultura, como ocorria com os judeus, considerados único povo escolhido na Antiga Aliança.

Como Cristo quis que os discípulos evangelizassem todas as nações (mais recente final do Evangelho de Marcos), a expressão "todas as nações" implica universalidade, fazendo com que a Igreja de Cristo na Terra seja aberta a todas as pessoas, de ambos os sexos, de todas as nacionalidades.

Quanto à Apostolicidade, esta característica descreve a origem da Igreja, e é compreendida de diferentes maneiras. O catolicismo acredita que o termo “apostólica” refere-se ao sacerdócio da Nova Aliança, a renovação do sacerdócio levítico da Antiga Aliança, cuja missão é proteger o rebanho de Cristo dos “lobos” que o ameaçam (Atos 20:29). E, para que pudessem cumprir esta responsabilidade, Jesus concedeu conjuntamente aos Apóstolos, reunidos como um Colégio, e ao seu sucessor, o Colégio Episcopal, a prerrogativa de “ligar e desligar a Terra ao Céu” (Mateus 18:18). “Ligar” e “desligar” são dois termos técnicos da linguagem rabínica que significam “permitir” e “proibir”, “condenar” e “absolver”, entendido como o poder de admitir ou excluir membros da igreja (excomunhão) e definir a política da Igreja e os ensinamentos.

Referências

ALMEIDA, A.J. Sois Um em Cristo Jesus. São Paulo: Paulinas, 2004.

DIANICH,S.; NOCETI,S. Tratado sobre a Igreja. Aparecida: Santuário, 2007.

HACKMANN, G. A Amada Igreja de Jesus Cristo: Manual de Eclesiologia como Comunhão Orgânica. Porto Alegre: Edipucrs, 2003.

LIBANIO, J.B. Concílio Vaticano II: em Busca de uma Primeira Compreensão. São Paulo: Loyola, 2005.

RATZINGER, J. O Novo Povo de Deus. São Paulo: Paulinas, 1974.

TIHON, P. A Igreja. In: B. SESBOÜÉ. Os Sinais da Salvação (Séculos XII-XX). São Paulo: Loyola, 2005.

CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA LUMEN GENTIUM SOBRE A IGREJA.

CONSTITUIÇÃO PASTORAL GAUDIUM ET SPES. SOBRE A IGREJA NO MUNDO ATUAL.

DECLARAÇÃO NOSTRA AETATE. SOBRE A IGREJA E AS RELIGIÕES NÃO CRISTÃS. Disponível em:

DECRETO AD GENTES. SOBRE A ATIVIDADE MISSIONÁRIA DA IGREJA.

DECRETO UNITATIS REDINTEGRATIO. SOBRE O ECUMENISMO


Publicado por: Robson Stigar

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
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