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Reflexo da Inglaterra Vitoriana na obra David Copperfield de Charles Dickens

Reflexo da Inglaterra Vitoriana na obra David Copperfield de Charles Dickens

A obra literária David Copperfield de Charles Dickens e o contexto da época vitoriana presente no livro.

Resumo

Em um meio de efervescência e crescimento industrial, eclosão da classe burguesa e migração em massa para as cidades, um menino cresce sem o aconchego dos braços amorosos de uma mãe e a estabilidade que um pai o proporcionaria, sendo levado ao trabalho infantil e independência pessoal e financeira com sua pouca idade, ao enfrentar diferentes desafios que a vida o imporia. Em seu livro, David Copperfield, Charles Dickens revela como inspiração de sua obra, sua autobiografia e as realidades que enfrentou durante a vida, interpretadas pelo seu personagem mais querido. "Assim como muitos parentes queridos, tenho no meu coração uma criança preferida. E seu nome é David Copperfield”. Charles Dickens.

Palavras-chave: David Copperfield. Era Vitoriana. Literatura.

Abstract

In a midst of effervescence and industrial growth, outbreak of the bourgeois class and mass migration to the cities, a boy grows without the warmth of the loving arms of a mother and the stability that a father would provide, being led to child labor and personal independence and financially at his young age, when facing different challenges that life would impose. In his book, David Copperfield, Charles Dickens reveals how the inspiration for his work, his autobiography and the realities he faced during life, interpreted by his most beloved character. "Like many dear relatives, I have a favorite child in my heart, and his name is David Copperfield." Charles Dickens

Introdução  

Não podemos começar um estudo sobre algum período histórico sem localiza-lo em sua própria época, pois uma obra literária é o reflexo do período em que o autor viveu, qual educação teve, a que tipo de influências culturais foi exposto, quais eram as referências políticas, como era configurada a sociedade e governo, qual a noção de moral, guerras, revoluções, etc. E abordando uma obra da era vitoriana inglesa se faz necessário coloca-la em seu tempo e espaço, pois ela é um reflexo da realidade do autor. 

A era vitoriana é assim denominada por ser durante o reinado da Rainha Vitória, de 1837 a 1902. Esse período foi marcado por uma efervescência cultural, nas artes, literatura e teatro para atender a nova classe sedenta por cultura, a classe burguesa, que estava aumentando sua influência e adquirindo maior poder político. Pois foi nesse mesmo período que estava acontecendo a Revolução Industrial que trouxe uma migração em massa do campo para a cidade, uma nova mão de obra, que se tornaria uma nova classe social.  Foi uma época de auge do imperialismo britânico na África, Ásia e Oceania, consequentemente, a Inglaterra obteve um grande crescimento econômico fortalecendo o capitalismo liberal e a burguesia industrial e comercial crescente que investiu em infraestruturas e melhorias para sua expansão e domínio econômico. 

 “All of these issues, and the controversies attending them, informed Victorian literature. In part because of the expansion of newspapers and the periodical press, debate about political and social issues played an important role in the experience of the reading public. The Victorian novel, with its emphasis on the realistic portrayal of social life, represented many Victorian issues in the stories of its characters.” (1993)    

Este trabalho abordará a obra David Copperfild de Charles Dickens e como são evidenciadas as características sociais, econômicas e culturais da sociedade de Dikens em seu personagem e na sua obra.

Desenvolvimento

David Copperfield é um livro escrito em primeira pessoa, e todos os fatos narrados pelo protagonista possuem a sua visão dos acontecimentos que vivenciou, e sua interpretação do ocorrido depende de sua maturidade e conhecimento. Por exemplo ao iniciar sua narrativa na infância de David, os fatos são narrados com a descrição da imaginação e percepção, próprias de uma criança, demonstrando sua inocência e admiração pelas novidades desconhecidas do mundo. Pode-se observar essa característica nessa passagem do texto:

Eis o nosso banco da igreja. Que encosto alto tem o banco! Com uma janela perto, pela qual dá pra ver a nossa casa,que é observada por Peggotty (...) Olho para minha mãe, mas ela finge que não me vê. Olho para um menino no corredor e ele faz caretas para mim. (...) Dickens. (Pg. 32 e 33)

Essa estrutura se mantém por todo o texto, desenvolvendo suas percepções conforme sua personagem vai se transformando em um adulto. 

Durante a infância de David Copperfield, ele se depara com instituições características do período contemporâneo ao autor. Primeiramente aparece a escola interna em que meninos de classes sociais mais abastadas podiam se dedicar aos estudos e receber uma educação rígida e disciplinadora, considerada necessária para a formação do caráter. Pelas descrições do personagem podemos observar sua percepção do ambiente, que mesmo sendo um local em que sofria humilhações e castigos físicos, estava em companhia de semelhantes o que por várias passagens na narrativa é relembrada com carinho e saudade. 

Assim como na vida de Charles Dickens a passagem pelo colégio foi rápida e logo David foi obrigado a inserir-se no mercado de trabalho, com 10 anos de idade, na empresa de seu padrasto lavando garrafas como é citado no livro. A questão do trabalho infantil foi um fato muito marcante da era vitoriana como um reflexo da revolução industrial, pois foi nesse período em que muitas famílias estavam deixando o campo para morar nas grandes cidades e trabalhar nas indústrias, por consequência ao morar nas cidades aumentam-se os gastos familiares e muitas famílias empobreciam e até faliam, e para contribuir com a economia, ou até mesmo para sua própria sobrevivência, as crianças tinham que trabalhar em fábricas e diversos outros setores, sendo muito mal pagos e com extensas jornadas de trabalho. 

Algumas fábricas contratavam crianças a partir de quatro anos e como o ambiente em que trabalhavam era, muitas vezes, precário e insalubre diversas crianças morriam por doenças causadas nesses locais, como a tuberculose e a asma. Dickens sofreu essa realidade na Inglaterra vitoriana, quando por razão de seus pais terem problemas financeiros e terem sido presos, o jovem Dickens foi obrigado a trabalhar, logo após sair de sua escola de classe média.

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“No words can express the secret agony of my soul as I sunk into the companionship of common men and boys..The deep remembrance of the sense I had of being utterly neglected and hopeless; of the shame I felt in my position; of the misery it was to my young heart to believe that, day by day, what I had learned, and thought, and delighted in…was passing away from me, never to be brought back, cannot be written” Charles Dickens 

Dickens trabalhou em um local chamado Blacking Factory de Warren, logo após sair de sua escola de classe média, tal como ele coloca em seu livro. O autor não se limitou a abordar o assunto do trabalho infantil apenas no livro, David Copperfield, mas em outro trabalho, também muito conhecido, sua obra Oliver Twist[1] que foi publicada no ano de 1838.

Um outro personagem muito marcante no livro é o Wilkins Micawber, um homem que está constantemente com problemas financeiros e evitando os cobradores. Em um momento no texto Mr. Micawber e sua família são reclusos em uma prisão civil. Este estabelecimento vitoriano era destinado a pessoas com muitos problemas financeiros, que ficavam reclusas até a quitação de suas dívidas. Essa personagem e sua família são muito queridos aos olhos do protagonista desde sua infância, Mr. Micawber sempre esta “procurando” algo e nunca o encontrando, constantemente se mudando em busca de novas oportunidades e sempre sendo ajudado por parentes.

No decorrer da história essa personagem e sua família acabam mudando para Austrália e lá conseguem se estabelecer confortavelmente. O fato dessa família deslocar-se e morar na Oceania reflete algo muito marcante na Era Vitoriana, a Pax Britannica, período que foi marcado por uma prosperidade e tranquilidade, nessa época a Inglaterra tornou-se o país mais rico e influente do mundo. Com a revolução industrial o neocolonialismo inglês, que foi fortificado em razão da necessidade de matérias-primas para suprir suas demandas, estava em seu auge de expansão e fortalecimento com a exploração de suas colônias da África, Ásia e Oceania, esta última, sendo o destino de Wilkins Micawber e sua família. Nessa parte da história, relacionada com Micawber além de remeter ao período analisado é uma passagem da vida pessoal de Dickens, com citado anteriormente, seu pai foi recluso em uma dessas prisões.

A Era Vitoriana também era caracterizada por sua hierarquia e moral rígidas, valorizando o trabalho, o estudo, a ética e a fé, momento que pode ser classificado como puritano. No livro podemos encontrar inúmeras passagens que remetem essas características, como por exemplo a educação que David recebeu em casa e nos colégios que frequentou, o costume de leitura retratado em diversas passagens no livro, os modos de educação, etiqueta e comportamentos. Um dos personagens mais marcantes relacionados com a questão da disciplina e padrão de comportamento é o padrasto de David, Sr. Murstone, que exige um comportamento e educação muito rígidos tanto da mãe de David como do pequeno protagonista, que no período que sua mãe se casa é uma criança.

Durante a leitura do livro conhecemos diferentes classes sociais e suas características próprias junto com David, que detalha as casas, modos de vestir e vícios de linguagem de cada personagem. Sua babá, por exemplo, de origem humilde e o Sr. Peggotty, um barqueiro, trabalhador de fala e costumes simples. Outros personagens como sua tia Betsey Trotwood e seu amigo Steerforth de costumes mais refinados e alta educação. Dickens evidencia a educação e as particularidades de cada um de seus personagens de maneira detalhadas com competência e delicadeza por toda sua obra.

Considerações Finais                       

Como um homem de sua época Charles Dickens escreve David Copperfield com muitos fatos autobiógrafos, além de ser uma leitura de sua contemporaneidade. As primeiras publicações e David Copperfield foi em forma de folhetim, denominas novels, que foram muito aclamadas pelo público leitor de Dickens. Podemos associar esse sucesso da literatura inglesa com a taxa de alfabetismo no período, que chegava a metade da população, além dos costumes de leitura que a classes sociais média em ascenção possuía.

Assim como em outras de suas obras Dickens mergulha em sua própria vida e sociedade e expõe as fragilidades sociais no mundo em que vive. O autor coloca sua própria percepção de mundo, David Copperfiel é o retrato de um homem e as sociedade na Era Vitoriana em suas maneiras, costumes, experiências e modo de vida. A leitura e desta obra é uma viagem à Inglaterra do século XIX em todas as classes sociais e mais variadas experiências que com a maneira de Dickens ver o mundo podemos vivencia-las.

Referências 

Victorian Issues em The Norton Anthology of English Literature (1993) 

MORAIS, Flavia Domitila Costa. A evolução da modernidade na filosofia e na literatura: a literatura voitoriana como tradução moralizando no ensino de uma época. Campinas (1999). 

ALAMBERT, Francisco.  Era Vitoriana uniu moralismo e modernização. Cotidiano. Folha de São Paulo. (2010) 

CODY, David. Dickens: Brief Biography. Hartwick College. (2004) 

JONES, Kaye. History in an hour: Dickens. Harper Express. (2012) 

DICKENS, Charles. David Copperfield. Penguin - Companhia.

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[1] Oliver Twist é um romance de Charles Dickens que conta as aventuras e dificuldades que um rapaz órfão enfrenta na sociedade inglesa de 1830. Considerado uma das obras primas da literatura inglesa.


Publicado por: Amanda Wrobel Schatz Gouveia

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
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