Topo
pesquisar

O PSICOLÓGICO NEGRO EM “O MOLEQUE RICARDO” DE JOSÉ LINS DO REGO

Português

Trabalhar o fator psicológico do negro na obra de Lins “O Moleque Ricardo”, mostrando e resgatando a autoestima da criança negra na escola, bem como estimular o aluno a não ter medo a ser líder de si mesmo.

RESUMO

Este artigo analisa a questão do psicológico negro no romance “Moleque Ricardo” do escritor pilarense José Lins do Rego, instigando por outro lado o debate e a reflexão em torno da problemática do negro do espaço escolar e na sociedade, além de sugerir alternativas para resolução deste dilema com nossos alunos e o publico em geral, amante da literatura, em especial da obra linsdoregueana. No nosso entender, baseado no que temos visto e presenciado, a escola ainda é incapaz de solucionar e combater o preconceito racial, uma vez que o próprio corpo docente perpetua a discriminação.

Palavras-chave: José Lins do Rego – Psicologia – Literatura brasileira

INTRODUÇÃO

A Literatura pode e deve ser estudada e analisada como veículo de mudança social, conscientizando o indivíduo do seu papel na sociedade. Por isso, a obra “O Moleque Ricardo”, do reverendíssimo escritor pilarense José Lins do Rego, nos leva a pensar profundamente no caos psicológico que o preconceito provoca na mente humana.

A Literatura verdadeiramente é uma porta aberta à Psicologia, ciência que estuda os distúrbios comportamentais e mentais do homem, deveria estar engajada na escola. Pois, o que detectamos dão professores estressados e alunos problemáticos.

O conhecimento da Psicologia conduziria, principalmente, o professor na compreensão dos sentimentos e frustrações dos seus alunos. Pois, a criança negra já nasce em meio ao preconceito, absorvendo a sua história como algo vergonhoso. A história de certa forma o pune, porque registra na mente do negro os pejorativos negativos, mostra o estereótipo da limitação desse povo, tanto culturalmente como psicologicamente.

Por outro lado, objetivamos com este artigo a pretensão de trabalhar o fator psicológico do negro na obra de Lins “O Moleque Ricardo”, mostrando e resgatando a autoestima da criança negra na escola, bem como estimular o aluno a não ter medo a ser líder de si mesmo; Formar pensadores que deverão ser autores de sua própria história; Estimular a arte de pensar; Levar a criança negra a enfrentar seus desafios e não apenas repassar a cultura informativa; Desenvolver o afeto e a inteligência que curam as feridas da alma, reescrever as páginas fechadas do inconsciente; Resolver os conflitos em sala de aula e educar as emoções para superar as decepções, frustrações e rejeições.

É por esta razão que se justifica uma reflexão coletiva a respeito dos fatores psicológicos incutidos na mente do negro e o papel na educação dos alunos. Para isso, primeiramente, o professor deve se humanizar em sala de aula. Esta é a principal meta deste estudo, provar que a escola deve inverter no território das emoções e não apenas, nos conteúdos formais. Só assim é possível resgatar e propiciar a autoestima dos alunos negros.

1 O AUTOR E A OBRA

José Lins do Rego sobressaiu-se como um dos maiores nomes da literatura nacional no século passado, na vertente do romance regional, é José Lins do Rego é um dos produtos mais genuínos da cultura brasileira; sua vida, suas magníficas obras retratam de forma fiel a família brasileira e particularmente, a cultura de sua gente, Pilar. Suas obras, principalmente as chamadas do Ciclo da cana-de-açúcar, constituem um guia para a valorização da cultura pilarense. A expressão “Menino de Engenho”, título de seu primeiro romance caracteriza bem “o mundo” por ele criado.

Sua obra caracteriza-se, particularmente, pelo extraordinário poder de descrição. Reproduz no texto a linguagem do eito, da bagaceira, do nordestino, tornando-o mais legítimo representante da literatura regional nordestina. Em todo o ciclo, o cenário é o engenho Santa Rosa, do velho coronel Zé Paulino, avô de Carlos de Melo (o narrador de Menino de engenho, que, em muitas passagens, é o próprio José Lins do Rego). Além deles, povoam o Engenho Santa Rosa o tio Juca, os moleques - filhos dos empregados - que vivem soltos pelos engenhos e brincam com os meninos-filhos dos proprietários na ingênua igualdade da infância, apesar dos preconceitos dos adultos.

Ao lado dos meninos de engenho havia os que nem o nome de menino podia usar, os chamados ‘moleques de bagaceira’, os Ricardos. Ricardo foi viver por fora do Santa Rosa a sua história que é tão triste quanto a do seu companheiro Carlinhos. Foi ele do Recife a Fernando de Noronha. Muita gente achou-o parecido com Carlos de Melo. Pode ser que se pareçam. Viveram tão juntos um do outro, foram tão íntimos na infância, tão pegados (muitos Carlos beberam do mesmo leite materno dos Ricardos) que não seria de espantar que Ricardo e Carlinhos se assemelhassem. Pelo contrário.

Em 1935, no Rio de Janeiro publica Moleque Ricardo, penúltima parte do ciclo da cana-de-açúcar, tendo como cenário a cidade do Recife e as lutas operárias como pano de fundo -, “disputaria com o romance de estreia e Fogo Morto a preferência dos admiradores de José Lins do Rego, mas apenas por motivos afetivos e ideológicos”, enfatizava Edilberto Coutinho. ” 01

Com a sua perspicácia ele soube tratar também nas suas obras a questão psicológica do negro, principalmente em “O Moleque Ricardo”.

Através do estudo dessa obra, é possível viajar no mundo infeliz do personagem Ricardo, e, conseqüentemente nos fazer refletir a questão do preconceito que a obra aborda em todos os sentidos, fundamentalmente, o racial.

2 O PSICOLÓGICO NEGRO EM “O MOLEQUE RICARDO”

O homem sempre buscou conhecer a si mesmo; usou a arte como forma de expressar os conflitos da alma humana. A Literatura, sem dúvida, é o vínculo mais profundo do mundo irreal como o real, assim a mais verossímil.

Muitos autores exploram os mistérios da vida, as mazelas do ser humano. Entretanto, é na obra José Lins do Rego, escritor modernista, paraibano de Pilar, que faz parte da Primeira Geração do Modernismo, a chamada “Geração de 30” e produtor de vários livros, que viajamos nos problemas emocionais psicológicos do personagem protagonista que leva o nome do romance “O Moleque Ricardo.” Neste, o escritor pilarense põe em relevo os conflitos espirituais de Ricardo, retratando com maestria as sequelas psicológicas da escravidão, já abolida no Brasil na época.

O romance aborda essencialmente o sentimento de inferioridade que o personagem aqui em estudo tem. Ricardo é caracterizado como um menino negro, morador do Engenho Santa Rosa e serviçal do senhor de engenho, o Coronel José Lins.

Ricardo cresce achando-se “menor” que os brancos: “nasceu para ser menor que os outros” (42). Este personagem se revela submisso, apesar de ser livre, pois a liberdade não o levara a crescer sentindo-se igual perante os brancos, mas aprisionado na história de seus antepassados, na figura da preta Avelina, sua mãe. É um ser passivo mediante à sociedade que o agride.

Essa passividade do moleque é resultado do início da escravidão onde os colonizadores fizeram uso de um artifício repugnante, pois afirmavam que os negros eram humanos inferiores, ignorantes. Esta era uma estratégia para alienar o negro, dominá-lo, explorá-lo e usufruir suas riquezas. Este fator vem sendo ainda interpretado mesmo de modo implícito, apesar de tantos movimentos sociais que lutam contra o preconceito racial. Mas, é daí, dos tempos primórdios, que o negro já era marginalizado e tido como “coisa”; um ser desprovido de sentimentos, Segundo Kabengele “O negro era sinônimo de ser primitivo, inferior, dotado de uma mentalidade pré-lógico.” Essa com certeza, foi a mais cruel das humilhações sofridas pelo negro, pois deixou marcas muito mais profundas que as chibatadas nos troncos, uma vez que a ferida cravada na alma é muito mais difícil de curas, podemos constatar este fato no comportamento de Ricardo:

“Mais tarde viu que não valia nada mesmo”.(42)

“Negro era bicho de serventia”.(43)

Ricardo quando pequeno deveria estar brincando, mas estava sendo sufocado pelos pejorativos negativos, bombardeado como milhões de outras crianças negras pela fala dos brancos com informações preconceituosas. Isso o fez entulhar na memória o lixo social. Verdadeiramente influenciou a personalidade do moleque, fazendo-o muitas vezes excluir-se do meio social, talvez como uma forma de proteger-se ou punir-se.

O escritor José Lins do Rego explana o psicológico de Ricardo de modo brilhante, pois o personagem não é apenas um negro, mas um indivíduo que sente e sofre por ser discriminado ainda na infância.

“(...) Andava pelo mato, espetando os pés atrás do gado, Em casa, mãe Avalina botava jacá e pronto. Não se falava mais nisto. E, no entanto, quando Carlinhos ralava o joelho na calçada, corria gente de todo canto da casa. (...) Ricardo só podia sentir essas cousas. Ele tinha uma alma igual à dos outros. (...) E apesar disso, quando o outro crescesse, seria dono, e ele um alugado como os que via na enxada. Não tinha raiva de Carlinhos, por isso, mas sentia inveja, vontade de ser como ele, andar de carneiro e poder comprar gaiola de passarinho, de não ter obrigação nenhuma”.(43)

José Lins do Rego batizou a obra com a palavra torpe “Moleque”. Na narrativa, o negro só é útil como fazedor de mandado, o “burro-de-carga”.

“Mas Ricardo gostava da vida. Trabalhava de manhã à noite, varria a casa, fazia as compras, ia de lata na cabeça buscar água, comprava bicho para a patroa, E até sonhava para ela”.(40)

Assim, por muito tempo, viveu o negro à margem da sociedade branca, porque não dizer que ainda vive, sendo tachado de preguiçoso, retardado, perverso, ladrão e fracos moralmente. Quantos Ricardos não saem do mundo fictício da literatura e estão presentes de carne e osso nas favelas brasileiras, na exploração do trabalho infantil no campo.

José Lins foi sapientíssimo, quando, através dos seus escritos soube explorar a psicologia humana, manifestando como as informações negativas na vida pueril desencadeiam-se na vida adulta. Pois, segundo Cury: “no recôndito da alma, muitos vivem uma vida poluída e ansiosa e não demonstram. Tornaram-se especialistas que disfarçar sua dor”.(CURY, 2006, P. 25). Portanto, é na infância que os sentimentos devem ser cuidados e protegidos, porque as palavras e ações apresentarão resultados mais tarde, seja positivos ou negativos. Se a escola da vida ensina o negro a defender-se, é na escola formal que o negro deveria libertar-se das algemas do passado e construir sua identidade como ser humano. Mas, infelizmente a escola, assim como muitos professores são estão preocupados em prepará-lo para a vida, mas colocá-lo numa “universidade”, quando segundo Cury “deveria ser ensinada o gerenciamento das ideias, proteger a emoção, trabalhar perdas, superar as crises existenciais”.

A Educação em “O Moleque Ricardo” era negada à molecada que, privados da escola tradicional tinham apenas, o aprendizado colonizador.

“O que aprendeu num ano que passou na escola, nada lhe valia. Deu somente para lhe abrir uma brecha para o mundo, para a vida. Ninguém passava por aquela brecha tão estreita”.(43)

A sociedade é perversa com o negro, pois se apresenta com características sociais e culturais, promovidas pela desigualdade entre brancos e negros. Podemos afirmar,então que no Brasil e no mundo, o racismo é uma sobrevivência da escravidão, pois esta desapareceu como instituição, no entanto permaneceu o racismo como sobrevivência cultural. A sociedade descaradamente nega o direito do negro, ter uma vida digna e feliz. Poucos se sobressaem no campo financeiro, mas assim mesmo são vítimas de olhares desconfiados. Muitas vezes, o próprio negro se priva do direito de participar ativamente da vida social, não por querer, mas pelo medo da rejeição. Em “O Moleque Ricardo”, o personagem Seu Lucas é vítima desse tipo de alienação:

“Para que negro metido em sociedade? Tudo aquilo era para seu Lucas uma invenção do diabo”.(81)

Seu Lucas representa a religião africana na obra linsdoregueana. Esse personagem era o pai de santo que depositava suas esperanças de resolver seus conflitos emocionais, através do sobrenatural, já que também era negro e consequentemente vítima do preconceito não apenas racial, mas religioso.

“Um dia o coração de Deus se amoleceria e os negros seriam mais felizes ainda,”(82)

3 PARA CONCLUIR

No cotidiano escolar, percebemos que a escola atual, por mais que se diz estar preparada para acolher a criança negra, na verdade não está. Essa problemática começa a partir do professor que não se encontra apto emocionalmente para educar estas crianças; crianças que já vêm à escola com um histórico de preconceitos nos ombros.

Percebemos que existe todo um movimento contra a discriminação racial, no entanto, não há um movimento de se trabalhar a questão psicológica da criança, preparando-a para a sociedade. 

A pretensão de abordar o tema em questão deu-se pelo fato de resgatar a criança negra, não apenas no aspecto formal da história, mas, sobretudo, no aspecto emocional. Pois, é o fator emocional que irá determinar como esta criança se comportará e sobreviverá diante da sociedade preconceituosa.

4 REFERÊNCIAS

COUTINHO, F. Eduardo. A terra é quem manda em meus romances – Reportagem de Clóvis de Gusmão, in José Lins do Rego. Coleção Fortuna Crítica: Civilização Brasileira – Edições FUNESC, João Pessoa - PB.

CURY, Augusto. Pais brilhantes, professores fascinantes. Sextante, Rio de Janeiro, 2003.

______________, Treinando a emoção para ser feliz. Academia de Inteligência. São Paulo, 2001.

FREYRE, Gilberto. Sobrados e Mucambos, 11ª tiragem. Rio de Janeiro: Record, 2000.

GUERRA, Linaldo de Souza, Pilar, resenha para uma história. - texto encadernado, 1997 – 13p.

SILVA, Lucimário Augusto da. Pilar – Da Aldeia Cariri aos nossos dias (1758-2007), 2ª Ed. João Pessoa: F&A Editora, 2007, 168 p.

MARTINS. Iguatemy Maria de Lucena. Cultura Popular. João Pessoa, UFPB, ed. Universitária, 1994.

MOISÉS, Massaud. A Literatura Brasileira através dos textos. Cultrix – 24ª ed. São Paulo, 2004.

MELO, José Octávio de Arruda. História da Paraíba – Lutas e Resistências: A União Editora, João Pessoa, 1994.

MUNANGA, Kabengele. Negritude, Uso e Sentidos. São Paulo: Ática, 1986, .09.

PINTO, Luís. Fundamentos da História e do desenvolvimento da Paraíba /Luís Pinto. Rio de Janeiro: Editora Leitura S. A, 1973.

________________, Síntese Histórica da Parayba 1501-1938. –Imprensa Oficial – João Pessoa – Parayba, 1938.

REGO, José Lins do, José Lins do Rego / Seleção de textos, notas, estudos biográficos, histórico e crítico e exercícios, por Benjamin Abdala Jr. – São Paulo: Abril Educação, 1982. Literatura comentada.

________________, O Moleque Ricardo. José Olympio Editora – 24ª ed. – Rio de Janeiro, 2004.

_____________________________________________________

01  Fonte: Diário do Estado/ Paraíba. "Ligeiros traços", 15 de fevereiro de 1919.


Publicado por: Lucimário Augusto da Silva

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
DEIXE SEU COMENTÁRIO
PUBLICIDADE
  • SIGA O BRASIL ESCOLA
MeuArtigo Brasil Escola