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Gêneros Discursivos: importância no Ensino da Língua Portuguesa

Português

Saiba mais sobre a importância no Ensino da Língua Portuguesa e os Gêneros Discursivos.

No que diz respeito à ao ensino de Língua Portuguesa, nos diversos níveis, a discussão sobre a possibilidade ou não de ensinar ou utilizar métodos que trabalhem tendo como base os Gêneros do Discurso, tem causado incômodo entre acadêmicos, intelectuais e outros envolvidos no processo ensino/aprendizagem. A reflexão sobre o tema tem sido constante, como podemos ver se nos dispusermos a analisar os anais de um dos congressos mais importantes do Brasil, realizado pela Associação Brasileira de Linguística (os anais podem ser acessados através da página da entidade). A preocupação não é desnecessária, vez que após a publicação do Parâmetro Curricular Nacional de Língua Portuguesa – PCN tem dado deixa para o ensino dos gêneros discursivos.

Não se pode negar o avanço que o PCN trouxe ao propor o ensino de Língua Materna através do viés enunciativo-discursivo, mas de fato há certa característica de didatização ou escolarização dos gêneros do discurso, entretanto tal fato não se coaduna com a teoria e os ideais bakhtinianos, que são sua base teórica.

Bakhtin e os Gêneros do Discurso:

Considerado um dos maiores intelectuais, no que se refere a gêneros, Bakhtin defende que os gêneros discursivos resultam em formas-padrão “relativamente estáveis” de um determinado enunciado, estas formas seriam determinadas sócio- historicamente. Assim, nossa comunicação, seja ela escrita ou falada, é feita através de gêneros do discurso, os quais cada sujeito teria infindáveis repertórios de gêneros, não sendo, na maioria dos casos, nem mesmo percebidos por seus “usuários”. Vale ressaltar, que os gêneros estão presentes tanto nas conversas formais, quanto nas informais, de acordo com Bakhtin, “quase da mesma forma que nos e nós é dada a língua materna, a qual dominamos livremente até começarmos o estudo da gramática (200:282)”.

Os gêneros sofrem modificações de acordo e em consequência do momento histórico no qual estão inseridos, assim podemos compreender que cada situação social dá origem a um gênero com suas próprias peculiaridades. Se compreendermos que existem infinidades possibilidades de situações comunicativas, entenderemos que existem também inúmeras possibilidades de gêneros, logo seu número será ilimitado, como afirma Bakhtin,

“a riqueza e a diversidade dos gêneros discursivos são ilimitadas, porque as possibilidades de atividade humana são também inesgotáveis e porque cada esfera de atividade contém um repertório inteiro de gêneros discursivos que se diferenciam e se ampliam na mesma proporção que cada esfera particular se desenvolve e se torna cada vez mais complexa (Bakhtin, 1986:60)”.

Conforme o surgimento e transformação das mais diversas esferas sociais, diversos novos gêneros surgem e até mesmo se modificam em prol e em consequência das mesmas. O autor afirma, “Essas palavras dos outros trazem consigo a sua expressão, o seu tom valorativo que a assimilamos, reelaboramos, e reacentuamos (2003:295)”. Todorov também já afirmava algo parecido, antes de Bakhtin, como podemos ver na afirmação,

um novo gênero é sempre a transformação de um ou de vários gêneros antigos: por inversão, por deslocamento, por combinação. Um “texto” de hoje (também isso é um gênero num de seus sentidos) deve tanto à “poesia” quanto ao “romance” do século XIX, do mesmo modo que a “comédia lacrimejante” combinava elementos da comédia e da tragédia do século precedente. Nunca houve literatura sem gêneros, é um sistema em contínua transformação e a questão das origens não pode abandonar, historicamente, o terreno dos próprios gêneros: no tempo, nada há de “anterior” aos gêneros (1980: 46 – grifo nosso)”.

Aqui vale lembrar, que a habilidade linguística de uso dos diversos gêneros está ligada ao domínio da língua. Portanto, quanto maior for o conhecimento e domínio linguístico do sujeito, maior será a facilidade de reconhecer e empregar os gêneros.

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Bakhtin (2003), afirma que é a vivência das mais diversas situações comunicativas que possibilita o contato com uma maior diversidade de gêneros, tal fato é um exercício para a competência linguística do sujeito produtor de enunciados. Kress (1985), também já afirmava algo parecido, quando dizia que, o discurso é constituído através de,

“(...) jogos sistematicamente organizados de declarações que dão expressão aos significados e valores de uma instituição. Um discurso provê um jogo de possíveis declarações sobre uma determinada área... Nisso provê descrições, regras, permissões e proibições sociais e ações individuais”.

Assim, é esta competência de cada interlocutor que determina o que ou não aceitável dentro de cada prática e esfera social, logo quanto mais experiência comunicativa o sujeito tiver, mais habilidade o mesmo irá possuir em reconhecer e diferenciar os gêneros discursivos, assim como o seu uso em de acordo com cada situação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Finalizando nossos questionamentos e levantamentos, chamamos a atenção ao trabalho realizado em sala de aula, utilizaremos a indagação de Street:

“por que em meio a tantos gêneros e a tantas práticas de letramento apenas um deles - o gênero do discurso argumentativo de viés científico - veio a adquirir o estatuto de prestígio de que desfruta em nossa sociedade?”, (Apud MARTINS, 2007: 09).

Quando se trata de utilizar e trabalhar gêneros do discurso em ambiente escola, a metalinguagem é, inicialmente, relacionada às tipologias discursivas, ou seja, reconhecer as características mais recorrentes ou típicas de cada tipo de gênero, considerando as marcas presentes em cada estilo.

Salientamos que essas classificações são muito difíceis de reconhecer e categorizar, conduzindo a idealizações, principalmente no momento atual, em que vão se tornando cada vez mais correntes as diferentes hibridizações e transposições de características de dada modalidade textual para outro tipo de texto, assim como as diferentes assimilações de um gênero dentro de outro, como pode ser o caso do texto de propaganda que incorpora em seu interior uma cartinha pessoal ou um bilhete, sem que, nesse movimento, deixe de pertencer ao gênero propagandístico (MARTINS, 2007).

Todavia, além de simples categorizações, é necessário refletir em conjunto com os alunos sobre as questões ideológicas e até mesmo de poder, que podem ser notoriamente percebidas (após análise, claro) nos diferentes tipos de gêneros, sendo esses fenômenos mais visíveis em certos textos – como propaganda, denúncia– porém não se resumindo a eles. Desta maneira o processo de ensino/aprendizagem passa a ser dinâmico e processual.

Neste estudo elencamos diversos questionamentos e para compreendermos e de certa forma responde-los recorremos à teoria de Bakhtin, do que se trata sobre os gêneros do discurso e acreditamos que o trabalho com gêneros do discurso será possível sempre que se amplie o contexto do trabalho escolar, que para dar conta desse desafio necessita, no mínimo, não se resumir apenas à sala de aula, buscando outras motivações para uma prática de linguagem e de letramento mais efetiva e sujeita a flexibilizações.

Considerando que os Parâmetros Curriculares Nacionais foram elaborados com o objetivo de, "criar condições, nas escolas, que permitam aos nossos jovens ter acesso ao conjunto de conhecimentos socialmente elaborados e reconhecidos como necessários ao exercício da cidadania" (PCN, 1998: 5).

Resta-nos saber se tal documento que “alega” ser resultado de um projeto moldado sob o viés teórico de Bakhtin considera o dialogismo da linguagem, o caráter social que tais atividades adquirem ao se considerar cada situação de aprendizagem como um enunciado, em uma cadeia enunciativa, onde o receptor não é um ser passivo.


Publicado por: Ricardo Santos David

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Meu Artigo. O Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.