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O povo do abismo, Jack London:um ensaio crítico

Literatura

Jack London nasceu em São Francisco, EUA, no dia 12 de janeiro de 1876, com o nome de John Griffith Chaney.

O Autor

Jack London nasceu em São Francisco, EUA, no dia 12 de janeiro de 1876, com o nome de John Griffith Chaney. Seus pais, Flora Wellman e William Chaney não eram legitimamente casados e não viviam juntos. Chaney, advogado e jornalista que se tornou reconhecido nos Estados Unidos através de seus conhecimentos de Astrologia, chegou e contestar a paternidade do garoto.

Oito meses depois, Flora casou-se oficialmente com John London ,um já debilitado veterano da Guerra Civil. Jack receberia depois o sobrenome London de seu padrasto. Devido à frágil condição de saúde de sua mãe, foi criado por sua ama-de-leite, a ex-escrava Virginia Prentiss, que representou para ele a figura materna durante todo seu processo de crescimento.

O nome Jack teria sido adotado por ele durante sua adolescência, como um pseudônimo.

A instabilidade presente em sua vida não foi somente afetiva, mas também financeira. Jack teve de interromper os estudos para trabalhar, e exerceu diversas atividades, como entregador de revistas, pescador de lagostas e patrulheiro marítimo. Seus estudos só puderam ser retomados quando ele já completava dezenove anos.

Mesmo longe da escola nunca deixou de ler nas horas livres, pois a experiência de ganhar o livro

The Alhambra de Washington Irving aos oito anos de idade de sua professora primária marcou-o profundamente.

A dificuldade financeira chegou ao extremo quando seu padrasto foi atropelado por um trem, perdendo todas as condições de trabalhar. Jack passou a trabalhar numa fábrica de enlatados na região do Estuário, para a qual sua família havia se mudado. Sua remuneração era tão baixa, que nem mesmo com turnos que superavam dez horas diárias ele conseguia sustentar sua família.

Acabou por familiarizar-se com a atividade de saque feita pelos "piratas" na região costeira, que consistia em invadir propriedades de criação de ostras, roubá-las e vendê-las por um preço mais elevado em lugares mais distantes.

Comprou um barco com a ajuda financeira de sua ex ama de leite, e passou a ter como rotina o saque das criadoras de ostras, atividade esta que foi bem mais lucrativa do que a que realizava até então. Em seu tempo livre, lia livros emprestados da biblioteca pública de São Francisco.

Entrou para a Patrulha Marítima de uma forma nada convencional: após embriagar-se e atirar-se ao mar com a intenção de suicídio, foi encontrado e convidado para fazer parte do corpo de patrulheiros.

Conhecendo minuciosamente a atividade dos saqueadores, passou a trabalhar para a Patrulha Marítima, no combate a esta atividade. Foi desestimulado pela corrupção existente neste serviço e abandonou seu cargo.

Sua família mudou-se então para Oakland,onde Jack passou a trabalhar numa fiação de juta, recebendo um dólar por dia trabalhando; seu turno era de dez horas por dia. A fiação

também empregava crianças de menos de dez anos de idade, com um salário ainda menor: 30 centavos por dia.

Neste momento de sua vida, passou a escrever textos, e no ano de 1893 seu texto

Story of a Typhoon at the coast of Japan ganhou um prêmio de 25 dólares no jornal San Francisco Call. Desde então, passou a enviar vários de seus escritos para jornais e inscrever-se em vários concursos, todavia ficou por um tempo sem conseguir êxito algum.

Precisou encontrar um emprego com um salário razoável para poder sustentar sua família; empregou-se então numa usina de força da estrada de ferro de Oakland. Sua competência era tamanha que dois empregados, um do período diurno e outro do período noturno, foram demitidos por sua causa, o trabalho deles havia tornado-se desnecessário. Um deles teve uma grave depressão e terminou sua vida com um suicídio.

Este fato marcou a vida de Jack London intensamente, e levou-o a repensar as condições precárias de trabalho às quais os trabalhadores estavam sujeitos, passando a ter horror desta situação. Decidiu que teria duas escolhas para não se ver dentro deste problema: o suicídio ou a vagabundagem. Escolheu então a segunda opção.

A luta dos trabalhadores por emprego e por condições dignas era uma realidade na época; grandes grupos organizavam manifestações constantemente. Uma delas, organizada na primavera de 1894 foi liderada por Jacob Sechler Coxley e consistia numa marcha até Washington, revindicando que o governo emitisse 500 milhões de dólares para gerar fundos ao combate do desemprego.

Os trabalhadores formavam milícias por todo o país, sendo que a maior delas surgiu no estado de São Francisco, liderada por Willian Baker e Charles T. Kelly. Jack alistou-se nesta milícia, porém teve dificuldade em manter-se, pois as regras de conduta o incomodavam muito. Segundo Philip Foner, apesar de seu envolvimento com o social,Jack London apresentava traços muito grandes de individualismo.

Passou então a andar pelo mundo, tornando-se um morador de rua. Caminhava sem rumo e conhecia pessoas de diferentes faixas etárias que estavam na mesma situação do que ele.

Chegou a ser preso por "vadiagem", e esta experiência fez com que ele conhecesse como o sistema penitenciário norte americano realmente funcionava. Descobriu, por exemplo, que seus companheiros de cela não tiveram a chance de serem ouvidos por um juiz, o que ia contra as leis mais corriqueiras da justiça.

Depois de sair da penitenciária, passou a ter um contato intenso com o socialismo, foi militante e escreveu para revistas do partido socialista. Os traços de sua crença no comunismo como sistema ideal é nítido em suas obras.

Deixou o partido pouco antes de sua morte, por acreditar que a classe trabalhadora não combatia mais por aquilo que acreditava.

Nunca deixou de escrever, era um escritor ávido que costumava passar dias dedicando-se inteiramente à sua atividade. Interessava-se pelo território das guerras e das revoluções; acreditava firmemente na existência de um poder escondido por trás da democracia.

London tinha como esperança mudar o mundo através de suas palavras. Jonas Raskin, em seu livro

The Radical Jack London considera-o como o Ernest Hemingway e o Norman Mailer de seus dias, além de dar a ele o título de pai do Jornalismo Gonzo, que posteriormente teria como figura mais representativa Hunter Thompson.

Em seus escritos, geralmente suas experiências estavam misturadas a fatos ficcionais, o que levou- o a conquistar o título de "autor elusivo", pois confundia sua própria história com lenda.

Tornou-se um autor reconhecido em sua época, rico e autor de mais de cinquenta livros. Sua obras

Tacão de Ferro,O Povo do Abismo,Caninos Brancos e O chamado da selva tiveram grande número de leitores.

Morreu devido à uma overdose de morfina durante uma crise renal, em 22 de novembro de 1916.

Sua história tem vários momentos obscuros, em que não se tem informação. Uma linha de biógrafos afirma que London cometeu suicídio.

O povo do abismo

O livro O povo Do Abismo (The people of the abyss), foi publicado no ano de 1903, pela editora Macmillan. Nele, Jack London narra suas experiências vividas em sete semanas no East End londrino, local que recebe do autor o nome de abismo, onde a miséria, exclusão social e as precárias condições de trabalho eram uma dura realidade da classe proletária.

O abismo era um lugar pouco conhecido pelos que não habitavam lá, entretanto muito temido. Os amigos do autor tentaram fazê-lo desistir de sua viagem, assim como vários londrinos hesitaram em levá-lo até lá.

Para conviver com o povo, não se colocou na condição de entrevistador, mas fingiu ser um marinheiro americano desempregado. A experiência de fingir-se um personagem era algo comum a Jack devido às diversas atividades que teve em sua juventude, por isso, em meio aos mais de cinquenta livros publicados pelo autor, foi considerado seu favorito, pois segundo ele, "nenhum outro trabalho tocou tanto seu jovem coração e arrancou-lhe tantas lágrimas como o estudo da vida dos miseráveis de Londres"

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KERRANE e YAGODA,The art of fact, p.83

Apesar desta declaração apaixonada, o livro é dotado de um "realismo grotesco" e a compaixão do autor em relação ao povo não é característica da obra.

O objetivo era apresentar um panorama da exploração proletária no coração do grande Império britânico. Por ser de cunho socialista, aproveita este estudo para fazer duras críticas ao sistema capitalista, apresentando exclamações e comentários exaltados, como afirma Maria Betti, devido à sua empolgação por um assunto pelo qual sempre se interessou muito.

A obra pode ser considerada uma reportagem social, pois o autor faz um estudo profundo da situação dos trabalhadores, não apenas registrando o que viu, ouviu e viveu, mas há também relatos de indivíduos, reunião de estatísticas, documentos e fragmentos de diversos jornais, com o intuito de fazer um panorama completo da situação.

Por outro lado, é também um relato pessoal de sua viagem ao império britânico, pois a narrativa é em primeira pessoa e ele pode ser considerado o personagem principal.

A narrativa é baseada nos relatos das pessoas do East End, na experiência do autor e nas críticas ao sistema governamental, apoiada em dados estatísticos.Em cada capítulo há um detalhe do abismo:as pessoas, os lugares e os costumes.

Ao longo do livro, há várias críticas ao capitalismo, mediante a uma apresentação minuciosa da situação precária de vida dos trabalhadores ingleses. Não deixa de ser uma forma de por em xeque a glória e beleza do Império Britânico, capital financeira da época.

Há riqueza de detalhes, com a finalidade de que o leitor que nunca passou por nenhum sofrimento parecido possa situar-se no repugnante contexto do abismo.

Grande parte da crítica recebeu o livro O Povo Do Abismo de maneira desfavorável, por considerar que faltava "dignidade literária" no escrito. Entretanto, o livro fez com que ele obtivesse maior destaque no movimento socialista americano e em março de 1904 o livro passou a publicado em forma seriada em Wilshire.

Os antecessores

Dois precursores britânicos de Jack London que podem ser citados são de Willian Booth e James Greenwood’s. O primeiro, autor de

In Darkest England (1890) e fundador do exército da salvação afirma que a vida no interior de Londres era um mistério proibido e pouco e explorado. Já o segundo, em seu livro A Night in a Workhouse(1866), defende que só é possível adentrar no submundo da sociedade disfarçado, não numa condição de entrevistador ou de pesquisador.

Uma escritora americana, Elisabeth Jane Cochran pode também ser considerada como antecessora de London. Com o pseudônimo de Nellir Bly, fingiu insanidade para conseguir adentrar a um hospício e realizar um trabalho de exposição dos abusos que ocorrem neste local, compondo a obra

Ten Days in a Med house(1887)

Desde 1873, os trabalhadores encontravam um cenário de exploração e desumanização do trabalho cada vez pior, por isso, interessar-se pelo social era cada vez mais propício aos escritores. O período era de instabilidade na economia, o número de desempregados era elevado, e aqueles que possuíam emprego também não tinham uma situação muito melhor, os salários eram baixos. O trabalho infantil também era uma realidade. Logo, o momento propiciava subsídios para autores que desejassem se aprofundar neste assunto.

Foi a partir daí que escritores como Stephen Crane e Frank Norris passaram a demonstrar interesse pela situação do proletariado.

Um motivo que pode ser apontado para o não interesse dos escritores norte-americanos pelo realismo é o de que os livros de Zola, Flaubert e Tolstoi, que apresentam o realismo social, não tinham sido traduzidos antes de 1890, por serem considerados imorais e pessimistas.

London difere-se dos demais escritores, pois mergulha de forma mais profunda e intensa no submundo sobre o qual escreve, e diferentemente de seus antecessores, soube na pele o que era ser pobre e viver em condições econômicas adversas, conheceu de perto o mundo sobre o qual se propôs a escrever, além de ter um envolvimento socialista, que não se deu pelo seu contato com textos teóricos, mas sim com sua proximidade e participação na classe proletária.

O teor da narrativa

A narrativa, longe de ser uma obra permeada de compaixão, é dotada de uma realidade grosseira. O autor sempre admirou o Império Britânico, entretanto, ao conhecer o East End, se depara com uma realidade que afirma ser mais selvagem que a pré-histórica. Uma hipótese é a de que esta agressividade utilizada na linguagem seja fruto de um espanto e exaltação diante dos horrores que encontrou no abismo, ou seja, sua surpresa diante de uma realidade tão soturna no coração do que na época era um glorioso Império.

Suas descrições apresentam adjetivos nada piedosos; logo no começo, ao descrever sua trajetória ate a casa de Johnny Upright, cuja casa serviria a ele de porto seguro, descreve as pessoas que estavam nas ruas como gente "desprezível e suja".

A criada deste homem é chamada por ele de "besta de carga", e afirmado que a condição dela era lamentável e desprezível, além de dizer que seu jeito era desgrenhado e atrapalhado.

As filhas do Sr. Upright são descritas como dotadas de uma beleza Cockney: "Que não é mais do que uma promessa atemporal, fadada a desaparecer rapidamente como as cores do céu ao entardecer" (p.83).

Os pobres são apresentados como pessoas repugnantes, "regadas à cerveja" e imersas na brutalidade e imoralidade, cujas vidas são baseadas somente no material, naquilo que é necessário para sobreviver; consequentemente as virtudes e valores são deixadas de lado.

No capítulo cinco, chamado "Aqueles que estão à margem", London afirma que o povo vive sempre em situação de necessidade, pois apesar de exigir muito pouco da vida, recebe ainda menos do que exige, o que é completamente insuficiente: "o povo do abismo exige tão pouco que menos que esse pouco que conseguem não é suficiente para salvá-los". Por esta razão, para ele, o povo não tem criatividade nem noção de progresso, a vida tornou-se, devido às condições, uma eterna inércia.

Se o panorama da vida dos pobres é extremamente ruim, os mais abastados do East End não são de modo algum poupados dos comentários ácidos do autor. Ao perder a visão genérica do abismo e passar a prestar atenção nos detalhes que o circuncidava, London percebeu que aqueles que tinham uma situação econômica um pouco melhor eram felizes e sorridentes. Longe de achar beleza nisto, afirma que "na melhor das hipóteses, (esta é) uma felicidade estúpida, animalesca, um contentamento devido à mera sensação de barriga cheia (...) são estúpidos, pesados e sem imaginação". (p.103)

Até mesmo aqueles que possuem um espírito revolucionário, que poderiam causar certa simpatia no escritor, são considerados estúpidos.

No capítulo oito, denominado "O carcereiro e o carpinteiro", o autor presencia uma discussão de alguns indivíduos sobre revolução, e não demonstra apoio nem animação por ter contato com uma atitude gênero, mas considera, exaltadamente, os indivíduos como dotados de pensamentos utópicos e anarquistas, que jamais se concretizariam.

Pobres idiotas! Não é com gente assim que nascem as revoluções. Quando estiverem mortos e reduzidos a pó, o que não vai demorar, outros idiotas falarão de revolução sangrenta enquanto catam detritos da calçada encharcada de cuspe.(p.127)

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A zoomorfização

Ao longo de todo o texto, o autor faz questão de ressaltar o quanto as condições de vida do povo do abismo retiravam deles a humanidade. Para isto, usa o recurso da zoomorfização, muito usado no naturalismo de Zola, o qual consiste na constante comparação dos indivíduos com animais.

A brutalidade, somada à ausência de valores, são os valores psíquicos destacados como selvagens. No que diz respeito ao físico dos indivíduos do abismo, também apresentava, segundo London, características não humanas, que se assemelhavam mais aos animais.

Estas pessoas seriam dotadas de grande força, porém não provinda de músculos bem desenvolvidos, mas sim de uma selvageria pré-histórica, os "selvagens urbanos", que não pensam duas vezes antes de matar por causa de uma moeda.

Logo que chega ao abismo, as primeiras impressões do autor já apresentam este recurso, as crianças são comparadas às moscas:

Enquanto crianças, como moscas que rodeiam um monturo de frutas apodrecidas, mergulhavam os braços até a altura dos ombros num líquido putrefato de onde retiravam nacos deteriorados, que eram devorados ali mesmo. (p.76)

O movimento de deslocamento dos indivíduos de um lugar a outro são descritos como animalescos, o trabalho em excesso e em péssimas condições retira deles as características de um humano. No capítulo 19 chamado O Gueto, o autor diz que os trabalhadores, depois de um dia de jornada de serviço, não caminham para suas casas, mas "rastejam pra suas tocas".

É no capítulo 24, Uma visão da noite, que os exemplos de zoomorfização podem ser notados de forma intensa. Jack passa uma noite nas ruas de East End, e depara-se com uma realidade terrível e soturna, um cenário de degradação moral,marcado sobretudo pela prostituição e embriaguez.

Os gêneros dos seres que avista são designados não como masculino ou feminino, mas "macho" e "fêmea". O som que emitiam, segundo ele, não era fala, mas sim um "rosnar feroz". As pessoas eram "bípedes vestidos" e os guardas "criaturas predadoras", aos quais ele temia como temeria um gorila.

Também o "habitat" destes seres animalescos era selvagem; as ruas e as casas transformam-se em campos de caça para eles, e as construções tem o papel que as montanhas teriam na natureza: "Os bairros miseráveis são sua selva, e eles moram e caçam na selva" (p.292).

Intervenções com o leitor

Assim como o autor se propôs a supostamente vivenciar a realidade do povo do abismo, propõe ao leitor que imagine sua vida no lugar de um trabalhador daquele lugar, como seria viver naquela rotina exaustiva de trabalho, diante de um cenário extremamente degradante.

Seu esforço e, descrever as sensações e os cheiros é, sobretudo uma tentativa de situar aqueles leitores que nunca tiveram nenhum tipo de experiência numa realidade como o East End.

Em vários momentos apresenta vocativos que explicitam a interlocução, em geral, estes são irônicos; "bem alimentado leitor", é um exemplo deles, numa tentativa de provar ao leitor o quão ignorante ele é em relação a sensações como passar fome e frio, e angústias, como a de não ter um lar e ter de passar a noite toda fugindo dos guardas.

Um recurso usado para que o leitor se imagine na condição das pessoas retradas por London é uso do futuro do pretérito, presente no oitavo capítulo:

Ah, gente bondosa e bem-nutrida, com camas alvas e quartos bem arejados à sua espera toda noite, como fazê-los entender o sofrimento de uma noite ao relento?Acreditem, pensariam que mil séculos se passaram do escurecer à alvorada, tremeriam até gritar com a dor sentida em cada músculo dos seu corpos, e ficariam espantados por resistir tanto e sobreviver. Se dormissem num banco e fechassem os olhos cansados, tenham certeza de que um policial os fariam levantar e grosseiramente, iria mandá-los "circular". (p. 126)

Jack diz que se o leitor passasse uma noite na condição dos londrinos, a vivência de oito horas equivaleria a uma Odisseia de Homero.

Como no exemplo citado acima, a ironia, presente em vários momentos, é um recurso que comprova o caráter ácido e crítico do texto, afastando as possibilidades de interpretação relacionadas a algum tipo de compaixão altruísta.

A bondade dos leitores é posta em dúvida constantemente, pois, ao invocar o "bondoso leitor", Jack deixa subentendido que, se fossem tão bons assim, provavelmente se envolveriam com este tipo de questão e não assistiriam simplesmente a tudo de maneira espantada.

Depois de contar toda a saga que é um dia de vida de um morador do east end, diz em tom irônico: "não pense nisto antes de dormir, se você for tão bondoso quanto deveria talvez você não consiga dormir como o faz a noite toda".(p. 153)

Este recurso também é usado para acentuar os horrores vividos pelo autor, muitas vezes sugerindo que os fatos não poderiam transcorrer de maneira pior.

No capítulo 9, o albergue noturno, London luta, junto a outros homens do abismo por um lugar para dormir. Durante a experiência, conhece muitos enfermos e em determinado momento, alguém resolve mostrar a ele uma pústula e estourá-la na sua frente: "para a sua felicidade espiritual"; posteriormente, ao narrar às condições dos albergues, diz que todos tiravam as roupas e amontoavam-nas num engradado, o que é um "excelente método para propagar insetos transmissores de doenças".(p.139)

Os filantropos também são alvo de ironia. Ao contar a atitude altruísta de um dos moradores do abismo, que consistiu em dar um pedaço de carne seu a uma velha que passava fome, London afirma que eles têm o que aprender com um povo tão rústico e miserável: "Ah, almas caridosas, ah, filantropos, venham no albergue noturno para aprender uma lição com Ginger".(p.170)

O determinismo e o darwinismo

O tom do texto é em suma pessimista. Não são propostas soluções, a esperança de que algo mude não faz parte do discurso do autor. Pelo contrário, ele crê que dificilmente as coisas poderão ser alteradas, porque há forças que exercem influência sobre aquele povo.

A força do meio é destacada várias vezes como transformadora dos indivíduos; para London, o abismo é um "verdadeiro matadouro", no qual as pessoas chegam vigorosas e são destruídas. O ar poluído destrói a saúde, assim como a falta de alimento e as condições extremamente exploratórias e indignas de trabalho.

Além destes fatores, a imoralidade retira do homem que é jogado no abismo seus valores; para encarar a realidade de vida à qual é submetido, muitas vezes a única saída é a embriaguez e o suicídio.

O autor defende que não é possível haver um bom futuro diante das ações vivenciadas dia a dia por este povo. Ou seja, o texto é permeado pela teoria determinista: o meio molda o sujeito, a ponto de ele não poder escolher e decidir sobre si mesmo nem sobre seu futuro; tudo está determinado por condições pelas quais ele tem vivência, nada pode ser alterado.

O Darwinismo, teoria na qual Jack London acreditava também se faz presente na narrativa. Os moradores do East End são uma nova espécie resultado da adaptação a um ambiente inóspito e miserável. Como consequência, o povo é mais frio e mais duro, com características físicas que lhe são próprias e o diferenciam dos demais, como a baixa estatura, e não rigidez de músculos.

Para Jack, esta nova raça surgida em meio à fome e exploração está perdida;o autor chega a afirmar que passou a considerar imoral casar-se no abismo, pois não havia mais lugar para pessoas, e dar a vida á um novo ser, era causar sofrimento intenso a mais uma vida.

Quando se reproduzem, a vida que nasce deles é tão precária que forçosamente perece. Estão sujeitos à engrenagem do mundo, do qual não desejam e nem estão aptos a participar. Além do mais, o mundo não precisa deles. Há muitos homens muito mais aptos, que escalam a ladeira íngreme e lutam furiosamente para não escorregar.(p.101)

A Piedade

Ao contrário do que possa parecer, apesar de o autor, com a publicação do livro, desejar tornar conhecido ao mundo um panorama de "fome e miséria no coração do Império Britânico", a compaixão não faz parte da narrativa. Praticamente não existem cenas em que London resolve ajudar aquelas pessoas; não há registro de que ele volte naquele lugar depois do sucesso da publicação do livro para saber o paradeiro dos habitantes do abismo.

Ao publicar relatos de jovens que morreram devido às insalubres condições do serviço nas fábricas, como contaminação com metais pesados, no capítulo vinte, chamado A Precariedade da Vida, traços de piedade podem ate ser notados, entretanto,há como contestar e levantar a hipótese de que tais relatos estejam presentes com a mesma finalidade das tabelas e fragmentos de jornais: fornecer mais informações.

O envolvimento com o povo do abismo

Em sua obra, Jack desejou verdadeiramente mergulhar no abismo, conforme afirma no primeiro capítulo: "desejo descer ao East End e ver tudo com meus próprios olhos, quero saber como o povo vive por lá, por que vive lá e para que está vivendo. Em suma, quero ir lá viver com eles"(p.71)

O título do capítulo é "A Descida", como se o local ao qual fosse visitar pertencesse realmente à outra dimensão, a um verdadeiro submundo de condições adversas.

Ao chegar ao lugar, descreve os habitantes como indivíduos pertencentes a uma raça diversa da convencional humana, com um habitat inóspito e hábitos repugnantes:

"Mas a região que meu fiacre adentrava naquele instante era uma favela sem fim. As ruas estavam tomadas por uma raça nova e diferente de pessoas, de baixa estatura, aparência infeliz e na maior parte encharcada de cerveja (...) num mercado, velhos e velhas trêmulos, procuravam restos de verdura, feijão e batata podre em meio ao lixo lançado na lama, enquanto crianças, como moscas que rodeiam um monturo de frutas apodrecidas, mergulhavam os braços até a altura dos ombros num líquido putrefato de onde retiravam nacos deteriorados, que eram devorados ali mesmo".(p.76)

Destaca que é como de estivesse adentrando num novo mundo, sendo considerado um elemento estranho, pois vários maltrapilhos juntaram-se em torno dele na sua chegada.

Afirma a todo o tempo que não quis manter-se como um ser alheio e superior àquela espécie diferente: seu objetivo era fazer parte dela, por isso busca roupas e empenha-se em aprender os hábitos daqueles indivíduos. Chegou até mesmo a receber esmolas.

Sua semelhança com os demais levou os indivíduos a tratarem-no como igual, o que aumentou a intimidade e assim, por consequência, pôde obter mais informações sobre as histórias de vida.

Contudo, o recuso de fazer-se parecer um habitante do abismo não consegue anular a superioridade que sente por fazer parte do novo mundo e enxergar o declínio do Império Britânico. Sempre estabelece comparações entre os EUA e a Inglaterra, nas quais ele sempre procura apontar a superioridade do padrão americano.

É interessante apontar, que apesar de sua tentativa apaixonada de igualar-se ao povo, ele tinha um lugar para o qual voltar caso as coisas se tornassem difíceis, que era a casa do Sr.Upright. Logo, de forma alguma sua existência podia se igualar totalmente à daquele povo.

Não há um verdadeiro sentimento de "igualdade" com o povo do East End. Sua suposta equivalência é sobretudo aparente: nos costumes, nas gírias e nas roupas. Entretanto,

com seus adjetivos pouco singelos prova que considera-se diferente daquele povo, que eles são uma raça diferente da humana.

Comparações entre EUA e Inglaterra

As comparações entre América e Inglaterra tem início logo no capítulo dois. Ao descrever a rua mais asseada do East End afirma que nos Eua ela seria considerada miserável : "A rua mais respeitada do East End-uma rua que na América seria considerada muito miserável, mas que no deserto do leste de Londres é um verdadeiro Oásis"(P. 81)

Também compara o quarto que alugou no abismo, que no local poderia ser considerado o mais confortável do mundo, com os padrões americanos, que o considerariam pequeno e desconfortável.

Considera que os jovens ingleses jamais poderiam competir com os americanos, pois foram brutalizados e degradados pela condição de vida à qual estão submetidos no abismo. Por esta razão a Inglaterra está em decadência: grande parte de seus moradores não tem mais como lutar por ela. A única força que ela possui é a indústria e, "se a Inglaterra for expelida da órbita industrial do mundo, vão perecer como moscas ao fim do verão".

A comparação pode ser percebida de maneira intensa no capítulo 20, cafés e pensões baratas. London compara, primeiramente, o significado da palavra café. Enquanto na América a palavra diz respeito a algo óbvio, lugar onde as pessoas tomam café, no Est End elas fazem tudo, menos tomar café, pois segundo Jack, aquilo que chamam de café não pode sê-lo.

Continua dizendo que quando foi preso nos Eua por vagabundagem, recebeu melhor comida e bebida do que os trabalhadores londrinos possuem nos cafés. Sem querer apiedar-se do trabalhador londrino por esta péssima condição de alimentação, afirma que trabalhava mais e produzia mais que eles, então é como se uma coisa compensasse a outra.

O trabalho nos navios também é comparado:

Num navio inglês, dizem, o grude é ruim, a grana é ruim e o trabalho é fácil. Num navio americano, o grude é bom, a grana é boa e o trabalho é duro. Isso vale para a população trabalhadora de ambos os países.(p.250)

Assim como a carne, sobre a qual diz que os cachorros dos EUA alimentam-se do mesmo tipo de carne que as pessoas do East End.

Estas comparações, ao contrário de serem permeadas por piedade, numa tentativa de provar o quão ruim é a condição de vida dos ingleses se comparada a dos americanos, é primeiramente uma forma de demonstrar o quanto as condições nos EUA eram melhores do que as da Inglaterra.

As críticas feitas também podem ser consideradas uma forma de mostrar o quão inceficiente era o sistema britânico.

Além do mais, todo este trabalho ofereceu subsídios para que ele criticasse com mais consistência o capitalismo, visto que era socialista ativo.

Referências Bibliográficas

FONER, Philip.

Jack London, an american rebel. Nova York: Citadel Press, 1964.

LONDON, Jack.

O povo do abismo. São Paulo: Perseu Abramo, 2004.

RASKIN, Jonah.

The radical Jack London. California: University Of California Press, 2008.

STONE, Irving.

A vida errante de Jack London. Rio de Janeiro: José Olympio, 1941.

SOUZA, Carlos Augusto Hentges de.

London em Londres: Jornalismo, Literatura e o Abismo em 1900. 2006. 54 f. Monografia (Conclusão de Curso) - Ufrgs, Porto Alegre, 2006.

YAGODA, Ben; KERRANE, Kevin.

The art of fact. Nova York: Touchstone, 1998

http://london.sonoma.edu/


Publicado por: Júlia Maria Terra

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
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