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Literatura Portuguesa: a identidade multifacetada do personagem Malcom Lowry

Literatura

Análise do processo de fragmentação identitária sofrida pelo narrador-personagem Malcom Lowry, em Os Cus de Judas (1979) de Antônio Lobo Antunes.

RESUMO

O principal objetivo desta pesquisa é analisar o processo de fragmentação identitária sofrida pelo narrador-personagem Malcom Lowry, em Os Cus de Judas (1979) de Antônio Lobo Antunes. Para constituir o presente estudo foram utilizadas as ideias teóricas referentes aos estudos de literatura portuguesa de Gomes (1993), Guerra (2017), Hall (2005), Rosenfeld (2002) entre outros que contribuíram para a constituição desta pesquisa. O vigente trabalho tem por finalidade a seleção de trechos com recorte temático que se remetam ao processo da multiplicidade de identidades do narrador-personagem do já referido romance, e a análise desses trechos. O método de pesquisa empregado foi a de cunho bibliográfico, visto que foram realizadas seleções de trechos do romance Os Cus de Judas (1979) para a elaboração do corpus. Os resultados deste estudo nos possibilitam perceber como o processo de multifacetação de identidade acometeu o personagem Malcom Lowry no decorrer da narrativa do romance já citado, e de quão importante este texto literário se faz, a fim de denunciar a catastrófica Guerra Colonial Portuguesa.

Palavras-chave: Fragmentação. Identidades. Guerra Colonial. Literatura Portuguesa. Malcom Lowry.

Introdução

O presente trabalho se disponibiliza a analisar trechos que relatam a multiplicidade de identidade sofrida pelo personagem Malcom Lowry em “Os Cus de Judas” (1979), do escritor português Antônio Lobo Antunes. O romance é classificado como uma metaficção historiográfica, pois autor traz no texto fatos que aconteceram na Guerra Colonial Portuguesa e os convertendo em texto literário.

Quatro anos após a Revolução dos Cravos (1974), Antônio Lobo Antunes se viu em um momento de livre liberdade de expressão e decidiu escrever o romance Os Cus de Judas (1979), denunciando as atrocidades, torturas e assassinatos em massa que a guerra na África causou tanto nos colonizadores quanto nos colonizados.

Esta pesquisa tem como objetivo principal analisar trechos do romance Os Cus de Judas (1979), de Antônio Lobo Antunes, que se remetam às múltiplas identidades do personagem Malcom Lowry vividas na Guerra Colonial Portuguesa na África, visando a destacar as identidades que correspondam ao seu comportamento social, nacional e colonizador.

Para tanto, faz-se necessária a utilização da metodologia de cunho bibliográfico para a construção deste estudo, visto que serão retirados trechos do romance Os Cus de Judas (1979), de Antônio Lobo Antunes, e por meio dos recortes das citações selecionadas é que será desenvolvida a análise do presente estudo, tendo como ênfase a fragmentação das identidades do personagem Malcom Lowry.

O corpus deste estudo é constituído por trechos que foram retirados do romance Os Cus de Judas (1979), de Antônio Lobo Antunes, que se remeterão às múltiplas identidades do narrador-personagem Malcom Lowry, com ênfase nas personalidades social, nacional e colonizadora percebidas no decorrer da narrativa. Temos como aparato teórico as contribuições de Franco Jr (2009), Gomes (1993), Guerra (2017), Rosenfeld (2002) e demais que nos auxiliaram na construção desta pesquisa.

Guerra Colonial Portuguesa: experiência vivida por Antunes

Após o término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), as potências europeias se viram na obrigação imposta pela Organização das Nações Unidas (ONU) de abrirem mão de seus territórios coloniais para assim evitar um novo conflito em escala global. Diversos territórios na América, África e Ásia se tornaram independentes e alguns impérios perderam espaços territoriais e geopolíticos.

Houve resistências por parte de alguns destes impérios com relação à perda de territórios que serviam como colônias, o que ocasionou em diversos conflitos ao redor do mundo. É neste contexto que surge a Guerra Colonial Portuguesa, liderada pela ditadura salazarista do Estado Novo, para combater movimentos independentistas nas colônias africanas (Angola, Guiné-Bissau e Moçambique). Desse modo, Gomes e Afonso (2009) nos dão uma dimensão deste evento:

A guerra colonial em que Portugal esteve envolvido de 1961 a 1974 nos teatros de operações de Angola, Guiné e Moçambique apresenta muitos dos aspectos comuns aos conflitos que as potências coloniais europeias enfrentaram após a II Guerra Mundial. Mas a natureza ditatorial do regime de Salazar, a visão muito singular do mundo e da história que o seu mentor impôs como referências identitárias e as características da sociedade portuguesa fizeram deste conflito um caso à parte no processo global da descolonização. (GOMES e AFONSO, 2009, p.435)

Sob os comandos de Salazar, Portugal se empenhou numa guerra de longa duração com o objetivo de manter suas colônias no continente africano, e esse conflito pode mostrar ao mundo as catástrofes que foram cometidas no processo de resistência por parte dos colonizadores e dos colonizados, e o que o nacionalismo era capaz de fazer em nome do orgulho e bandeira de um império.

Diversos jovens soldados deixavam o seu país para irem combater em um local onde nunca estiveram antes. Foi o caso de Antônio Lobo Antunes, que serviu como médico militar do exército português no conflito, onde presenciou inúmeras atrocidades e assistiu a várias mortes de seus inimigos e aliados. E foi a sua ida para esse conflito que lhe inspirou a escrita de suas diversas obras.

Na verdade, as obras de Antônio Lobo Antunes podem ser interpretadas como uma denúncia ao massacre que acontecera no continente africano durante o conflito que ele presenciou. Ao escrever o romance histórico biográfico Os Cus de Judas (1979), o autor decide em uma narrativa densa, expor as suas aflições do conflito na estória vivida pelo personagem Malcom Lowry.

[...] o leitor toma contato com a brutalidade de uma guerra sem quartel e sem nobreza [...] António Lobo Antunes lança na face do leitor as misérias de uma guerra mais que suja: as iniquidades cometidas com os negros, a prostituição de crianças, o massacre das populações nativas, o consumo de drogas, o alcoolismo. Subverte-se aqui a tradição do relato de guerra – há de tudo em Os Cus de Judas e Fado Alexandrino, menos a explícita reportagem da batalha (GOMES, 1993, p. 97)

Mediante o fragmento acima, podemos então entender que o romance Os Cus de Judas (1979) pode ser compreendido como um texto de denúncia das atrocidades cometidas pelos portugueses aos diversos grupos étnicos que constituíam as colônias na África, e que o autor ao conviver com essas atrocidades decide narrar no texto literário, transcrevendo acontecimentos factuais para a ficção.

O local que Antunes estivera era de total desconhecimento do jovem médico militar e conviver com toda aquela inospitalidade o fez sentir grande angústia e tristeza com o que presenciava no conflito armado. Tentava, por meio de seus escritos, repassar todo o sentimento de estar numa guerra sangrenta, e que ele, segundo Guerra (2017), era:

Recém-chegado a Angola, as primeiras cartas que escreve após instalar-se na companhia carregam um registo assaltado de angústia, e o seu tom nos desarma pelas impressões de catástrofe tão súbitas, tão precocemente sentidas – encontra-se em plena zona de guerra. (GUERRA, 2017, p.174)

As experiências que Antônio Lobo Antunes vive em uma terra distante de sua pátria em um cenário caótico e turbulento lhe serve de inspiração para muitas de suas obras que tratam sobre a Guerra Colonial Portuguesa, e através dos textos, consegue repassar todo o sentimentalismo negativo que carregava consigo ao estar envolto de inimigos, cadáveres e assassinos/genocidas.

Através da literatura consegue se consagrar mais do que na área da medicina, tornando-se um dos escritores mais importantes vivos em Portugal, de renome dentro e fora de seu país, Antunes cria uma maneira inovadora de descrever os fatos que presenciou nas antigas colônias portuguesas no continente africano, cravando o seu nome entre os grandes escritores da língua portuguesa.

Malcom Lowry é personificado por Antônio Lobo Antunes?

Em Os Cus de Judas (1979), o narrador é o personagem principal da estória e o texto inicia-se com um regresso a sua vida infantil, narrando fatos sobre a sua vivência em um ambiente familiar e cheio de natureza. A regressão de fatos é algo recorrente no romance, que não segue uma linearidade de fatos e cujos capítulos não seguem uma ordem cronológica.

Malcom Lowry não deve ser interpretado como o próprio autor do romance, mas como um personagem que possui vida própria e que carrega forte angústia e a perca de esperança que adquire no ambiente de guerra tal qual a do próprio Antunes. Ou seja, por mais que se aproxime das características pessoais do autor, o narrador-personagem é um ser autônomo na narrativa e se dispõe a narrar a sua própria vida.

O narrador fictício não é sujeito real de orações, como o historiador ou o químico; desdobra-se imaginariamente e torna-se manipulador da função narrativa (dramática, lírica), como o pintor manipula o pincel e a cor; não narra de pessoas, eventos ou estados; narra pessoas (personagens), eventos e estados. E isso é verdade mesmo no caso de um romance histórico. (ROSENFELD, 2002, p. 26)

Em consonância com Rosenfeld (2002), é perceptível que no romance Os Cus de Judas (1979) o narrador-personagem é um ser autônomo, o qual narra a sua própria estória e que por mais que se assemelhe ao criador do texto, não tem relação com o próprio Antunes. Trata-se, portanto, de um sujeito criado pela ficção para descrever a sua vida, que também é uma ficção.

É de fundamental importância ao realizar a leitura de um texto literário fazermos a distinção entre autor e narrador do texto, pois a partir dessa percepção poderemos captar com mais exatidão a mensagem que determinada obra quer nos repassar. Por mais que o texto literário tente retratar algo da realidade, ele sempre será ficcional, tendo o narrador como um personagem e o autor uma pessoa real:

A primeira coisa que se deve saber sobre o narrador é que ele é uma categoria específica de personagem, e não deve, portanto, ser confundido com o autor do texto, por mais próximo que ele pareça estar deste. Autor, para ficarmos com uma simplificação extrema, é aquele que cria o texto e narrador é uma personagem que se caracteriza pela função de, num plano interno à própria narrativa, contar a história presente num texto narrativo.. (FRANCO JÚNIOR, 2009, p.40)

É exatamente o que acontece no romance escrito pelo autor Antônio Lobo Antunes, em Os Cus de Judas (1979), quando decide dar vida ao personagem-narrador Malcom Lowry, retratando a vida de um médico, de olhos azuis e que viveu a turbulência de ir combater inimigos em colônias portuguesas na África. Apesar das semelhanças, o romance narra a estória do personagem e não do próprio autor.

Por conseguinte, percebemos que o autor teve uma projeção da realidade para a produção do romance Os Cus de Judas (1979), possuindo regras próprias e dinâmicas próprias, tendo respostas que são obtidas através do próprio texto, passando-se em um cenário real e concreto, mas tendo o seu próprio universo ficcional da narrativa literária.

O processo de fragmentação identitária de Malcom Lowry

No início da narrativa de Os Cus de Judas (1979), é nos apresentada a identidade do narrador-personagem: médico português, olhos azuis, jeito reservado e criado em família tradicional. Através dessas características, podemos traçar o perfil de Malcom Lowry durante a sua juventude de um jovem com costumes e cultura que influenciaram a sua personalidade.

E a influência que o convívio familiar nos proporciona é da construção de uma identidade dependente de determinados costumes e valores que nos são repassados juntamente com a cultura e a religiosidade. Assim, constituindo a reprodução de uma identidade social que, segundo Hall (2005), é carregada de pressupostos familiares que a compõe:

A noção de sujeito sociológico refletia a crescente complexidade do mundo moderno e a consciência de que este núcleo interior do sujeito não era autônomo e autossuficiente, mas era formado na relação com “outras pessoas importantes para ele”, que mediavam para o sujeito os valores, sentidos e símbolos – a cultura – dos mundos que ele/ela habitava. (HALL, 2005, p. 11)

A interação do “eu” com diferentes sujeitos desenvolve uma identidade que vai se formando e se modificando de forma contínua. É por isso que no fragmento citado acima o autor fala a respeito dessa não autonomia de personalidade do sujeito que é criado em um ambiente de pessoas que ele considera importantes, e podemos entender a família tradicional como constituinte dessa identidade social.

Outra fragmentação identitária que fica perceptível no personagem Malcom Lowry no decorrer da leitura é a nacionalista. O sentimento de orgulho da pátria e das suas conquistas passadas sempre foi algo recorrente no povo português desde a época das grandes navegações, que ajudaram outros impérios europeus a explorarem o mundo, a aumentarem os seus territórios e as suas influências políticas.

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[...] a identidade nacional (é) composta por símbolos e representações que influenciam os cidadãos de uma nação [...] é manifestada no romance a partir das representações dos objetos, sua importância e disposição na casa da família tradicional portuguesa na qual o personagem cresceu [...] (VOGT E OZELAME, 2017, p. 132).

O nacionalismo é um dos traços mais marcantes das sociedades europeias, a ideia de superioridade patriótica é algo que já levou o mundo a tomar vários rumos ao longo da história. E de acordo com a citação acima, a identidade nacional é também desenvolvida a partir do tradicionalismo, lugar onde o personagem Malcom Lowry cresceu e a desenvolveu a partir do contato com o orgulho da família de serem portugueses.

E quando nos referimos à ideia de superioridade patriótica, é nos retomada a ideia de que a guerra colonial na África que Portugal estava disputando também vem da ideia de um nacionalismo exacerbado, logo a hegemonia portuguesa ante os colonizados era evidente. É a partir desse pensamento que surge a terceira identidade do narrador-personagem, a colonizadora, que para Santos (1994):

Em sentido menos técnico, pode dizer-se que durante muito tempo foi um país simultaneamente colonizador e colonizado. Em 25 de abril de 1974 Portugal era o país menos desenvolvido da Europa e ao mesmo tempo o detentor único do maior e mais duradouro império colonial europeu (SANTOS, 1994, p. 62).

Até a data de início do conflito colonial na África, Portugal vivia o dilema de ser a nação que menos progredia em termos econômicos e políticos no continente europeu, e ao mesmo tempo, era a nação com o império mais antigo da Europa. A identidade colonizadora dos portugueses sobrevivia, e o orgulho nacional de possuir terras coloniais levou a nação para a terrível guerra em terras distantes.

A identidade colonizadora de Portugal fez com que diversos jovens recrutas, entre eles o próprio Antônio Lobo Antunes, embarcassem numa guerra, a qual destruiu inúmeras vidas e que marcou profundamente aqueles que sobrevivessem ao conflito. Esse evento foi um daqueles que marcou o mundo e mostrou a quão sangrenta pode ser a força de um império colonizador.

A multiplicidade de identidades de Malcom Lowry

Antônio Lobo Antunes traz em Os Cus de Judas (1979) o narrador-personagem de nome Malcom Lowry, que narra a sua história de vida para Sofia, uma mulher que lhe acompanha em uma mesa de bar e o escuta. Iniciando pela sua infância, decide narrar de maneira não linear a experiência que obteve em um ambiente de guerra longe de Portugal.

Em meio às turbulências vividas por Malcom Lowry, é perceptível o processo de fragmentação identitária a qual é submetido. A primeira noção de identidade do personagem é percebida quando ele descreve a sua rotina em um ambiente familiar e tradicional. A constituição dessa identidade é formada pelas maneiras e costumes que o ambiente em sua infância e adolescência lhe proporciona.

[...] A cama da minha mãe gemia em certas madrugadas [...], num comércio centenariamente inalterável à inflação, comandada pela asma do meu pai em assopros ritmados de cornaca. A mulher dos amendoins, [...] narrava à minha avó em discursos verticais, de baixo para cima, as bebedeiras do marido [...] Sinto-me aqui, percebe, como sentia em pequeno o meu pai na igreja, nas missas pelos defuntos da família onde chegava invariavelmente a meio, plantado junto à pia de água benta, de mãos atrás das costas [...]. (ANTUNES, 2010, p. 8 e 19).

Na passagem acima, fica nítido o núcleo familiar presente na família de Malcom durante a sua infância, a rotina em família e a transmissão de uma cultura conservadora e tradicional. Esse convívio em família passou a desenvolver no narrador-personagem, de acordo com Hall (2005), uma espécie de dependência daqueles que lhe cercavam para o seu desenvolvimento pessoal, assim caracterizando uma identidade, de inicio, social.

E essa não-autonomia de identidade criou em Malcom um sujeito delicado, pois, de acordo com o próprio narrador, ele foi ensinado “a acenar com o lenço em lugar de partir” e que cresceu “num acanhado universo de crochet” (ANTUNES, 2010, p.31) características que descrevem o cotidiano do personagem e todo o tradicionalismo que lhe cercava e constituíram a sua identidade social.

Em consonância com o ciclo de costumes que norteavam Malcom, a característica de orgulho nacional é marcante nos meios familiares burgueses. A ideia de orgulho da nação lusa sempre foi algo muito presente no seio do povo português, muito em virtude das glórias do passado. E é então que atrelada à identidade anterior, surge a identidade nacionalista.

Embora sentisse aversão ao cenário de guerra e estivesse ali coercitivamente, Malcom Lowry narra os feitos de um Portugal do passado, assim dando uma espécie de motivação para a conquista de Angola. Isso faz parte da sua identidade nacionalista, visto que as conquistas do passado eram a principal motivação para a causa da guerra colonial, como é perceptível no fragmento abaixo:

Éramos [...] simultaneamente ferozes e mansos, treinados para morrer sem protestos, para nos estendermos sem protestos nos caixõs da tropa, nos fecharem a maçarico lá dentro, nos cobrirem com a Bandeira Nacional e nos reenviarem para a Europa no porão dos navios, de medalha de identificação [...] Angolénossa senhor presidente e vivápátria claro que somos e com que apaixonado orgulho os legítimos descendentes dos Magalhães dos Cabrais e dos Gamas e a gloriosa missão que garbosamente desempenhamos é conforme o senhor presidente acaba de declarar no seu notabilíssimo discurso [...] (ANTUNES, 2010, p.62 e 65).

Podemos captar nos recortes acima como a identidade nacional era uma característica muito forte, visto que ele descreve de maneira eufórica o orgulho nacionalista que sentia por representar Portugal em terras distantes, e todo a fúnebre hipótese de voltar para o seu país morto e tendo sobre o seu caixão a bandeira nacional.

Decide também relembrar as glórias passadas do Império Português, quando menciona grandes nomes da época das navegações, com gritos de “Angolénossa” e “vivápátria”. Todas essas características são correspondentes a sua identidade nacional, sentindo orgulho de ser português, apesar de ser avidamente contra as atrocidades cometidas pelos seus compatriotas na guerra.

Ao mesmo tempo em que em que “A Pide prosseguia corajosamente a sua valorosa cruzada contra a noção sinistra de democracia” (ANTUNES, 2010, p.10), destaca o apoio do povo português contra os movimentos independentistas nas colônias portuguesas, dando ênfase ao trabalho da polícia política da ditatura de Salazar nos campos de batalha.

E em meio a um orgulho de nacionalidade exacerbado e em um cenário de guerra colonial, o narrador-personagem chega a fazer diversas comparações da terra onde está (África) com a sua terra natal (Portugal). Começa a destacar as distinções dos dois lugares e a exaltar a sua pátria, menosprezando a terra que não conhece e o povo que desconhece, procurando sempre mostrar que odeia aquele local, conforme destacamos no trecho abaixo:

[...] cidade colonial pretensiosa e suja de que nunca gostei, gordura de humanidade e de calor, detesto as tuas ruas sem destino, o teu Atlântico domesticado de barrela, o suor dos teus sovacos, o mau gosto estridente do teu luxo. Não te pertenço nem me pertences, tudo em ti me repele, recuso que seja esse o meu país, [...] a minha terra são 89 000 quilómetros quadrados com centro em Benfica [...] Penso que quando eu morrer a África colonial voltará ao meu encontro, e procurarei em vão [...] a guerra é nos cus de Judas, entende, e não nesta cidade colonial que desesperadamente odeio. (ANTUNES, 2010, p. 48, 49,117).

Sobre o recorte de trechos acima, denotamos que a identidade colonizadora de Malcom Lowry é predominante em determinados momentos em que ele se encontra no campo de batalha, e em terras as quais desconhece. Percebemos o seu pouco apresso pela colônia quando se remete à cidade da colônia como suja e a qual nunca gostou, argumentando que não pertence àquele local desagradável e repelente.

O sentimento de desconforto de Malcom fica nítido à medida que ele demonstra que odeia aquele local, e que em sua memória ainda é presente a imagem de uma Lisboa, com um centro urbano desenvolvido e com significativo progresso em relação à cidade colonial. Esse traço colonialista fora presente no povo europeu desde a época das grandes navegações, os quais demonstravam pouco apresso pela cultura e etnias diferentes nas terras onde decidiam colonizar.

Considerações Finais

Chegando as partes finais desta pesquisa, ressaltamos que o seu objetivo foi o de produzir um estudo que analisou o processo de fragmentação identitária sofrida pelo narrador-personagem Malcom Lowry, em Os Cus de Judas (1979), de Antônio Lobo Antunes, através da seleção e recorte de trechos do romance que caracterizassem o referido corpus constituinte deste trabalho.

A primeira etapa do nosso estudo foi a de identificar a relação do autor Antônio Lobo Antunes com a Guerra Colonial Portuguesa na África, mostrando as experiências adquiridas pelo escritor e de como essas vivências de viver um conflito em terras distantes de sua pátria lhe inspiraram a produção de um dos maiores clássicos da literatura escrito em língua portuguesa, Os Cus de Judas (1979). Posteriormente, foi mostrado a semelhança que o autor possui com o protagonista do romance, Malcom Lowry, mostrando a semelhança tanto física (olhos azuis, médico militar etc.), quanto psicológica (fluxos de consciência, nostalgias e melancolias), e que os dois, por mais que se assemelhem entre si, são pessoas distintas, isto é, o autor é uma pessoa real enquanto o personagem é ficcional.

Posteriormente foi aprofundado na terceira parte da nossa fundamentação teórica o processo de multiplicidade de identidades o qual o narrador-personagem, Malcom Lowry, em Os Cus de Judas (1979), é submetido, levando assim a identificarmos três de suas identidades: a social, que se configura sobre as condições e círculo familiar que fora criado; a nacional, a qual se caracteriza o orgulho da pátria portuguesa e de suas conquistas passadas; e a colonizadora, que se remete ao sentimento de superioridade europeia ante outros povos e culturas.

A última parte do nosso artigo foi a de fazer as análises acerca do recorte temático que fora selecionado para constituir o corpus da pesquisa, isto é, a de identificar as múltiplas identidades perceptíveis no decorrer da leitura do romance Os Cus de Judas (1979), de Antônio Lobo Antunes, procurando destacar a importância de todo o aparato teórico que utilizamos, a análise foi feita de forma interpretativa, e que de acordo com o material utilizado, conseguimos identificar a fragmentação das identidades do narrador-personagem através da seleção dos referidos trechos do romance.

A conclusão que temos sobre este estudo é de que através da seleção e análise dos trechos do romance Os Cus de Judas (1979) fica a ideia de que o personagem-narrador, Malcom Lowry, pode ser a representação não do próprio Antunes, mas um ser autônomo dentro do texto literário, o qual é responsável por suas ações e que essas ações, por mais que sofram as influências de acontecimentos experimentados pelo autor na Guerra Colonial Portuguesa, na África, o protagonista sempre procura representar a ficção, ao mesmo tempo, em que procura denunciar as atrocidades as quais foram cometidas nesse conflito no continente africano, em nome do orgulho do Império Português em decadência.

Referências

ANTUNES, António Lobo. Os cus de Judas. 2. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.

GOMES, Carlos de Matos.; AFONSO, Aniceto. Guerra Colonial: teorias e práticas da contra-subversão. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2009.

GOMES, Álvaro Cardoso. A voz itinerante. São Paulo: Edusp, 1993.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 10. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. Porto: Boaventura de Sousa Santos; Porto: Edições Afrontamentos, 1994.

FRANCO JUNIOR, A. . Operadores de leitura da narrativa. In: Thomas Bonnici; Lúcia Osana Zolin. (Org.). Teoria Literária - Abordagens históricas e Tendências contemporâneas. 3ed. Maringá: EDUEM, 2009, v. 1, p. 33-58.

GUERRA, Suzana. Deixar correr a tinta, estancar o sangue: Cartas de António Lobo Antunes em Angola. Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre, v.43, n.1, p.172-181, jan.-abr. 2017.

ROSENFELD, Anatol. O teatro épico. São Paulo: Perspectiva, 1985.

VOGT, Josiane Nava; OZELAME, Josiele Kaminski. A Fragmentação da idadentidade. Foz do Iguaçu: Desassossego, ed.18, 2017.


Publicado por: Walisson Jonatan de Araújo Maia

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