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Muhammad Ali e a tentativa de industrialização do Egito

História

Contexto histórico sobre Muhammad Ali e a tentativa de industrialização do Egito

O modo de produção capitalista, assim como conhecemos, surgiu na Europa entre os séculos XIV-XVI, vivendo um amplo período de maturação, entre os séculos XIV-XVIII, sob o domínio do capital comercial e convivendo com o feudalismo e formas pré-capitalistas, até o advento da indústria e o seu apogeu durante o século XIX, a era do capitalismo industrial e livre-cambista. Durante esse período, de maturação e apogeu do capitalismo (XVI-XIX), ocorreram somente dois casos de industrialização fora da Europa, um vitorioso e outro fracassado[1]. A Revolução Meiji de 1868, no Japão, que levaria o país asiático ao desenvolvimento industrial-capitalista e, mais tarde, ao pequeno círculo de potências imperialistas, e o Egito da primeira metade do século XIX, “a primeira tentativa de uma sociedade atrasada não ocidental de construir uma economia industrial moderna, por decreto e de cima” (LANDES, 1995, p. 499).

O economista egípcio Samir Amin (2010, p. 221–228) dividiu a história da luta de classes e do desenvolvimento econômico do Egito Moderno em quatro períodos principais: a) uma primeira onda ascendente (1803–1882), que representou uma tentativa de desenvolvimento capitalista no Egito que acabou sendo frustrada, a partir de meados do século, devido a ação inglesa e as limitações da economia egípcia; b) um período de refluxo (1882–1919), em que o Egito viveu sob protetorado britânico e passou por um processo de espoliação econômica e financeira, subordinando-se, no mercado internacional, como economia exportadora; c) uma segunda tentativa egípcia (1919–1967) em que, aproveitando-se das debilidades e das crises entre as potências imperialistas, sob as bandeiras da “democracia, independência nacional, progresso social” (AMIN, 2010, p. 223), um movimento de massas de caráter nacionalista-popular acabou se cristalizando na revolução egípcia de 1952–54 e nos governos do general Gamal Abdel Nasser; d) período de longo refluxo (1967–2010), de enquadramento geopolítico do Egito com as potências imperialistas, que se manifestou no fim do “pacto nasserista” e na adoção do neoliberalismo.

Na passagem do século XVIII para o XIX, o Egito encontrava-se a cerca de três séculos como vassalo de um decadente Império Turco-Otomano. Durante o século XVIII, o Egito estava sob o domínio dos mamluks (mamelucos) que, através de tributos, explorava as massas de felás, os camponeses que sustentavam o Egito desde os tempos faraônicos, contudo na passagem do século dois acontecimentos tirariam o Egito de seu longo marasmo. Em 1798, as tropas de Napoleão Bonaparte invadiram o país buscando sobretudo controlar o comércio do oriente que unia a Inglaterra com o seu império na Índia, mas também buscava estabelecer um Império francês na região através de alianças regionais, sobretudo com os turcos. Também havia um interesse científico-cultural por parte de Napoleão, o que se atesta pela “invasão” de cientistas franceses que acompanharam as tropas. A vitória francesa havia demonstrado o atraso militar dos mamelucos perante os europeus. A resistência popular (devido ao secular aumento de impostos), as doenças e pestes desconhecidas pelos franceses, a intenção de Napoleão de não entrar em conflito com o Sultão turco e o cerco inglês levou a experiência francesa a ser derrota ainda em 1801 (WOLF, 1982; COGGIOLA, 2016).

Em 1803, Muhammad Ali (Mohammad Ali, Mohamat Ali ou ainda Mehemet Ali) — um aristocrata albanês que havia feito sucesso em sua região com o comércio de fumo, como líder militar e que havia ajudado a derrotar os franceses — liderou suas tropas contra a retomada dos mamelucos, de modo que conquistou o controle do Egito e um vice-reinado sob suserania otomana. Fazia parte da política provincial otomana mudar seus vice-reis de região com o objetivo de que não estabelecessem raízes, contra isso Muhammad Ali iniciou uma guerra contra os turcos e passou a transformar a economia e o estado egípcio em sua propriedade particular (LANDES, 1995; WOLF, 1982; COGGIOLA, 2016). O que diferencia Muhammad Ali de outros “déspotas orientais” da época, é que o governante egípcio buscou se adequar às novas condições que vinham da Europa, isto é, nesse sentido buscou o desenvolvimento econômico capitalista e “ocidentalizar” o Egito. Como afirmou Wolf (1982),

“O Egito foi uma das primeiras regiões do Império Otomano a estabelecer laços comerciais com o Ocidente e, ao fazê-lo, tornou-se o primeiro exemplo de uma nação não-européia a tentar ‘acerta o passo’ com a industrialização e a comercialização da Europa” (WOLF, 1982, p. 345)

Muhammad Ali estabeleceu no Egito um modelo de desenvolvimento capitalista autônomo que buscava a modernização do país num sentido amplo[2]. Esse emergir do Egito, para utilizar a expressão de Amin (2010), se baseava no estabelecimento da cultura do algodão, em detrimento da produção camponesa para subsistência, e de sua exportação para a indústria têxtil europeia, sobretudo inglesa. Os lucros e dividendos advindos da exportação do algodão e demais matérias-primas e alimentos, por sua vez, seriam utilizados no investimento manufatureiro-industrial, no desenvolvimento da infraestrutura e no poderio militar. Tudo isso promovido pelo estado que possuía o monopólio de várias industrias, terras e serviços, assim como do comércio exterior — o que incomodava muito a burguesia livre-cambista europeia (WOLF, 1982; LANDES, 1995; HOBSBAWM, 1962; COGGIOLA, 2016).

A primeira mudança substancial do governante egípcio foi diminuir drasticamente com a produção camponesa para subsistência, isto é, com os resquícios do modo de produção asiático-tributário. A partir de então buscou-se instalar no Egito a produção agrária para exportação, principalmente a exportação do algodão. Essa nova cultura de exportação foi feita através do estabelecimento da grande propriedade que foi distribuída entre o governante e os membros importantes da burocracia (WOLF, 1982; COGGIOLA, 2016). Entre 1818 e 1844, os camponeses que anteriormente possuíam cerca de 90% da área produtiva, passaram a ter somente 56% durante esse período (WOLF, 1982, p. 346). Em contrapartida, os camponeses serviriam como força de trabalho para essa nova produção através de todo tipo de formas de exploração pré-capitalista, sobretudo a já amplamente difundida corveia.

O estabelecimento do tripé latifúndio, monocultura de exportação e mão-de-obra forçada acarretaria graves problemas ao Egito, visto que reforçava, a longo prazo, seu papel subalterno na divisão internacional do trabalho, como mero país de exportação de matérias-primas e alimentos. Se, de um lado, significou um avanço em relação às formas asiáticas-tributárias de produção agrária, por outro lado, não estava em consonância com o desenvolvimento capitalista e industrial, visto que mantinha formas pré-capitalistas de produção e a grande propriedade que, num contexto de desenvolvimento capitalista, não significava outra coisa do que barrar a criação de um mercado interno e de uma produção agrária mais diversificada. O atraso era superado pelo atraso!

Os capitais advindos da exportação do algodão e outras matérias-primas eram investidos em infraestrutura, nas forças militares e na nascente indústria — aqui reside o caráter progressista e essencial do governo de Muhammad Ali. O governante egípcio, buscando a “ocidentalização”, importou engenheiros e técnicos europeus, com grande destaque para os saint-simonianos que por simpatia a causa egípcia, ajudaram muito no desenvolvimento da infraestrutura do país. Louis-Alexis Jumel, fabricante francês de algodão, ajudou no desenvolvimento de um novo tipo de algodão, que hoje leva seu nome, que tinha a fibra longa, era mais resistente e qualificado para a produção industrial de tecidos mais refinados (LANDES, 1995). Ferdinand de Lesseps, diplomata e construtor francês, ajudou na construção do Canal de Suez — principal herança econômica do Egito –, embora o canal tenha contribuído, mais tarde, para a decadência do país[3]. Além disso, Muhammad Ali promoveu uma ampla reforma das redes e canais de irrigação, necessário na região para o aumento da produção agrária, e a instituição de escolas de ensino técnico, para a formação de engenheiros e mão-de-obra qualificada, além de enviar estudantes para a Europa (WOLF, 1982; COGGIOLA, 2016; HOBSBAWM, 1962; LINHARES, 1982).

Na esfera militar, Muhammad Ali buscou desenvolver um exército que tivesse como base não mais os pouco confiáveis mercenários albaneses, mas sim os camponeses egípcios (WOLF, 1982). Buscou, nesse sentido, a formação de uma força armada moderna, de tipo ocidental, auxiliado pela produção interna ou importação de armamentos, escolas técnicas militares e a imitação de métodos europeus. A expansão egípcia durou pelo menos até o final dos anos 1830, nesse tempo ocorreram várias vitórias militares, como a conquista do Sudão e da Síria e a pacificação dos wahabistas na península arábica, assim como o e o cerco de Istambul e as vitórias sobre o Império Otomano. Há quem argumente que o processo de modernização egípcia não tenha servido para outra coisa senão para auxiliar o desenvolvimento militar e a expansão egípcia (HOBSBAWM, 1962; LANDES, 1995; LINHARES, 1982).

A produção industrial do Egito se baseava, sobretudo, na indústria de bens de consumo não-duráveis, como a indústria têxtil e de açúcar que ocupavam o papel dominante. Em volta de 1838, o Egito havia investido “a considerável quantia de 12 milhões de libras na indústria, que empregava talvez 30 ou 40 mil trabalhadores” (HOBSBAWM, 1962, p. 185). O maquinário, alguns muito deteriorados, eram importados ou contrabandeados sobretudo da Inglaterra, embora predominasse em algumas indústrias de caráter familiar a utilização de força animal, com os bois puxando os fusos de algodão. Ao lado da força de trabalho assalariada, convivia-se com uma mão-de-obra escrava[4], nos primeiros momentos, e, mais tarde, com camponeses forçados a trabalhar através da corveia. Esse tipo de composição da força de trabalho gerou formas de resistência atrasadas, como o suicídio, a automutilação e a destruição de fábricas, numa espécie de “ludismo pré-capitalista” (LANDES, 1995; COGGIOLA, 2016).

Até o final dos anos 1830 o governo egípcio colocou em prática uma política protecionista que impedia produtos indústrias britânicos de invadirem o mercado nacional — através de taxas alfandegárias –, ao mesmo tempo que favorecia a exportação algodoeira e das demais matérias-primas, assim como dos seus produtos manufatureiros. O papel do monopólio estatal do comércio era imprescindível, na medida que comprava o algodão e demais commodities das fazendas por preços artificialmente baixos e revendiam no mercado internacional por preços mais altos, assim como realizava a mesma operação com produtos importados de outros locais, vendendo mais caro do que o preço de compra, além de impedir que comerciantes estrangeiros atuassem no mercado interno [5] (LANDES, 1995; LUXEMBURGO, 1913). Portanto, a busca pela industrialização ocorria através da utilização dos recursos internos e da superexploração dos felás e dos trabalhadores, sem a necessidade de empréstimos estrangeiros, contudo isso começaria a mudar a partir da década de 1840.

Após conquistar a Síria e o Sudão, pacificar a Arábia e se indispor com o Império Otomano, Muhammad Ali buscava fazer do Egito uma potência militar-industrial da região, contudo os países europeus preferiam um decadente Império Turco a um emergente Egito, que mesmo que não lhes representassem nenhum grande perigo a curto prazo, era desobediente em relação à sua posição no mercado internacional, na medida que não tolerava que os europeus controlassem a sua economia! Diante da derrota militar frente aos europeus em 1839–1840, o Egito foi obrigado a ceder suas conquistas militares, reduzir seus exércitos e a abrir seu comércio aos mercadores estrangeiros, assim como a adotar uma política de laissez-faire, em troca de um vice-reinado hereditário e autônomo sob suserania otomana (TOUSSAINT, 2016; COGGIOLA, 2016; HOBSBAWM, 1962). A partir de então, a economia egípcia começaria a ser estrangulada pelo “mercado” através dos empréstimos estrangeiros e da dívida pública, a forma por excelência da dominação colonial indireta[6].

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A imposição do livre-comércio trouxe ao Egito a possibilidade dos empréstimos estrangeiros, que somente reforçaram a sua posição subalterna na divisão internacional do trabalho através do endividamento. Inicialmente, esse “modelo de desenvolvimento” parecia dar certo na medida que, com o auxílio de capitais externos, foi construído o Canal de Suez, entre 1859 e 1869, assim como outros empreendimentos, e, devido à guerra civil nos Estados Unidos, os preços do algodão aumentaram drasticamente, visto que os estados do sul, grandes produtores de algodão, saíram do mercado. Com o algodão representando cerca de 70% da renda do país, o resultado foi buscar por mais empréstimos por parte dos descendentes de Muhammad Ali, que havia falecido em 1848. Contudo, quando as boas condições no mercado internacional acabaram, as divisas acumuladas pelo Egito permitiram-lhe contrair ainda novos empréstimos, com taxas de juros altíssimas. A normalização do preço do algodão e o fim de qualquer tentativa de industrialização deixaram o Egito totalmente nas mãos dos bancos e dos credores europeus (TOUSSAINT, 2016; COGGIOLA, 2016; LUXEMBURGO, 1913).

Na década de 1870 o Egito já era um estado endividado[7]. Em menos de 15 anos, entre 1863–1876, a dívida havia aumentado de 3 milhões para 68 milhões de libras esterlinas, com dois terços dos rendimentos do estado sendo destinados ao pagamento da dívida pública. Novos empréstimos eram feitos para pagar os antigos empréstimos e os seus juros. Nesse contexto, a privatização do Canal de Suez e demais propriedades estatais, a transformação da economia egípcia numa praça especulativa para os bancos europeus[8], aumento dos impostos e o desmoronamento da economia camponesa, gerou um clima de acirramento da luta de classes e descontentamento geral. A inadimplência da dívida e, sobretudo, a revolta nacionalista de 1881–1882, contra os europeus e o governo, levaram os ingleses a transformar o Egito em seu protetorado, em 1882 (TOUSSAINT, 2016; WOLF, 1982; HOBSBAWM, 1975; LUXEMBURGO, 1913). Como afirmou Hobsbawm (1975),

“O Egito estava, portanto, integrado na economia européia como um fornecedor de produtos agrários. Os banqueiros, através dos pashas, extorquiam o povo egípcio, e quando o Khedive[9] e seus pashas não mais podiam pagar os juros dos empréstimos que haviam aceitado com tanto entusiasmo — em 1876 eles totalizavam quase metade da receita para aquele ano –, os estrangeiros impuseram controle. Os europeus teriam talvez ficado contentes apenas em explorar um Egito independente, mas o colapso do boom econômico, assim com o da estrutura política e administrativa do governo do Khedive — minado pelas forças econômicas e tentações que os dirigentes egípcios não entendiam nem conseguiam manejar — tornava esta independência difícil. Os ingleses, cuja posição era mais forte e cujos interesses estavam envolvidos de forma muito mais crucial, emergiram como os novos dirigentes do país na década de 1880.” (HOBSAWM, 1975, p. 133).

Há um amplo debate sobre os motivos do fracasso da tentativa de industrialização do Egito durante o governo de Muhammad Ali. Os historiadores se dividem entre aqueles que acreditam numa conspiração europeia, sobretudo inglesa, e naquelas que enfatizam o caráter atrasado da economia egípcia e sua total incapacidade de se industrializar[10] (LANDES, 1995). Esse trabalho buscou enfatizar, a todo momento, o profundo atraso da economia egípcia durante o período em questão. É evidente que formas pré-capitalistas subsistiam em todos os setores da economia, além disso haviam alguns limites à industrialização do país como a falta de recursos naturais (como carvão e madeira), o raquitismo do mercado interno, a inexistência de uma burguesia independente e forte, a falta de mão-de-obra qualificada, o maquinário precário, etc. — em suma, a ausência de um processo de acumulação primitiva de capitais[11]. Contudo, não há como negar a atuação europeia, principalmente anglo-francesa, contra a autonomia e desenvolvimento do Egito. De qualquer modo, como um Egito industrializado iria ao encontro dos interesses do capitalismo europeu?! Como afirmou Amin (2010),

“A análise do seu fracasso [da tentativa de industrialização egípcia] não pode ignorar a violência da agressão externa da maior potência do capitalismo industrial central da época — a Grã-Bretanha. Duas vezes em 1840, depois nos anos 1870 (através da tomada do controle das finanças do Egito Kedival) e, por último, pela ocupação militar (em 1882), a Inglaterra prosseguiu com obstinação o seu objetivo: impedir a emergência de um Egito moderno” (AMIN, 2010, p. 221–222)

Se o Egito iria tornar-se uma potência industrial, assim como afirmou Hobsbawm (1975), é impossível de saber, contudo negar a atuação do emergente imperialismo europeu é ser omisso diante da história mundial dos últimos 200 anos. Afinal de contas, parafraseando Bertold Brecht[12], a cadela do imperialismo está sempre no cio!

Notas

[1] Nesse trabalho, sigo a linha de interpretação sobre o capitalismo — baseado na tradição marxista, mais especificadamente de V. Lenin e L. Trotsky — segundo o qual, a grosso modo, o capitalismo passou por três etapas principais: a) a era do capitalismo comercial e da transição do feudalismo ao capitalismo, séculos XIV-XVIII; b) a era do capitalismo industrial ou livre-cambista, apogeu do capitalismo, século XIX; c) a era do capitalismo monopolista ou do imperialismo, período de decadência do capitalismo, séculos XX-XXI.

[2] “Muhammad Ali concebeu o desenvolvimento como um processo global, abrangendo avanços na agricultura e na indústria, novas tecnologias, inovações na educação (o que um economista chamaria de treinamento de capital humano), mas também, infelizmente, programas de rearmamento e inculcação de virtudes militares” (LANDES, 1995, p. 497).

[3] A construção do Canal de Suez, realizado através de empréstimos externos, embora tenha contribuído para o desenvolvimento da infraestrutura do país, a longo prazo acabou ajudando no processo de endividamento e perda da autonomia. Segundo Rosa Luxemburgo (1913), “As operações do capital francês, que executou tanto a obra do Nilo, com sua inutilidade, como o canal de Suez, foram talvez os modelos mais peculiares da acumulação de capital europeu à custa de populações primitivas. Em nome das vantagens do canal, que o comércio europeu-asiático faria passar diante do nariz do Egito, o país se obrigou, em primeiro lugar, a fornecer o trabalho gratuito de 20.000 camponeses durante anos; em segundo lugar, a subscrever 70 milhões de marcos em ações da Companhia, que equivaliam a 40% do capital total. Esses 70 milhões foram a base da enorme dívida pública do Egito. Dívida que, vinte anos mais tarde, teve por consequência a ocupação militar do Egito pela Inglaterra” (LUXEMBURGO, 1913, p. 377).

[4] Os escravos acabaram por serem substituídos, no decorrer do processo, devido à alta mortalidade, como consequência das péssimas condições de trabalho (LANDES, 1995).

[5] “Mehemet Ali, o criador do Egito moderno, empregava nesse sentido, até 1830, um método de simplicidade patriarcal: comprava dos felás, cada ano, por conta do Estado, toda a colheita, para vender-lhes depois, mais caro, o mínimo de que necessitavam para sua subsistência e para a sementeira. Ao mesmo tempo trazia algodão da índia, cana-de-açúcar, anil e pimenta da América, e determinava oficialmente ao felá a quantidade que tinha que plantar de cada um desses produtos; algodão e anil eram declarados monopólio do Governo e só podiam ser vendidos a ele; só ele, também, podia revendê-los. com esses métodos, introduziu-se no Egito o comércio de mercadorias” (LUXEMBURGO, 1913, p. 376).

[6] “No caso do Egito e da Tunísia, a dívida constituiu a arma mais poderosa das potências europeias para assegurar o seu domínio e conduzir à submissão total de Estados até então independentes” (TOUSSAINT, 2016, s/p).

[7] Rosa Luxemburgo (1913) é sintomática ao afirmar como, nesse período, sobretudo através da dívida pública, o Egito, em outras palavras, a superexploração dos camponeses egípcios, auxiliou no processo de acumulação de capitais europeus. Como afirmou o historiador equatoriano Agustín Cueva, em seu clássico El dessarollo del capitalismo en America Latina, a acumulação (primitiva ou não) de capitais europeus é, ao mesmo tempo, o processo de desacumulação primitiva de capitais nos países subalternos.

[8] “Pressionado pelos credores, o soberano Ismail Pacha, khédive do Egito, começou a partir da década de 1870 a vender as infraestruturas e a conceder diversas concessões, a fim de obter a liquidez necessária ao pagamento da dívida. Pela mesma razão teve de aumentar os impostos repetidas vezes. Após uma quinzena de anos de endividamento externo (1862–1875), a soberania egípcia estava alienada. […] Em 1875, apertado pelos credores, o Estado egípcio cede ao governo do Reino Unido a sua participação na Companhia do Canal do Suez, que tinha sido inaugurado em 1869. O produto da venda das 176.602 acções Suez detidas pelo Egito — ou seja, cerca de metade do capital da companhia — ao governo britânico em finais de novembro de 1875 destinou-se em grande parte a cumprir os prazos de pagamento da dívida em dezembro de 1875 e janeiro de 1876, que eram particularmente pesados” (TOUSSAINT, 2016, s/p)

[9] Título dos governadores do Egito autônomo, e posteriormente dos reis do Egito independente da dinastia de Muhammad Ali (1805–1952).

[10] Landes (1995) divide esses autores entre “otimistas” — majoritariamente estudiosos progressistas, nacionalistas e anti-imperialistas, que buscam interpretar o papel do emergente imperialismo no fim do projeto egípcio; e os “pessimistas”, ao qual ele se encontra, que buscam enfatizar a incapacidade e a fraqueza da economia egípcia para promover a industrialização.

[11] Analisando as limitações internas da industrialização egípcia, afirmou Coggiola (2016): “A epopeia de Mehmet Ali demonstrou a força, e também as limitações históricas, da nascente nação egípcia, de seu Estado e de sua nova classe economicamente dominante, uma proto burguesia baseada na exportação de produtos primários e na exploração do campesinato, não numa industrialização visando a consolidação do mercado interno” (COGGIOLA, 2016, p. 97).

[12] Bertold Brecht (1898–1956), dramaturgo e socialista alemão, afirmou sobre o fascismo: “A cadela do fascismo está sempre no cio”.

Referências Bibliográficas

AMIN, S. 2011: Primavera Árabe?. Temporalis, Brasília (DF), ano 10, n.20, jul./dez. 2010.

COGGIOLA, O. A Revolução Árabe e o Islã: entre Pan-arabismo, Pan-islamismo e Socialismo. 2016, academia.edu. Disponível em: .

HOBSBAWM, E. A Era das Revoluções 1789–1848. São Paulo: Paz e Terra, 2015 [1962].

HOBSBAWM, E. E Era do Capital 1848–1875. São Paulo: Paz e Terra, 2015 [1975].

LANDES, D. La riqueza y la pobreza de las naciones: Por qué algunas son tan ricas y otras tan pobres. Versão EPUB LIBRE, 1998 [1995].

LINHARES, M. Y. Oriente Médio e o Mundo dos Árabes. São Paulo: Brasiliense, 1982.

LUXEMBURGO, R. A Acumulação de Capital. Rio de Janeiro: Zahar, 1970 [1913].

TOUSSAINT, E. A dívida como instrumento de conquista colonial do Egito. Esquerda.net, 28 de julho de 2016. Disponível em: .

WOLF, E. A Europa e os Povos sem História. São Paulo: Editora da USP, 2005 [1982].


Publicado por: Guilherme Giotti Sichelero

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