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HERANÇAS CATÓLICAS: A IMPORTÂNCIA DOS PADRES E JESUÍTAS PARA A FORMAÇÃO DO PIAUÍ

História

Importância dos padres católicos, bem como a colaboração dos jesuítas nas fazendas, para a construção e para as percepções sobre o Piauí.

RESUMO

O catolicismo acompanhou de perto o caminhar da humanidade. Sua importância não se localiza apenas nas fronteiras da fé e nem no rico simbolismo sagrado. Indo para além dos ritos sacros e das liturgias, a Igreja cristã, dos monastérios às dioceses, nos legou uma grande contribuição cultural e social jesuítica no processo de colonização, no desenvolvimento de capitanias, na literatura de informação e num detalhado conjunto de escritos que nos permitem compreender os contextos históricos. Diante disso, o artigo pretende destacar a importância dos apontamentos católicos para a formação do Piauí, assim como tenta sublinhar as contribuições de padres que também ajudaram de forma decisiva no processo de desbravamentos dos chamados sertões de dentro.

PALAVRAS-CHAVE: Igreja; Piauí; catolicismo; escritos, jesuítas.

ABSTRACT

Catholicism has followed the path of humanity closely. Its importance lies not only in the frontiers of faith and in the rich sacred symbolism. Going beyond sacred rites and liturgies, the Christian Church from the monasteries to the dioceses left us a great cultural and social Jesuitical contribution in the process of colonization, in the development of captaincies, in the literature of information and in a detailed set of writings that allow us to understand the contexts. The article intends to emphasize the importance of Catholic citations for the formation of Piauí, as well as to try to underline the contributions of priests who also helped in a decisive way in the process of clearing the so-called backlands of the interior.

KEYWORDS: Church; Piauí; Catholicism; writings, Jesuits.

O LEGADO CATÓLICO

Cristianismo. Sagrado. Mosteiros. Jesuítas e padres. Este conjunto de nomes são próximos e familiares. Talvez diferem no uso dos conceitos, mas todos fazem parte da mesma arquitetura, do mesmo corpo e do mesmo conjunto embrionário, que é a Igreja Católica. Pensar a cristandade e o cristianismo (existe uma diferença entre os dois) é refletir sobre uma constelação de eventos, acontecimentos e fatos que, na curta, média ou longa duração, rastejam até os nossos dias, dando continuidade aos mais diversos aspectos das sociedades. A Igreja – e não falo apenas da instituição eclesiástica, mas toda a dinâmica clerical que orna o catolicismo – explica, dentro de certos limites, os mais diversos âmbitos do corpo social, cultural e político. Explicações livres do jugo dogmático? Talvez nem tanto. Provavelmente nada nos séculos de São Luís ou de Henrique VIII (não quereremos demonizar os medievais e modernos, e, menos ainda, cair nos precipícios dos anacronismos). O que se sabe, no entanto, é que para além de qualquer preconceito, a Igreja foi responsável por um intenso legado cultural, principalmente no que diz respeito aos escritos. Seja nos mosteiros (com o intensivo e penosos copiar dos monges) ou nas hagiografias, cartas, ofícios, sermões, bulas, etc., os religiosos das mais diversas ordens nos permitiram saber algumas coisas, alguns contextos. A época de fabricação dos seus escritos, o momento em que suas penas contornaram longos pergaminhos e epístolas, denunciaram jogos políticos intensos e disputas de poderes acirrados; aspergiram até nas formas de percepção do tempo e dos espaços. Outro legado importante é a participação do corpo eclesiástico nos lugares onde se estabeleceram. Alguns dirão que esses lugares foram palco para aculturação, outros para a dedicação e educação. O que se sabe é que por onde as batinas e escapulários passaram, os processos históricos foram registrados e percebidos – seja por meio do ofício religioso, das missões, catequeses ou da implantação de dioceses e bispados.

Pensando nisso, decidimos elaborar a importância dos padres católicos, bem como a colaboração dos jesuítas nas fazendas, para a construção e para as percepções sobre o Piauí. Tendo em vista que não foram apenas bandeirantes portugueses que contribuíram de forma decisiva para o que hoje se conhece como o Estado do Piauí – e com isso queremos discutir os processos de desbravamentos, sem ofuscar, de maneira alguma, o legado do índio e do negro – alocaremos nossa pesquisa no aporte dos eclesiásticos, passando pelas suas entradas e sua expulsão em 1759. No entanto, percebemos que seria de profunda importância entender um pouco a dinâmica da Igreja e alguns de seus desfechos, numa tentativa de melhor compreensão e detalhamento dos acontecimentos, antes mesmo de nos atermos à história regional. Abramos, então, as janelas históricas.

“IDE E PREGAI”, NOS TRÓPICOS

Não existe uma História do Piauí sem a História de tantas outras coisas. A compreensão do todo é tão importante quanto as micro partes. Robert Muchembled acertadamente nos diz: “recusar tratar o todo seria tornar-se cedo ao funcionamento da sociedade, negligenciar cumplicidades fundamentais geradas pela no movimento da história”[2]. Jean Delumeau em A História do Medo no Ocidente também declara que uma idade nunca se divorcia da outra, cabendo ao bom historiador identificar as permanências e rupturas que o tempo carrega. A História é assim, cheia de fios e laços, às vezes avulsos, quase sempre conexos. Entender o processo de evangelização jesuítica e o seu delinear dentro dos sertões do Piauí requer uma volta cronológica, não de proporções bíblicas, mas de um recuo cuidadoso, com uma pinça afinada e modesta que somente a boa e conhecida História pode nos proporcionar.

Não entraremos na História da Igreja, nem da Cristandade. Não avançaremos no estudo do Sagrado e nem do Profano. Nosso regresso se aloca na criação das Ordens Jesuíticas do século XVI, e o tímido binóculo da História tentará resgatar a dinâmica desses acontecimentos. Voltaremos até um pouco mais, apenas para entender o contexto da formação das Companhias de Jesus.

Pensemos o século XVI. Pensemos mais ainda o ano de 1517. Nesse contexto é inserido um acontecimento histórico decisivo para a criação de muitas ordens eclesiásticas, tornando-se o pontapé inicial para uma intensa reconfiguração do catolicismo. As 95 teses de Lutero e a sua queixa aos escândalos dentro do clero denunciam a Idade Moderna como uma época de transição e de profundas transformações. A incriminação das indulgências, a corrosão do celibato, a venda de cargos e toda a oxidação do clero respingou fortemente no mundo católico, culminando na chamada Contra Reforma, ou Renovação Católica, para Peter Marshall. O Concílio de Trento de 1542 decidiu por um fim ao desmoronamento da cristandade católica, e, entre 1545 a 1563, instituiu uma série de novas regras, reajustando o clero e a vida eclesiástica.

Embora a Companhia de Jesus tenha sido criada em 1534, o Concílio de Trento ajudou a reforçá-lo. Ajudou também a reativar o Tribunal do Santo Ofício, assim como estabeleceu o culto à Virgem Maria e aos santos; deu ênfase também no celibato, confirmou a salvação pelas boas obras e pela fé e afirmou existência do Purgatório. Sobre a criação de ordens dentro do corpo eclesiástico, Thiago Cordeiro destaca:

Ao longo de quase vinte séculos de história, a Igreja Católica autorizou a criação de centenas de ordens religiosas diferentes. Teve bons motivos para isso. Afinal, são organizações muito úteis. Oferecem infraestrutura para a formação de religiosos e religiosas. Colaboram para a inclusão da fé cristã dentro das sociedades em que estão inseridas. Instalam escolas para leigos, constroem igrejas que servem como centros de encontro e integração da comunidade, e influenciam o pensamento de políticos e juízes – consequentemente, contribuem para a formação de leis e políticas públicas, que determinam a maneira como vivemos e que tipos de comportamentos podem ser considerados criminosos ou criticáveis.[3]  

Ou seja, a criação de ordens religiosas possui uma grande influência no corpo da sociedade, agregando alguns valores, tanto materiais, quanto relacionais e coletivos.

As Companhias de Jesus receberam, então, a missão de levar o evangelho para além do Atlântico. Os soldados de Cristo, inseridos no contexto ultramarino, carregaram dentro das caravelas o seu ideal propagador, no sentido de congregar novas almas frente a ameaça protestante. E é sobre essa delegação “profética” que a Ordem chega ao Brasil.

Capitaneados pelo padre Manoel da Nóbrega, os primeiros jesuítas chegaram em solo brasileiro em 1549, junto com o primeiro governador-geral Tomé de Sousa. Voltados para a educação e a catequese, fundaram missões e escolas nas diversas regiões da colônia, inclusive no Piauí, onde, apesar de terem dado a sua parcela de contribuição para alavancar o desenvolvimento da região, “conquistaram a antipatia dos governantes e dos poderosos” (NETO, 2006, p. 207). Sobre a presença dos jesuítas no Brasil, Thiago Cordeiro sublinha:

No Brasil, os jesuítas receberam condições de trabalho que não existiram em outros locais. Em primeiro lugar, chegaram cedo, logo no começo dos esforços de colonização. Além disso, tiveram exclusividade para estabelecer missões – levaria quatro décadas até que o acesso de outras ordens fosse liberado. E estavam ancorados em Portugal, o reino mais agressivo em termos de ações colonizadoras naquele momento.[4]

Alguns nomes merecem destaque dentro da ordem jesuítica implantada no Brasil. Os padres Manuel da Nóbrega, Leonardo Nunes, António Pires, João de A. Navarro e os irmãos Vicente Rodrigues e Diogo Jácome chegaram ao Brasil no início de 1549. A segunda onda aconteceu em 1550 na armada de Simão da Gama. O primeiro Bispo chegou em 1552, e, em 1553 aportou José de Anchieta na armada de Duarte Góis. António Vieira chegou à Bahia, onde em 1619 seu pai passou a trabalhar como escrivão no Tribunal da Relação, o que motivou a vinda de toda a família. O legado cultural deixado por esses padres ressoa até hoje, com grandes obras e sermões que ultrapassam os limites do estilo artístico. A importância de padre Antônio Vieira, juntamente com seus escritos é, por exemplo, um grande legado para a literatura brasileira (cerca de 200 sermões):

Na época de Antônio Vieira, o sermão era um dos principais meios de comunicação e de doutrinamento dos cristãos da Europa e do Novo Mundo. Daí a importância e a notoriedade de Vieira em sua época. [...] os primeiros sermões editados por ele começaram a circular em 1679, e o último volume por ele organizado foi publicado em Salvador um ano após sua morte.[5]

Dessa forma, podemos perceber a grande influência dos padres jesuítas dentro do contexto nacional, sendo eles um dos grandes colaboradores na construção do grande tecido cultural, social e religioso que formaram o Brasil. Sobre a importância da fé católica, Gilberto Freyre sublinha:

A nenhum inglês nem flamengo o fato, em si, da nacionalidade ou da raça, impediu que fosse admitido na sociedade colonial portuguesa da América do século XVI. O que era preciso era que fosse católico-romano ou aqui se desinfetasse com água benta da heresia pestífera. Que se batizasse. Que professasse a fé católica, apostólica, romana.[6]

A herança católica em terras brasileiras foi absorvida em todos os cantos. A ressonância do catolicismo é vista nos mais diversos campos sociais e culturais. Desde os nomes de locais como praças, ruas, escolas; desde os títulos, dias da semana, o calendário gregoriano, até o imaginário coletivo das rezas, medos, benzeções e superstições, o espólio cristão se perpetua e consegue instigar e atrair a atenção dos mais diversos olhares.

BATINAS, FAZENDAS E SERTÕES

Trabalhar com escritos cristãos não é tão simples quanto parece. O problema encontrado por alguns historiadores, por exemplo, reside nas dificuldades com o manuseio do próprio documento – linguagem erudita, termos em latim, os óbices de acesso, etc. No entanto, aliada a uma boa paleografia e à compreensão de alguns termos, o conjunto de obras possíveis de serem decifradas constituem-se uma verdadeira riqueza histórica, com detalhes que merecem uma atenção dobrada. A memória deixada nesses escritos pode ajudar a reconstruir um pedaço importante do tecido da História. O historiador Christopher Dawson nos lembra:

A memória sempre foi uma característica decisiva na experiência cristã: Evangelhos, Atos dos Apóstolos, Atas dos Mártires, História Eclesiástica...A própria celebração litúrgica é memorial. Distintas em sua dinâmica, memória e história coletivas também se cruzam e tecem relações entre si, nutrindo-se mutualmente. Isso está presente desde o primeiro momento da caminhada do povo cristão. Em diferentes sentidos, o cristianismo é uma religião histórica [...].[7]

Assim sendo, podemos perceber a dimensão do legado cultural, político e social cristão para o mundo, para o Brasil, e como veremos, para o Piauí. Herança que foi deixada tanto nos escritos quanto nas mais diversas formas de convívio e relações. Vamos então, aos sertões de dentro.  

A efetivação dos processos de colonização do Piauí ocorreu mais de um século depois da instituição do Sistema de Capitanias Hereditárias, sendo resultado da ampliação da pecuária e da “penetração de currais e fazendas de gado vacum e cavalar nas terras do sertão nordestino, especialmente na região da bacia hidrográfica parnaibana piauiense” (NETO, 2006, p. 186). Os primeiros jesuítas que aqui chegaram foram os padres Francisco Pinto e Luís Figueira, em 1607, vindos de Pernambuco para evangelizar no Maranhão:

Depois de uma longa permanência na serra da Ibiapaba, onde estacionaram para “aquietar os ânimos” dos Tabajaras e de outras tribos da região, revoltadas contra a ação nefasta da malfada expedição de Pero Coelho de Sousa, penetraram no território piauiense, onde em janeiro de 1608, na altura do atual município de São Miguel do Tapuio, o padre Pinto foi atacado e morto pelos Tacarijus.[8]

O padre Francisco Pinto veio para o Brasil ainda criança, acompanhando a família que imigrou para os trópicos. Com 17 anos de idade deixou o Estado de Pernambuco e seguiu para a  Bahia, ingressando na Companhia de Jesus em 31 de outubro de 1568. Padre Antônio Vieira, em um de seus sermões, relata a missão de Francisco Pinto na serra de Ibiapaba:

Foi nomeado para esta empresa o padre Francisco Pinto, varão de grandes virtudes, e mui exercitado e eloqüente na língua da terra, e, por seu companheiro, o padre Luís Figueira. Era o padre Francisco Pinto muito aceito aos índios pela suavidade do seu trato, e pelo modo e indústria com que os sabia contentar; e sobretudo, o fazia famoso entre eles um novo milagre, com que poucos dias antes, indo o padre a uma missão, acompanhado de muitos, e morrendo todos à sede em uns desertos, sendo as maiores calmas do estio, com uma breve oração que o padre fez ao céu, pondo-se de joelhos, no mesmo ponto choveu com tanta abundância, que, alagados os lugares mais baixos daquelas campinas, que eram muito dilatadas, houve em todas elas, por muitos dias de caminho, água para todos: com estas assistências tão manifestas do céu foram recebidos os padres como embaixadores de Deus, e não do governador do Brasil, e sem haver entre todos aqueles índios, posto que agravados nas vidas, nas honras e nas liberdades, quem pusesse dúvida a tudo o que o padre lhes praticou, puseram logo em suas mãos as armas, e nas de el-rei, e de seus governadores a obediência, a que dali por diante nunca faltaram (grifo nosso).[9] 

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Aqui percebemos a importância do padre Pinto e, através de escritos e relatos, podemos visualizar o conjunto do legado “imaginário” que repousava sobre o inconsciente coletivo no Piauí. Acompanhando Francisco Pinto, estava também o padre Luís Figueira (1574 ou 1576 a 1643), outro nome significativo para entender os primeiros contextos históricos do Piauí. Sua importância, entre outras contribuições, reside no fato de que foi autor de uma das primeiras gramáticas da língua tupi, a partir do contato com tabajaras,  tupinambás, potiguares e caetés, denominada Arte da Lingua Brasilica, impressa pela primeira vez em 1621. Infelizmente, a missão dos dois padres provou-se trágica e o padre Francisco Pinto acabou sendo morto pelos indígenas em 10 de janeiro de 1608.

Outra contribuição importante dos padres se encontra no surgimento da primeira povoação do Piauí, em 1697: a freguesia de Nossa Senhora da Vitória, nas margens do rio Mocha, antecedida pela fundação da capela de nome homônimo pelo Padre Miguel de Carvalho:

Esta (freguesia) foi elevada à categoria de Vila em 1717, mesmo ano em que foi criada a comarca do Piauí. Em alvará régio de 1718 o Piauí tornou-se capitania independente da jurisdição do Maranhão. Porém, continuou subordinado ao Bispado de Pernambuco até 1728, quando passou a estar sob a alçada da diocese do Maranhão.[10]

Carolina Rocha Silva destaca a relevância política e econômica de Padre Manuel da Costa, o primeiro administrador das fazendas de Domingos Afonso Sertão. Outra contribuição dos jesuítas está na fundação do primeiro estabelecimento de ensino secundário do Piauí, com disciplinas de gramática e humanidades:

O Seminário foi estabelecido tendo como padroeira Santa Úrsula. Era mantido por subsídios reinóis e pelos pais dos alunos. Foi o primeiro estabelecimento de ensino secundário do Piauí, com disciplinas de gramática e humanidades. No entanto, como observou Ana Stela, a atuação da Companhia de Jesus na localidade estava mais ligada à administração de terras do que às missões e à catequese.[11]

Dentro do campo imaginário e do inconsciente coletivo, tão presente na História das Mentalidades, Carolina Rocha faz um estudo cultural sobre o sabá no sertão do Piauí, onde a influência da Igreja e dos padres, principalmente nos processos inquisitoriais, nos dão importantes chaves de entendimento sobre as relações entre religião, crendices, heresias, mulheres e medos no Piauí. Semelhante a Carlo Ginzburg em O Queijo e os Vermes, Carolina Rocha nos permite selecionar acontecimentos dentro da história eclesiástica do Piauí, permitindo-nos compreender perspectivas maiores sobre a Inquisição no Brasil e as lendas populares e folclóricas na capitania.

Nos escritos católicos, também se destaca a figura do Padre Miguel de Carvalho. O sacerdote português, servindo na Diocese de Pernambuco, na Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Cabrobó, e dedicado no serviço de Deus e nos deveres sacerdotais, “teve o heroísmo de visitar todo o rebanho, começando suas andanças pelo Piauí em 1694, percorrendo nesta época as fazendas do extremo sul piauiense” (CARVALHO, 2009, p. 18). Padre Miguel foi responsável por um extenso relato – apresentado ao Bispo Dom Francisco de Lima – da vasta extensão de sua freguesia e do seu ligeiro crescimento. O sacerdote pedia a autorização para criar duas novas freguesias: a de Nossa Senhora da Vitória, no centro sul do Piauí e de São Francisco, na Barra do Rio Grande:

Recebida a autorização, voltou a 1696 ao Piauí e ao sertão baiano, com o encargo de instalar as aludidas freguesias. Cumprida a sua missão em nosso território, em 02 de março de 1967, o Pe. Miguel de Carvalho enviou ao seu Bispo, além das atas de escolha do local, compromissos e instalação da freguesia da Mocha, uma descrição minuciosa e preciosa de toda a nova Paróquia.[12]

Estes relatos escritos, ricos de detalhes, constituem-se um material muito importante para entender o processo histórico do Piauí. Os escritos de Pe. Miguel possuem uma esmiuçada descrição das fazendas, moradores, e distâncias, tomando por base os rios, riachos e afluentes; contém um estudo territorial das delimitações geográficas, reúnem um conjunto de relatos sobre a alimentação da época, das tribos e organiza de forma pormenorizada o número de escravos negros e da terra, assim como as distâncias entre as fazendas. Os escritos de Pe. Miguel ainda contam com um apêndice contendo os nomes das várias tribos indígenas. Esses relatos formam as Descrições do Sertão do Piauí, uma obra organizada e comentada pelo Padre Cláudio Melo, com observações pontuais sobre o autor, a obra e a sua utilidade.

Mairton Celestino também observa a importância dos padres jesuítas no Piauí em “Africanos escravizados e índios aldeados na capitania de São José do Piauí (1720-1800)”. Mairton destaca que os textos deixados pelo Padre Miguel de Carvalho serviram para definir o perfil das fazendas de gado vacum e cavalar ao longo dos séculos XVII e XVIII demarcando, no termo historiográfico, “dois pontos centrais nas discussões futuras sobre a presença portuguesa nos sertões, a saber: a ausência do patronato nas fazendas e a relação de dependência entre negros e proprietários” (CELESTINO, 2015, p.173). Mairton Celestino pontua ainda outro aspecto levantado pelo Pe. Miguel de Carvalho, que diz respeito ao protagonismo dos negros africanos e mestiços na colonização do Piauí.

O mesmo autor sublinha mais uma contribuição decisiva dos escritos sacerdotais  nos sertões do Piauí, destacando o Pe. Domingos Gomes, que fez um verdadeiro trabalho etnográfico sobre as relações de escravos nas fazendas:

Preocupado em descrever minuciosamente os bens deixados pelo falecido Domingos Afonso Sertão aos clérigos da Companhia de Jesus, o Pe. Domingos Gomes acabaria por agir como um verdadeiro etnógrafo, relatando aspectos da vida cotidiana, as relações de parentela e revelando o jogo de poderes que se constituía entre os próprios escravos das fazendas, a tal ponto de constituir reinos negros em espaços brancos.[13]

Ainda no mesmo capítulo, é importante observar o papel dos padres nas relações sociais. Mairton delineia uma decisiva conexão entre os sacerdotes e a sua influência no edifício social da família. Para o autor, a presença dos jesuítas nas fazendas ajudou numa série de relações e compromissos entre escravos e índios, bem como nas uniões entre os escravos, que foi aumentada com a estadia dos padres no Piauí. Em contraposição, com a expulsão da Ordem em 1759, um vácuo foi sentido, aumentado os conflitos na região:

Com a expulsão dos jesuítas no Piauí as fazendas perderiam a função de espaços de evangelização/catequização e se tornariam apenas zonas de criação de gados, cavalos e entreposto comercial do charque e de curtumes. [...] com a expulsão temos assim a intensificação dos conflitos com os índios da região.[14]  

Outro sacerdote decisivo na compreensão das dinâmicas socias, políticas e culturais no Piauí dos séculos XVIII e XIX é o Padre Marcos de Araújo Costa. Padre Marcos nasceu no arraial dos Paulistas (atual Paulistana) e foi considerado um homem das letras e do sagrado. O eclesiástico iniciara seus estudos sacerdotais em Olinda, concluindo apenas na cidade de Coimbra. Padre Marcos entrou de forma essencial no cenário do Piauí, trazendo para a região influências do Iluminismo português. Atuou nos mais diversos espaços sociais, com destaque para os seus trabalhos no campo político. O padre também usou toda a sua influência social e política como aliada principal naquilo que viria a se tornar o seu maior objetivo de vida: fundar Bispados e dioceses na capitania do Piauí.

Depois de muitos anos de investimentos nesse sonho, enviando inúmeras cartas, decretos e petições aos governos do maranhão, do Brasil e até do Vaticano, acabou por ver o seu tão sonhado propósito desmoronar, desembocando no que chamou de sua maior decepção. Padre Marcos não conseguiu a autorização para fundação dos bispados e dioceses.

No entanto, outro padre viria a ocupar o seu lugar nessa empreitada – devido à velhice de Pe. Marcos e ao seu desgaste emocional com a causa. Assim, o padre Joaquim de Oliveira Lopes assume o vigor da luta e consegue, depois de muitos reveses, instalar o primeiro Bispado no Piauí, em 1903. Entretanto, Padre Marcos ainda conseguiu atuar como educador e o reconhecimento de seu trabalho resultou, sobretudo, das inscrições deixadas em sua escola de Boa Esperança, “local no qual aplicou muito dos ensinamentos e técnicas educacionais aprendidas ao longo de sua formação e vida religiosa” (SOUSA NETO, 2013, p.111). Padre Marcos ainda empregou parte da renda dos seus bens patrimoniais, e não foram raras as vezes que sacrificou boa parte de sua fortuna, tirando do próprio bolso, para investir na educação de muitas crianças e adultos.

CONCLUSÃO

Vimos até aqui uma maciça contribuição do corpo eclesiástico na formação do Piauí. Os processos de sua constituição e consolidação também receberam, não negamos, as mais diversas influências e aportes de índios, negros, mestiços e  portugueses. Aqui, no entanto, vimos uma parte dessa contribuição localizada nos padres e jesuítas. Seja no âmbito social, político ou cultural, os eclesiásticos promoveram uma definitiva e valiosa influência nas mais diversas áreas do conhecimento humano: na literatura, na música, nos nomes, nas brincadeiras, nos costumes, no simbólico, etc.

São Luís ajudou a entender os percursos do século XIII; Jacopo  de Varazze com a sua hagiografia A Legenda Áurea nos permitiu, através da vida dos santos, conhecer um pouco da cultura e dos modos de viver na Idade Média; Santa Teresa D’Ávila fez um guia para as carmelitas do século XVI, contribuindo para a percepção do cotidiano de algumas ordens; Pe. Miguel de Carvalho possibilitou o entendimento das relações de dependência e dominação entre negros e proprietários no Piauí. Seja qual for o eclesiástico, o que não faltam são exemplos de trajetórias que conseguem abrir janelas históricas enormes, possibilitando o entendimento de muitas coisas. O estudo do legado de padres e jesuítas, por exemplo, são chaves raras que dão o acesso a portas bem interessantes.

Nosso objetivo não foi um discurso apologético do corpo eclesiástico. Também não tentamos justificar as missões jesuíticas e nem fazer uma defesa da fé cristã. Nosso propósito foi mostrar que a História é aliada de tudo aquilo que pode ajudar na compreensão da grande malha do mundo, seja através da História Política, Social, Econômica, das Mentalidades, Intelectual ou Eclesiástica. Tudo que o homem produz é História. Tudo o que ajuda a entender o homem é História.

Em outras palavras, as marcas da cristandade e a sua influência no desenvolver da sociedade são percebidas há longas distâncias, seja em que campo for. Negar a influência cristã nos mais diversos setores da humanidade, assim como a sua contribuição para os processos históricos é tentar apagar uma parte profundamente importante do saber histórico. A Igreja de Cristo, em outras palavras, é tão presente nos intercursos e nas dinâmicas atuais quanto fora há mil anos.

No Piauí não foi diferente. Vimos através da jornada jesuítica o quanto foi importante o legado cultural e social dos padres que por aqui passaram, deixando uma gama de contribuições nas mais diversas esferas de relações e associações. Dos sermões de Antônio Vieira e José de Anchieta aos escritos de Pe. Miguel de Carvalho ou às determinações de Pe. Marcos, os jesuítas, devemos repetir, foram uma parte profundamente necessária para entender o Mundo, para entender o Brasil, para entender o Piauí.

REFERÊNCIAS

CARVALHO, Miguel de. Descrição do sertão do Piauí/Miguel de Carvalho: Comentários e notas do Padre Cláudio Melo. 2.ed. Teresina: APL; FUNDAC; DETRAN, 2009.

CORDEIRO, Thiago. A grande aventura dos jesuítas no Brasil. 1. ed. São Paulo: Planeta, 2016.

DAWSON, Christopher. A formação da cristandade. São Paulo: É realizações editora, 2014.

FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala: Formação da família brasileira sob o regime patriarcal. 51º ed. São Paulo: Global, 2006.

MUCHEMBLED, Robert. Uma história do diabo: séculos XII-XX. Rio de Janeiro:  Bom texto, 2001.

NETO, Adrião. Geografia e História do Piauí para estudantes: da pré-história à atualidade. 4.ed. Teresina: Edições Geração 70, 2006.

SILVA, Carolina Rocha. O sabá do sertão: feiticeiras, demônios e jesuítas no Piauí colonial (1750-58). (Dissertação de Mestrado). Universidade Federal do Piauí. 2013.

SILVA, Mairton Celestino da, OLIVEIRA, Marylu Alves de. (org.). Histórias: do social ao cultural/do cultural ao social. Teresina: Edufpi, 2015.

VIEIRA, Antônio. Sermões escolhidos. 4.ed. São Paulo: Martin Claret, 2011.

VIERIA, Antônio. Sermões. Vol. XII. Erechim: Edelbra, 1998.

[1] Willians Alves da Silva - Discente do curso Licenciatura em História pela Universidade Federal do Piauí / Brasil.

[2] MUCHEMBLED, Robert. Uma história do diabo: séculos XII-XX. Rio de Janeiro:  Bom texto, 2001, p. 10.

[3] CORDEIRO, Thiago. A grande aventura dos jesuítas no Brasil. 1.ed. São Paulo: Planeta, 2016. p. 08.

[4] CORDEIRO, Thiago. A grande aventura dos jesuítas no Brasil. 1. ed. São Paulo: Planeta, 2016, p. 55-56.

[5] VIEIRA, Antônio. Sermões escolhidos. 4.ed. São Paulo: Martin Claret, 2011. p. 15.

[6] FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala: Formação da família brasileira sob o regime patriarcal. 51º ed. São Paulo: Global, 2006, p.277.

[7] DAWSON, Christopher. A formação da cristandade. São Paulo: É realizações editora, 2014, p.22-23.

[8] NETO, Adrião. Geografia e História do Piauí para estudantes: da pré-história à atualidade. 4.ed. Teresina: Edições Geração 70, 2006, p. 207.

[9] VIERIA, Antônio. Sermões. Vol. XII. Erechim: Edelbra, 1998.

[10] SILVA, Carolina Rocha. O sabá do sertão: feiticeiras, demônios e jesuítas no Piauí colonial (1750-58). (Dissertação de Mestrado). Universidade Federal do Piauí. 2013. p. 141.

[11] SILVA, Carolina Rocha. O sabá do sertão: feiticeiras, demônios e jesuítas no Piauí colonial (1750-58). (Dissertação de Mestrado). Universidade Federal do Piauí. 2013.p. 142.

[12] CARVALHO, Miguel de. Descrição do sertão do Piauí/Miguel de Carvalho: Comentários e notas do Padre Cláudio Melo. 2.ed. Teresina: APL; FUNDAC; DETRAN, 2009, p.18.

[13] SILVA, Mairton Celestino da, OLIVEIRA, Marylu Alves de. (org.). Histórias: do social ao cultural/do cultural ao social. Teresina: Edufpi, 2015, p. 174.

[14] SILVA, Mairton Celestino da, OLIVEIRA, Marylu Alves de. (org.). Histórias: do social ao cultural/do cultural ao social. Teresina: Edufpi, 2015, p. 183.


Publicado por: Willians Alves

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