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G. F. DE OVIEDO, L'Histoiredeslandes, 1555 – Análise crítica do Historiador e sua obra

História

Análise crítica do livro “L'Histoiredeslandes”, de Gonzalo Fernandez de Oviedo, que tem como tema o período inicial da colonização da América

Resumo

Este artigo propõe uma análise crítica do livro “L'Histoiredeslndes”, de Gonzalo Fernandez de Oviedo, que tem como tema o período inicial da colonização da América.  Tendo seu trabalho originalmente pesquisado e produzido para a disciplina de História da América pré-colonial e colonial, o autor, graduando no curso de Licenciatura em História, faz um estudo sobre a obra em si e sobre a função do Historiador, principalmente em relação ao pensamento do conquistador europeu, ao etnocentrismo e ao desafio da “isenção de opinião”, que até hoje ainda perdura em diversos livros, pesquisas e trabalhos acadêmicos, principalmente pelo fato do referido autor espanhol ter recebido o título de humanista e ter uma visão extremamente preconceituosa em relação ao conquistado-colonizado.

Introdução

Todo estudante que inicia na universidade o curso de História aprende com seus professores e durante as disciplinas do curso que o grande desafio de todo Historiador ou Professor será sempre o da isenção, se mantendo isento de sua opinião, seja a favor ou contra determinado tema histórico. Porém, ao longo dos estudos, dos vários livros pesquisados e lidos, dos documentos históricos que precisamos ler e analisar para a realização dos trabalhos acadêmicos, na grande maioria dos casos, sempre nos deparamos com o inverso do que é ensinado, principalmente no que tange a documentos referentes ao “descobrimento-conquista” e colonização das Américas.

Somos sabedores através dos estudos de que durante toda a História da Humanidade, no período dos grandes conquistadores, das colonizações e domínio de terras, a figura do Historiador era essencial para que se soubesse quem era esse povo ou essa sociedade que se pretendia invadir e conquistar. Na disciplina de Historiografia aprendemos que as nações e civilizações conquistadoras enviavam primeiramente seus Historiadores para determinada região que se pretendia invadir, para que se soubesse de antemão, quais elementos desse sociedade (incluindo a geografia, a religião e a economia) eram mais fortes ou mais fracos, para que assim, se pudesse ter uma guerra mais estratégica e de conquista rápida.

No caso do continente americano, o período das grandes navegações foi o grande marco para essa “descoberta-conquista-invasão”. Não vamos aqui nos aprofundar na historiografia da descoberta, pois, o objeto de estudo deste artigo remete-se ao período da colonização, porém, gostaríamos apenas de salientar o fato de que, no período de descoberta e anos iniciais de contato com os ameríndios, não houve nenhuma preocupação em levar nessas viagens, pessoas preparadas para fazer uma análise imparcial desses habitantes e verdadeiros donos da terra, essa tarefa coube aos próprios navegadores e exploradores que tinham dois principais objetivos: a conquista e a exploração econômica. Durante o período de colonização e exploração de riquezas, a tarefa de relatar o Novo Mundo cabia aos padres, com suas visões e pensamentos religiosos da época  e poucos cronistas, que geralmente eram nobres ou fidalgos, romancistas ou artistas, ávidos por aventuras fantásticas  ou notoriedade e “títulos” de nobreza ou reconhecimento científico quando se seus retornos e publicações de suas obras. E é justamente em relação aos cronistas, que o tema deste artigo se propõe analisar.

Análise da fonte – tipo de conteúdo do registro

O autor escreve em forma de crônica, relatando suas impressões sobre a América colonial e sobre os ameríndios, abordando segundo o seu pensamento, os hábitos, costumes, personalidade e uma ampla pesquisa sobre História Natural. A obra completa é bastante elogiada pelo aspecto da História natural, sendo o primeiro trabalho deste tipo a ser publicado na Espanha¹. 

Historia General y Natural de las Indias1, de Gonzalo Fernández de Oviedo Y Valdés (1478-1557), escritor e Cronista de Índias, foi a primeira obra de história natural publicada na Espanha. Mais importante ainda, tratava-se do primeiro conjunto de imagens da fauna e da flora nativas da América publicado na Europa. Até a impressão dessa obra, todas as gravuras que procuravam representar a novidade do continente americano tinham sido elaboradas por artistas que nunca saíram do Velho Continente. Flávia Galli Tatsch. A Imagem como Fixação da Experiência. Uma Análise Da Obra De Gonzalo Fernández De Oviedo Y Valdés. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011.

Se por um aspecto temos uma grande obra, consagrando o autor na Espanha e em toda a Europa como um grande naturalista e etnólogo, por outro, podemos analisar que o documento quando se refere ao ameríndio, traz um forte conteúdo abordado sob a ótica do “descobridor-colonizador”.

Contexto da produção e do autor

Produzido através das viagens realizadas durante os anos em que passou em Hispaniola, na América Central, no Peru e na Patagônia, a obra foi produzida no séc. XVI, sendo os 19 livros da primeira parte da história publicados em Sevilha, em 1535 e o primeiro livro da segunda parte em 1552, a obra completa só foi publicada em 1851-1855 pela Academia Espanhola de História.

Gonzalo Fernández de Oviedo foi escritor e Cronista de Índias, era um erudito, filho da nobreza espanhola, ocupou cargos e funções na realeza, foi testemunha de fatos históricos e conheceu personagens importantes da História espanhola e europeia. em 1532 foi nomeado cronista oficial das Índias. Consideremos a sua biografia:

Gonzalo Fernández de Oviedo (1478-1557) foi um dos primeiros cronistas mais importantes da presença espanhola nas Américas. Nascido em Madri, de pais nobres das Astúrias, aos 12 anos tornou-se pajem do Duque de Villahermosa. Ele testemunhou a rendição de Granada e, em 1492, veio a servir o príncipe Don Juan I, cuja morte em 1497 mudou o rumo de sua vida. https://www.wdl.org/pt/item/7331/

(...) O jovem Gonzalo participa, entre outros eventos históricos, da tomada de Granada, das conversas de Colombo com os arredores dos reis e é uma testemunha direta da chegada de Colombo a Barcelona em 1493. Como pajem do príncipe Juan, ele tem acesso a mesma formação do príncipe (...). A intelectualidade da corte dos monarcas católicos deu-lhe uma vasta cultura científica e humanística, apesar de não ter cursado a universidade. (...). A morte prematura do príncipe Don Juan em 1497 interrompe suas aspirações para o futuro no tribunal, mas abre a possibilidade de partir para a Itália. (...) Em 1499, ele marchou para a Itália, onde realizou vários negócios. Na Itália, está impregnado do espírito científico que se desenvolve em contato com os humanistas italianos do Renascimento (...). Sua curiosidade científica não se limita ao interesse que ele mostra em botânica, zoologia e ciências naturais em geral, mas é evidenciada em suas abordagens à cosmografia e matemática, com descrições e explicações de fenômenos naturais, como marés no Caribe ou procedimentos relacionados à agricultura e mineração. (...). Em seu retorno à Espanha, o jovem Gonzalo retorna à corte a serviço de Fernando, o católico, que o confia a se juntar à comitiva de Don Fernando de Aragon, duque da Calábria. Ele também é nomeado secretário do Conselho da Inquisição durante o tempo de Frei Diego de Deza (...).  Em 1514, ele embarca na expedição de Darien, sob o comando de Pedrarias Dávila, como "observador da fundição de ouro", com o qual tem sérias discrepâncias no trato com a população indígena e com os próprios espanhóis (...)  Seu trabalho na América foi incansável, pois ele também foi nomeado governador de Santa María la Antigua del Darién. (...) Ele também esteve em Santo Domingo em 1532 e 1536. Nomeado em 1549 vereador perpétuo após ser prefeito, permaneceu lá até junho de 1556. https://www.elcorreodemadrid.com/historia/141984131/Gonzalo-Fernandez-de-Oviedo-y-Valdes-autor-del-Primer-Tratado-Naturalista-del-Nuevo-Mundo.html

Embora seja considerado um Humanista, Oviedo teve toda a sua formação social e religiosa através da nobreza, baseada no etnocentrismo, partindo do princípio de que a Europa, com seus costumes, sua moral, sua religião e sua sociedade, seriam os senhores do Mundo.

Questões internas e externas ao texto

Para analisarmos as questões internas ao texto, precisamos voltar ao ano de 1492, quando a Espanha ainda era dividida em quatro reinos e estava envolvida no período que foi chamado de “guerras da reconquista”:

Os quatro principais reinos eram o de Castela, de Aragão, de Navarra e de Leão. Os reinos de Castela, Leão e Aragão unificaram-se com o casamento de Fernando (de Aragão) e Isabel (de Castela e Leão). Dessa união, resultou a formação da Monarquia Espanhola, que no ano de 1492 expulsou o último reduto islâmico do sul da Península Ibérica. Havia uma justificativa que os espanhóis usavam para legitimar as guerras de reconquista (...) “A ideia que a Espanha formava uma real unidade, unidade conquistada pelos godos e sancionada pela ordo eclesiástica, com o prestígio especial dos vários Concílios de Toledo, portanto, uma legítima unidade que foi usurpada pelo muçulmano invasor, vai se lentamente elaborada e testada até constituir, no final do século XII, uma realidade incontestável, que garantia aos cristãos, em especial aos castelhanos, o direito sagrado e historicamente legítimo de possuir e usufruir da Península e no limite, dela expulsar estrangeiros e infiéis.” (NOGUEIRA,2001).

Com a unificação, a Espanha se volta para a expansão marítima e econômica, pois, nesse período Portugal já domina boa parte dos mares ocidentais:

(...) uma vez vitoriosos, resolveram apostar na ideia do genovês Cristóvão Colombo, segundo a qual poder-se-ia chegar às Índias (nome genérico que era dado ao extremo Oriente), navegando-se no sentido ocidental. Professor Alcides AmorimA origem da Espanha e a conquista do Paraíso. Publicado em 25 de agosto de 2016 por http://amorim.pro.br/?p=1027

No período de descobrimento e conquista da América, a Espanha entra no período das grandes navegações e para não entrar em conflito com Portugal, que já era uma potência marítima, e proteger suas conquistas, um acordo é estabelecido e chamado de Tratado de Tordesilhas: 

Logo após a chegada de Cristóvão Colombo à América (1492), a corte espanhola começou a se preocupar em proteger legalmente as terras descobertas na América. O rei espanhol procurou o papa Alexandre VI, que através da Bula Inter Coetera estabeleceu a posse de todas as terras descobertas a 100 léguas a oeste de Cabo Verde à Espanha. Através deste documento, Portugal ficaria sem a possibilidade de ter a posse de territórios na recém-descoberta América. O limite estabelecido também dificultaria as navegações portuguesas no Oceano Atlântico. (...) para evitar conflitos, espanhóis e portugueses resolveram abrir negociações para o estabelecimento de um novo tratado. Este deveria contemplar os interesses de ambos os reinos no tocante a descoberta, exploração e colonização das “novas terras”. (...). O Tratado de Tordesilhas foi um acordo firmado em 4 de junho de 1494 entre Portugal e Espanha. Ganhou este nome, pois foi assinado na cidade espanhola de Tordesilhas. O acordo tinha como objetivo resolver os conflitos territoriais relacionados às terras descobertas no final do século XV. (...) O Tratado de Tordesilhas deixou de vigorar apenas em 1750, com a assinatura do Tratado de Madri, onde as coroas portuguesa e espanhola estabeleceram novos limites de divisão territorial para suas colônias na América do Sul. Este acordo visava colocar fim as disputas entre os dois países, já que o Tratado de Tordesilhas não havia sido respeitado por ambas as partes.https://www.historiadobrasil.net/resumos/tratado_tordesilhas.htm

Com as riquezas descobertas no Novo Mundo a Espanha se torna uma potência marítima e econômica voltando-se para a luta pela centralização política e unificação cultural, baseada na intolerância religiosa e na força, que se estende também para suas colônias: 

Os reis Carlos I (1516-1552) e Felipe II (1552-1598) procuraram pôr em prática os decretos conciliares oriundos de Trento, levando a cabo a reforma já iniciada há tempos pelos reis católicos. Entre as medidas tomadas para implementar a Reforma Eclesiástica podemos destacar a realização de Concílios Provinciais e Sínodos Diocesanos na Espanha e nas colônias, como o de Lima em 1582 e do México em 1585. A ação de alguns grandes bispos e prelados, a renovação das congregações e ordens religiosas, com a criação de novos institutos também muito contribuiu para manter o espírito da Igreja espanhola. No campo das ciências e das artes acontecia o florescimento da teologia e da literatura cristã e, paralelo a isso, havia a ação da inquisição contra os infiéis e hereges. A Espanha, sobretudo, com Felipe II, tornou-se o principal campo de luta contra o avanço do protestantismo, pois defendendo a fé católica defendia os seus próprios interesses: https://www.a12.com/redacaoa12/pe-inacio-de-medeiros

Segundo os Historiadores, os séculos XVI e XVII testemunharam a construção e o apogeu do império espanhol. Em 1503 é instituído em Sevilha, da Casa de Contratación, à qual são atribuídos o monopólio e a organização do comércio espanhol com o Novo Mundo, em 1504 a publicação do Mundus Novus de Américo Vespúcio concluí a tomada de consciência da autonomia geográfica da América e em 1512 é criada a  Leis de Burgos para a organização geral do Novo Mundo segundo as normas “cristãs”:

Trata-se da primeira compilação de normas destinadas a regulamentar a presença espanhola no Novo Mundo, definindo regras e impondo limites à atuação dos capitães e colonos, sobretudo no que dizia respeito às relações com as populações ameríndias. Eram normas rudimentares e gerais, no total de 35, cuja intenção era a de evitar abusos e excessos por parte dos conquistadores. Nos seus traços essenciais, as Leis de Burgos afirmavam que os índios eram homens livres e que não poderiam ser escravizados, desde que aceitassem a submissão à coroa de Castela e a conversão à fé cristã, e que deveriam ser protegidos de abusos e violências, assim como receber um salário justo pelo seu trabalho. http://ensina.rtp.pt/artigo/promulgacao-das-leis-de-burgos-em-espanha-p/

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Mesmo com as Leis de Burgos, a escravidão e a violência contra com ameríndios não terminaram e em 1524 é instituído o Conselho Real das Índias, a Espanha entrava, como toda a Europa, no período econômico do Mercantilismo.

Mercantilismo é o conjunto de práticas e ideias econômicas desenvolvidas na Europa entre o séc. XV e XVIII. O nome mercantilismo foi criado pelo economista Adam Smith em 1776. O mercantilismo tinha por objetivo fortalecer o Estado e enriquecer a burguesia, para isso, era preciso ampliar a economia para dar mais lucro afim de que a população pudesse pagar mais impostos. Consideravam que a exportação (na linguagem de hoje) é que traria riquezas e vantagens e assim começou uma competição comercial. Ocorreu então o metalismo, que era o acúmulo de moedas dentro do país e isso era considerado um sinal de que o objetivo havia sido alcançado. O único recurso encontrado então foi aplicar uma balança comercial favorável para manter o equilíbrio monetário que para eles era exportar mais e importar menos. https://www.historiadomundo.com.br/idade-moderna/mercantilismo.htm

Para iniciarmos uma análise das questões externas ao texto, precisamos entender a mudança do período da Idade Média para a Idade Moderna. Inicialmente citamos a obra Entretienssur Descartes do filósofo Alexandre Koyré:

O século XVI foi uma época de uma importância capital na história da humanidade, uma época de um enriquecimento prodigioso do pensamento, e de uma transformação profunda da atitude espiritual do homem; uma época imbuída de uma verdadeira paixão pela descoberta: descoberta no espaço e descoberta no tempo; paixão pelo novo e paixão pelo antigo. Os seus eruditos tudo exumaram, todos os textos sepultados nas velhas bibliotecas monásticas; leram tudo, tudo estudaram, tudo editaram. Fizeram reviver todas as doutrinas esquecidas dos velhos filósofos da Grécia e do Oriente: Platão e Plotino, o estoicismo e o epicurismo, o ceticismo e o pitagorismo, e o hermetismo e a cabala. Seus sábios tentaram fundar uma ciência nova, uma física nova, e uma nova astronomia; seus viajantes e aventureiros atravessaram os continentes e os mares, e os relatos de suas viagens resultaram em uma nova geografia, em uma nova etnografia. (KOYRÉ, 1944:33-34).

Marcado por grandes reformas religiosas, políticas e sociais a Idade Moderna marca também o mercantilismo, como abordado anteriormente. No campo religioso tem-se a reforma protestante de Martin Lutero e o Calvinismo, dando início a contra reforma católica e a instituição dos Tribunais da Inquisição e perseguição de judeus, muçulmanos e todos que não fossem católicos. Novos pensamentos nas artes, cultura, economia e política surgem na Europa:

Os séculos XV e XVI marcam o começo de um período histórico chamado Idade Moderna, que se estende até o final do século XVIII. Três grandes acontecimentos se destacam nesse período: a Expansão Marítima, o Renascimento e a  Reforma.  Esses acontecimentos alteraram profundamente a política, a economia, a sociedade e a cultura. Em consequência disso, as pessoas passaram a adotar modos de vida bem diferentes daqueles dos homens que viveram na Idade Média. O primeiro acontecimento significativo da Idade Moderna foram as Grandes Navegações. Entre os séculos XV e XVI, alguns países europeus descobriram novas terras, povos e produtos, ampliando sua riqueza e seu poder. Os dois países que mais se destacaram nesses descobrimentos foram Portugal e Espanha. As descobertas de novas rotas marítimas e novas terras, abriram caminho para as comunicações com todo do mundo. O Renascimento cultural, firmava novos valores e princípios, contestando os valores medievais-feudais. Na religião, a Reforma Protestante, marcou o processo de decadência da Igreja, a principal representante da ordem feudal, adequando a religião aos Tempos Modernos. Na política, a formação das monarquias nacionais iniciada durante a Baixa Idade Média, submetendo a nobreza e a Igreja, consolidou-se na Idade Moderna, com o surgimento dos Estados Absolutos. A Idade Moderna foi assim, o período de desmontagem progressiva do que ainda restava do feudalismo e de edificação gradual da nova ordem capitalista. http://www.historiamais.com/idademoderna.htm

A hegemonia marítima de Espanha e Portugal aliadas as colonizações nas Américas incomodam a Inglaterra, França e Holanda, que não aceitam o Tratado de Tordesilhas e a divisão do Novo Mundo em duas partes, dando início as invasões inglesas, francesas e holandesas, conflitos e guerras se estabelecem além dos conflitos internos nas colônias. Por outro lado, a Igreja não pretende “perder” seus fiéis nas colônias para os reformistas e aliadas aos colonizadores inicia o processo de catequização dos ameríndios, enviando posteriormente seus inquisidores também para as colônias. Enfim, um período de conflitos religiosos e sociais, guerras e mudança econômica, aliados ao surgimento de Impérios que futuramente seriam “derrubados” através de revoluções.

Conclusão

Tendo analisado todo o contexto da época, as questões internas e externas ao texto, uma controvérsia nos intriga quando percebemos através das pesquisas, como Oviedo foi importante para o conhecimento da História da América e ao mesmo tempo tenha escrito palavras com pensamentos tão etnocêntricos em relação aos ameríndios:

O almirante Colombo encontrou, quando descobriu esta Ilha Hispaniola, um milhão de índios e índias [...] dos quais, e dos que nasceram desde então, não creio que estejam vivos, no presente ano de 1535, quinhentos, incluindo tanto crianças como adultos, que sejam naturais, legítimos e da raça dos primeiros índios... Alguns fizeram esses índios trabalhar excessivamente. Outros não lhes deram nada para comer como bem lhes convinha. Além disso, as pessoas desta região são naturalmente tão inúteis, corruptas, de pouco trabalho, melancólicas, covardes, sujas, de má condição, mentirosas, sem constância e firmeza [...] Vários índios, por prazer e passatempo, deixaram-se morrer com veneno para não trabalhar. Outros se enforcaram pelas próprias mãos. E quanto aos outros, tais doenças os atingiram que em pouco tempo morreram [...] Quanto a mim, eu acreditaria antes que Nosso Senhor permitiu, devido aos grandes, enormes e abomináveis pecados dessas pessoas selvagens, rústicas e animalescas, que fossem eliminadas e banidas da superfície da terrestre [...]. (Gonzalo Fernández de Oviedo, L' Histoire desIndes, 1555. Apud ROMANO, Ruggiero. Os Mecanismos da Conquista Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1995, p. 76).

Como estudantes, talvez não tenhamos a experiencia e conhecimento suficientes para entender quais os fatores que levam um homem considerado humanista, respeitado pela sua contribuição científica para o estudo das ciências naturais, escrever tão tristes linhas em relação a outros seres humanos. É notável que ao escrever essas linhas o autor nos mostra o completo desconhecimento em relação aos acontecimentos que fizeram com que os índios tomassem certas atitudes, nos mostra por outro lado o pensamento típico do colonizador-conquistador, se colocando como um ser superior diante do colonizado-conquistador.

Mais grave ainda nos parece o fato de Oviedo ser considerado até hoje um dos grandes Historiadores do mundo, indo no sentido contrário ao que temos aprendido em nossos estudos universitários:

Ao tratar de uma fonte histórica, cabe ao pesquisador ou pesquisadora analisar criteriosamente a validade desta fonte a credibilidade que ela merece receber. Afinal, é preciso refletir sobre sua objetividade, imparcialidade, autenticidade, precisão, pertinência, completude, profundidade, estruturação e outras características que sejam importantes para fazer dela um importante testemunho histórico. (História e Historiografia: Definição Dos Conceitos e Análise de Sua Origem. Aula 1. Prof. Dr. Rodrigo Do Prado Bittencourt. Universidade Brasil, 2018.)

Ao tratar e analisar o ameríndio da forma como registrado em suas palavras, Oviedo nos mostra o desconhecimento ou estudo aprofundado, que um pesquisador deveria fazer, sobre a História dessas nações indígenas, sua sociedade, seus conhecimentos científicos, que já eram detentores desse conhecimento a milênios, sem a presença do europeu conquistador.

Outro questionamento que se faz pertinente é o fato dessa obra ser publicada e difundida por toda Europa no séc. XVI, fazendo com que a imagem do ameríndio fosse difundida com todo o preconceito e etnocentrismo que tanto sofrimento causou no processo de colonização das américas.

Será que o historiador pode tentar fazer um “julgamento”? Pode “tomar partido”? Questão inútil, já que sempre se julga e sempre se toma partido...mas existe hipocrisia em tomar partido em silêncio e a honestidade em confessá-lo... Calar-se não significa dar provas de objetividade; significa simplesmente conservar alguns na ignorância e levar outros a fazer de conta que não entendem. Talvez possam criticar estas páginas de ter feito “lenda negra”, mas esconder os motivos da “lenda negra” não será uma maneira de fazer “lenda cor-de-rosa”? (ROMANO, Ruggiero. Os Mecanismos da Conquista Colonial. 1995.)

Talvez possamos explicar o pensamento de Oviedo levando em consideração a sua participação na intelectualidade da corte dos monarcas católicos ou quando foi nomeado secretário do Conselho da Inquisição durante o tempo de Frei Diego de Deza. Esses fatores podem ter contribuído para o seu pensamento etnocêntrico.

Violência, injustiça, hipocrisia caracterizam a conquista. Não se trata de colocar a história americana sob a égide da legenda negra. Simplesmente, e longe de qualquer julgamento moral, quer-se sublinhar que as formas, os métodos, as maneiras da conquista, mesmo que se queira (e, em certos casos extremos se pode) justificá-los em nome da moral corrente dos séculos XV e XVI, não continham em si nenhum germe de desenvolvimento positivo, pois destinados à mais completa involução, cujas consequências vencidos e vencedores teriam suportado juntos. O primeiro gesto de Cristóvão Colombo, ao tomar posse da terra, foi fincar uma cruz. Tomada de posse (com a bandeira dos reis de Espanha), justificação, arma, instrumento de reinado: a conquista espiritual das Américas começava. (ROMANO, Ruggiero. Os Mecanismos da Conquista Colonial. 1995.)

A obra de Oviedo nos lembra que todo Historiador, segundo os estudos que temos nas Universidades, deve sempre pesquisar profundamente o seu objeto de estudo e buscar a isenção de seu pensamento e principalmente preconceitos étnicos e pessoais.

Além das preocupações morais, há um outro nível de raciocínio que é extremamente importante. É um julgamento geral sobre o mundo criado pela conquista. Quer ele seja grande, importante, épico mesmo, como contestá-lo? Mas, será que um historiador não tem o direito — e até mesmo o dever — de ir além de uma simples constatação? Será que ele não deve tentar ir além dos “fatos” que se lhe apresentam para buscar uma argumentação mais profunda e talvez mais verdadeira da que pode extrair do simples acontecimento? Será que ele não pode julgar se o preço pago é proporcional ao resultado obtido? Se tal direito lhe for assegurado, ele poderá dizer, então, que os conquistadores criaram, em uma base seguramente épica, as premissas de um mundo frágil, doentio, corroído. Que grandes e magníficas cidades tenham sido construídas, como negá-lo? Que escolas de pintura como as de Cuzco e Quito tenham produzido obras dignas de figurar nos maiores museus do mundo, como contestá-lo? Que formas culturais de grande valor tenham surgido do mundo americano, como esquecê-lo? Mas que tudo isso tenha custado um preço exorbitante é uma realidade que ninguém pode omitir. Ainda seria possível dizer que é difícil estabelecer o preço de uma civilização em termos de valores materiais; mas aí se observará que ao simples nível dos bens materiais, a conquista lançou certas (apenas certas) premissas de um sistema econômico do qual todos os defeitos, as inconsistências, as contradições ainda hoje são flagrantes. O fracasso dos conquistadores também se faz sentir no nível social e econômico. (ROMANO, Ruggiero. Os Mecanismos da Conquista Colonial. 1995.)

Até hoje a América Central e a América Latina sofrem as consequências desse preconceito e etnocentrismo que se iniciou desde 1492 na américa espanhola e 1500 na américa portuguesa. Até hoje nossos povos e países sofrem esse preconceito ocasionado por colonizações exploratórias que dizimaram indígenas e culturas.

Ainda hoje o processo de colonização não acabou, apenas mudou de lugar e de nação, onde percebemos ao longo do séc. XX e ainda agora em pleno séc. XXI, dentro da própria América, a tentativa de se estabelecer uma “nova (velha) ordem” a partir do atual governo dos Estado Unidos da América. Infelizmente o atual governo brasileiro se mostra subserviente, passivo diante de tal situação. Esperamos que o restante da América Latina seja resistente.

Como já citado anteriormente, somos ainda estudantes de História e talvez estejamos completamente errados em toda a linha de pensamento que expomos e precisemos aprender mais para não sermos tão críticos. São perguntas e pensamentos que só a continuação dos estudos e o tempo ou a própria História poderão responder.

Fontes e referências bibliográficas

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-19122016-100335/publico/2016_AnaPaulaGoncalvesSouza_VOrig.pdf

Flávia Galli Tatsch. A Imagem como Fixação da Experiência. Uma Análise Da Obra De Gonzalo Fernández De Oviedo Y Valdés. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011.

https://pages.vassar.edu/oviedo/gonzalo-fernandez-de-oviedo/

História e Historiografia: Definição Dos Conceitos e Análise de Sua Origem. Aula 1. Prof. Dr. Rodrigo Do Prado Bittencourt. Universidade Brasil, 2018.

NOGUEIRA, Carlos Roberto F. A Reconquista Ibérica: A construção de uma ideologia. HID 28. 2001.

ROMANO, Ruggiero. Os Mecanismos da Conquista Colonial. 1995.

Professor Alcides Amorim, A origem da Espanha e a conquista do Paraíso. Publicado em 25 de agosto de 2016 porhttp://amorim.pro.br/?p=1027


Publicado por: Eduardo de Almeida Vieira

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Meu Artigo. O Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
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