Whatsapp

O contexto social do Terror

História

Breve estudo sobre o gênero cinematográfico e literário do Terror, vendo como o mesmo ao longo das décadas foi modificando-se e adaptando-se ao contexto social em que está inserido

Neste texto abordaremos o gênero cinematográfico e literário do Terror, vendo como o mesmo ao longo das décadas foi modificando-se e adaptando-se ao contexto social em que está inserido. Traçaremos uma breve linha do tempo para contextualizar toda a ideia. Mas antes, devemos saber o que é o Terror e também o Horror. Estas duas palavras são geralmente utilizadas como sinônimos e por mais que caminhem lado a lado em uma linha tênue, possuem certas diferenças.

‘’Terror é geralmente descrito como o sentimento de medo e expectativa que precede a experiência horrível. Por outro lado, Horror é o sentimento de repulsa que geralmente ocorre depois de algo assustador ser consumido, visto ou experienciado. É a sensação que se tem depois de chegar a uma realização terrível ou experimentar uma ocorrência profundamente desagradável. Em outras palavras, horror está relacionado a ficar chocado ou assustado (sendo horrorizado), enquanto o terror está relacionado à ansiedade ou ao medo. Horror também pode ser definido como uma combinação de terror e repulsa. Ou seja, terror é mais ligado ao medo psicológico, à expectativa, ao temor de um acontecimento assustador, enquanto o horror é mais ligado ao pavor, à repulsa física, àquilo que choca a vista do leitor/espectador, o que muitas vezes é expresso através do ’’ gore’’, quando, por exemplo, há cenas de violência gráfica ou que representam sangue e carnificina.’’ — Site Artrianon

Partindo deste pensamento, analisaremos a seguir um claro exemplo de como o contexto social de determinada época é extremamente relevante para a criação de uma atmosfera de Terror e Horror que se perpetue no imaginário coletivo.
Howard Phillips Lovecraft ou H.P.Lovecraft como era conhecido, foi um escritor estadunidense de Contos de Terror das primeiras décadas do Século XX. Sua mais notável contribuição à literatura e ao Terror foi o subgênero ‘’Horror Cósmico’’ (ou Cosmicismo), vertente pela qual até os dias de hoje é reverenciado e referenciado. Resumindo, o Horror Cósmico é um conceito no qual são apresentadas entidades que vão muito além do alcance da imaginação humana e de nossas noções de espaço-tempo, mostrando a todo tempo a insignificância da humanidade em relação aos enigmas do universo. Além disso, o subgênero traz consigo um fascínio por elementos complexos da realidade humana, como por exemplo a morte e o delírio da mente, elementos estes carregados de pessimismo. Os contos de Lovecraft são representados por divindades ancestrais como Cthulhu, Nyarlathotep e Azathoth.

Para entendermos grande parte dos pensamentos de Lovecraft e de seu Terror, devemos, em parte, dissecar suas obras e todo contexto social da época nas quais elas estavam inseridas. Ao fazer isso nos encontramos em meio a pensamentos Racistas e Xenofóbicos, mostrando todo seu desprezo por negros, indígenas e imigrantes. Pensamentos estes que são intrínsecos a seus contos e a base de toda atmosfera de terror que trazem consigo. Mas, não cabe a nós, nos dias atuais julgarmos contos das décadas de 1920 e 1930 pois cairíamos no erro do Anacronismo. Então, devemos saber separar o autor da obra. Todas as visões de mundo e seus pensamentos acerca de raça refletiam as idéias de um homem branco de classe média do início do século XX.

‘’Novos tipos de rosto apareceram na Rua; rostos morenos, sinistros, com olhos furtivos e feições estranhas, que falavam línguas estranhas e colocavam sinais com letras conhecidas e desconhecidas sobre a maioria das casas velhas. Carroças apinhavam-se nas sarjetas. Um fedor Sórdido, indefinível, dominava o lugar.’’
— A Rua

Com embasamento histórico, podemos afirmar que as primeiras décadas do século XX ainda eram marcadas pela legitimação de pensamentos de superioridade racial branca, assim, desumanizando e animalizando as demais raças. Nesta época teorias eugenistas de purificação da raça humana através do fim da miscigenação, estudos sobre engenharia genética e o grupo branco supremacista Ku Klux Klan estavam em alta. Todo este ambiente e contexto refletiam-se nos pensamentos e na obra de Lovecraft. Todo o ‘’medo do desconhecido’’ pautado no Horror Cósmico baseava-se neste pensamento racista, metaforicamente adaptado do estranhamento acerca de outras raças, povos, culturas e miscigenação. ‘’O Chamado de Cthulhu’’ sua obra mais famosa, por exemplo, baseia-se em tudo que Lovecraft taxa como verdade acerca do submundo e da periferia humana, então, vemos como o Horror Cósmico e o medo do desconhecido em suas obras não existe sem o racismo. Portanto, tentar reproduzir este subgênero do terror nos dias de hoje, fora do contexto racial do começo do século e em uma sociedade mais evoluída em causas sociais como as de hoje seria um completo fracasso.

‘’Todos os prisioneiros revelaram-se homens vis, mestiços e mentalmente perturbardos. Muitos eram marinheiros negros e mulatos que davam a cor do Vodu ao culto heterogêneo’’
— O Chamado de Cthulhu

Neste ponto do texto, pudemos ver, através do exemplo citado, como o Terror caminha lado a lado com as concepções e moldes de uma sociedade. Portanto, podemos seguir com nossa abordagem. Agora, avançaremos em nossa linha do tempo para o fim do Século XX. Ao longo das décadas o Cinema foi se modificando assim como o gênero do Terror, houveram produções excepcionais que consolidaram de vez este gênero, mas nosso atual foco será em um subgênero específico: Os filmes de terror Slasher. Mas, antes de sabermos o que são os Slashers, precisamos conhecer um pouco sobre sua origem. O primeiro esboço deste gênero se deu a partir de um estilo literário e cinematográfico italiano, os ‘’Giallos’’. Este gênero do terror italiano levava este nome devido a sua tradução, que significa Amarelo, referência à cor das capas dos livros e revistas de onde eram tiradas as histórias para mais tarde virarem adaptações cinematográficas. O ápice do gênero foi nas décadas de 1960 e 1970, revolucionando toda a estética de filmes de terror que envolviam assassinatos. Pela primeira vez foram definidas algumas ‘’regras’’ neste universo cinematográfico de matanças:

— Haveria um antagonista, um misterioso assassino mascarado e com roupas cobrindo todo seu corpo, tornando difícil o público adivinhar o culpado
— As câmeras focariam em suas mãos e em sua sombra e não em seu rosto
— Cenas banhadas à sangue
— Haveria uma figura heróica para contrastar o antagonista, geralmente um detetive ou policial para estar escoltando os protagonistas
— A identidade do assassino só seria revelada ao final do filme, próximo à sua morte

Podemos citar alguns filmes Giallos como percursores do Slasher, como ‘’A Garota Que Sabia Demais’’ (1963) -considerado o primeiro Giallo do cinema-, ‘’Seis Mulheres Para o Assassino’’ (1964), ‘’Torso’’ (1973) e Banho de Sangue (1971), filme que moldou esteticamente a forma como o terror seria propagado pelo restante da década.

Sabemos parte de sua origem, mas afinal, o que são os Slashers?

Do inglês, derivado do verbo ‘’slash’’que significa golpear. São filmes de baixo orçamento, que, assim como os Giallos são protagonizados por serial killers mascarados, que perseguem e escolhem suas vítimas aleatoriamente. Uma única pessoa ou um grupo de amigos que estava no lugar errado na hora errada se transformam em presas fáceis. Comumente estão armados com ferramentas e objetos que possuem lâminas (facas, machados, estiletes e canivetes) Diferentemente subgênero italiano, o estadunidense possui características próprias, são franquias que contam com diversas continuações e serial killers que apesar de mortos sempre retornam em sequências. Neste subgênero os conceitos de terror e horror se confundem e se misturam a todo tempo. O subgênero têm seu sucesso não devido ao enredo ou à profundidade de seus filmes mas sim por figuras que marcaram época, como Michael Myers (Halloween), Freddy Krueger (Hora do Pesadelo), Jason Voorhees (Sexta-Feira 13) e Ghostface (Pânico).

Na década de 1970 podemos citar 2 filmes que foram essenciais para o que viria a se tornar o Slasher. São eles ‘’O Massacre da Serra Elétrica’’ (1974) e ‘’Noite do Terror’’ (1974). Ambos os filmes apostaram no terror visceral protagonizado por um assassino mascarado que aterrorizava e mutilava um grupo de jovens. Mas ainda faltava algo. E então, só em 1978 com ‘’Halloween’’ do assassino Michael Mayers é que o subgênero se solidificaria de vez e ganharia espaço na indústria cinematográfica de Hollywood. Após o gigantesco sucesso de bilheteria de Halloween, não demorou muito para que diversos diretores apostassem em produções do subgênero e produzissem, exaustivamente, dezenas de obras similares, fazendo com que a estrutura se tornasse repetitiva e o subgênero fosse saturado em pouco mais de uma década. Por exemplo, no começo dos anos 1990, grandes nomes como ‘’Halloween’’ e ‘’A Hora do Pesadelo’’ contavam com 5 filmes e ‘’Sexta-Feira 13’’ contava com 8 e o subgênero já totalizava pouco mais de 100 filmes. Apenas em 1996 os Slashers ganharam uma sobrevida com ‘’Pânico’’ mas não durou muito tempo.
Após conhecermos melhor este subgênero podemos nos indagar sobre duas coisas:

Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;)

O que todos estes filmes tinham em comum e porque este subgênero fez tanto sucesso nas décadas de 1970, 80 e 90?

Retornamos então ao ponto chave deste artigo, o contexto social. As décadas de 1970, 80 e 90 foram décadas onde o número de homicídios em série cresceu desenfreadamente nos Estados Unidos. Teve seu começo na década de 60 e 70, seu ápice na década de 80 e sua queda na de 90. Assim como o subgênero Slasher. Apenas na década de 1980 estima-se que havia, pelo menos, 200 assassinos em série atuando nos Estados Unidos. Seria apenas uma coincidência? Não. O Terror no cinema era apenas um reflexo da sociedade e pelos problemas pelos quais a mesma estava passando. Todos estes filmes e personagens que protagonizavam os Slashers tinham em comum o fato de que geralmente eram homens comuns, que, sem qualquer motivo aparente, matavam à sangue frio apenas para satisfazer seus desejos e saciar sua vontade -quase que pornográfica- por violência. Não eram monstros épicos ou além da imaginação humana, eram pessoas reais, cometendo crimes reais. Os filmes de terror tornaram-se um artifício que retratava o medo coletivo da sociedade americana.

Paralelamente à sociedade americana, os slashers reproduziam esteriótipos sociais em suas vítimas, geralmente adolescentes boêmios e questões envolvendo a sexualidade, principalmente a feminina, impulsionavam os assassinatos e serviam como agente motivador ao serial killer. Tanto na vida real quanto nos filmes, os adolescentes eram uma maioria esmagadora no número de vítimas. Há um fato curioso, e se fôssemos contabilizar quantas adolescentes do sexo feminino foram mortas em cenas onde estavam tomando banho, trocando de roupa ou nas quais relacionavam-se sexualmente com seus parceiros? Tal qual um castigo por serem sexualmente ativas. É uma cena tão reproduzida que tornou-se um clichê destes filmes e faz com que percamos as contas. Um nítido exemplo se encontra no primeiro filme de ‘’Halloween’’, Michael Mayers, ainda criança mata sua própria irmã (nua) ao ver que a mesma está relacionando-se sexualmente com seu namorado. Nestes filmes a câmera nos mostra sempre a perspectiva do assassino, causando uma imersão no espectador, fazendo com que o mesmo possa imaginar que aquela cena estivesse acontecendo fora das telas e por um momento fazendo com que a realidade e a ficcção se complementem.

Como já citado, devido à queda desta onda de assassinatos em série no fim dos anos 1990, o gênero Slasher foi perdendo popularidade e espaço no Cinema. Isto não quer dizer que o gênero se tornou ultrapassado, apenas nos mostra como o interesse do público mudou assim como o contexto social que havia marcado as últimas três décadas já não era mais o mesmo. No começo dos anos 2000 inúmeras outras vertentes do Terror ganharam espaço e fama, reformulando a indústrias. Podemos citar especialmente os subgêneros Sobrenatural contando com franquias como ‘’Premonição’’ (2000), ‘’O Chamado’’(2002), ‘’O Grito’’ (2004) e ‘’Atividade Paranormal’’ (2007) e também o subgênero Splatter contando com nomes como ‘’Jogos Mortais’’ (2004) e ‘’O Albergue’’(2006). Foram franquias que não refletiam necessariamente um contexto social, mas que, curiosamente, foram responsáveis por implantar no imaginário coletivo novos medos, traumas e ansiedades. Assim, fazendo com que desta vez o Terror contextualizasse a sociedade em que se passa e não sendo contextualizado por ela. Estes filmes modificaram não só a sociedade mas também revolucionaram toda a indústria cinematográfica do Terror,dominando a década de 2000 e se estendendo por toda a década de 2010.
Isto quer dizer que os filmes Slashers foram extintos? Não! Ainda que não possua a mesma proeminência das últimas décadas algumas produções ainda foram e são feitas devido à facilidade de produção e pelo retorno financeiro que geravam. Não podemos deixar de citar o Recente ‘’A Morte te dá Parabéns’’ (2017) como uma grata surpresa. Após duas décadas escassas de filmes Slashers marcantes, o filme veio para mostrar que ainda se fazem bons filmes e que eles podem ser inovadores dentro de um subgênero saturado. A Morte te dá Parabéns têm uma premissa inovadora onde mescla-se com a Ficção Científica. Na trama, a protagonista após ser assassinada dentro do campus de sua faculdade, revive seu dia em um tipo de ‘’loop’’ até que consiga evitar sua própria morte.

Vemos então como os moldes do Terror de uma maneira geral já não são (e nem devem ser) mais os mesmos, o gênero evoluiu junto com a indústria cinematográfica. No gênero Slasher algumas tradições como a presença de assassinos mascarados e carnificinas foram mantidas mas o subgênero também evoluiu e adaptou-se aos temas mais atuais, temos até mesmo um exemplo fora da curva, um novo filme de Halloween lançado em 2018. Uma sequência direta do filme original de 1978. O filme consegue recriar toda a tensão e narrativa nos tempos atuais, transportando a história para o presente e mostrando as consequências diretas na família e na vida da protagonista Laurie, que sofre com estresse pós traumático, ansiedade e diversos problemas psicológicos devido ao horror vivido. Temos não mais uma perspectiva masculina pelo olhar do assassino, agora temos um olhar feminino do ponto de vista de uma sobrevivente que luta contra seu algoz. Não há mais uma visão estereotipada da mulher como havia na década de 1970, como sendo um sexo frágil apenas com o propósito de ser objetificada e mutilada em cena, apenas para saciar os desejos de um assassino. Em tempos de empoderamento feminino e uma nova onda do movimento feminista, é perceptível como isso influenciou diretamente o rumo em que a sequência tomou.

Mais uma vez o contexto social provou ser um elemento fundamental para a narrativa. Seguindo este mesmo exemplo, podemos ver que seja no Slasher ou em qualquer outra vertente do Terror a crítica e o contexto social estão sempre presentes. Podemos notar isso na nova safra de diretores e de suas obras cada vez mais profundas, deixando de lado a mesmice dos assassinos mascarados e levando o Terror a um novo nível, mais experimental e psicológico, tratando temas recorrentes da sociedade e da psique humana . Podemos citar os diretores Ari Aster com ’’Hereditário’’ (2018) e ‘’Midsommar’’ (2019), Jordan Peele com ‘’Corra!’’ (2017) e ‘’Nós’’ (2019) e Robert Eggers com ‘’A Bruxa’’ (2015) e ‘’O Farol’’ (2019). Estes três diretores são as novas promessas que estão reinventando o terror nos cinemas, dando ao público muito mais do que assassinatos clichês ou histórias de fantasmas, mas um terror que começa ‘’de dentro pra fora ‘’, no psicológico, no mais íntimo do ser humano e no seu lado mais vil, sempre contextualizando e abordando em suas obras temas recorrentes como feminicídio, problemas mentais/psicológicos e o racismo. Não sabemos o rumo que o Terror tomará nas próximas décadas, então, vamos aproveitar o grande momento em que vivemos e apreciar as futuras obras, sempre refletindo na mensagem passada.

Um filme nunca é só um filme.

Fontes

https://artrianon.com/2018/06/13/entenda-a-diferenca-entre-horror-e-terror/
https://oglobo.globo.com/cultura/filmes/conheca-cinco-diretores-por-tras-do-novo-boom-do-terror-adulto-22757895
https://www.sessaodomedo.com.br/2017/10/guia-oficial-dos-filmes-slashers.html
https://rotacult.com.br/2019/02/slasher-a-ascensao-e-queda-de-um-subgenero/
https://www.youtube.com/watch?v=SEJF2ZSdANw (EntrePlanos — ”Os Slashers Morreram?”)
https://www.youtube.com/watch?v=KxHGSmOCCkQ (Quadro em Branco — Slashers e o Post Horror)
https://youtu.be/-uFNq7uXHD8 (Quadro em Branco — Os horrores Inomináveis de H.P Lovecraft)
https://www.thrillist.com/entertainment/nation/best-horror-movies-of-the-2000s
https://editorial.rottentomatoes.com/guide/the-50-best-horror-movies-of-the-2010s/
https://www.bbc.com/portuguese/internacional-45363043


Publicado por: Vitor Amoroso

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Meu Artigo. O Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
  • Facebook Brasil Escola
  • Instagram Brasil Escola
  • Twitter Brasil Escola
  • Youtube Brasil Escola
  • RSS Brasil Escola