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A trajetória de mulheres negras na formação educacional e inserção no mercado de trabalho em Ituiutaba – MG.

História

A trajetória de mulheres negras na formação educacional e inserção no mercado de trabalho em Ituiutaba – MG, Mulher Negra, Formação Educacional, Mercado de Trabalho, discriminação racial.

Resumo: O presente artigo tem como tema a mulher negra na formação educacional e no mercado de trabalho em Ituiutaba – MG no final do século XX. O objetivo da pesquisa foi estudar e apresentar a trajetória de mulheres negras para conseguir estudar e conquistar espaço no campo do trabalho estabelecendo um parâmetro com a mulher branca a nível nacional e local. A metodologia utilizada foi a pesquisa teórica (revisão de literatura e dados do IBGE e IPEA) e também pesquisa de campo realizada através de depoimentos de mulheres negras que trabalham no setor público e privado da cidade e por meio de entrevista com responsáveis por esses setores, denominada como “mapeamento” investigando a concentração de mulheres negras empregadas nesses locais. A pesquisa por um lado, nos revelou a evidência secular de uma sociedade que ainda é altamente preconceituosa e racista. Por outro lado mostrou a existência de mulheres que lutaram e conseguiram entrar no mercado de trabalho em Ituiutaba-MG.

Palavras-chave: Mulher Negra, Formação Educacional, Mercado de Trabalho.


1 - Introdução

Esse artigo propõe compreender a luta de mulheres negras na cidade de Ituiutaba-MG., tendo como viés de investigação sua inserção no mercado de trabalho no final do século XX, abordando trajetória, vivências e perspectivas.
Para tanto, tem como objetivo geral apresentar a luta pelos estudos e oportunidade da mulher negra no mercado de trabalho fazendo um parâmetro com a mulher branca a nível nacional e local e em forma específica analisar a trajetória de luta de mulheres negras no mercado de trabalho na cidade de Ituiutaba -MG.

No Brasil, as discriminações raciais têm atuado como eixos estruturantes dos padrões de exclusão social. Esta lógica se reflete no mercado de trabalho, no qual as mulheres, especialmente as mulheres negras, vivenciam as situações desfavoráveis. Nesse contexto, as mulheres negras sofrem tripla discriminação no mercado de trabalho brasileiro: racial, de classe e de gênero.

A condição da mulher negra é um assunto que exige discussões de todas as áreas do conhecimento e campos profissionais, sendo nesse sentido de especial responsabilidade das pessoas que estão ligadas è educação, visto que o docente é também um formador de opinião e por isso traz em sua função educacional e social, o compromisso de se debruçar sobre assuntos e discussões que contribuam para produção de conhecimentos que mudam posturas ainda preconceituosas e racistas que ora excluem, ora dificultam a inserção da raça negra em forma geral no sistema de ensino, no mercado de trabalho os impedindo de exercer sua cidadania.

Pela compreensão citada é que este estudo se torna relevante, pois trata da mulher negra na sociedade brasileira apontando dados sobre oportunidades e as condições de trabalho, assim como mostra a trajetória de luta de mulheres negras na cidade de Ituiutaba–MG para conseguirem se qualificar e entrar para um mercado de trabalho diferenciado daqueles considerados de baixo prestígio que estiveram relegadas mesmo depois da abolição da escravatura, ou seja, trabalho doméstico, por exemplo.
A realização da pesquisa foi possibilitada pela revisão de literatura e dados (IBGE, 2000 e IPEA, 1998) sobre a condição da mulher negra no país e por uma pesquisa de campo, por meio de depoimentos de mulheres negras[2] que travaram uma luta para estudar e conseguiram entrar para o mercado de trabalho público e privado da cidade e por meio de pesquisa no mercado público e privado denominada como “mapeamento” investigando a concentração de mulheres negras empregadas.

A estruturação do trabalho contou com considerações teóricas sobre a condição da mulher negra abordando as transformações e permanências ocorridas na sua vida ao longo dos tempos. E através da pesquisa de campo é apresentado e discutido a luta dessas mulheres enfatizando suas trajetórias, vivências e perspectivas para chegarem ao mercado de trabalho em Ituiutaba – MG no final do século XX.
A fim de iniciar o estudo, com base na teoria a seguir foi apresentada considerções sobre a condição da mulher negra na sociedade brasileira.


2 - Considerações Teóricas sobre a Condição da Mulher Negra na Sociedade Brasileira


O Brasil, que se favoreceu do trabalho escravo ao longo de mais de quatro séculos, colocou à margem o seu principal agente construtor, o negro, que passou a viver na miséria, sem trabalho, sem possibilidade de sobrevivência em condições dignas. Nesse contexto se encontra a mulher negra que por ser negra, mulher e pobre sua exclusão ocorre de forma mais acentuada e gritante.

2.1 A Mulher Negra na Sociedade Brasileira Transformações e Permanências

Desde a chegada da mulher negra no Brasil, na condição de escrava, iniciou-se a luta em prol de vida com dignidade na sociedade brasileira. Assim mesmo sendo a discriminação racial ou racismo declarada crime, a sociedade, ainda age em relação ao negro, camufladamente de forma bastante preconceituosa e racista. Nesse contexto estão “asmulheres negras e as mulatas que em geral, sofrem de tripla discriminação: sexual, social e racial. Portanto tudo o que se coloca como problemático para a população negra atinge especialmente as mulheres.”(VALENTE, 1994, p.56).

A situação da mulher negra no Brasil de hoje manifesta um prolongamento da sua realidade vivida no período de escravidão com poucas mudanças, pois ela continua em último lugar na escala social e é aquela que mais carrega as desvantagens do sistema injusto e racista do país. Inúmeras pesquisas realizadas nos últimos anos mostram que a mulher negra apresenta menor nível de escolaridade, trabalha mais, porém com rendimento menor, e as poucas que conseguem romper as barreiras do preconceito e da discriminação racial e ascender socialmente (SILVA, 2003).

Segundo Lima (1995) o fato de 48% das mulheres pretas ...estarem no serviço doméstico é sinal de que a expansão do mercado de trabalho para essas mulheres não significou ganhos significativos. E quando esta barreira social é rompida, ou seja, quando as mulheres negras conseguem investir em educação numa tentativa de mobilidade social, elas se dirigem para empregos com menores rendimentos e menos reconhecidos no mercado de trabalho.

Nesse sentido a discriminação racial na vida das mulheres negras é constante; apesar disso, muitas constituíram estratégias próprias para superar as dificuldades decorrentes dessa problemática.
As mulheres negras que conquistam melhores cargos no mercado de trabalho despendem uma força muito maior que outros setores da sociedade, sendo que algumas provavelmente pagam um preço alto pela conquista, muitas vezes, abdicando do lazer, da realização da maternidade, do namoro ou casamento. Pois, além da necessidade de comprovar a competência profissional, têm de lidar com o preconceito e a discriminação racial que lhes exigem maiores esforços para a conquista do ideal pretendido (SILVA, 2003).

Embora o contexto adverso, algumas mulheres negras vivem a experiência da mobilidade social processada em “ritmo lento”, pois além da origem escrava, ser negra no Brasil constitui um real empecilho na trajetória da busca da cidadania e ascensão social. Bernardo (1998), em seu trabalho sobre a memória de velhas negras na cidade de São Paulo, mostra como é difícil a mobilidade ascensional da negra - especialmente na conquista de um emprego melhor, pois a maioria das negras trabalhava na informalidade, ou como empregadas domésticas.
Baseado nas fontes orais colhidas através de entrevistas gravadas e transcritas, apresentamos no tópico seguinte as narrativas de algumas mulheres negras que buscaram em suas memórias, a trajetória de luta pela busca dos estudos até a inserção no mercado de trabalho em espaços públicos e privados na cidade de Ituiutba-MG.

3- Mercado de Trabalho em Ituiutaba: Da Qualificação à Inserção

A história oral foi o procedimento privilegiado para a realização das entrevistas, possibilitando uma percepção profunda das várias dimensões da experiência de vida escolar e profissional das entrevistadas, visto que a fonte oral possibilita trazer à luz do presente o significado do vivido no passado conforme Portelli (1997, p. 32) “...a utilidade específica das fontes orais ... revela o esforço dos narradores em buscar sentido no passado e dar forma às suas vidas”.
Dessa forma, tiveram voz algumas mulheres negras que enquanto sujeitos do processo histórico por um longo período foram deixados de lado pela prática historiografia oficial brasileira, isto é não eram consideradas agentes ativos da história da formação da sociedade e economia nacional e sendo assim, não mereciam destaque nas produções historiográficas.


3.1 Mulher Negra: A Luta pela Qualificação Profissional

Através de depoimentos de mulheres negras que estavam inseridas no mercado de trabalho (público e privado) em Ituiutaba MG, foi possível observar suas luta para conseguirem estudar, traduzidos em superação de dificuldades e situações que em muito demonstra obstáculos a uma aluna negra que ganha bolsa de estudos em uma escola particular, elitezada e em quase totalidade branca. Letícia Mendes então narra seu sonho e suas perspectivas:

Se meu sonho era de formar no colégio... tudo que elas queriam eu fazia com muito amor. Olha eu ajudei a limpar o colégio, final de semana: ‘você pode vir amanhã Laura?’ Posso!... então eu sentia toda , mais podendo servir na mediada do possível... terminei e fui oradora da turma, eu fui a única que formei como negra, outra desistiu eu fui a única negra até o 3º normal né?!...( MENDES, 2000).


A busca por uma vida melhor acontece em todas as etapas de sua trajetória, vive uma luta constante. Demonstra uma enorme vontade de modificar seu destino, parecendo não se incomodar com o fato de ser convidada a limpar a escola no final de semana sem nunca se negar a isso, dizendo que fazia com muito amor.
Demonstrando também a busca por um futuro melhor, outra interlocutora, Mariana Oliveira, fala da sua luta para entrar para a faculdade:

[...] estudei no primário foi na Escola Estadual Lions... e o segundo grau eu concluí no Municipal... E durante esse tempo... eu trabalhava como doméstica, mas era aquela doméstica assim... bem dedicada, ganhava menos do que a metade do salário mínimo. E eu sempre pensei grande. Eu nunca me vi a vida inteira como doméstica, eu não estou desfazendo de quem seja doméstica, mas a gente tem sempre que pensar grande! Pensar assim que um dia você vai conquistar seu espaço na sociedade. [grifo meu] (OLIVEIRA, 2000).

Nesse outro trecho relata sua luta para entrar para a Faculdade e a decepção ao se deparar com a indiferença de sua patroa com relação à promessa que lhe fizera, caso fosse aprovada no vestibular e ao mesmo tempo realça a solidariedade familiar:

Minha mãe sempre deu muita força pra estudar, meu pai não, na cabeça dele mulher aprendendo lavar, passar, arrumar e cozinhar é ótimo... i... Deus me ajudou que meu primeiro vestibular que eu prestei eu passei. E eu trabalhava para uma pessoa e ela falou que se conseguisse passar no vestibular ela ia dá o material e pagar minha mensalidade. Mas eu percebi que ela falou aquilo por falar, ela não acreditava no meu potencial, eu uma simples doméstica tentar um vestibular?... e deu certo eu passei só que ela não cumpriu com a palavra dela. Aí meus pais ficaram emocionados por eu ter passado no vestibular e conseguiu o dinheiro da matrícula.

Os depoimentos das entrevistadas demonstram uma realidade enfrentada pela mulher negra no final do século XX e ainda nesse início de século, trata-se do fato de que geralmente a mulher negra só consegue chegar à formação acadêmica com exclusivo apoio da família, pois a sociedade apenas tenta desmotivar.
Vê-se então, a não passividade destas mulheres diante de uma situação que é historicamente desfavorável à mulher e certamente mais ainda a mulher negra. Como estudar e trabalhar, por exemplo. A procura pelo estudo que parece ser vista como sendo “a porta que se abre” para o futuro.

3.1 Mulher Negra: Inserção no Mercado de Trabalho

Ao compartilhar da reflexão de Khoury (2001, p.80) vemos que nossos sujeitos “vivem “(...) experiências de trabalho, construindo modos de viver e de reorganizar (...) na sociedade”, é que busca-se compreender o significado que dão à conquista do espaço no mercado de trabalho, contudo agora com uma maturidade sobre a realidade encontrada.
Mariana Oliveira, fala sobre o fato de ser negra perante a sociedade (...) “a sociedade é assim, sabe? Ela cobra mais do negro. Se você é uma excelente profissional, você tem que ser mais ainda, pra você ter um valor de bom, não um valor de excelente né?” [grifo meu].
O relato da entrevistada Mariana Oliveira caminha ao encontro do pensamento defendido pela professora Maria Nilza da Silva (2003) que a mulher negra, portanto, tem que dispor de uma grande energia para superar as dificuldades que se impõe na busca da sua cidadania. Poucas mulheres negras conseguem ascender socialmente.
Em outro trecho Mariana Oliveira fala sobre a exigência que a sociedade faz ao negro e realça que se não cumprir as exigências estará “destruído”:

A sociedade cobra mais do negro (... ) ela cobra muito você tem que andar na linha certinha, igual sempre falei! o negro tem que faze de tudo pra ser o melhor pra ser considerado bom, e Deus me livre se ele der um desvio, aí ele tá com a vida destruída. [grifo meu].

A fala de Mariana Oliveira demonstrando sua concepção sobre a cobrança que a mulher quando negra está submetida demonstra é reforçada por Ana Lúcia Valente (1994, p. 48) ao ressaltar que os negros:

A todo instante... se vêem obrigados a provar que são os melhores. O fato de alguém ser negro aparece socialmente como uma característica desabonadora... è como se os outros exigissem dos negro uma compensação por esse ‘pecado’. E essa exigência acaba por criar a necessidade de comprovação. Então o negro não pode ser apenas bom; ele deve ser o melhor.

Nesse sentido, acabam por carregar em suas trajetórias as experiências que evidenciam mais uma vez que o negro tem que ser mais que certinho para ser aceito na nossa sociedade, então deixam transparecer em sua falas uma certa preocupação em estar enquadrando ou enquadrar dentro dos valores sociais impostos pela sociedade.
No tópico seguinte foi apresentado o resultado da pesquisa de campo realizada no mercado de trabalho em setores públicos e privados da cidade de Ituiutaba-MG.

4 – Mapeamento da Mulher Negra no Mercado de Trabalho na Cidade de Ituiutaba – MG.

Nesse momento com base no mapeamento e as impressões obtidas no seu decorrer, foi discutido como a presença da mulher negra é vista pelo mercado de trabalho, a questão da inserção ou não da mulher negra nesse mercado, sendo demonstrando ainda o preconceito que muitas pessoas não admitem ter e os meios considerados pela mulher negra, menos difíceis para inserir-se no mercado de trabalho em Ituiutaba-MG.
Os posicionamentos racistas presentes no cotidiano do ambiente de trabalho e na sociedade surgiram de forma tão espontânea que ao foi possível perceber está tão enraizada que a pessoa nem percebe que a forma como elaboram seus relatos estão agindo de forma racista.

A elaboração do mapeamento sobre a mulher negra no mercado de trabalho em Ituiutaba, mostrou que a sociedade, mesmo não sabendo ou não querendo ser ainda é extremamente preconceituosa. A maioria dos estabelecimentos visitados e pesquisados agiram ora com um pouco de desconfiança ora oferecendo dificuldades em fornecer os dados, embora colaboraram com a pesquisa.

Surpreendente foi o comportamento de algumas pessoas, as quais passaram os dados[3] pedidos, pois muitos, quando tiveram que dizer que ali não trabalhou nenhuma mulher negra, parecem que sentiram necessidade de se explicarem e nesse momento acabaram por demonstrarem racismo embora certamente nem se dessem conta disso devido a naturalidade com que falavam.
Assim durante a realização da pesquisa foi possível notar a presença de um discurso justificando a ausência de mulheres negras trabalho naquele local, uma delas diz respeito a falta de qualificação. Contudo é sabido que a falta de qualificação profissional constituiu mais um dos problemas ligados à raça negra conforme salientado por Valente (1994).

Em síntese, o quesito "boa aparência", um eufemismo sistematicamente denunciado pelas mulheres negras como uma forma sutil de barrar as aspirações dos negros, em geral, e das mulheres negras, em particular, revelava em números, no mercado de trabalho, todo o seu potencial discricionário.
Contudo mesmo diante das justificativas, o resultado do mapeamento denunciou a dificuldade gerada à mulher negra que por séculos perdura na sociedade racista e que se torna explícito no momento em que tenta conseguir um emprego. Viu-se que conforme diz Valente (1994), o velho padrão da “boa aparência”, ainda sobrevive “Todo negro tem uma história para contar sobre discriminação que tenha sofrido no mercado de trabalho. A exigência de “boa aparência” ou o pedido de fotografia nos anúncios de emprego pode ser traduzida também como ‘não dever ser negro’”.

Nessa mesma direção Bruschini (1985, p. 69), argumenta que “a discriminação racial... estende-se a todas as trabalhadoras, sempre concentrada nas ocupações de mais baixo prestígio e remuneração”. Isso pode ser conferido no gráfico a seguir:
Fonte: Andrade (2002)

Entre algumas das explicações ouvidas teve umas que foram mais marcantes. Um senhor justificou a ausência de funcionárias negras naquele recinto “aqui nunca trabalhou nenhuma preta, não porque a gente tem alguma coisa contra preto não [...]”[grifo meu].

Em um outro estabelecimento, o empregador respondeu que “[...] mulher negra mesmo, não teve, teve morena mais negra não, não existe procura por parte de mulher negra, homens negros tivemos e por sinal muito bom de serviço” [grifo meu].
Atravésdessas colocações “preta” e “bom de serviço” , já é possível perceber o quanto o negro no geral, enfrenta dificuldades no mercado de trabalho. É certo que muitos dizem que não há procura é sabido que deve-se levar em consideração que o negro enfrenta dificuldades também em estudar e com relação à mulher negra a situação certamente não é diferente como foi percebido através de seus depoimentos ao relatarem suas buscas para entrarem na escola e ou na faculdade.

Com relação a argumentação de alguns lugares em dizer que não há procura por parte de mulher negra e que essa “não procura” possa estar relacionada com a falta do estudo. É sabido que trata-se de uma realidade, mas nesse sentido Valente (1994, p.50), fala do fato do negro não ser qualificado, mas salienta que isto é apenas uma desculpa, pois a falta de estudos também é mais um dos problemas a que está submetido:

As dificuldades enfrentadas pelo negro brasileiro no processo seleção do mercado de trabalho são geralmente explicadas por empregadores racistas como sendo conseqüência de sua ‘falta de aptidões’, ...falta de um bom currículo ... Essa afirmação pode até ser verdadeira, porém só parcialmente. Além disso o porquê da falta de estudo é outro ponto importante. [grifo meu].

Essas argumentações justificam um fato constatado através do mapeamento, isto é, que a maior parte das mulheres negras com formação no ensino médio e ensino superior estejam realmente empregadas no setor podendo ser pelo fato como disse de no concurso público não ter como ver quem são os candidatos.

Entretanto é válido salientar que se por um lado a grande dificuldade para se qualificar e alcançar espaço no mercado de trabalho é uma realidade visível e preocupante, por lado há que se considerar, segundo Silva (2003), que a pobreza e a marginalidade a que é submetida a mulher negra reforça o preconceito e a interiorização da condição de inferioridade, que em muitos casos inibe a reação e luta contra a discriminação sofrida. O ingresso no mercado de trabalho do negro ainda criança e a submissão a salários baixíssimos reforçam o estigma da inferioridade em que muitos negros vivem. Contudo, não se pode deixar de considerar que esse horizonte não é absoluto e mesmo com toda a barbárie do racismo, é mostrado aí uma parcela de mulheres negras que conseguiram vencer as adversidades e chegar à universidade, utilizando-a como ponte para o espaço profissional.

Para finalizar a proposta desse estudo no momento seguinte é apresentada considerações sobre o exemplo de luta empreendida por mulheres negras no final do século XX.

5 – Mulheres Negras na Cidade de Ituiutaba: Luta e conquistas para o Século XXI

A situação da mulher negra no Brasil de hoje, ainda manifesta um prolongamento da sua realidade vivida no período de escravidão com poucas mudanças, pois ela continua em último lugar na escala social e é aquela que mais carrega as desvantagens do sistema injusto e racista do país. Inúmeras pesquisas realizadas nos últimos anos mostram que a mulher negra apresenta menor nível de escolaridade, trabalha mais, porém com rendimento menor, e as poucas que conseguem romper as barreiras do preconceito e da discriminação racial e ascender socialmente têm menos possibilidade de encontrar companheiros no mercado matrimonial (SILVA, 2003).
Assim como é uma realidade que pobreza e a marginalidade a que é submetida a mulher negra reforça o preconceito e a interiorização da condição de inferioridade, que em muitos casos inibe a reação e luta contra a discriminação sofrida.

O ingresso no mercado de trabalho do negro ainda criança e a submissão a salários baixíssimos reforçam o estigma da inferioridade em que muitos negros vivem. Contudo, não pode-se deixar de considerar que esse horizonte não é absoluto e mesmo com toda a barbárie do racismo há uma parcela de mulheres negras que conseguiram vencer as adversidades e chegar à universidade, utilizando-a como ponte para o sucesso profissional (SILVA, 2003).

Por este contexto entendeu-se pertinente trazer para o presente trabalho o exemplo de luta e vitória na adversidade, trata-se de mulheres negras que têm toda sua história de vida na cidade de Ituiutaba-MG. Lutaram, estudaram e atualmente ocupam espaço que não os considerados de baixo prestígio e remuneração, refletindo conquistas.
Contudo a luta dessas mulheres é uma constante. O fato de conseguir romper com o lugar que a sociedade dominante vem determinando por séculos ás mulheres negras (doméstica, faxineiras, por exemplo) não confere a elas plenitude em seus direitos. Na realidade quando conquistam cargo de trabalho melhores, iniciam uma outra luta, a de permanecer e ser respeitada.

Nesse aspecto é possível compartilhar do dizer de Silva, (2003) ao salientar que as mulheres negras que conquistam melhores cargos no mercado de trabalho despendem de uma força muito maior que outros setores da sociedade, sendo que algumas provavelmente pagam um preço alto pela conquista, muitas vezes, abdicando do lazer, da realização da maternidade, do namoro ou casamento. Pois, além da necessidade de comprovar a competência profissional, têm de lidar com o preconceito e a discriminação racial que lhes exigem maiores esforços para a conquista do ideal pretendido.

6- Considerações Finais

Pesquisar sobre relações raciais, discutir as lutas da comunidade e das mulheres negras e dar visibilidade aos sujeitos sociais não implica em um trabalho a ser realizado na sociedade em forma geral, implica mudança cultural em uma nova postura profissional, numa nova visão das relações que permeiam o cotidiano social e profissional. Significa, também, a ampliação dos trabalhos e discussões que abrem a mente e mudam a forma de pensar e agir das gerações.

Contudo trabalhar para eliminar da sociedade brasileira a discriminação racial que se manifesta explicitamente nas práticas cotidianas é uma tarefa difícil. Essas mulheres negras, que conseguiram cursar ensino médio ou superior, “saíram do seu lugar”, isto é, do lugar predestinado por um pensamento racista e pelas condições sócio-econômicas da maioria das mulheres negras brasileira, o lugar da doméstica, da lavadeira, da passadeira, daquela que realiza serviços gerais para ocuparem posição que não as de baixo prestígio e remuneração.

A história de vida dessas mulheres negras mostra que é preciso reconhecer e respeitá-las. É necessário romper com as posturas preconceituosas e racistas arraigadas na sociedade e reconhecer sim a diferença, e deixar de subestimar as capacidades.
A trajetória de luta das mulheres negras que participaram dessa pesquisa contempla o poder de transformações que na condição de sujeito ativo da própria história, essas mulheres perceberam possuir. Demonstraram a força de criar e recriar caminhos e destinos numa sociedade onde o preconceito e o racismo ainda sobrevivem.

7 – Fontes - Entrevistas

Letícia Mendes,
entrevista concedida em abril de 2001. Pedagoga, Supervisão Escolar e Pós-Graduação.

Ana Maria Silva, entrevistada em março de 2002, Professora.

Mariana Oliveira, entrevistada em janeiro de 2002 formada em Pedagogia, Supervisão Escolar e Pós-Graduada em Psicopedagogia.

8 – Referências

BERNARDO, Terezinha. Memória em branco e negro: um olhar sobre São Paulo. São Paulo: Educ, 1998.

BRASIL, Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado. 1988. (Capítulo I: Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos. Art. 5º parágrafo: XLII. p.17).

BRUSCHINI, Cristina. Mulher e trabalho: uma avaliação da década da mulher. São Paulo: Nobel: Conselho Estadual da Condição Feminina, 1985. (Década da mulher).

KHOURY, Yara Aun. Narrativas Orais na Investigação da História Social. Projeto História – História e Oralidade. N 22. São Paulo: EDUC, 2001, p. 79-104.

IBGE-INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Disponível em < www.ibge.gov.br/home>. Acesso em maio de 2006.

IPEA-INSTITUTO DE PESQUISA APLICADO. Disponível em<www.ipea.gov.br>.
LIMA, Márcia. Trajetória educacional e realização sócio-econômica das mulheres negras brasileiras. Revista Estudos Feministas. IFCS/UFRJ, vol. 3, n. 2, 1995.

PORTELLI, Alessandro. O que faz a História Oral diferente. PROJETO HISTÓRIA, São Paulo, nº 14, pp. 25-39, fev/1997.

SILVA, Maria Nilza da. A Mulher Negra. Revista Espaço Acadêmico. Ano II, nº 22. Março de 2003. Disponível em < http://www.espacoacademico.com.br/022/22csilva.htm>. Acesso em 18/05/2006.

VALENTE, Ana Lúcia E. F. Ser Negro No Brasil Hoje. 11 ed. São Paulo: Moderna, 1994.

Maria Donizeti de Andrade [1] - Formada em História pela UEMG - Universidade do Estado de Minas Gerais/Campus de Ituiutaba - 2002. Pós-Graduada em Educação, História e Cultura Afro-brasileira-Faculdade Católica de Uberlândia – MG, 2006.

[2] Por questão de ética e sigilo e por exigências das entrevistas os nomes utilizados trata-se de pseudônimos.
[3] A quantidade de mulheres brancas e negras com nível médio e superior que o estabelecimento tinha trabalhando ali, dentro do período abordado por essa pesquisa: 1985-2000.

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Publicado por: Maria Andrade

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