Whatsapp

A hibridização como reflexo da colonização no contexto literário e de tradução da obra O ventre do Atlântico de Fatou Diome

História

O elemento híbrido dentro do texto original como na sua tradução reflete uma ambivalência em dois sistemas literários, duas culturas, dois povos que de alguma forma se cruzam e se misturam fazendo assim uma verdadeira miscelânea de representações e elementos culturais mistos, etc.

No contexto de países que passaram pela colonização, é comum pensar que o colonizador trouxe alguma ordem ou estrutura que antes não havia. Os habitantes dessas ex-colônias podem acreditar que o fato de não serem “Europa” os torna automaticamente “o Outro”. Contudo, ser o Outro num contexto pós-colonialista é criar um estereôtipo carregado de uma simbologia depreciativa daquela cultura que já existia ali antes mesmo da chegada do colonizador.

É perceptível em textos oriundos de ex-colônias europeias, o elemento híbrido, esse que é fruto das trocas ocorridas entre as duas culturas, a dominante e a dominada. Essa hibridização é o que teóricos como os irmãos Campos intitularam de antropofagia, termo utilizado em referência aos índios brasileiros que comiam os indivíduos oriundos de outros lugares que se destacavam por suas qualidades. Os índios brasileiros comiam seus adversários com o intuito de se incorporar as qualidades, o que, aos olhos dos europeus, era visto como selvageria.

A hibridização resulta então em culturas mistas de elementos europeus e nativos, o que também se reflete em sua literatura, língua, cultura, etc. Said acredita que essa mescla que ocorre é uma maneira de provar que povos dominados ainda podem se expressar a sua maneira apesar da opressão e violência da colonização que busca apagar o outro a fim de criar uma província européia (Said 1978).

No entanto, quando se trata da relação entre dois sistemas literários que se impõem em busca de obter a primazia, podemos falar de uma disputa natural entre entidades que se diferem. Esse conceito é explorado por Gideon Toury e Itamar Even-Zohar a respeito da teoria dos polissistemas; esse conceito sustenta a ideia de que diferentes gêneros e literaturas, traduzidas ou não traduzidas, estão constantemente disputando umas com as outras a posição central no cânone literário. A respeito dessa relação de sistemas literários, Even-Zohar afirma o seguinte:

É importante dizer que a interação e a posição desses sistemas ocorrem em uma hierarquia dinâmica, que muda de acordo com o momento histórico. Se, em um dado momento, a posição mais alta é ocupada por um tipo literário inovante, a camada mais baixa terá mais chances de ser ocupada por um tipo literário mais conservador. Por outro lado, se o tipo conservador está no topo, o inovador e o renovador virão provavelmente do nível mais baixo da hierarquia.  De outra maneira, o período de estagnação ocorre. (Even-Zohar 1978).

Considerando a afirmação acima, pode-se inferir que a tradução de obras oriundas de um contexto pós-colonialista podem vir a ocupar um lugar central no polissistemas quando ela é capaz de preencher um espaço que as literaturas mais hegemônicas não conseguem. Contudo, é comum que a literatura pós-colonialista seja traduzida e valorizada quando é repleta de elementos que reforçam estereótipos.

O que os tradutores do pós-colonialismo procuram é a valorização do Outro, em oposição a Europa e Estados Unidos que são os centros, de maneira a afirmar a problemática do processo de colonização e pós-colonização como um elemento de hegemonia e supremacia.

No que diz respeito à tradução, Venuti afirma que a tradução se tornou um verdadeiro campo de batalha entre as forças hegemônicas da língua e cultura de chegada e o mundo subjugado das culturas não-ocidentais. Venuti acredita que a natureza da tradução deve enfatizar uma espécie de resistência à dominação dessas forças hegemônicas. Uma das maneiras de resistir na tradução seria a valorização de elementos da cultura de partida, vejamos um trecho da obra de nosso estudo que apresenta traços da língua local:

“Vive les Lions! Gaïndé N’diaye ! M’barawathie !

Deux d’entre eux avaient bifurqué dans une ruelle, avant de rejoindre le groupe munis de djembés. Ils improvisèrent une danse au milieu du Dingaré, la place du village, en reprenant un air très fameux de Yandé Codou Sène. Cette chanson à la gloire du lion, totem national, affirmant que le lion n’aime pas le mboum (une sorte d’épinard), qu’il se nourrit de viande, semblait inventée pour l’événement. A qui mieux mieux, les jeunes la chantaient en la parodiant. D’après eux, non seulement les joueurs de l’équipe nationale étaient des lions, mais, outre la viande, disaient-ils, ils se nourrissaient de buts, de balles, de dribbles et de tirs victorieux.

 

Khamguenè Gaïndé,

Gaïndé bougoule mboum, yâpe laye doundé

Gaïndé, Gaïndé

Gaïndé bougoule mboum, yâpe laye doundé

Henri Camara gaïndé la,

Henri bougoule mboum, buts laye doundé

Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;)

El-Hadji Diouf gaïndé la,

El-Hadji bougoule mboume, dribbles laye doundé

Tony-Silva gaïndé la,

Bruno bougoule mboume, entraînements laye doundé

Les Lions de la Téranga

Kène bougouci mboum, victoires lagnouye doundé...

 

Viva aos Leões! Gaïndé N’diaye ! M’barawathie !

Dois deles tinham virado numa ruela, antes de se juntar ao grupo cheio de djembés. Eles improvisaram uma dança no meio do Dinagré, a praça do vilarejo, com uma expressão muito famosa de Yandé Codou Sène. Essa música para a glória do leão, símbolo nacional, afirma que o leão não gosta de mboum (uma tipo de espinafre), ele se alimenta de carne, parecia inventada para o evento. Quem podia, cantava bem, os jovens a cantavam em forma de paródia. Para eles, não só os jogadores da equipe nacional eram os leões, mas, além da carne, eles se alimentavam de gols, de bolas, de dribles e de chutes vitoriosos.

 

Khamguenè Gaïndé,

Gaïndé bougoule mboum, yâpe laye doundé

Gaïndé, Gaïndé

Gaïndé bougoule mboum, yâpe laye doundé

Henri Camara gaïndé la,

Henri bougoule mboum, gols laye doundé

El-Hadji Diouf gaïndé la,

El-Hadji bougoule mboume, dribles laye doundé

Tony-Silva gaïndé la,

Bruno bougoule mboume, treinos laye doundé

Os Leões da Téranga

Kène bougouci mboum, vitórias lagnouye doundé...


O trecho acima retrata um momento da história em que todos estão animados apoiando a seleção senegalesa na partida. Vemos a expressão de alegria dos torcedores por meio de gritos de euforia na língua Wolof. Na tradução, os traços da língua foram mantidos em português. A preservação dos elementos da língua do colonizado é uma maneira de afirmar a identidade de um povo e suas marcas no original como também na sua tradução.

O elemento híbrido dentro do texto original como na sua tradução reflete uma ambivalência em dois sistemas literários, duas culturas, dois povos que de alguma forma se cruzam e se misturam fazendo assim uma verdadeira miscelânea de representações e elementos culturais mistos, etc. Podemos perceber essa mistura no contexto brasileiro nas religiões brasileiras de matriz africana como o candoblé que mistura elementos do catolicismo com divindades africanas.

Em conclusão, podemos inferir que os trechos aqui expostos associados às diferentes teorias a respeito da tradução, em especial, inserida num contexto pós-colonial, são repletos de elementos distintos que buscam promover a afirmação e o reconhecimento da singularidade de um povo e da sua literatura. Essa atitude é necessária como uma maneira de reduzir a hegemonia das grandes potências do Ocidente, como também estabelecer o valor e a importância daqueles países que passaram por um processo de exploração e dominação.

O que foi exposto aqui buscou destacar o papel do Oriente, em oposição ao Ocidente, na contribuição para a definição do ser-humano em suas diferentes esferas e expressões, indo além do padrão eurocêntrico. O estudo e o aprofundamento dessa área da tradução contribuíram para a compreensão do oficio do tradutor fora do escopo dos mais fortes e influentes; trouxe igualmente mais clareza aos que se encontravam obscuros e ofuscados por essas grandes potências econômicas, políticas, militares.

A obra original e a tradução pós-colonialistas refletem elementos novos para os leitores habituados a uma literatura traduzida e não-traduzida nos moldes dos grandes centros. Quando obras de outros meios menos conhecidos são contempladas, percebe-se uma nova perspectiva, uma outra maneira de exprimir uma realidade. A tradução pós-colonialista permite desbravar novos mundos sob as lentes do Outro. Como Spivak (1993) que acredita que a língua pode ser um dos elementos que nos permite dar sentido as coisas e a nós mesmos.

Por meio da tradução pós-colonialista, pode-se obter a compreensão de outras literaturas mais periféricas em seus próprios termos, e não mais uma descrição rasa dessas camuflada por uma imagem de um pequeno “britânico” ou “francês”. Vê-se um texto real, esboçado dentro de uma cultura que difere dos grandes cânones em termos de formato, estilística, filosofia, etc.

REFERÊNCIAS

ASCHROFT,B.; GRIFFITHS, G.;TIFFIN,H. (eds) Post-colonial Studies Reader. London: Routledge. 1995.p 391

BHABHA,H. K. DissemiNation: time, narrative, and the margins of the modern nation. In: BHABHA, H. K. (ed.) Nation and Narrations. London: Routledge. P 291-322.1990.

DIOME, Fatou. Le Ventre de l’Atlantique. 12. ed. Anne Carrière: Paris, 2014. (corpus)

FANON, F. The Wretched of the Earth. New York: Grove Press. 1963. p 220.

NIRANJANA, T. Sitting Translation: History, Post-Structuralism and the Colonial Context. Berkeley: Univeristy of California Press. 1992. p 242.


Publicado por: julio lenz rodrigues barrocas

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Meu Artigo. O Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.