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A CONSTRUÇÃO DO CONCEITO DE ANTI-INTELECTUALISMO NA OBRA DE THEODORE ROSZAK, A CONTRACULTURA (1969): UM ESTUDO DAS PERSPECTIVAS HISTÓRICAS E CULTURAIS.

História

Investigação sobre a construção do conceito de anti-intelectualismo como uma das características fundamentais dos fenômenos conhecidos por Contracultura, através da análise do livro A Contracultura (1969) de Theodore Roszak

Resumo

O presente artigo visa investigar a construção do conceito de anti-intelectualismo como uma das características fundamentais dos fenômenos conhecidos por Contracultura, através da análise do livro A Contracultura (1969) de Theodore Roszak. A obra trata da juventude rebelde estadunidense dos anos 1960 em suas diversas formas de manifestação e protesto contra valores sociais da época. Roszak percebe a importância das ciências e seus métodos de pesquisa na construção das formas de pensar que regem as sociedades industriais e, para compreender e analisar as formas contemporâneas de dominação ele cria o conceito de Tecnocracia, que seria fundamentado em valores presentes nas culturas ocidentais, valores estes que o autor conceitua como Cosmovisão Científica. O estudo de um suposto anti-intelectualismo presente nesta obra faz necessária a delimitação do conceito de intelectual e sua atuação histórica social, principalmente na modernidade, com foco no século XX. Uma das formas de se protestar contra a dominação social respaldada pelas ciências seria combater a influência da própria ciência no modo de vida em sociedade, e por isso os comportamentos incompreensíveis por muitos observadores, já que desafiavam algo muito caro aos ensinamentos científicos, isto é, a racionalidade. Deste modo, o embate entre objetividade e subjetividade é de grande importância na obra de Roszak.

Palavras-chave: anti-intelectualismo, contracultura, tecnocracia, cosmovisão científica.

INTRODUÇÃO

Ao se pesquisar manifestações socioculturais dos anos 1960 percebeu-se que a denominada Contracultura trazia implicações profundas sobre as relações sociais da contemporaneidade e as formas de resistência desenvolvidas por alguns segmentos da população jovem.

A Contracultura foi um fenômeno social que se iniciou nos Estados Unidos nos anos 1960 atingindo outros países, principalmente os mais industrializados. Seus desdobramentos socioculturais tiveram repercussão pelas décadas seguintes chegando aos dias atuais em diversas partes do mundo. Não é simples conceituar a Contracultura, pois ela não consistiu num único tipo de fenômeno cultural, sendo a multiplicidade de manifestações uma de suas características importantes por ter ampliado seu alcance social. Algumas dessas manifestações serão analisadas ou ao menos citadas neste artigo, elas são o movimento Beatnik de boêmios e poetas, os Hippies que queriam estar fora da “sociedade convencional”, o Rock numa perspectiva de protesto social, inspirações em algum tipo de Orientalismo, que levava os jovens a buscar religiões desconhecidas visando estilos de vida alternativos aos costumes burgueses. Essas manifestações, por diferentes que fossem, dialogavam pelo fato de estar excluídas, ou em alguns casos (como os jovens de classe média rebeldes dos campi universitários) por quererem se excluir dos padrões sociais dominantes. A importância do tema pode ser percebida pelo grande alcance que tais manifestações tiveram e pelo tempo que elas influenciaram pessoas e seus ideais de vida presentes na cultura.

Elegeu-se uma característica ampla que pudesse ser analisada em diferentes contextos que fazem parte da Contracultura, ela é o anti-intelectualismo. Tal fenômeno foi analisado por Roszak em seu importante estudo sobre o tema na obra chamada A Contracultura (1969). Este livro é referência sobre o assunto, tendo sido escolhido como fonte histórica da pesquisa.

Para conceituar o anti-intelectualismo da década de 1960  escolheu-se o tema: A construção do conceito de Anti-intelectualismo presente na obra de Theodore Roszak, A Contracultura (1969): um estudo das perspectivas históricas e culturais.

Para delimitar o que Theodore Roszak demonstrou serem práticas sociais de anti-intelectualismo no contexto da Contracultura nos Estados Unidos dos anos 1960, é necessário compreender a categoria de análise “intelectual”, neste sentido foram buscados autores que realizam essa discussão.

É de fundamental importância para Roszak a sociedade contemporânea e suas relações de poder, que tem como um de seus instrumentos as ciências. As sociedades industriais atingiram elevados graus de complexidade, nelas o conhecimento assumiu tamanha importância que teria surgido uma nova forma social de dominação: a “Tecnocracia”, que é um conceito fundamental e será analisado adiante.

Seria em oposição a esta sociedade tecnocrática, seu ideal de racionalização, contra a autoridade de “peritos”, sempre e cada vez mais controlando as instâncias de poder, que teria surgido a contracultura e suas diversas formas sociais de protesto, e nelas as práticas de anti-intelectualismo que estudaremos neste trabalho.

Analisando várias manifestações e personalidades expressivas da época, Roszak identificou o anti-intelecualismo que agora se pretende estudar.

O psiquiatra R D Laing expressa bem o espírito da questão quando observa: “Não necessitamos tanto de teorias quanto da experiência, que é a fonte da teoria.” Ao contestar a validade da mera clareza analítica como base para o conhecimento ou a convicção, essa distinção entre teoria e experiência não pode deixar de encerrar um tom anti-intelectual. (Cf. ROSZAK, 1969, p.61).

Esse tom anti-intelectual presente na fala do psiquiatra Laing está na obra A Contracultura em várias partes, e o objetivo principal dessa pesquisa é conceitua-lo. Seja na boemia da geração Beat, nos adeptos do Zen Budismo, no rock de protesto de Bob Dylan que se torna psicodélico, na poesia de Alan Ginsberg e fundamentadas em autores como Herbert Marcuse, Norman Brown e suas incursões pela psicanálise e Paul Goodman. Roszak identifica o anti-intelectualismo como fatos sociais em ambientes de negação da cultura e seus parâmetros socialmente impostos.

A expressão ‘anti-intelectualismo’ por si só apresenta uma negação direta, talvez óbvia: a negação ao ‘intelectual’ e suas práticas. Num primeiro momento tal fato orientou a pesquisa ao conceito de intelectual, prontamente negado pelo objeto de estudo proposto. É necessário compreender como os “Intelectuais” se constituem como agentes sociais, em que recorte espaço-temporal eles passam a ter relevância, de que forma eles conseguem atuar e ter influência nos rumos das sociedades. O objeto será o intelectual da contemporaneidade, não se buscando períodos anteriores ao século XX, embora autores como Sartre busquem precursores intelectuais na idade moderna, e mesmo na idade média. O século XX e suas especificidades possibilitam o surgimento e atuação dos “intelectuais” que serão estudados.

SARTRE E OS TÉCNICOS DO SABER PRÁTICO

Sartre afirma que os intelectuais surgem entre os que ele chama de “técnicos do saber prático”, que são provenientes das camadas altas das sociedades burguesas, recebendo inclusive formação ideológica implícita nos sistemas de ensino regulamentado pelos estados (Cf. SARTRE, 1994, p 23).

Os técnicos do saber prático são especialistas em pesquisa e “guardiães da tradição”, sendo esta uma função de caráter ideológico.  Têm a função de fazer passar por conhecimento científico o que é ideologia dominante. Tal fato é a contradição entre o universalismo pretendido pelas ciências e os particularismos das situações da vida prática.  “O “especialista do saber prático” é um ser dividido: é um pesquisador e um servidor da hegemonia... Só quando se rebela, o “especialista” se torna um intelectual.” (Cf. SARTRE, 1994, p. 7)

Portanto Sartre diz que para ser um intelectual não basta ser um técnico do saber prático. É preciso ter se rebelado contra a hegemonia, o status quo, as desigualdades, a exploração dos pobres e minorias, enfim, o intelectual é aquele que usa seu conhecimento e prestígio por causas de caráter ético de caráter e anti-hegemônico.

Nas palavras de Sartre: “Assim, o intelectual é o homem que toma consciência da oposição, nele e na sociedade, entre a pesquisa da verdade prática (com todas as normas que ela implica) e a ideologia dominante (com seu sistema de valores tradicionais)”. (Cf. SARTRE, 1994, p 30) Portanto, o intelectual é aquele que tem consciência das contradições entre a ideologia dominante e as relações de dominação entre as classes sociais, e atua contra elas, desvelando as ideologias amparadas pelos técnicos do saber prático.

O técnico ou especialista do saber prático apontado por Sartre tem relação direta com o “perito” da sociedade tecnocrática destacado por Roszak. Ambos dominam os saberes acadêmicos e científicos e por isso trazem a autoridade da ciência e, com isso, a proeminência social. 

Os técnicos do saber prático que não tomam consciência das contradições sociais e as ideologias que as justificam, ou que, mesmo tomando consciência se acomodam e cumprem seu papel de mantenedores da hegemonia, não são intelectuais, são agentes da hegemonia por isso chamados ‘cães de guarda’ da ordem estabelecida.  (Cf. SARTRE, 1994, p.38)

A ESPECIALIZAÇÃO E AS CARREIRAS ACADÊMICAS

No livro chamado Os últimos intelectuais (1990), analisando apenas autores estadunidenses, Russel Jacoby realizou importante estudo sobre o que ele definia como uma ausência de intelectuais nos Estados Unidos após a segunda metade do século XX. Tal ausência seria consequência de fatores que transformaram os Estados Unidos no decorrer daquele século.

Nessa obra Jacoby identifica alguns fatos que fizeram os intelectuais se tornarem raros naquele país, dentre eles, as transformações urbanas que acabaram com bairros boêmios nas principais cidades, e o empobrecimento do que ele chama de cultura pública devido à atração dos jovens acadêmicos pelas carreiras universitárias. “Uma carreira bem sucedida dependia de impressionar diretores e colegas, os quais estavam mais interessados no modo como os indivíduos se enquadravam do que na maneira como eles sobressaíam.” (JACOBY, 1990, p. 32)

Em meio a crítica às carreiras universitárias, o autor defende que a subordinação hierárquica e a necessidade constante de aprovação institucional bem como dos financiamentos fundamentais às pesquisas acadêmicas, tira a liberdade e descaracteriza a função intelectual. Assim:

O espaço cultural restringido – reconhecido ou não reconhecido – impelia os intelectuais mais jovens para a universidade. Não apenas eles eram atraídos pelo salário e pela segurança acadêmica, mas também empurrados pelo declínio da vida cultural tradicional. (JACOBY, 1990, p. 32)

As carreiras acadêmicas ofereciam segurança financeira, possibilidade de estabilidade e aposentadoria, porém, não ofereciam liberdade e foram fazendo com que os acadêmicos se dirigissem cada vez mais a públicos restritos.

Jacoby diz que se tornaram raros os intelectuais capazes de discutir assuntos de natureza pública, relevantes à sociedade como um todo, porque os referidos pensadores estavam cada vez mais se tornando professores, por isso tendo que se especializar em assuntos conhecidos apenas por seus pares dirigindo-se a públicos limitados utilizando linguagens acessíveis apenas a iniciados. O que ele denuncia é o excesso de especialização na contemporaneidade. Não por coincidência é o que Roszak aponta quanto diz que há um regime de “peritos” no que ele chama tecnocracia, e também corresponde ao que Sartre chamou ‘técnicos do saber prático’, educados nos sistemas oficiais das classes dominantes burguesas. Assim como a fonte deste trabalho, Jacoby preocupa-se com a figura do especialista:

Esta é a conclusão de Kuklick, um historiador e não iniciado em filosofia; mas, nos últimos anos, os próprios especialistas começaram a soar cautelosos alarmes sobre suas próprias disciplinas. Eles indagam se a profissionalização ou a privatização não teria ido longe demais; se não seria necessário recuperar uma cultura pública. (JACOBY, 1990 p. 162)

Os diversos campos do conhecimento estavam cada vez mais submetidos aos especialistas profissionais: filosofia, relações internacionais, economia, história. Tal colocação lembra a crítica de Roszak à submissão acrítica às prerrogativas tecnocráticas tanto pelos países capitalistas como pelos socialistas de sua época.

No mesmo sentido de Jacoby e Roszak um importante autor anarquista é lembrado: “Para Chomsky, a nova intelligentsia liberal e técnica descarta a verdade e a moralidade em favor da especialização e do poder.” (JACOBY, 1990, p. 195) A proliferação das carreiras acadêmicas e a consequente profissionalização e especialização teriam causado o desaparecimento de intelectuais nos Estados Unidos na segunda metade do século XX.

Edward Said relativiza a crítica de Jacoby à vida acadêmica e diz que não há incompatibilidade entre ela e a existência de intelectuais. (Cf. SAID, 2005, p. 77). No entanto, ele diz que o intelectual deve ser um amador porque o amadorismo contesta pressões sociais limitadoras. Não ser movido por lucro ou recompensa e sim por ideias e valores.

Assim como no livro de Roszak se critica a excessiva autoridade dos peritos, para Said, a categoria do “especialista” é fundamental nas sociedades da contemporaneidade. Segundo ele, a “especialização” é um tipo de pressão social. “Para ser um especialista, você tem de ser credenciado pelas autoridades competentes; elas ensinam a falar a linguagem correta, a citar as autoridades certas, a sujeitar-se ao território correto.” (SAID, 2005, p. 81). Como exemplo da atuação dos especialistas ele lembra que de 1940 a 1970 a posição oficial americana para terceiro mundo era “liberdade em relação ao comunismo”. Discordar disso era contradizer especialistas e o esforço nacional dos Estados Unidos. (SAID, 2005, p. 82-83)

Em contraposição a essa nociva profissionalização imposta socialmente, o Intelectual deve ser “amador” para levantar questões morais em meio a especialistas profissionais. Amador por não receber agrados institucionais, não depender de nomeações nem empregos na esfera pública, recompensas, buscar horizontes amplos e não estar preso a uma especialidade. (Cf. SAID, 2005, p 80). 

Sartre discorre sobre os “técnicos do saber prático”, Jacoby sobre os acadêmicos especializados em suas áreas restritas e Said diz que a profissionalização gera os “especialistas”. Em seu conjunto  parecem direcionar suas críticas num sentido comum de sociedades, que demandam cada vez mais conhecimentos especializados, consequentemente diminuindo, ou mesmo impedindo o surgimento e atuação de pessoas de pensamento independente, capazes de analisar e criticar modelos sociais dirigindo-se a públicos amplos, ou seja, intelectuais. Roszak, ao criticar a proeminência social dos “peritos” na sociedade tecnocrática, também critica a excessiva especialização. Em reação a essa nova forma de dominação social teriam surgido novas formas de protesto nos anos 1960. O anti-intelectualismo seria uma das formas de protesto.

O PROTAGONISMO DOS PERITOS NA ERA DA ESPECIALIZAÇÃO

Discorrendo sobre a prática de se escrever a história, o que denominou de Operação Historiográfica, Certeau afirma que inicialmente há uma transformação de objetos em “fontes históricas”. Objetos estes que antes tinham outra função passam a ser, após escolhidos pelo pesquisador, o meio pelo qual ele tem acesso às ações humanas que aconteceram no passado, às quais serão transformadas em texto. Há uma mudança no significado destes objetos, segundo o referido autor, eles sofrem uma desfiguração para preencher lacunas de um certo conjunto. Este ato de separação e transformação não é uma “aceitação” de dados e informações, e sim, uma constituição, uma verdadeira criação através de ações combinadas para mudar o uso destes objetos, agora transformados em fontes históricas. (CERTEAU, 1982, p. 81)

Bloch atenta para o fato de que os objetos de pesquisa são sempre contextualizados no tempo em que ocorreram, por isso a necessidade de haver recortes temáticos bastante específicos que recaem na escolha do historiador, fazendo este ter papel ativo numa verdadeira construção de objeto de estudo. (Cf. BLOCH, 2001, p.52)

O ilustre fundador da escola dos Annales também afirma o fato do objeto de estudo do historiador ser totalmente dependente de testemunhos, já que o conhecimento histórico depende de fontes que não são imparciais, podendo ter sido manipuladas com diversas intencionalidades no decorrer do tempo, além da incapacidade de qualquer tipo de testemunho trazer a totalidade dos fatos de alguma época. (Cf. BLOCH, 2001, p.70)

A fonte analisada nesta pesquisa é o livro A Contracultura (1969), de Theodore Roszak, um norte americano PhD em História pela Universidade de Princeton e por muitos anos professor na Universidade do Estado da Califórnia (California State University). Autor de renome em seu país de origem, a obra A Contracultura é trabalho acadêmico que transita entre a história e a sociologia, escrito na temporalidade de seu objeto de estudo, por isso o próprio autor é testemunha dos fatos ali narrados, não havendo distanciamento temporal entre autor e objeto. Ele recorreu a diversos tipos de fonte para escrever sua obra, tendo consultado dados governamentais oficiais, materiais jornalísticos de diversas origens e perfis ideológicos, obras de poetas, escritores, psicólogos, psicanalistas, psiquiatras, filósofos, além de dialogar com muitas referências acadêmicas das humanidades.

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José D’Assunção Barros desenvolve um interessante roteiro para análise de fontes. As etapas para análise das fontes, segundo o autor, seriam histórico do tratamento historiográfico da fonte; descrição da fonte; análise do contexto da fonte; recontextualização (práticas de uma configuração social deslocadas para outra); identificação e descrição da polifonia interna da fonte e crítica da veracidade dos mediadores (BARROS, 2010).

A edição do livro é de 1972, da editora Vozes, com tradução de Donald M. Garschagen. A obra é dividida em prefácio, 8 capítulos, apêndice e notas bibliográficas.

No capítulo I o autor descreve a sociedade dos Estados Unidos nos anos 1960, e apresenta um conceito fundamental em sua obra, uma forma de dominação social contemporânea e fundamentada na ciência, seria a “tecnocracia”. Segundo Roszak:

Quando falo em tecnocracia, refiro-me àquela forma social na qual uma sociedade industrial atinge o ápice de sua integração organizacional. É o ideal que geralmente as pessoas têm em mente quando falam de modernização, atualização, racionalização, planejamento. (...) A política, a educação, o lazer, o entretenimento, a cultura como um todo, os impulsos inconscientes e até mesmo, como veremos, o protesto contra a tecnocracia – tudo se torna objeto de exame e manipulação puramente técnicos.” (ROSZAK, 1969, p.19).

A complexidade dos conhecimentos científicos, técnicos e das relações sociais fez surgir com grande força e prestígio social a figura do “perito”. Este, em diversas e cada vez mais numerosas áreas de conhecimento especializado são as “autoridades” habilitadas socialmente e legalmente a mediar todos os aspectos da vida das pessoas. Educação, saúde, recreação, comportamento sexual, tudo nessa sociedade aspira a ser de caráter técnico. A tecnocracia é o regime dos especialistas ou daqueles que podem empregá-los e tem por função primordial manter a máquina produtiva funcionando com eficiência (Cf. ROSZAK, 1969, p.20).

Segundo o autor a tecnocracia teria origens profundas na cultura, sendo que as sociedades ocidentais desenvolveram uma Cosmovisão Científica decorrente do desenvolvimento tecnológico, um verdadeiro ethos científico ideologicamente capaz de se fazer parecer neutro (Cf. ROSZAK, 1969, p.21). Essa forma de pensar coloca os técnicos e cientistas (os chamados peritos) numa posição privilegiada socialmente que cada vez mais ocupa posições de decisão, pois as ciências são as instâncias legitimadoras do poder.

A Cosmovisão Científica seria um sistema de valores, uma forma de pensar na qual as ciências e seus métodos constituiriam a única forma legítima de mediação entre o ser humano e o mundo, afetando não apenas a totalidade das vidas das pessoas comuns (os não peritos) como também a forma de raciocínio dessas pessoas.

Numa tal sociedade, o cidadão, confrontado por uma formidável complexidade, vê-se na necessidade de transferir todas as questões a peritos. Na realidade, agir de outra forma seria uma violação da razão, uma vez que, segundo o consenso geral, a meta primordial da sociedade consiste em manter a máquina produtiva funcionando eficientemente. (...). Como veremos em capítulos posteriores, as raízes da tecnocracia descem bem fundo em nosso passado cultural e acham-se presas à cosmovisão científica da tradição ocidental. (ROSZAK, 1969, p.20)

Marilena Chauí apresenta um conceito que se aproxima do conceito de Cosmovisão Científica, que ela denomina Ideal Científico:

O percurso que fizemos no estudo das ciências evidencia a existência de um ideal científico: embora continuidades e rupturas marquem os conhecimentos científicos, a ciência é a confiança que a cultura ocidental deposita na razão como capacidade para conhecer a realidade, mesmo que esta, afinal, tenha que ser inteiramente construída pela própria atividade racional. (CHAUÍ, 2001, p. 278).

Tal confiança na ciência seria uma crença numa capacidade ilimitada de tudo conhecer, no progresso, uma evolução de conhecimentos para manipulação da realidade. A autora não ignora o fato de que tal crença legitima a ciência como forma de poder social e controle do pensamento humano. (Cf. CHAUÍ, 2001, p. 281). Embora ela não aprofunde tal análise, o poder social por ela descrito é o que Roszak conceituou como tecnocracia, enquanto o Ideal Científico se aproxima do conceito de Cosmovisão Científica. No mesmo sentido Karl Polanyi acreditava que a Revolução Industrial gerou uma crença materialista fundamentada num suposto progresso material da humanidade. (Cf. POLANYI, 1997, p. 42)

Existiria um tipo de fascínio pelas ciências nessas sociedades, o que a tornaria um modelo seguido por pessoas não necessariamente ligadas diretamente às profissões acadêmicas ou científicas. Um aspecto muito importante para as metodologias científicas desde o século XX é a “objetividade”. Este é um ponto crucial para esta pesquisa, que pretende mostrar que o anti-intelectualismo atribuído à contracultura é uma forma de protesto e luta política conta a tecnocracia atuando exatamente no aspecto da objetividade. A contracultura e seus agentes históricos buscavam desconstruir a crença na objetividade das ciências e da própria ontologia do ser humano e suas criações.

Hannah Arendt reconhece que o avanço das ciências modificou a forma de percepção do ser humano em relação ao próprio universo mediante a invenção do telescópio e seus desdobramentos astrofísicos e matemáticos. Mas as consequências desse salto tecnológico para os seres humanos também não passam despercebidos para a autora que aponta a existência de um desespero e niilismo especificamente modernos cada vez mais propagados em diferentes grupos sociais (Cf. ARENDT, 2010, p. 325).

O motivo da relativização da objetividade seria a percepção que a tecnocracia travestida de neutralidade era mais uma forma de dominação social. Se o domínio se embasa nas ciências e as ciências têm como característica fundamental de sua metodologia a objetividade, relativizar tal objetividade funcionou como forma de protesto social.

Mas se os jovens rebeldes dão atenção a figuras como Laing (um dos mentores da florescente contracultura britânica), é certamente porque já viram um número excessivo de homens de irretorquível inteligência e intenções esclarecidas tonarem-se apologistas de uma ordem social desumanizada (ROSZAK, 1969, p.61)

As sociedades tecnocráticas, segundo o autor, funcionam como premissas deturpantes dos valores que guiam as ações das pessoas e seus julgamentos éticos. Este ponto justifica todo o comportamento considerado irracional da juventude dos anos 1960, já que: “(...) para a extirpação dessas premissas deturpantes, é necessário nada menos que a subversão da cosmovisão científica, com seu arraigado compromisso para com uma consciência cerebral e egocêntrica.” (ROSZAK, 1969, p.62).

A subversão da cosmovisão científica significa que os valores absorvidos das ciências e seus métodos estavam sendo questionados, havendo relativização da objetividade, valorização de aspectos subjetivos do ser humano e suas experiências históricas. Os jovens dos anos 1960 estavam revertendo estilos de relações humanas e propondo relações sociais profundamente pessoais (Cf. ROSZAK, 1969, p.65). Essas características podem ser observadas em Anos 60 (1987) (Cf. MACIEL, 1987, p.9), em dissertação de mestrado (Cf. FLEURY, 2015, p.21) e em O que é Contracultura (CF. PEREIRA, 1992, p.20).

As citadas práticas sociais não constituíram um movimento homogêneo nem centralizado, daí a complexidade da analise da Contracultura que em sua multiplicidade ampliava as possibilidades de especificidades nos diferentes grupos.

Quando pela primeira vez se lança o olhar sobre as variedades de rebelião da juventude, pode parecer que haja nessa contracultura muito menos coerência que sugeri. Por um lado há a boemia descuidada dos beats e dos hippies; por outro lado o ativismo exacerbado da Nova Esquerda estudantil. (Cf. ROSZAK, 1969, p.66)

Mas de fato existia algo que aproximava tais grupos por diferentes que fossem. Vários fatores contribuíram para isso, como a convivência nos campi universitários que se multiplicaram nos Estados Unidos nas décadas anteriores. Porém, mais importante ainda, uma característica de natureza ontológica nas gerações jovens daquela época era o “personalismo”. Assim: “A unidade fundamental desses estilos diversos de revolta é revelada pelo extraordinário personalismo que desde seus começos tem caracterizado o ativismo da nova esquerda.” (Cf. ROSZAK, 1969, p.67)

O trecho acima relata o personalismo como nada menos que a característica que dá uma unidade fundamental à diversidade de manifestações que compunha o fenômeno mais abrangente chamado Contracultura, e ainda, o autor afirma ser ação política. Como movimentos que questionam a objetividade de uma cosmovisão científica a valorização do envolvimento pessoal faz muito sentido. Em outras palavras, a relativização da objetividade faz ressurgir uma característica que a cosmovisão científica sempre repudiou: a subjetividade.

Para demonstrar a citada multiplicidade de manifestações socioculturais que compuseram a contracultura Roszak, no decorrer do livro, adentra temas que não serão abordados neste artigo, que se limitará a analisar a crítica à objetividade inerente às manifestações da contracultura como tentativa de subversão da cosmovisão científica.

Pode-se, portanto, discernir entre os jovens um continuum de pensamento e experiência que liga a sociologia da Nova Esquerda de Mills, o marxismo Freudiano de Herbert Marcuse, o anarquismo gestáltico de Paul Goodman, o apocalíptico misticismo corporal de Norman Brown, a psicoterapia zen de Alan Watts e, finalmente, o narcisismo impenetravelmente oculto de Timothy Leary (...). (Cf. ROSZAK, 1969, p.73)

Em A Contracultura os dois primeiros capítulos funcionam como introdução ao conceito de tecnocracia e cosmovisão científica. A citação acima descreve os temas que serão tratados do capítulo 3 a 6 e tratam de manifestações de “subjetividade” nas relações sociais.  Nos capítulos 7 e 8 o autor aprofunda a crítica à crença na objetividade das ciências assim combatendo as premissas da cosmovisão científica.

Ao final da obra o autor apresenta argumentos sobre a principal forma de contestação da sociedade tecnocrática pelos agentes sociais da contracultura: a crítica à objetividade, que ele categoriza como um tipo de mito.

Assim, se sondarmos a tecnocracia à procura da força peculiar que ela exerce sobre nós, chegaremos ao mito da consciência objetiva. Não há senão um meio de ter acesso à realidade – assim reza o mito – e esse meio consiste em cultivar um estado de consciência isento de toda distorção subjetiva, de todo envolvimento pessoal. (ROSZAK, 1969, p.212)

O autor fala em mito pois defende que tal objetividade é ilusória, uma crença respaldada por premissas derivadas dos métodos científicos absorvidos pelas relações sociais. Tal suposta objetividade que separa sujeito e objeto, observador e observado, hierarquiza socialmente criando espaços privilegiados de dominação cientificamente justificada.

Assim que dois seres humanos se relacionam impessoalmente, como observador e observado, assim que o observador pretende não considerar nada senão a superfície de comportamento do observado, estabelece-se uma hierarquia odiosa que reduz o observado a uma condição inferior. (...) O exemplo extremo dessa relação alienada é o do médico nazista fazendo experiências com suas vítimas humanas, aprendendo interessantes coisas novas sobre a dor, o sofrimento, a privação. (ROSZAK, 1969, p.225)

A objetividade das metodologias científicas é instrumento de hierarquização social, privilegiando aqueles que têm o respaldo do conhecimento legitimado socialmente. Além disso, a crença de que a objetividade científica é a única forma válida de se acessar a realidade não procede se analisada historicamente, já que tal forma de mediação existe nos moldes atuais desde o século XVIII tendo atingido o ápice na sociedade tecnocrática do século XX, portanto, relegando ao esquecimento histórico todas as outras formas de mediação que existiram durante os milhares de anos que precederam a modernidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os autores que se dedicaram ao estudo do intelectual concordam que os especialistas são agentes da manutenção da ordem social. Sartre , sarcasticamente, chama os técnicos do saber prático de “cães de guarda”, Jacoby aponta a especialização e as carreiras acadêmicas como inibidoras do surgimento de intelectuais, Said denuncia a especialização como pressão social que inibe a capacidade crítica do “pensador”. Importante trazer ainda Sartre em sua precisão conceitual que delimita a existência do intelectual àqueles que possuem conhecimento e se rebelam quando este se torna instrumento de opressões sociais. Roszak, na mesma linha, afirma que as sociedades industriais desenvolveram (ou acreditam ter) dependência tal nas ciências que os detentores do conhecimento científico especializado nas inúmeras áreas têm elevado prestígio social e poder decorrente de suas funções sempre úteis aos estados e às corporações privadas.

Roszak entende que os jovens rebeldes dos anos 1960 negavam valores sociais, tinham práticas consideradas irracionais, defendiam atitudes políticas personalistas, pretendiam subverter estruturas universitárias, abandonavam lares confortáveis para levar vidas incertas e perigosas, estavam, em essência, lutando contra a objetividade absorvida das ciências e elevada a valor primordial pela cosmovisão científica.

Já que Sartre diz só existir o intelectual quando o especialista se rebela e usa seu conhecimento contra os grupos e valores hegemônicos, poderíamos considerar que alguns daqueles jovens descritos e analisados em A Contracultura foram intelectuais na concepção sartriana do termo, firmando posição contra os peritos denunciados por Roszak.

REFERÊNCIAS

ARENDT, Hannah. A condição humana. - 11° ed.- Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.

BARROS, José D’Assunção. Fontes Históricas – um caminho percorrido e perspectivas sobre os novos tempos in Revista Albuquerque. Vol. 3, n. 1, 2010.

BARROS, José D’Assunção. Teoria da História/ José D’Assunção Barros. – 5 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.

BLOCH, Marc. Apologia da História, ou, O ofício de historiador. – Rio de Janeiro, Zahar, 2001.

CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1982, p. 65-119.

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 12ª edição. São Paulo. Ática. 2001.

FLEURY, Luiz Eduardo de Jesus. O Hardcore em Goiânia nos anos 1990: um estilo de vida. [manuscrito] / Luiz Eduardo de Jesus Fleury. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Goiás, Faculdade de História (FH), Programa de Pós-Graduação em História, Goiânia, 2015.  122f

JACOBY, Russel. Os últimos intelectuais: a cultura americana na era da academia. São Paulo: Trajetória Cultural: Editora da Universidade de São Paulo, 1990.

MACIEL, Luiz Carlos. Anos 60- Porto Alegre: L&PM, 1987.

PEREIRA, Carlos Alberto M. O que é Contracultura. 8. ed., ed. Brasiliense, 1992.

POLANYI, Karl. Habitação versus progresso. In: A grande transformação: as origens da nossa época. Rio de Janeiro: Campus, 1997, p. 35-44.

SAID, Edward. Representações do intelectual: as conferências de Reith de 1993. – São Paulo: Companhia das letras, 2005.

SARTRE, Jean-Paul. Em defesa do intelectual. – São Paulo: ed. Ática, 1994.

FONTE

ROSZAK, Theodore. A Contracultura. Editora Vozes Ltda. Petrópolis, RJ. 1969.

           

Escrito por Rogério Carlos Correia Fleury e Maria Abadia Cardoso


Publicado por: ROGERIO CARLOS CORREIA FLEURY

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Meu Artigo. O Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.