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Os Festivais de 60: A Resistência Feita Pela Música

História do Brasil

Os festivais dos anos 60 protestavam contra o Governo Militar. Clique e saiba mais!

“A nossa memória não se constitui de um momento para outro, mas, antes, ao longo de um processo histórico e de vida, e assim, não é algo que se complete ou finalize, pois a alteração, a incorporação, a seleção e o esquecimento são características desse fenômeno. A música é apenas um dentre vários elementos constituidores e presentes em nossas memórias. Não é raro que, ao ouvirmos uma canção, ela nos transporte no tempo ao encontro de um ambiente – de trabalho, de estudo-, de uma situação vivida, de uma pessoa, de um evento. Isso ocorre se determinada música estiver ligada a alguma experiência de vida e que, por termos experimentado, tenha um significado para nós.”[1]

Em 1964 o Brasil sofreu um golpe civil-militar instaurando assim um governo militar, que por meio de seu autoritarismo e repressão, mantinha o controle em vários aspectos da vida social brasileira, principalmente na área cultural. Apesar de toda vigilância, repressão e perseguição dos agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) em todas as áreas ligadas à cultura (literatura, música, teatro e cinema), surgiram várias formas de protestos contra o regime militar.

Na música, surgiram canções de conteúdo político e social, que chegavam a uma grande parcela da população devida principalmente à participação desses músicos e canções nos festivais realizados pelas emissoras de televisão. Esses festivais eram transmitidos a várias regiões do país, atingindo grande audiência. Havia também uma participação maciça do público que torcia apaixonadamente por suas canções favoritas. Esses festivais devido à grande popularidade e aos compositores e intérpretes envolvidos passaram a ser sistematicamente vigiados pelos agentes DOPS, como passíveis de subversão contra a moral e o sistema nacional.

Nosso objetivo é mostrar e analisar as músicas que fizeram a história desses festivais a partir de sua letra, e do objetivo do compositor e do intérprete colocando em palavras aquilo que muitos pensavam, mas poucos tinham a coragem necessária para falar.

Os Festivais da Canção foram realizados na TV Excelsior, na TV Record e na TV Globo. Nosso recorte são os festivais que ocorreram entre 1965 e 1969, para mostrar, sobretudo a evolução dessa música que futuramente seria reconhecida como canção de protesto. Nossa análise partirá da escolha de uma música por ano de festival, contemplando os festivais as três emissoras já citadas.

Antes de iniciarmos as análises é preciso primeiramente definir o que foi o movimento da Música Popular Brasileira (MPB). Numa leitura mais geral, podemosdefini-la como “qualquer música consumida e/ou produzida pelas camadas populares e em nosso idioma”.[2] Porém, a sigla MPB representa um movimento dentro da música brasileira, movimento este que recebeu diferentes definições: Música de protesto, música dos festivais, música politicamente engajada. De todo modo, MPB é caracterizada por seu compromisso com a realidade, por sua mensagem crítica associada ao conteúdo e à participação político-social que a música propunha.

Em abril de 1965, ocorreu o primeiro festival da Música Popular Brasileira pela TV Excelsior, onde consagrou-se campeã a música Arrastão, composição de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, interpretada por Elis Regina.

Ainda que tributária da Bossa Nova, boa parte dos compositores e intérpretes inovaram ao substituir imagens recorrentes por outras mais presentes no cotidiano da população. Em Arrastão, o mar deixa de ser objeto de contemplação para ganhar a imagem de um espaço de trabalho, de onde são retirados os peixes que garantem a subsistência, além de local de culto, morada de Iemanjá. Na letra retrata-se um pouco do cotidiano de uma população pouco favorecida no meio social:

Eh! tem jangada no mar
Eh! eh! eh! Hoje tem arrastão
Eh! Todo mundo pescar
Chega de sombra e João Jô viu

Olha o arrastão entrando no mar sem fim
É meu irmão me traz Iemanjá prá mim
Olha o arrastão entrando no mar sem fim
É meu irmão me traz Iemanjá prá mim

Minha Santa Bárbara me abençoai
Quero me casar com Janaína
Eh! Puxa bem devagar
Eh! eh! eh! Já vem vindo o arrastão
Eh! É a rainha do mar
Vem, vem na rede João prámim

Valha-me meu Nosso Senhor do Bonfim
Nunca, jamais se viu tanto peixe assim
Valha-me meu Nosso Senhor do Bonfim
Nunca, jamais se viu tanto peixe assim

No ano seguinte, em 1966, devido a algumas imposições do patrocinador da TV Excelsior, o produtor dos festivais transferiu-se para a TV Record, onde o Festival ganhou mais prestígio e atingiu seu ápice, tanto que aos nos remetermos àquele tempo, referimo-nos aos “festivais da Record”.

O Segundo Festival Nacional da Música Popular Brasileira estreia na TV Record com um empate na primeira colocação, A Banda de Chico Buarque, interpretada por Nara Leão dividiu o prêmio com Disparada de Geraldo Vandré e Théo de Barros, interpretado por Jair Rodrigues, Trio Maraiá e Trio Novo.

Foi a objetividade e a maneira engenhosa de dizer que fez de disparada o sucesso com o público. Vandré inicia alertando o público para prepararem o coração, talvez porque estes não estejam acostumados às agruras dos que vivem no Sertão. Descreve o trabalhador que é tratado como gado e passivo a essa situação. Há donos e bois, uma sociedade dividida em classes. Onde a posição do boi muda de acordo com a necessidade do boiadeiro, como quando um vaqueiro morre e o boiadeiro precisa que um boi tome o lugar que o falecido deixou. E diz, que não conseguiu ser um rei, pois gente é gente, é diferente, não é gado ( que a gente tange, ferra, engorda e mata).

Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar
Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo, a morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar, eu vivo práconsertar

Na boiada já fui boi, mas um dia me montei
Não por um motivo meu, ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse, porém por necessidade
Do dono de uma boiada cujo vaqueiro morreu

Boiadeiro muito tempo, laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente, pela vida segurei
Seguia como num sonho, e boiadeiro era um rei
Mas o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo
E nos sonhos que fui sonhando, as visões se clareando
As visões se clareando, até que um dia acordei

Então não pude seguir valente em lugar tenente
E dono de gado e gente, porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente
Se você não concordar não posso me desculpar
Não canto pra enganar, vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado, vou cantar noutro lugar

Na boiada já fui boi, boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém, que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse, por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu querer ir mais longe do que eu

Mas o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo
Já que um dia montei agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte num reino que não tem rei

O Terceiro Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, de 1967, é considerado por muitos o mais significativo entre aqueles que constituíram a "Era dos Festivais". A noite de 21 de outubro de 1967 foi um momento de surpresas e mudanças, uma noite inesquecível para a história da música brasileira.

Além de sua ótima qualidade musical - com a mistura de diferentes ritmos e sonoridades que marcou o Tropicalismo da MPB -, o Festival abriu espaço para mudar ao menos duas ideias vigentes na época: a relação distante entre artista e público e a polarização entre música jovem e música brasileira.

Nessa edição a grande vitoriosa foi a música Ponteio de Edu Lobo e Capinam, interpretada por Edu Lobo, Marília Medalha e Quarteto Novo. Algo que tumultuou o cenário musical daquele ano, pois seguidas de Ponteio viriam Domingo no Parque de Gilberto Gil, Roda Viva de Chico Buarque e Alegria, Alegria de Caetano Veloso, músicas que se tornaram um grande marco da época.

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Nas músicas desse ano, por falta de uma fonte mais precisa, decidimos analisar Roda Viva de Chico Buarque. Na composição, o destino, o livre-arbítrio, a saudade, e a repressão são algumas questões presentes. Até que ponto temos o controle sobre nossas ações é a grande questão presente na letra. Num período de repressão Chico procura resgatar o sentido da roda viva, que leva embora a nossa viola, a nossa autonomia. Na música o tempo e as transformações passam rápido, de forma que quando nos damos conta, uma nova ordem já está posta. Em meio as situações impostas, a saudade traz a tona a lembrança de que já houve alternativa para a situação presente. Nos últimos segundos da música, o refrão vai se repetindo, acelerando gradativamente, comouma roda que vai carregando tudo que se encontra à frente, não dá chance para respirar, uma bola de neve que vai crescendo, tomando proporções maiores que os indivíduos.

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu...

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prálá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou...

A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou...

No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prálá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...(4x)

O ano de 1968 foi o ano do golpe dentro do golpe, o ano da instituição do Ato Institucional número 5 em 13 de dezembro, ato este que marcou o momento mais duro do governo ditatorial, dando poder de exceção aos governantes para punir arbitrariamente os que fossem inimigos do regime ou como tal considerados. Mas foi também o ano em que surgiu a partir dos festivais, aquele que viria a ser considerado o hino de resistência ao regime.

A música que ficou em segundo lugar no Terceiro Festival Internacional da Canção da TV Globo realizado em Setembro de 1968, Pra não dizer que não falei das flores, composição e interpretação de Geraldo Vandré. Marcou aquele momento, e gerações posteriores, se tornou o hino de uma sociedade que vivia sob a censura e a repressão.

Na música de Vandré alguns espaços são cantados, as escolas, as ruas, os campos e as construções, espaços rurais e urbanos, diferentes, mas com o mesmo atributo, onde a história pode ser feita pelo homem, é preciso que ele tome para si e para os que como ele pensam, a tarefa de construção de uma sociedade onde ele possa se sentir humanamente satisfeito. Nos campos ele sugere que enquanto meia dúzia de grandes proprietários acumula fortunas exportando produtos colhidos em suas extensas áreas de terra, a maioria do povo passa fome. Há soldados que exercem a profissão de forma tão alienada e brutalizada, que não conseguem de fato cumprir a função que a sociedade espera delas,brutalizados e treinados para enxergar inimigos em todo e em todos, os “soldados da pátria” estão sempre prontos a matar e a morrer. Mesmo que nesses gestos não exista sentido. No fim, Vandré ressalta, somos todos iguais, e temos a história nas mãos, pois juntos, somos capazes de escrever a história que queremos ver, pois juntos somos capazes de aprender e ensinar o que queremos para nós.

Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição:
De morrer pela pátria
E viver sem razão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Após essa música, Geraldo Vandré, foi torturado (fato que hoje ele nega) e exilado, enquanto sua música foi proibida até 1979. Sobre a participação dessa música no festival, o secretário da Segurança da Guanabara, general Luís de França Oliveira afirmou: “Essa música é atentadora à soberania do País, um achincalhe às Forças Armadas e não deveria nem mesmo ser escrita”[3]

No ano de 1969 quando o AI-5 já está em vigor é perceptível a mudança no caráter das músicas nos festivais. É preciso lembrar que os festivais se estendem até o ano de 1985, mas que como caráter de luta contra a ditadura, ele atinge o seu auge em 1968 pouco antes do AI-5 ser instituído.

No ano de 1969, a música que pode ser considerada o último suspiro da MPB seja talvez Sinal Fechado de Paulinho da Viola, vencedora do Quinto Festival de Música Popular Brasileira da TV Record.  Pois as outras músicas classificadas no mesmo festival já não traziam qualquer denúncia mais explícita sobre a realidade da época.

Na música, Paulinho da Viola coloca em dúvida o possível reencontro com os compositores que se foram, o futuro era incerto, e por enquanto, os obstáculos imperavam na música.

Olá, como vai ?
Eu vou indo e você, tudo bem ?
Tudo bem eu vou indo correndo
Pegar meu lugar no futuro, e você ?
Tudo bem, eu vou indo em busca
De um sono tranquilo, quem sabe ...
Quanto tempo... pois é...
Quanto tempo...
Me perdoe a pressa
É a alma dos nossos negócios
Oh! Não tem de quê
Eu também só ando a cem
Quando é que você telefona ?
Precisamos nos ver por aí
Pra semana, prometo talvez nos vejamos
Quem sabe ?
Quanto tempo... pois é... (pois é... quanto tempo...)
Tanta coisa que eu tinha a dizer
Mas eu sumi na poeira das ruas
Eu também tenho algo a dizer
Mas me foge a lembrança
Por favor, telefone, eu preciso
Beber alguma coisa, rapidamente
Pra semana
O sinal ...
Eu espero você
Vai abrir...
Por favor, não esqueça,

Adeus

Após o AI-5, o espaço outrora repleto de protestos e denúncias passou a ser preenchido por canções afásicas, a música alienada e ufanista toma conta do cenário musical, sobretudo devido aos compositores da MPB serem constantemente vítimas da impossibilidade de apresentações, banimentos dos festivais e perseguições pela censura, como é o caso da música Apesar de Você de Chico Buarque em 1970.  Deixando por uma década a sociedade carente de músicas pela qual a MPB se tornou um mito, dez anos sem a música de protesto.


[1] Ramon Casas Vilarino – A MPB EM MOVIMENTO: música, festivais e censura. p.71

[2] Idem. p.18

[3] Revista Veja. São Paulo: Abril, ano I, nº5, 9 de outubro de 1968, p.54


Publicado por: Ana Carolina Cavalcante Pinto

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
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