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O Município de Bento Gonçalves e o avanço do capitalismo

Geografia

O avanço econômico do município de Bento Gonçalves.

Devido ao fenômeno de crescimento acelerado das cidades, ocasionado pelo avanço do capitalismo e da produção de bens de consumo nos últimos anos, percebe-se, como fatal conseqüência, a transformação do espaço geográfico no município de Bento Gonçalves, uma das Colônias de imigração italiana no Rio Grande do Sul, batizada, em sua origem, de Colônia Dona Isabel, oficializada nos anos de 1870, o qual exerce papel importante no desenvolvimento histórico, econômico e cultural regional, além de ser famosa nacional e internacionalmente por seus frutos, como a uva, o vinho e a produção moveleira.

A cultural italiana está presente nos costumes e tradições do povo de Bento Gonçalves, na gastronomia, na arte, no artesanato, na literatura, na arquitetura, além de ser notório o desenvolvimento ocorrido nas últimas décadas, dando um ar de sofisticação à cidade, proporcionando a abertura de suas portas para receber, como conseqüência, filhos adotivos quem vêm em busca de acolhimento e recomeço.

1. De Colônia à Município

A Imigração Italiana, ocorrida no ano de 1875, fez desta localidade, que abrigava não mais que 6.081 habitantes, onde hoje é Bento Gonçalves, uma Colônia de Italianos chamada de Dona Isabel.

Esta Colônia, cercada pelo Rio das Antas, pela Estrada Geral, que ligava São João de Montenegro à Vacaria, pela Colônia Conde D’Eu (atual município de Garibaldi), e pela Colônia Caxias, exercia algumas atividades comerciais e produtivas nesta época, pois a Colônia precisava produzir seus próprios bens para garantir seu sustento. Algumas atividades, como ferrarias, sapatarias, alfaiatarias, cantinas, cervejarias, moinhos, tecelagens, entre outras, garantiam a qualidade de vida neste árduo começo, pois, segundo alguns historiadores, nada foi fácil aos imigrantes nesta nova terra. Além das atividades consideradas comerciais, a Colônia vivia também da produção agrícola, pois era dela que o sustento básico, ou seja, a alimentação do dia-a-dia era extraída.

Tudo o que era produzido nesta época tinha um fim específico. Ou era consumido pela própria Colônia, ou seja, seus habitantes, ou, o excedente era comercializado em outros centros. Uma das dificuldades existentes nesta época é em relação ao transporte dos produtos, bem como aos precários acessos, ou “picadas”, como se dizia, para se fazer transportar o que era produzido. Após muito trabalho e apoio do governo da Província, algumas medidas foram tomadas, como a construção e conservação de estradas dando acesso a outros centros, além da criação de estradas internas da Colônia, garantindo assim o acesso dos produtores ao centro da mesma e a outras regiões.

Com a comercialização daquilo que não era consumido pela Colônia, criou-se, com o passar dos anos, uma rede de comércio, ou seja, uma trajetória de produção e comercialização, trazendo progresso e desenvolvimento à região. Ao comercializar o excedente, o imigrante cria, constrói sua própria riqueza, conseqüentemente melhorando sua qualidade de vida, produzindo cada vez mais, pois adquire insumos melhorados, e favorece suas relações comerciais. Neste período da história da Colônia, pode-se perceber o início de um processo que vai transformá-la em Município, pois já gozava da fama de ser uma das colônias italianas mais prósperas, e futuramente em grande centro produtor e exportador.

Saindo do Século XIX, adentrando o Século XX, a Colônia ganha proporções volumosas e caráter de município, pois conta com novos prédios, escolas, farmácias, agência postal e telegráfica, além da construção da Estrada Buarque de Macedo, ligando Garibaldi, passando por Bento Gonçalves, e com a construção de uma ponte ligando à Veranópolis e às demais cidades do norte do estado do Rio Grande do Sul, favorecendo o escoamento da produção, bem como a vinda de outros produtos e matérias-primas de outras regiões, aumentando o fluxo de pessoas, comerciantes e agricultores em busca de trabalho e riqueza.

Graças à sua produção e comercialização, Bento Gonçalves crescia e se desenvolvia, e conseqüentemente, transformava seu espaço, pois à medida que o ser humano produz, mais e mais o espaço é modificado, onde substituem-se matas nativas por plantações, pasto para os animais, construções, entre outros.

2. Modificação da Paisagem X Qualidade de Vida

É sabido que as relações de produção transformam o espaço geográfico em espaço social produzido. Esta relação pode ser percebida em Bento Gonçalves, pois, segundo o que foi dito até aqui, de uma Colônia de imigrantes italianos, constituída no final do século XIX, o município passa a ser uma das cidades mais conhecidas, devido, justamente, à sua produção. Se antes o município produzia apenas para sua sobrevivência interna, sua e de seus habitantes, com o passar dos anos, passa a destacar-se no mercado econômico, principalmente no tocante à produção e comercialização da uva, do vinho e de seus móveis.

Ao visitar o interior do município não se pode deixar de ver este avanço econômico e, por que não, tecnológico. Muitas áreas que antigamente eram apenas Linhas, ou seja, distritos da Colônia, atualmente incluídas no rol da produção econômica, destacam-se por sua exuberante paisagem, mas também por sua produção. Adentrando algumas áreas, como o famoso Vale dos Vinhedos, a primeira região do Brasil a obter a Indicação de Procedência (certificado que qualifica a origem do vinho em escala mundial), grande produtor de uvas (81.467 toneladas, IBGE 2000) e vinhos do Rio Grande do Sul e, por que não, do Brasil, além de suas vinícolas, que exercem a função de produtoras de vinho, também passam a acolher seus visitantes para hospedagem, passeios e gastronomia.

Do outro lado do município, mais precisamente à leste, têm-se outro atrativo cultural e turístico, quase que concorrendo com o Vale dos Vinhedos, o conhecido Caminhos de Pedra, outra micro-região adaptada pelo colonizador e desbravada por seu instinto transformador. Belíssimas casas de pedra, rústicas e acolhedoras, que além de alegrarem os olhos, preocupam-se em cultivar as tradições e fazê-la conhecida aos seus visitantes. Os Caminhos de Pedra também desenvolveram boas e grandes vinícolas, unindo-se ao Vale dos Vinhos, conferindo à Bento Gonçalves o título de a Capital Brasileira da Uva e do Vinho.

Mas, o município, emancipado em 11 de outubro de 1890, não é conhecido somente por seus atrativos turísticos e culturais. Possuindo 380 km2 de área, clima subtropical, variando de -3ºC no inverno e 36ºC no verão, com pouco mais de 100 mil habitantes, está entre as 10 maiores economias do Rio Grande do Sul (dados do Atlas Socioeconômico do Rio Grande do Sul, 2002). O município é o maior pólo moveleiro do Estado (possui 335 indústria registradas em 2005, correspondo a 40% da produção estadual e 8% da produção nacional), destacando-se por sua qualidade de vida, ou seja, o primeiro em Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Rio Grande e o 6º no Brasil, conforme estudos da ONU em 2003. Seu PIB de R$ 2.367.582,00 (2006) e sua Renda Per Capita de R$ 22.763,00 (2006), coloca Bento Gonçalves em 10º lugar entre os municípios com maior expectativa de vida (1998 e 2003), segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde, apontando que os homens chegam aos 70 anos e as mulheres aos 78 anos, ambos os sexos, vivendo em média 74 anos de idade.

A qualidade de vida em Bento pode ser comprovada, também, através da educação, pois o índice de aprovação nas escolas do município, entre rede pública e privada, alcança os 85%, apenas duas mil pessoas (IBGE 2000) são consideradas analfabetas. Outros fatores importantes, que destacam o município é em relação à saúde, pois conta com um dos hospitais mais bem equipados do interior do Estado, favorecendo à população acesso aos mais variados tipos de tratamentos e exames.

Nem todos os dados, no tocante ao desenvolvimento econômico e crescimento populacional, são positivos. Muitos impactos são causados ao meio ambiente. Não se pode falar em desenvolvimento sem verificar seus resultados positivos e negativos. Ainda se faz necessário desenvolver uma política de preservação às áreas de floresta nativa, pois, no decorrer dos anos, com o avanço do cultivo da videira, muitas áreas foram devastadas para o favorecimento desta prática, ocasionando assim, a perda da fauna e da flora. Mas, apesar das perdas, algumas instituições, tanto públicas quanto privadas, estão trabalhando nisso.

Conclusão

Passam-se os anos, e verifica-se a transformação que o capital imprime na paisagem e na sociedade. O capitalismo, fenômeno econômico que abarca quase a totalidade do Planeta, deixa sua marca, substituindo o natural pelo produzido.

Ainda que na cidade, famílias ou pessoas procurem cultivar hábitos rurais, tidos como mais saudáveis, de produzir alguns produtos para consumo próprio em jardins, terraços e sacadas, a vida é outra. O corre-corre do meio urbano, visto no centro de Bento Gonçalves, confere ao município um ar cosmopolita, contrastando o rural com o urbano. Isso reflete o desejo de estar próximo da natureza, buscando uma melhora nas condições de vida e de saúde.

Mas, com o crescimento econômico, tem-se o avanço da urbanização, onde ela passa a ser uma moeda de dois lados: de um lado vê-se o aprimoramento das técnicas, das condições de vida, dos atrativos culturais; de outro, vê-se a precariedade das favelas, a chaga do desemprego, da marginalidade. A antiga Colônia Dona Isabel, desde seus primórdios, à exemplo de outras, mostra à que veio. Veio para prosperar, para dar dignidade à seus primeiros habitantes que nos deixaram um legado de fartura, trabalho e progresso.

Bibliografia

RIO GRANDE DO SUL, Secretaria da Coordenação e Planejamento. Atlas Socioeconômico: Estado do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: CSP, 2002. 2ª Edição.

DE BONI, Luis Alberto. Bento Gonçalves era assim. Relatos de autoridades italianas sobre os primórdios de Bento Gonçalves. Porto Alegre: EST. Caxias do Sul: Correio Riograndense. Bento Gonçalves: FERVI, 1985.

DE PARIS, Assunta. Memórias de Bento Gonçalves. Prefeitura Municipal de Bento Gonçalves: Arquivo Histórico Municipal, 2aEd, 2006.

IBGE, Atlas Nacional do Brasil. Rio de Janeiro, 2000.

SANTOS, Milton. Espaço e Método. São Paulo: Nobel, 1985.

SECRETARIA ESTADUAL DA SAÚDE. Plano Diretor de Regionalização da Saúde. Disponível: http//www.saude.rs.org.br

http://www.caminhosdepedra.org.br

http://www.valedosvinhedos.com.br

Jones Godinho
Professor, Licenciado em Geografia


Publicado por: Jones Godinho

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

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