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Proposta para uma escola plural

Educação

Escola Plural - diferenças, cultura, ciência, e tecnologia na formação para a vida e o trabalho.

Introdução

No início do ano de 2007, nos debates e divulgação de idéias sobre a gestão da Escola durante o processo de escolha da Direção para 2007 e 2008, apresentei uma proposta político-pedagógico que denominei "Escola Plural". Na perspectiva dessa idéia, o que denominamos de Público é mais do que Estatal, deve ser aquilo a que todos devem ter acesso, tanto no que difunde, quanto no que produz, deve ser comum, participável. Na base dessa idéia está a premissa teórica e política que a construção do público é a constituição material das condições objetivas que assegurem a todas as pessoas o acesso a esse participável, pois democratizar é proporcionar a participação de todos ao que não pode ser dividido privativamente, ao que deve ser comum.

Quanto mais aberta a intervenções e saberes diversos é a educação e, pois, a Escola, mais ela se aproxima do conceito de Comum e melhor será a sua qualidade (social e técnica) e sua capacidade de responder aos desafios e demandas que se apresentam na sociedade. O Comum é, ao mesmo tempo, produção e produto das singularidades que cooperam em um determinado espaço ou território. Eis, então, do nosso ponto de vista, o caráter fundamental da Escola Pública: uma Escola aberta às singularidades, uma Escola Plural.

 

Escola Plural - Diferenças, Cultura, Ciência e Tecnologia na formação para a Vida e o Trabalho

Ao afirmarmos que a Escola Pública deve ser uma instituição plural e democrática, expressamos uma concepção de escola em que a gestão e a pedagogia devem considerar e, mais que isso, apostar na diversidade de visões de mundo, estilos, valores, saberes e afetos, presentes em qualquer espaço comum. Isso significa pensar a escola como lugar de um trabalho coletivo de sistematização, produção e difusão de conhecimentos histórico-culturais, científicos e tecnológicos, de desenvolvimento de autonomia, de reconhecimento e valorização de diferenças, de diálogos e participação democrática. E sendo a Escola Técnica Estadual Oscar Tenório uma instituição de ensino médio e profissional, significa que os conteúdos da formação geral e da formação para o trabalho devem ser concebidos numa perspectiva integral de educação para a vida em sociedade. Desse ponto de vista, formação geral e formação para o trabalho passam a ser apenas denominações diferentes para a mesma coisa. Pois, na vida concreta, não há separação ou divergência entre essas duas coisas e, em conseqüência, não é mais possível pensarmos numa separação entre conhecimentos gerais e conhecimentos especializados.

Como mostram alguns estudos, no pós-fordismo (Cocco,...) tempo de vida e tempo de trabalho tendem a ser a mesma coisa, ou seja, hoje é a vida que se torna produtiva e, por isso, no capitalismo contemporâneo é a vida que vem sendo posta para trabalhar, e não mais uma parte do nosso tempo. Em outras palavras, no capitalismo contemporâneo o “regime de fábrica”, ou seja, o conjunto de regras das relações de produção capitalista, não se limita ao espaço físico das empresas e ao tempo de trabalho dedicado a elas, mas vêm atingindo toda a sociedade e se instalando em todas as formas de produção social. Não por acaso, quando falamos em educação profissional falamos em “formação para o mercado de trabalho”.

Ora, do ponto de vista do capital o mercado de trabalho é uma espécie de cadastro de reversa, e quanto mais mão-de-obra disponível melhor, pois menor será a oferta salarial. Além disso, no mercado de trabalho o que existe não é exatamente oferta de postos de trabalho, mas demandas de mão-de-obra, conhecimentos e capacidades produtivas.

Em outras palavras, entrar e permanecer no mercado de trabalho significa torna-se e manter-se empregável, o que exige um acompanhamento constante das transformações técnico-científicas e, conseqüentemente, um constante aprendizado de novos conceitos, técnicas e suas tecnologias. Por outro lado, manter-se empregável não é garantia de ter um emprego, pois nos encontramos diante de um contexto que, de um lado, não precisa de empregados estáveis e produz funções que têm vida cada vez mais curta (é preciso analisar e avaliar com cuidado, por exemplo, a tendência de criação de cursos de formação profissional muito específicos); e, de outro lado, a relação salarial não é mais significado de acesso à cidadania, pois hoje a inclusão pode acontecer na exclusão (o emprego formal e, portanto, a entrada no mercado de trabalho, não é garantia de acesso à renda digna e aos direitos).

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Como alternativa, cresce cada vez mais o número de pessoas com trabalho precário, temporário, informal e por conta própria. Cresce, portanto, o número de trabalhadores-empresas e, com isso, a importância de pensarmos a educação profissional também como “formação para o trabalho”. Nesse contexto, algumas questões se apresentam. Uma delas é que mais do que transmitir conteúdos, é preciso que a educação passe a dar mais importância ao desenvolvimento das capacidades de aprender e inovar. Se a capacidade de inovar, formular e gerir projetos e pequenos negócios é hoje uma exigência, torna-se necessária uma educação que trabalhe para desenvolver capacidades empreendedoras. Dessa forma, o empreendedorismo, como teoria e prática, passa a ser algo a ser seriamente considerado na educação de uma forma geral, em especial o currículo de profissionalização. Autonomia, atitudes propositivas e inovadoras são exigências no mundo atual.

Outro elemento importante diz respeito ao fato de que o acesso à tecnologias de informação e comunicação são cada vez mais importantes e necessárias, pois tais tecnologias dentro de uma dinâmica democrática e plural são ferramentas fundamentais de cooperação, formação de redes, acompanhamento e atualização sobre sociedade, ciência e tecnologias. Hoje, é muito importante que a Escola Pública esteja “desconectada”, não apenas na internet, mas das possibilidades de troca e das transformações e inovações sociais, técnicas, econômicas e políticas.

O acesso a produções culturais diversas, o diálogo sobre questões políticas, econômicas, ambientais e sociais, o acesso a informações sobre direitos, saúde, políticas públicas e institucionais de interesse da comunidade escolar, bem como a extensão à comunidade externa de projetos, atividades e experiências produzidas pela escola e por parcerias, são também elementos fundamentais desse projeto que denominamos de Escola Plural.

A Escola Plural é, portanto, um projeto aberto cuja aposta ética é a de experimentarmos uma dinâmica de constituição material de uma Instituição Comum, que pretende adotar como princípios materiais a Democracia, a Autonomia e a aposta no valor das Diferenças, o que, do nosso ponto de vista, sugere:

  • Gestão Democrática (diálogos da Direção com todos os setores, decisões coletivas, transparência na gestão dos recursos, abertura às singularidades)
  • Atitudes concretas de valorização da Diversidade étnico-cultural, no currículo e nas relações escolares
  • Estudos e práticas de sustentabilidade
  • Estudos e práticas de empreendedorismo
  • Diálogos sobre problemas e questões sociais, políticas e econômicas
  • Pesquisa e Desenvolvimento de Projetos como parte da dinâmica de ensino-aprendizagem
  • Atualização constante de conteúdos profissionais e tecnológicos
  • Atividades de formação continuada e atualização docente
  • Extensão de conhecimentos e produções culturais
  • Circulação de idéias e acesso à informações

Formar pessoas que saibam utilizar os conhecimentos adquiridos para “ler” o mundo, que aceitem positivamente as diferenças e saibam posicionar-se respeitosamente diante da diversidade, que desenvolvam autonomia de estudos, que se interessem pelas questões que angustiam nossa sociedade, que tenham perspectivas de continuidade dos estudos, que saibam formular projetos próprios, que sejam empreendedores e cidadãos democráticos, são desafios que estão colocados para a educação. É neste sentido geral, que a idéia de Escola Plural se apresenta como uma proposta aberta que acredita na possibilidade de integração entre valorização das diferenças, cultura geral, ciência e tecnologias, na educação para a vida e o trabalho.

 

Referências Bibliográficas

Cocco, Giuseppe. Trabalho e Cidadania. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.


Publicado por: ALEXANDRE DO NASCIMENTO

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
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