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Pontos sobre a educação na antiguidade e a constituição do Humanismo Clássico

Educação

Educação na antiguidade, constituição do Humanismo e a formação clássica.

Werner Jaeger (2013), um dos maiores estudiosos da temática de formação educacional clássica. Segundo escreve o autor, embora coexistissem os modelos educacionais espartano e ateniense, esse último ganhou mais destaque e influenciou o ocidente nos séculos posteriores. Enquanto o modelo espartano apostava na ginástica, na educação militar, realizando eugenia e incentivando o laconismo, os atenienses foram além do cuidado com o corpo e estimularam a filosofia, a oratória e a retórica, além de incentivar uma perspectiva de que o homem deveria continuar a sua própria construção afim de se realizar completamente no mundo.

Jaeger argumenta (2013) que a Paidéia é uma expressão de difícil definição, e como outros conceitos abrangentes, resiste a deixar-se encerrar numa concepção abstrata. Enquanto outro autor, Henri-Iréneé Marrou (1973) aponta a palavra cultura como a melhor forma de se definir Paideia, Jaeger afirma que o fenômeno não pode ser contemplado com olhos do homem moderno, mas deve-se pensar os gregos em seus próprios termos, com olhos do homem grego daquela época. Nesse sentido, nenhuma expressão moderna como civilização, tradição, ou mesmo cultura, se assemelham ao que os gregos entendiam por Paidéia, porque cada um desses termos é apenas uma face do complexo fenômeno grego. De forma a iniciar uma explanação sobre o tema, é necessário, portanto, entender que a Paidéia não era para os gregos um aspecto exterior à vida, mas a formação do homem em contato orgânico com a cultura em um esforço a ser realizado por toda vida (JAEGER, 2013).

Franco Cambi (1999), outro especialista sobre o assunto, aponta que antes mesmo dessa ideia de paideia, já existiam dois modelos anteriores de formação humana refletida nas tragédias gregas e na medicina. No entanto, será a paideia desenvolvida entre os filósofos gregos que atestará o surgimento da pedagogia como episteme, não mais como ethos ou como práxis apenas. Entre os modelos pensados nos séculos V e IV a. C., estão os de Sócrates, Platão e Aristóteles, porém, o que mais efetivamente foi adotado nas cidades estado gregas foi o de Isócrates.

O modelo de paideia de Sócrates tem como componente principal a relação entre mestre e aluno, sendo o primeiro o responsável por realizar as questões, suscitar dúvidas e solicitar pesquisas ao segundo. Com o início do diálogo, mestre e aluno constroem o processo dialético por meio da oposição e unificação das ideias em sentido de aprofundar determinado saber que visa o “trazer para fora” e o “conhece a ti mesmo”, realizando o princípio da liberdade e da universalidade nos jovens (MANACORDA, 1992).

Platão idealiza dois modelos de paideia, segundo Cambi (1999). O primeiro, de inspiração socrática, idealizadas nas obras Fédon, Fedro e O Banquete, consiste em uma elevação da alma que se inicia na beleza dos corpos, isto é, do sensível em direção ao entendimento da beleza em si e do bem viver em sociedade. O segundo modelo, exposto em A República e As Leis, Platão hierarquiza a sociedade em três classes sociais: os produtores, os guardiões-guerreiros e os governantes filósofos. A educação dos produtores aconteceria no local de trabalho, obedecendo a critérios técnicos. Os guardiões seriam treinados em instituições públicas, sendo oferecida uma educação musical e literária, sem o aprofundamento dos discursos. Mais tarde, os guardiões que se revelassem mais aptos ao estudo da dialética eram aproveitados, habituando-se a pensar de forma abstrata, elevando sua alma para a contemplação e futuramente assumindo os cargos do governo.

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Segundo aponta Cambi (1999), a concepção de Aristóteles se apresenta como mais realista, buscando a plenitude do ser e a realização de suas potências. Aristóteles enfatiza uma pedagogia da essência, voltada para a imitação e repetição como construtora da virtude, presente no justo meio. Contudo, Aristóteles também divide a sociedade em classes: o povo e os nobres, sendo que apenas esses últimos deveriam receber educação do Estado, pois apenas eles gozam verdadeiramente da scholé, isto é, do tempo de ócio livre para se ocupar de estudos.

Isócrates foi aluno de Górgias e também se aproximou de Sócrates, segundo o helenista Werner Jaeger (2013). Tornou-se rival de Platão quanto a proposição de uma modelo pedagógico para a polis. Em sua perspectiva de paideia, tendo a palavra como centro de seu pensamento educacional, ele aponta que a retórica é uma arte que depende de fatores naturais, mais também depende do empenho de cada indivíduo no sentido de desenvolver o seu corpo e a sua alma. Dentro da era clássica e em um período específico em que as polis gregas batalhavam entre si na guerra do Peloponeso, Isócrates entendeu que era a retórica a forma espiritual que melhor poderia plasmar o conteúdo político e ético da época, sendo o mais apto a transforma-los em universal para todas as cidades-estado. Assim sendo, a despeito das críticas de Platão, concentrou o conteúdo de sua proposta de retórica em um discurso de ética nacional, capaz de aproximar as cidades em um sentido de reconstrução. Por conta disso, seu modelo acabou sendo o mais bem aceito, deixando de lado o modelo de Platão, considerado utópico, elitista e que perdia tempo em muitas discussões inúteis e distanciadas da vida contidiana. A paideia isocrática, mais prática, busca uma opinião que seja razoável, construindo um indivíduo que se tornasse interlocutor da cidade para assim construir uma subjetividade mais rica de humanidade.

Por fim, nesse breve texto, vale ressaltar que a força dessas ideias se expandiram na era de Alexandre O grande, mantendo-se também fortes no período de dominação romana. Traduzida como humanitas pelo pensador romano Cícero, a paideia chega até os dias atuais ainda como um ideal de vida para as pessoas que entendem que deve passar a vida lapidando o seu corpo e a sua alma em busca de um bem viver seja em sociedade, seja apenas no seio de sua família.

Referências:

CAMBI, Franco. História da Pedagogia. São Paulo: Editora da Unesp, 1999.

JAEGER, Werner. Paideia: a formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

MANACORDA, M. História da Educação: da Antiguidade aos nossos dias. São Paulo: Cortez, 1995.

MARROU, Henri-Irénée. História da educação na antiguidade. São Paulo.  EPU Edusp. 1973.

Nóvoa, Antonio. Apresentação da coleção de livros de Maria Stephanou e Maria Helena Câmara Bastos (orgs.). Histórias e Memórias da educação no Brasil. Petrópolis, Vozes. (2005)

 

Por: FÁBIO SOUZA LIMA


Publicado por: FÁBIO SOUZA LIMA

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