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O Papel da Educação na constituição do indivíduo

Educação

Interação entre os indivíduos, para tecer algumas reflexões acerca da necessidade da educação.

Introdução

Este ensaio tem como principal interesse analisar o processo educativo como meio de inserção do indivíduo na sociedade. Para isso, tomamos como base os estudos de Vigotski, que concebem o homem como o único animal que precisa de mediação entre ele e o mundo que o cerca, entendido aqui o ser humano, ainda segundo o autor, como um ser cultural que necessita que tal condição seja transmitida às gerações mais novas, não sendo características herdadas geneticamente, somente podendo ser desenvolvidas em contato com outros seres humanos.

Desse modo, buscamos, como exemplo de situações que envolvam dificuldade de inserção em sociedade, dois filmes de diferentes épocas e contextos sociais, nos quais encontramos crianças que por diferentes motivos não conseguiram integração em uma comunidade essencial na formação do indivíduo que é a família. A partir de então, torna-se um desafio a compreensão do mundo no qual estão inseridos, os diversos costumes sociais e a sua relação com o outro.

Assim, partiremos das concepções de Vigotski e da importância dada pelo autor ao processo de interação entre os indivíduos, para tecer algumas reflexões acerca da necessidade da educação, seja aquela sistemática ou não, como meio de buscar o desenvolvimento de tais indivíduos e garantir sua efetiva integração na sociedade.

Os filmes escolhidos

O Garoto Selvagem

Sinopse:

Um garoto é encontrado na selva, sem jamais ter vivido com seres humanos. Levado para ser examinado por um professor, ele aos poucos consegue ser reintegrado à sociedade. Dirigido e estrelado por François Truffaut (Fahrenheit 451).

Título Original: L'Enfant Sauvage - França/ 1969

E o seu nome é Jonas

Sinopse:

Criança nasce surda e é diagnosticada como deficiente mental, sendo internada em um hospital por três anos. Ao descobrirem sua surdez, inicia-se uma longa caminha em busca de uma educação.

Título original: And Your Name Is Jonah TV Film – USA/1979)

(fonte: http://www.adorocinema.com/filmes)

Esses filmes foram escolhidos por tratarem de crianças que sem nenhum tipo de limitação física ou biológica, não conseguem ser facilmente inseridas na sociedade, demonstrando que o fator cultural é um traço importante do ser humano e que não pode ser considerado como uma característica inata, pronta, que possa ser apreendida sozinha ou de forma isolada, ao invés de se priorizar o contato com outros seres humanos.

Dessa forma, nos exemplos dos dois filmes, tem-se no garoto selvagem (L'Enfant Sauvage), de Fraçois Truffaut, uma história, baseada em fatos reais, de um menino encontrado nos bosques de uma pequena cidade francesa, que vivendo longe do contato com outros seres humanos, apresentava somente uma condição biológica para a sua sobrevivência. O garoto selvagem comportava-se quase como um animal, no sentido de não conhecer os usos sociais, chegou mesmo a morder, matando um cachorro como mecanismo de defesa, demonstrando a necessidade de um embate constante com outros animais para sua sobrevivência. Nesse sentido, o menino, mais tarde chamado Victor, encontrava-se longe de uma integração ao convívio social, longe de conhecer e compreender a vida em sociedade, reforçando a tese da necessidade da interação com o outro para o seu desenvolvimento individual.

Já em seu nome é Jonas (And Your Name Is Jonah), tem-se a história de um menino que nasce surdo, mas é diagnosticado como deficiente mental. Após a descoberta do engano, tem-se uma tentativa de adaptação do menino ao convívio social, mas tal como o garoto selvagem, Jonas não entende os usos e costumes sociais, apenas reproduzindo-os, agindo em certas situações de modo não convencional, atraindo também preconceito e a desconfiança de outras pessoas, deixando os pais sem saber como lidar com ele.

O papel da educação

Quando pensamos na palavra educação, não fazemos neste momento uma menção específica à escola, ou ao processo de instrução formal propriamente dito. Pode-se, aliás, descobrir desde sua definição como “conhecimento e prática dos hábitos sociais”, a educação enquanto uma necessidade de compreensão e utilização de determinados comportamentos sociais, que são em seu início, geralmente transmitidos pela família, ou alguém mais velho próximo, às gerações mais novas. Compreende-se, então, que o processo educativo dos meninos jamais poderia envolver somente o sistema formal, sua escolarização, mas sim e acima de tudo uma educação capaz de permitir a tomada de conhecimento dos meninos da existência de uma vida social.

“No filme o garoto selvagem, Jean Itard torna-se responsável pelo menino Victor, que passa a morar em sua casa e tem a difícil tarefa de aprender os usos e costumes da sociedade, como a necessidade de utilizar roupas, talheres, etc. O asseio com o corpo, assim como a forma de se alimentar, tudo faz parte do processo de aprendizagem de Victor e correspondem as suas primeiras grandes lições.”

Na educação do garoto selvagem, destaca-se, ainda, a efetiva importância da governanta Madame Guérin, que consegue desenvolver uma relação de afetividade com o menino, criando um vínculo amoroso, muito necessário ao educador. O toque afetivo, demonstrado nos constantes abraços, e o carinho dedicado a Victor transmitem um sentimento de aceitação importante para a criação de qualquer criança. Perceptível, por exemplo, no momento em que o menino sai de casa e depois se arrepende, voltando sozinho para sua o lugar onde estava morando.

No caso de Jonas, a figura paterna não sabe como lidar com a situação de educar um menino diferente daquele que ele esperara. Chega a afirmar francamente preferir que o menino continuasse internado no hospital, mais tarde chega a se divorciar da esposa, por achar não ter condições de cuidar de uma criança surda. Ele não consegue desenvolver um laço afetivo com o menino, preferindo não saber de nada que o envolvesse, deixando toda a responsabilidade para a mãe.

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“Em uma das cenas, Jonas deve andar todo o tempo com o aparelho amplificador junto ao corpo, o que gera desconforto no pai do menino que acredita ser o menino muito diferente dos outros para conseguir viver em sociedade, chegando a afirmar que o menino deveria permanecer internado em um hospital.”

Assim, a educação dos meninos Victor e Jonas começa com a inserção desses meninos nos costumes sociais, explicando-lhes o motivo de cada passo dado, motivando-os a interagir com outras pessoas e a tentar formular hipóteses para os fatos de maior relevância para eles, significando o mundo a sua volta.

A questão lingüística, um comentário a parte

A questão lingüística também corresponde a um problema para ambos, pois os meninos não falam, ou seja, não se manifestam por meio de uma língua oral de forma articulada, o que dificulta a compreensão dos estímulos dados pelos educadores, seja o professor, no caso do menino selvagem, seja a mãe, no caso de Jonas.

No caso do “garoto selvagem”, a criança logo depois de afastada a hipótese de surdez, começa a tentar emitir alguns sons, incentivado por Jean Itard, que procura demonstrar ao menino a utilização da fala, como no exemplo com o leite, no qual o menino deveria “pedir leite”, para receber o alimento. Itard também chama a atenção de Victor para as palavras, enfatiza seu uso motiva o menino a falar. Tais conhecimentos são lentamente apreendidos, internalizados pelo menino, que ao final do filme ainda apresenta pouca articulação verbal, mostrando o grande desafio que pode ser aprender uma língua.

“No caso de Jonas, o contato com a língua de sinais, a partir do relacionamento com surdos adultos, facilita sua aprendizagem e, assim, o menino consegue finalmente um veículo de comunicação para garantir sua interação com o mundo ao seu redor.”

Durante muito tempo, a dificuldade de comunicação tem sido um problema para as pessoas surdas, pois pelo fato de não conseguirem articular a fala, ou linguagem verbal, não eram considerados capazes de pensar. A não aceitação da língua de sinais, como verdadeiramente uma língua, um veículo eficaz para a comunicação, capaz de expressar diferentes emoções, tal como qualquer outra língua, relegou muitos surdos ao isolamento, afastando-os do convívio com outras pessoas.

Dessa forma, a questão lingüística que envolve surdos filhos de pais ouvintes, no momento da aquisição da linguagem é sempre de grande complexidade, pois as crianças adquirem uma língua que não é a língua materna de seus pais. O contato com a língua de sinais se faz necessário a partir do momento do diagnóstico da surdez. Nesse contexto, muitas crianças crescem sem desenvolver um sistema lingüístico eficiente capaz de garantir um veículo de comunicação e interação desse sujeito com o mundo que o cerca. Assim, ainda é muito comum situações nas quais adultos surdos que chegam à escola e não conseguem se comunicar por não possuírem uma língua articulada, utilizando apenas um determinado número de gestos, partilhados por membros da família.

Em ambos os casos, portanto, os meninos não desenvolveram uma língua na época em que deveriam, o que comprometeu toda a formação posterior deles, demonstrando que mesmo sendo considerada como uma aptidão inata do sujeito, a aquisição da linguagem é mais um exemplo da necessidade do convívio social para o desenvolvimento da capacidade intelectual do indivíduo.

Conclusão

A utilização de filmes como base da análise nesse trabalho, que aborda o estudo, corresponde a uma tentativa de humanização das historias, dos fatos narrados aqui, seja em uma história distante como a do garoto selvagem, seja um caso específico como o de Jonas. Nesse sentido, tomamos como exemplos casos pouco comuns, para exercitarmos nossa capacidade de nos surpreendermos situações quase sempre inesperadas e refletirmos sobre como agiríamos condições adversas da vida, em lugares diferentes dos quais estamos habituados. Desse modo, aproveitamos a possibilidade que o cinema nos dá de vivenciarmos realidades distintas da nossa, para reinventarmos a nossa própria maneira de ser e de lidar com o outro.

Assim, hoje em dia, poderemos encontrar ainda alguns “meninos selvagens”, ou Jonas por aí, seja pelos inúmeros problemas sociais que enfrentamos em nosso país, seja pela dificuldade em aceitar uma condição diferenciada dos filhos. Muito provavelmente, tais casos acabem chegando à sala de aula, cabendo ao professor o fundamental papel de auxiliar esses alunos em um caminho de descobertas e desafios que são próprios da vida em sociedade.

Referências Bibliográficas

· NEWTON, Duarte. Vigotski e o “aprender a aprender”: crítica as apropriações neoliberais e pós-modernas da teoria vigotskiana. 2°ed. Campinas: Autores Associados, 2001.

SACKS, Oliver. Vendo vozes – Uma viagem ao mundo dos surdos. Tradução: Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
VYGOTSKY, L. S. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1996. 


Publicado por: Alessandra Gomes da Silva

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
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