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O menino pobre e a lógica do futebol

Educação

“Lógica do futebol e o menino pobre”. Pensemos no futebol, não apenas como um esporte mas também em sua dimensão econômica, humana e social.

Ainda vivendo a atmosfera da Copa do Mundo, momento oportuno para que pensemos no futebol, não apenas como um esporte, mas também em sua dimensão econômica, humana e social.

A imprensa em geral divulga e com uma certa frequência a renda e os bens materiais dos astros do futebol: apartamentos adquiridos em diversas partes do mundo, automóveis luxuosos, coleção de relógios, roupas compradas em grifes renomadas, sapatos e assim por diante.

O menino amante do futebol e que mora em um local de baixa / baixíssima renda e os respectivos familiares, tendem a internalizar que o melhor e talvez o único caminho para se progredir na vida e ser feliz, é sair da condição de pobreza para a de milionário. Por exemplo, e pela lógica do futebol, não bastaria ir morar em um bairro com saneamento básico e de bom padrão, onde as moradias tivessem um espaço razoável  para se viver com dignidade, área de lazer, ruas asfaltadas, alimentação saudável, uma renda mensal que também desse condições de acesso ao cinema, teatro, eventos esportivos, entre outros. Na lógica do futebol e por consequência a do menino pobre, não existe meio termo, não existe classe média. De pobre, miserável, o único caminho aceitável é o de tornar-se um novo milionário.   

Todavia, o que é muito pouco divulgado pelos meios de comunicação é que uma pequeníssima parcela daqueles meninos que almejam se tornar milionários por meio do futebol, de fato irão chegar a sê-lo. Além do imprescindível talento individual, as oportunidades são poucas e o “funil é bem estreito”.

Não tenciono aqui acabar com o sonho de quem quer que seja, em se tornar um grande craque do futebol e adquirir uma fabulosa conta bancária; cada um que faça as próprias escolhas pela vida afora. Desejo somente deixar esta realidade mais evidente, para uma melhor reflexão a respeito desta “lógica do futebol e o menino pobre”. Evidentemente, caberá ao menino e seus familiares a decisão de tentarem ou não concretizar o sonho milionário do futebol.  

Por outro lado, observamos igualmente que os países com os melhores “Índices de Desenvolvimento Humano” (IDH), que avalia o nível educacional, acesso à saúde e renda per capta, concentram seus esforços na formação de uma robusta classe média, característica dos países mais equilibrados em termos de distribuição de renda e com uma melhor harmonia social. É muito menor nestes países, esta apologia ao craque de futebol e o desejo de vir a ter, como ele, uma vida baseada na suntuosidade.

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Nestes países de elevado IDH, a pirâmide social é mais concentrada no meio e mais afilada tanto na base, onde concentram-se os mais pobres, quanto no topo, os mais ricos. Para as crianças e jovens destes países existe um leque de opções bem maior, que permite um crescimento educacional, econômico e social da grande maioria da população. Esta ênfase exacerbada em “tornar-se um milionário” por meio do futebol, como acontece aqui em nosso país, tem bem menos acolhida nas nações de elevado IDH, pelo fato do horizonte de progresso social ser bem mais amplo nestes países comparativamente ao Brasil. 

Portanto, ao invés deste culto aos “astros de futebol”, com seus respectivos carrões, mansões,...,onde pouquíssimos meninos pobres conseguirão na realidade atingir, seria bem mais razoável por parte dos meios de comunicação, dos governos e da sociedade, uma ênfase maior na valorização da educação, cultura, moradia e saúde de qualidade, ou seja, um caminho factível de promoção social para estes meninos de baixa renda, do que este estímulo constante presente em nossa sociedade de vir a ser um milionário via futebol, mas que raríssimos realmente conseguirão.  

Tenho ciência que existe um interesse econômico muito forte por trás desta “lógica do futebol e o menino pobre”, que com frequência, infelizmente, sobrepõe-se ao aspecto humano e ao razoável. De qualquer forma, espero que este artigo venha a ser útil de alguma maneira.

Fontes de Inspiração:

1)  Harsanyi, David. “O Estado babá”: como radicais, bons samaritanos, moralistas e outros burocratas cabeças-duras tentam infantilizar a sociedade. Litteris, 2011;

2) Key, Wilson Bryan. “A Era da Manipulação”. Página Aberta, 1993;

3) Medina, João Paulo Subirá. “A Educação Física Cuida do Corpo e “Mente”. Papirus, 1986;

4) Marinho, Vitor. “O esporte pode tudo”. Cortez, 2010;

5) Robbins, Mike. “Seja Autêntico”. Best Seller, 2011.

6) Sandel, Michael J. “O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado”. Civilização Brasileira, 2012;

7) Santarém, Robson. “Precisa-se (de) ser humano”. Valores humanos: educação e gestão. Vozes, 2016;

Forte abraço – José Roberto Calçada Carvalho


Publicado por: José Roberto Calçada Carvalho

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
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