Whatsapp

O MELANCOLISMO AMOROSO EM “FANATISMO”, DE FLORBELA ESPANCA: DAS CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO E DOS EFEITOS DE SENTIDO

Educação

Análise sobre o sentimento amoroso, assim como as condições de produção e efeitos de sentidos presentes no poema Fanatismo, da poetisa Florbela Espanca.

RESUMO

O presente artigo buscou analisar o sentimento amoroso, assim como as condições de produção e efeitos de sentidos presentes no poema Fanatismo, da poetisa Florbela Espanca. Recorremos à Análise do Discurso tendo como autores de referencia Orlandi e Pêcheux para essa finalidade, os resultados obtidos na pesquisa revelam que além do sentimentalismo próprio da poetisa, fator sócio-histórico foi fator importante na construção do poema. Foi possível perceber que o exagero sentimental dos versos do poema é característico de outros poetas que serviram de inspiração para Florbela, para tanto se fez necessário recorrer a história para analise do jogo imaginário e formas de construção da autora e como se construiu o melancolismo presente no arquivo por meio da Memória Discursiva.

PALAVRAS-CHAVES: Florbela Espanca. Melancolia. Amor.

ABSTRACT

The present article sought to analyze the affectionate feeling, as well as the production conditions and effects of senses present in the poem Fanaticism, of the poetess Florbela Espanca, we used the Discourse Analysis with Orlandi and Pêcheux as reference authors for this purpose, the results obtained in the research reveal that in addition to the poet's own sentimentality, socio-historical factor was an important factor in the construction of the poem. It was possible to perceive that the sentimental exaggeration of the verses of the poem is characteristic of other poets that served as inspiration for Florbela, for it became necessary to resort to history to analyze the imaginary play and forms of construction of the author and how the melancholy present in the by means of the Discursive Memory.

KEY WORDS: Florbela Espanca.  Melancholy. Love

CONSIDERAÇOES INICIAS

A analise do discurso tem como marco inicial a publicação do filósofo marxista Michel Pêcheux, “Analise Automática do Discurso” em 1969, suas principais preocupações estiveram relacionadas às questões políticas, às lutas de classe e a diversos movimentos sociais, chamando assim atenção para a linguagem humana, o objeto de estudo deixa de ser o texto, a escrita ou a própria fala e passa a ter foco nas condições do processo de produção, o sujeito agora passa a ter mais atenção ao invés de unicamente os textos.

Com o passa do tempo, foi possível perceber a dualidade construtiva da língua, apresentando um lado formal e outro marcado pela subjetividade histórica e social, ou seja, o estudo da língua e suas condições de produção, estudada em seu meio social.

Orlandi (2005), ao tratar sobre o objetivo da AD, menciona que na Análise do Discurso toma a linguagem como mediadora indispensável entre o homem e o meio social e natural em que vive, assim, a AD não toma a língua como um sistema abstrato, mas a língua como método de interação.

A analise do discurso trata a língua como essencial e necessária entre o homem e a realidade natural e social, essa mediação, que é o próprio discurso é que torna possível a transformação do homem e da realidade em que ele está inserido. Portanto a AD estabelece uma relação entre a linguagem e sua exterioridade.

Em sua relação com a linguitica, a Analise do Discurso sugere analisar e nos textos e no discurso as questões socio-históricos não unicamente como algo exterior ao discurso, mas entendendo o socio-histórico como fator construtivo do discurso. Além disso, na AD não é possível pautá-se em modelos de analises já acabados, isto é, modelos prontos de análises, pois o discurso é muito complexo e não seria possível limitar a sua complexidade.

O interesse de analisar este poema de Florbela Espanca está diretamente relacionado com a afinidade e identificação que tive com o soneto desde o primeiro contado com o mesmo, e o que mais me chamou atenção foi a melancolia presente em cada verso, o que revela uma alma repleta de sentimentos, onde o amor é visto de forma tão intensa que sua buscar torna-se primordial à sua existência, necessidade vital.

Visto que o poema em discusão aproxima-se de sua autobiografia, onde o eu lírico evidencia uma mulher desnorteada, triste e amargurada, a analise do arquivo seguirá a linha de pensamentos francesa com Orlandi (2005).

Entendendo por melancolismo como a condição de quem enxerga o mundo sobre prisma de uma tristeza vaga e indefinida suscitou em mim demonstrar este sentimento na obra de Florbela Espanca, mas especificamente neste poema que foi escrito em 1923.

Tendo em vista que à Análise do Discurso confere as diferentes formas de interpretação dos discursos, o estudo deste soneto de Florbela tem objetivo de analisar os fatos históricos, sentimentos presentes e a memória discursiva associadas ao poema.

A principio, a análise evidencia a condição de produção e percorre todo o contexto de sua elaboração e expõe todos os sentimentos presentes, assim como o fato histórico-social na produção do arquivo em análise. Buscou-se também notabiliza a circulação e crítica atribuída ao poema e o que faz com que ele seja tão veiculado até os dias de hoje sabendo que ele tornou-se um dos poemas mais conhecido em todo o Brasil, pois foi musicado pelo compositor cearense Raimundo Fagner e veio a se tornar uma das mais conhecidas músicas de nosso cancioneiro popular.

Seguidamente evidenciaremos as emoções apresentadas no arquivo por meio do uso de algumas figuras de linguagens utilizadas em sua construção, a interpretação deixará claro o verdadeiro sentido empregado em cada palavra do poema assim como a submissão do eu lírico diante de um amor inalcançável.

Sabendo que a memória, o contexto sócio-histórico e o ideológico são de fundamental importância na produção do discurso. Partindo-se da ideia de que a materialidade específica da ideologia é o discurso e a materialidade específica do discurso é a língua, iremos analisar a relação língua-discurso-ideologia. Segundo Orlandi (2013, p. 20) a Análise de Discurso trás em suas concepções três regiões do conhecimento-Psicanálise, Linguística e Marxismo, no entanto, ela interroga a Linguística pela historicidade que deixa de lado, questiona o materialismo perguntando pelo simbólico e se demarca da Psicanálise pelo modo como, considerando a historicidade, trabalha a ideologia como materialmente relacionada ao inconsciente sem ser absorvida por ele.

Na análise de discurso a historicidade não pode ser entendida como uma simples cronologia, evolução, ou relação de causa e efeito "Trata-se antes de pensar relações de filiação, de memória (estruturada pelo esquecimento), de discursividade" (ORLANDI, 2009, p. 87). Ainda sobre isso Orlandi afirma:

“Quando falamos em historicidade, não pensamos a história refletida no texto, mas tratamos da historicidade do texto em sua materialidade. O que chamamos historicidade é o acontecimento do texto como discurso, o trabalho dos sentidos nele. Sem dúvida, há uma ligação entre a história externa e a historicidade do texto (trama de sentidos nele), mas essa ligação não é direta, nem automática, nem funciona como uma relação de causa e efeito.” (ORLANDI, 2013, p. 68).

FLORBELA: VIDA E OBRA

Florbela Espanca nasceu em 1894 em Portugal, ela ficou famosa pela qualidade de suas poesias e também pela postura que assumiu em um cenário totalmente machista aonde as mulheres não tinham ainda visibilidade no campo da literatura e em outros setores da sociedade da época.

Florbela ficou conhecida como uma das primeiras feminista em Portugal, ela nasceu mais precisamente em Vila de Viçosa, Alentejo. Filha de Antônia da Conceição Lobo e João Maria. Sua mãe veio a falecer quando Florbela ainda era pequena e então ela passou a ser criada pela sua madrasta.

Escreveu seu primeiro poema aos nove anos, intitulado “A vida e a morte” (1923), estudante do curso de letras. Quando adulta, ela tornou-se jornalista na revista Modas & Bordados e no jornal de Évora.

Em 1913 casa-se com Alberto Moutinho, que era um colega de escola. Nesse mesmo período ela conheceu outros poetas e veio a participar de um grupo de mulheres escritoras. Em 1917. Florbela foi a primeira mulher a ingressar no curso de Direito da Universidade de Lisboa.

Foi em 1919 que lançou “Livro de Mágoas” e nessa época começou a apresentar sérios problemas de neurose e desequilíbrio emocional. Florbela sofreu um aborto espontâneo e permaneceu doente durante muito tempo.

No ano de 1921, divorciou-se de Alberto Moutinho e casou-se com António Guimarães, que era oficial da artilharia, e 1923 publica “Livro de Sóror Saudade” e é neste livro que contem o Poema Fanatismo. Por mais incrível que pareça, nesse mesmo ano, sofre mais um aborto e separa-se de seu marido. É 1925 que casa-se com o médico Mário Laje, na cidade de Matosinhos.

Mais um acontecimento que marca a vida de Florbela Espanca é a morte de seu irmão Apeles Espanca em 1927, que morre em um acidente aéreo, foi por este motivo que ela tentou suicídio pela primeira vez, por este acontecimento também é que tem inspiração para escrever o poema “As Máscaras do Destino”.

A poetisa suicidou-se com o uso de barbitúricos, no dia 8 de dezembro de 1930. Este dia seria o seu aniversário e também um tempo muito próximo da publicação de sua obra de grande sucesso, “Charneca em Flor”, porém, só publicada em janeiro de 1931. Serviu de inspiração para esta obra a sua vida brevidade de sua vida, no entanto cheia de perturbações e acontecimentos marcantes onde ela lidou com a rejeição de seu pai, que mesmo tendo a criado só veio a reconhecê-la como filha, dezenove anos após a sua morte. Isso aconteceu na inauguração de seu busto em Évora, após a grande insistência de admiradores de seu trabalho, que se denominavam florbelianos.

Florbela Espanca é lembrada por suas belas poesias que quase todas foram escritas em forma de sonetos. O tema que a poeta sempre trabalhava esta relacionado ao Amor, sendo que este sentimento presente em sua obra deve ser observado por três ângulos: narcisista, saudosista e erótico.

O que sempre mais chamou a atenção da autora foram o Amor e os sentimentos derivados dele, como a solidão, tristeza, saudade e sedução e morte. “Sua obra também compreende poemas de caráter patriótico, como o caso do poema ‘No meu Alentejo” que faz referencia à sua terra natal. Grande parte da obra de Florbela Espanca foram publicadas após sua morte. Ainda em vida a poetisa teve somente duas obras que foram publicadas, que foram Livro de Mágoas (1919) e Livro de Sóror Saudade (1923) Já na prosa ela se expressa por meio de contos que escreve em um diário e em varias cartas.

António José Saraiva e Óscar Lopes (1958) retratam Florbela Espanca como uma sonetista de “laivos anterianos” e semelhante a Antônio Nobre. Afirmam que ela foi

“[...] uma das mais notáveis personalidades líricas isoladas, pela intensidade de um emotivo erotismo feminino, sem precedentes entre os portugueses e com tonalidades ora egoístas ora de uma sublimada abnegação que ainda lembra Sóror Mariana, ora de uma expansão de amor intenso e instável [...]”.

Florbela era dona de uma personalidade forte, e possuía um lirismo muito sensível, e todas as influências culturais de sua época foram de fundamental importância para que ela se destacasse no cenário literário português, pois a presença de mulheres nesse campo era remota, o que fez com que Florbela ganhasse grande notoriedade.

Em sua obra, Florbela nunca manifestou grande preocupação humanista ou mesmo sociais. Pertencente a uma sociedade repleta de burgueses, não demonstra nenhum interesse por questões sociais nem pela política. No entanto esse individualismo não é capaz de fazer com que essa poesia perca a sua beleza.

Diferentemente dos movimentos literários da época, a obra de Florbela Espanca é própria e possui uma característica muita pessoa da autora ignorando a tudo o que se encontrava ao seu redor valorizando em sua poesia, a solidão, a tristeza, a morte, o desencanto, o abandono e a saudade.

CONDIÇOES DE PRODUÇÃO

Sendo o poema de Florbela Espanca, uma evidencia de seus sentimentos que foram colocados em cada verso, não poderíamos deixar de lado ou mencionar a importância que tem as condições de produção do Soneto.

Posto isso, segundo Orlandi (2001, p. 30), “as condições de produção incluem o sujeito e a situação” Levando em conta as condições de produção do discurso em seu nível micro (imediato), dispomos de um poema que foi escrito em 1923 de autoria de Florbela Espanca, este publicado no seu livro de poesias “Sóror Saudade”, também de 1923.

As várias modificações e invenções que ocorreram no final do século XIX e início do século XX mudaram significativamente a maneira de enxergar o mundo, o surgimento do automóvel, o cinema e as maquinas que podiam voar foram o marco inicial para a era da velocidade e pela busca do poder pelas potencias mundiais.

As modificações econômicas e políticas que ocorreram na Europa foram reflexos da primeira guerra mundial que partiu da crise liberal e portuguesa. Aconteceu também a proclamação da Republica Portuguesa em 1910, o que transformou a sociedade da época. Em meio a essas transformações surge em Portugal o movimento modernista português, com Fernando Pessoa, Raul Leal, Almada negreiro e Mário de Sá Carneiro que tinham ideais que se baseavam nas vanguardas artísticas européias e fundaram a revista Orpheu que era o órgão vinculador de suas ideias de renovação.

Em toda a obra de Florbela Espanca, sobrelevam a temática universal passando por sentimentos bem variados, como o Amor, sentimento que a deixa dependente de seu amado a ponto de humilha-se a ele e torna-se fã, o que se revela no título do poema, assim como o desejo de evasão, o tempo e a saudade. Florbela trás em sua obra um retrato de sua própria história.

Embora Florbela Espanca não tenha se ligada a nenhuma escola literária a sua obra aproxima-se mais do neo-romantismo e tinha alguma influencia de poetas de fim-de-século e pelo fato de sua poesia ter caráter confessional e sentimental a poeta segue uma linha semelhante à de António Nobre e o seu método de escrita em sonetos é por influencia de Camões e Antero de Quental.

A vida de Florbela sempre foi repleta de acontecimentos controversos e seu comportamento não era corriqueiramente visto nem aceito para uma mulher daquela época, pois se divorciou por duas vezes, o que era inaceitável divorciou-se duas vezes, o que era inaceitável segundo os padrões sociais do século XX). O poema Fanatismo advém de um período de intensa busca de emancipação da mulher no campo literário e Florbela revela uma grande frustração, e descontentamento com a situação feminina diante da sociedade com suas tradições e padrões.

EFEITOS DE SENTIDO

Este poema de Florbela Espanca apresenta uma linguagem de Fácil compreensão. Já nos primeiros versos podemos perceber a força com que as palavras são empregadas demonstrando a própria vivencia do sentimento empregado ou mesmo que se tem total conhecimento do tema, como podemos observar...

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;)

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa...”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! Pode voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!.” ·.

(Poema extraído de Livro de Soror Saudade da poetisa portuguesa Florbela Espanca).

O titulo do poema Fanatismo nos remete a ideia de intensidade do sentimento, uma dedicação excessiva que à paixão, que beira a obsessão. O eu lírico do poema reforça essa ideia no momento em que afirma que sua “alma está perdida”, que seus olhos andam cegos de te ver, e que anda enlouquecida, eis que este já se tornou toda a sua vida.

O homem amado é elevado de sua condição terrena ganhando faculdades que não são do campo humano; torna-se assim, algo que vai além do motivo da existência do eu lírico, pois ela não apenas vive para o amado, mais do que isso, se funde a ele anulando-se de modo a viver no amado em uma atitude de completo desespero e loucura. Diante dessa situação, nos deparamos com a figura de uma mulher fraca, ou seja, que não consegue se autodenominar diante do amor, tornando-se escrava e dependente da figura masculina.

Na segunda estrofe, o ser amado é comparado a um livro, no qual ainda que se leia sempre à mesma história, a cada releitura há sempre algo novo a ser descoberto, ou seja, ainda que se esteja há tanto tempo com a mesma pessoa, há sempre algo novo a descobrir: “Passo no mundo, Meu Amor, a ler / no misterioso livro do seu ser/ a mesma história tantas vezes lida”.

Por outro lado, pode-se denotar, também, a satisfação e o contentamento com esse amor, uma vez que já passou por tantos outros amores, “a mesma história tantas vezes lida!”, mas somente agora o amor se torna diferente e especial, visto que as descobertas no amado condizem com as suas expectativas.

Na terceira estrofe há a intenção de demonstrar a fugacidade da busca pelo amor e a brevidade do tempo: “Tudo no mundo é frágil, tudo passa...” o uso das reticências deixa subtendido que o amor passa. No entanto, o eu lírico ri e contradiz tal afirmação numa atitude de confiança no amor e na pessoa amada.

A expressão “toda a graça de uma boca divina fala em mim”, nos mostra que a mulher representada compara a autenticidade do que pronunciará a algo divino. Desta forma, assim como o que é dito por Deus não se pode contestar, o que ela pensa do amor e do ser amado, também, não deve ser contradito.

A revelação segue-se na última estrofe quando o sentimento obsessivo revelado nos primeiros versos do poema é levado às últimas conseqüências confirmando seu título, “Fanatismo”, através da atitude da persona poética “olhos postos em ti, digo de rastros:" Ah! Podem voar mundos morrer astros, / Que tu és como Deus: Princípio e Fim”. Assim, apresentando um comportamento de contemplação, devoção e submissão, o eu lírico feminino rasteja-se aos pés do homem que a fascinou numa confissão desesperada bem ao estilo do romantismo, explicitando que nada que acontecer no mundo a afetará, devido ao fato de ela ter consagrado a sua vida ao homem amado, ao “Deus a quem tudo pertence e controla”. Há, então, no poema, a exaltação do celeste em detrimento do terreno, o homem amado é igualado a Deusa quem ela deve amor e subserviência.

O Amor não correspondido por alguém, que Florbela trás a tona nos transmite emoção tão profunda que para algumas pessoas é difícil entender, pois as experiências e a maturidade não os permitem enxergar isso.

A melancolia presente no poema reforça a ideia de que os poetas se inspiram na própria vida ou mesmo ignoram suas vidas, este soneto trás as duas vertentes, a renuncia da própria vida, entrega à dor e sofrimento diante de um amor impossível as saudades que sente de um amor acabado.

Zina Bellodi Silva (1987, p. 248), afirma que: O amor, em Florbela Espanca, passa por gradações diversas quanto ao modo de realização que vão desde a exploração do amor fraterno até a possibilidade de entrega total e incondicional a ele, passando pela caracterização da capacidade de doação desinteressada, de ser o amante aquele ser de recepção, por exemplo. Em oposição à possibilidade de entrega total e absoluta Florbela coloca a incapacidade para o amor, a impossibilidade de amar.

MEMÓRIA DISCURSIVA E CIRCULAÇÃO

Para compreendermos este processo inicialmente é necessário trazermos o conceito de memória discursiva que corresponde à reincidência de enunciados, analisando aspectos que o modificam ou o atualizam dentro de um contexto histórico especifico ou mesmo o rejeitando no que concerne ao contexto discursivo, pois esse fato pode provocar efeitos intrínsecos, o que facilita a compreensão na relação que existe entra sujeito, discurso e ideologia. A memória refere-se então ao interdiscurso, definido por Orlandi (op. cit., p.31) “como aquilo que fala antes, em outro lugar, independentemente.”

Outros teóricos também conceituaram Memória Discursiva, PÊCHEUX (1999:52), por exemplo, afirma que:

“A memória discursiva seria aquilo que, em face de um texto que surge como acontecimento a ser lido, vem restabelecer os ‘implícitos' (quer dizer, mais tecnicamente, os pré-construídos, elementos citados e relatados, discursos-transversos, etc.) de que sua leitura necessita: a condição do legível em relação ao próprio legível”. (PÊCHEUX, 1999, p. 52)

Por tanto, é por meio do interdiscurso, ou memória discursiva, que as palavras fazem sentido, pois seus significados são originários de outros dizeres que se encontram armazenados em nossa memória e que vem à tona com outras palavras a cada vez que ouvimos determinado enunciado produzido. Diante disso analisaremos este dispositivo na analise do poema Fanatismo. Todo discurso nos remete a um outro discurso, que é definido pela sua exterioridade e isso se evidencia no poema em analise com grande clareza.

Florbela Espanca coloca no poema Fanatismo uma profunda tristeza, que também está intimamente ligada com sua vida e inspira-lhe na produção do soneto e toda essa tristeza pode-se afirma que é influencia de Antero de Quental e Baudelaire.

Neste poema, a autora expõe sentimentos e emoções que partem de sua subjetividade e imaginação artística o que instiga o leitor à interpretação por não trazer em seus versos algo comum para aquela época principalmente em se tratando de uma mulher e a forma como o poema é escrito em primeira pessoa permite ao leitor fazer um comparativo com sua vida ou emoções próprias.

Ao assumi-se extremamente apaixonada e perdida por seu amor, Florbela provoca a inversão de valores, visto que esta atitude é própria do homem e ao se colocar em situação de tamanha dor e melancolismo ela atribui ao homem o motivo de sua frustração e males e esta situação onde o objeto é causador da dor do eu lírico já eram evidenciados em poesia de outras épocas, o que é fator de observação da memória discursiva por retratar sentimentos de maneira igual em épocas tão diferentes.

Podemos citar o caso do poeta Parnasiano Olavo Bilac, que coloca sua amada como motivo causador de sua “desorientação” moral e ele não resistindo a ela e torna-se submisso aos seus desejos. Como no Trecho do poema “Um beijo” ...

“Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto/ beijo divino! E anseio delirante/
Na perpétua saudade de um minuto” ... Observa-se neste trecho uma dedicação excessiva à amada que fica evidente quando o poeta diz que sua musa tem um beijo divino, recorrendo aos celestes para expressar o seu sentimento e comparando-a a um ser que ultrapassa a condição terrena, fato que acontece em Fanatismo quando o eu lírico afirma: “Que tu és como um Deus, princípio e fim”. Essa similitude entre os dizeres do eu lírica leva o leitor a interpretação do sentimento em ambas os poemas, para isso será necessário também recorrer a memória discursiva e aflorar também os próprios sentimentos, sobre isso Orlandi 1996 afirma:

“A interpretação está presente em toda e qualquer manifestação da linguagem. Não há sentido sem interpretação. Mais interessante ainda é pensar os diferentes gestos de interpretação, uma vez que linguagens, ou as diferentes formas de linguagem, com suas diferentes materialidades, significam de modos distintos” (ORLANDI, 1996, p.9).

O sentimento excessivo pelo seu objeto é exemplificado também por alguns poetas contemporâneos em suas obras, como é o caso de Vinicius de Morais que se coloca como escravizado pela sua amada e totalmente dependente de seu amor valorizando de tal forma o seu objeto de desejo que a coloca como um ser superior e que se repete em Fanatismo, onde o eu lírico assume seu amado como razão da sua vida.

Trazemos ainda, trechos de uma obra do grande poeta português Antero de Quental, que traz na temática de seus versos o amor como algo inatingível daí se tem a eterna busca da completude espiritual e por consequência, amorosa, o que faz com que ele use de toda a sua força na busca por este sentimento. Por esta razão e modo de encarar o amor é que Antero de Quental transporta para sua obra todo este sentimentalismo e que dá voz ao eu lírico tratando o amor de forma vaga e também imprecisa, buscando uma fuga da realidade. Fato que se concretiza em poemas como “Aparição”:

E tu, meu anjo, ao ver-me, entre gemidos 
E aflitos ais, estenderás os braços 
Tentando segurar-te aos meus vestidos... 

— «Ouve! espera!» — Mas eu, sem te escutar, 
Fugirei, como um sonho, aos teus abraços 
E como fumo sumir-me-ei no ar!

 (Trecho do poema Aparição, de Antero de Quental, in Sonetos, 1861, Edição de 1886)

Mais uma vez é representado a impossibilidade do amor, que se deve ao fato de todos os outros amores não terem dado certo, que foram muitos e que sempre resultaram em decepções; “Tentando segurar-te aos meus vestidos” como pode ser constatado também no poema Fanatismo, quando o eu lírico afirma: Passo no mundo, meu Amor, a ler/ No misterioso livro do teu ser/ A mesma história tantas vezes lida/

Com o surgimento do Renascença e desenvolvimento do Humanismo surge o Classicismo que faz com que o homem agora esteja em contentamento com a natureza humana e esteja em estado de realização pela existência e revendo sua alma, paixão e sentimentos. Neste contexto temos o pensamento platônico a respeito do amor que tem como base uma deia de arte que beira os clássicos gregos e latinos.

Poetas deste período tinham no amor um sentimento ideal de realização e perfeição, como é o caso de Luiz Vaz de Camões que representa o amor de forma racional e platônica e que amava a mulher não pelo que ela era, mas sim, mas sim pelo fato de refletir o ideal do amor, que torna-se difícil de ser conceituado, como ele mesmo exemplificou: “Amor é um não querer mais que bem querer;/ É dor que desatina sem doer...”[3]

Todo esse melancolismo evidenciado em Fanatismo nos recorda outros escritos brasileiros em “A hora Estrela" de Clarice Lispector na qual é possível constatar que a hora da estrela significa a hora da morte.

O poema Fanatismo foi musicado por Fagner e foi gravado no disco Traduzir-se do ano de 1981. O cantor e compositor Fagner é referencia na arte de musicar poemas e todos eles se tornam verdadeiros sucessos na voz do cantor. Ele já musicou poemas de autores como Ferreira Gullar, Patativa do Assaré e Cecília Meireles.

Em Fanatismo, ao final da musica, Fagner colocou trechos de uma musica do cantor Roberto foi trecho da musica “Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo”, música que Roberto Carlos fez para o pai. Sobre o fato de ter incluído a musica no disco o artista afirmou:

“[...] é um disco que marcou demais. Até hoje o pessoal do mundo do disco fala dele [...] foi disco de ouro, lançado no mundo inteiro. [...] Este disco tinha uma idéia fechada, onde coube o 'Fanatismo' porque, na época, eu tinha que ter uma música em português. A gravadora não entendeu e eu sabia que 'Años' iria tocar (música em espanhol que teve a participação de Mercedes Sousa), como aconteceu. Me pediram para gravar uma música só comigo cantando em português. Foi onde conheci o trabalho da Florbela Espanca, o Fausto me deu um livro lá em Portugal na volta desta viagem da Espanha. Fiz estas músicas, cheguei aqui e gravei. Deu para acoplar ainda no disco. Mas também foi uma música feita com a influência das coisas da região, veio no clima, não se afastou muito da idéia deste disco''. (*)

CONSIDERAÇOES FINAIS

Por meio das reflexões motivadas pela analise do poema Fanatismo na óptica da Analise do Discurso é possível afirmar que neste poema a autora rompeu drasticamente com alguns padrões sociais de sua época e por este fato ela veio a sofre serias críticas ao demonstrar nos versos de seu poema ser uma mulher inteiramente apaixonada deixando de lado às regras, a submissão à imagem masculina e tornando-se devota de um sentimento que a consome.

Evidenciamos ainda que o melancolismo em Fanatismo está claramente relacionado com a vida da poetisa que tem uma maneira peculiar de na busca pelo amor demonstrando também a necessidade de ser amada e por causa da não preocupação com a realidade e que o eu lírico apresenta seus próprios sentimentos afirmando a ideia de que o eu poético não pode ser dissociada da vida do poeta

Considera-se ainda que a melancolia em Fanatismo ocorre pela frustração de um sentimento que ao adentrar a vida do ser humano é capaz de acarretar doenças físicas e psicologias e na literatura portuguesa outros autores demonstravam e demonstram em seus poemas sentimentos iguais ao de Florbela, o que foi constatado pela analise na memória discursiva.

REFERÊNCIA

(1996). “Florbela: um caso feminino e poético”, in Florbela Espanca, Poemas. São Paulo: Ática, pp. IX-XLIV.

ANTERO DE QUENTAL In Sonetos, 1861, Edição de 1886

Camões, Apud MOISÉS, in: A Literatura Portuguesa, Através dos Textos, 1985, P72

ESPANCA, Florbela (2012). Afinado Desconcerto. Organização de Maria Lúcia Dal Farra. São Paulo: Iluminuras

O discurso: estrutura ou acontecimento. 4. ed. Campinas, SP: Pontes Editores, 2006

PÊCHEUX, M. Análise automática do discurso. Por uma análise automática do discurso. 3. ed., Campinas, SP: Ed. da Unicamp, 1997.

SIGNUM: Estud. Ling., Londrina, n. 20/1, p. 35-55, abr. 2017

Trechos de entrevista publicada em: Http://www.nordesteweb.com/not01_0304/ne_not_20040305d.htm


[1] João Pedro de Sousa Oliveira - Graduando do curso de Letras da Universidade Estadual do Maranhão - UEMA. 

[2]  Safira Ravenne da Cunha Rêgo - Professora de Língua Portuguesa vinculada à SEDUC/MA. Mestra em Letras pela UFPI.

[3] Camões, Apud MOISÉS, in: A Literatura Portuguesa, Através dos Textos, 1985, P72


Publicado por: João Pedro de Sousa Oliveira

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Meu Artigo. O Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
  • Facebook Brasil Escola
  • Instagram Brasil Escola
  • Twitter Brasil Escola
  • Youtube Brasil Escola
  • RSS Brasil Escola