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Cuidar do Meio Ambiente

Educação

Quais são os cuidados que devemos ter com o meio ambiente?

A dimensão do cuidado 

O que é “cuidado”? Leonardo Boff nos dá a seguinte definição:

Cuidado significa, então, desvelo, solicitude, diligência, zelo, atenção, bom trato... estamos diante de uma atitude fundamental, de um modo de ser mediante o qual a pessoa sai de si e centra-se no outro com desvelo e solicitude.

No modo-de-ser-cuidado a natureza não é vista como objeto de exploração e dominação. Há relação de com-vivência. Ela deixa de ser “sujeito-objeto” para tornar-se um “sujeito-sujeito”. Os seres são vivenciados e entendidos como sujeitos e sua presença junto de nós é uma presença existencial. Eles têm vida, valores, são símbolos de uma Realidade maior e desconhecida que os criou. A natureza tem voz e emite mensagens de beleza, encantamento e grandeza. Ser humano e natureza tem uma relação de comunhão, tornando-se interdependentes e entrelaçados.

Cuidar das coisas implica ter intimidade, senti-las dentro, acolhê-las, respeitá-las, dar-lhes sossego e repouso. Cuidar é entrar em sintonia com, auscultar-lhes o ritmo e afinar-se com ele. A razão analítico-instrumental abre caminho para a razão cordial, o ‘sprit de finesse’, o espírito de delicadeza, o sentimento profundo. A centralidade não é mais ocupada pelo logos, razão, mas pelopathos, sentimento.

Quando assumimos a dimensão do cuidado em nossas vidas, vivemos verdadeiramente a experiência do valor que não nos permite agir utilitariamente ou egoisticamente. Abrimo-nos à alteridade. Conforme Ricardo Timm de Souza alteridade é “a absoluta intocabilidade ética da condição de ‘outro’ do Outro, daquele que não se reduz ao Mesmo, que não se deixa totalizar de forma alguma” (DE SOUZA, Ricardo Timm, 1996).

Esta alteridade na relação Homem-natureza só pode acontecer de forma satisfatória quando o ser humano se despir de sua ação totalizante, centralizadora e exploradora. Uma relação de respeito, holística e de responsabilidade mútua, torna-se a re-ligadora de uma comunhão criacional à muito tempo perdida.

O modo-de-ser

Um dos grandes desafios para o modo-de-ser-cuidado é o modo-de-ser-trabalho. São duas dimensões complementares, porém na história da humanidade foram entendidas e vivenciadas de maneira oposta. O trabalho foi entendido apenas como forma de acumular capital, conseguir sucesso, obter fama. Perdeu-se a relação doação-serviço, como algo prazeroso e verdadeiramente dignificante. As pessoas escravizaram-se em quatro paredes, em grandes centros urbanos, com a intenção do lucro e do conforto. É um trabalho escravo do dinheiro, racional, produtivo, triste. Parece que a vida acontece somente nos finais de semana, quando por algumas horas mágicas “vive-se”.

A ideologia latente no modo-de-ser-trabalho-dominação é a conquista do outro, do mundo da natureza, na forma do submetimento puro e simples. Esse modo de ser mata a ternura, liquida o cuidado e fere a essência humana.

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O ser humano precisa descobrir o seu modo-de-ser-cuidado. E este brota do pathos, do sentimento, da compreensão, da empatia, simpatia, do cuidado. O logos é secundário no modo-de-ser-cuidado. Por isso não é concebível redimensionar nossa relação com a natureza de forma racional, mas sim de modo sentimental. A razão não soube relacionar-se com a criação de modo construtivo. Criou mecanismos e sistemas que nos conduziram à beira de uma autodestruição.

Uma relação fraternal e filial com a natureza

O sentimento, esse modo feminino de ser, torna a natureza nossa Mãe e Irmã. São Francisco de Assis, o irmão universal, vivenciou de forma cuidadosa essa relação filial e fraternal.

Sentia o laço de fraternidade e de sororidade que nos une a todos os seres. Ternamente chama a todos de irmãos e de irmãs: o Sol, a Lua, as formigas e o lobo de Gubbio. As coisas têm coração. Ele sentia seu pulsar e nutria veneração e respeito por cada ser, por menor que fosse. Nas hortas, também as ervas daninhas tinham o seu lugar, pois do seu jeito elas louvam o Criador.

Se colocarmos o cuidado como central em nossas vidas e permitimos o sentimento acontecer, podemos alterar a condição do “modo-de-ser-trabalho-produção-dominação” em que estamos submergidos. Esta posição não significa um abandono total ao trabalho ou à razão, mas uma forma de integrar-se equilibradamente e harmonicamente com todo o universo. É renunciar ao poder, à dominação, à racionalidade instrumental e autodestrutiva. É comungar com a natureza, com o mais sofrido, com a comunidade universal. É permitir o acontecer de um holismo integrador e vivenciador.

Então ético seria também potencializar a solidariedade generacional no sentido de respeitar o futuro daqueles que ainda não nasceram. E, por fim, ético seria reconhecer o caráter de autonomia relativa dos seres; eles também têm direito de continuar a existir e a co-existir conosco e com outros seres, já que existiram antes de nós e por milhões de anos sem nós. Numa palavra, eles têm direito ao presente e ao futuro.

Boff acredita numa ética da responsabilidade como forma solidária de exercer o cuidado com os demais seres.

BOFF, Leonardo.  Saber cuidar. Ética do humano: compaixão pela terra.  Petrópolis: Vozes, 2000, p. 91.


Publicado por: Amarildo Ferrari

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
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