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As representações sociais sobre a prática psicopedagógica por estudantes de pós-graduação em psicopedagogia

Educação

Confira uma análise das ideias e compreensões sobre a prática psicopedagógica dos estudantes em formação e concluintes do curso de pós-graduação em Psicopedagogia.

RESUMO

Este trabalho tem o objetivo de analisar, a partir das representações sociais, as ideias e compreensões sobre a prática psicopedagógica dos estudantes em formação e concluintes do curso de pós-graduação em Psicopedagogia de uma instituição privada. A teoria das representações sociais trata da produção dos saberes sociais, centra-se na análise da construção, comportamento e transformação do conhecimento social e tenta investigar como a ação e o pensamento são construídos pelas relações do homem com o seu ambiente. Os 5 participantes do estudo compuseram dois grupos: 3 alunos em formação do curso pós-graduação em Psicopedagogia e 2 alunos concluintes do referido curso. Os estudos foram semiestruturados através de entrevistas com intuito de investigar as ideias de senso comum a respeito da prática psicopedagógica dos referidos alunos. Este artigo apresenta como instrumento teórico pesquisas da Teoria das Representações Sociais elaboradas por Serge Moscovici e Jodelet. Partindo-se do pressuposto do ato de pensar a prática e a formação psicopedagógica através de estudos mais amplos, ideológicos ou culturais, a um estado dos conhecimentos científicos, bem como à condição social e à esfera da experiência privada e efetiva do indivíduo em estudo.

Palavras-chave: representações sociais; psicopedagogia; educação.

ABSTRACT

This work aims to analyze the social representations, ideas and insights into the pedagogical practice of students in training and graduating the postgraduate course in Educational Psychology from a private institution. The theory of social representations deals with the production of social knowledge, focuses on the analysis of the construction, behavior and transformation of social knowledge and tries to investigate the action and thought are built by man's relationship with his environment. The five study participants comprised two groups: 3 students in training postgraduate course in Educational Psychology and two graduating students of this course. The studies were semi-structured by interviewing order to investigate the common sense ideas about the pedagogical practice of those students. This paper presents the theoretical research instrument of the Social Representation Theory developed by Serge Moscovici and Jodelet. Starting from the assumption act of thinking about practice and pedagogical training through further studies, ideological or cultural, to a state of scientific knowledge and the social condition and the sphere of private and actual experience of the individual study.

Keywords: social representations; educational psychology; education.

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A Psicopedagogia é a área de conhecimento, atuação e pesquisa que lida com o processo de aprendizagem humana, visando o apoio aos indivíduos e aos grupos envolvidos neste processo, na perspectiva da diversidade e da inclusão (ABPp, 2014). A Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp) como órgão representativo dos psicopedagogos, entende que o curso de Psicopedagogia deve formar profissionais para garantir a aprendizagem como direito de todos.

É necessário, em tempo, desfazer o equívoco de que a psicopedagogia é a fusão da pedagogia com a psicologia, ou vice-versa, é um método que contribui, juntamente com a psicanálise, pedagogia e a psicologia, para participar na solução de problemas que surge no contexto educativo, vindo estes, do ambiente familiar, escolar, do meio social, econômico, cultural ou de outras origens.

A psicopedagogia além de dominar a patologia e a etiologia dos problemas de aprendizagem, aprofundou conhecimentos que lhe possibilitam uma contribuição efetiva não só relacionada aos problemas de aprendizagem, mas, também, na melhoria da qualidade do ensino oferecido nas escolas. (SCOZ, 2004).

A psicopedagogia nasceu da necessidade de uma melhor compreensão do processo de aprendizagem e se tornou uma área de estudo específica que busca conhecimento em outros campos e cria seu próprio objeto de estudo (Bossa, 2007). Ocupa-se do processo de aprendizagem humana: seus padrões de desenvolvimento e a influência do meio nesse processo.

Considerando essas ideias, dentre outras, esta pesquisa aborda a temática da formação de psicopedagogos e sua identidade nos processos de formação e na atuação do profissional.

O psicopedagogo é o profissional habilitado para atuar com os processos de aprendizagem junto aos indivíduos, aos grupos, às instituições e às comunidades. O psicopedagogo é o profissional que deve assegurar: a produção e divulgação do conhecimento científico e tecnológico relacionado com a aprendizagem humana, os compromissos éticos e políticos com a Educação de qualidade para todos, a articulação com os demais profissionais da Educação e da Saúde para a construção de uma sociedade justa, respeitando a equidade e a diversidade, onde todos tenham o direito ao aprender.

A formação em Psicopedagogia deve propiciar o desenvolvimento de habilidades e competências compatíveis com as demandas sociais, contemporâneas e/ou potenciais. A atuação profissional requer uma formação específica que garanta ao psicopedagogo a aquisição qualificada de conhecimentos específicos da área, permitindo a construção de habilidades e competências. A psicopedagogia estuda o processo de aprendizagem e suas dificuldades, e a numa ação profissional deve que englobar vários campos do conhecimento, integrando-os e sintetizando-os (Scoz, aput. Bossa. 2004).

Através de vivências, o ser humano constrói seus conceitos e vai adquirindo experiências novas. Para o desenvolvimento escolar e profissional os aprendizados são construídos da mesma maneira, é a partir das experiências que o ser humano demonstra-se um ser pensante e crítico, capaz de tomar decisões, e também diferenciar o que é benéfico ou não para sua formação pessoal.

É pertinente que a Psicopedagogia tenha como linha diretriz, ao lidar com o processo de aprendizagem, o desenvolvimento harmonioso do aprendiz e da consciência do significado de sua ação no contexto onde age. A busca da consciência do que realiza na situação de aprendizagem e o significado, do que e porque o faz, pode constituir um possível caminho para salvaguardar que o aprendiz não se perca em um fazer automático e sem sentido.

A sociedade atual exige, necessariamente, uma educação comprometida com mudanças e transformações sociais. Na essência dessa sociedade, encontra-se uma educação que por ser social e historicamente construída pelo homem, requer em seu desenvolvimento uma linguagem múltipla, capaz de abarcar toda uma diversidade e, compreendendo dessa forma, os desafios que fazem parte da formação profissional do psicopedagogo.

Esta formação constitui um processo que implica em uma reflexão permanente sobre a natureza, os objetivos e as lógicas que presidem a sua concepção de educador enquanto sujeito que transforma e ao mesmo tempo é transformado pelas próprias contingências da profissão. A educação tem, historicamente, o desafio de responder às demandas que os contextos lhes colocam.

A atividade teórica por si só não leva à transformação da realidade; não se objetiva e não se materializa. Por outro lado, a prática também não fala por si mesma, ou seja, teoria e prática são indissociáveis. Neste sentido, complementa este pensamento, elegendo uma categoria fundamental para a efetiva realização da práxis ou de uma nova práxis.

Segundo Freire (1996), a reflexão crítica sobre a prática se torna uma exigência da relação teoria-prática, sem a qual, a teoria pode tornar-se “blábláblá” e a prática “ativismo”. Afirma ainda, que a teoria não dita a prática; em vez disso, ela serve para manter a prática ao nosso alcance de forma a mediar e compreender de maneira crítica o tipo de práxis necessária em um ambiente específico, em um momento particular.

Diante do exposto, podemos concluir que o desenvolvimento de uma consciência crítica sobre a relação necessária entre teoria e prática, seria o diferencial que conduziria dialeticamente tal relação rumo de novas práxis. E neste sentido podemos dizer que o exercício da ação docente requer preparo. Preparo que não se esgota nos cursos de formação, mas, para o qual há uma contribuição específica enquanto formação teórica para a práxis transformadora.

Portanto, analisando a formação, é necessária perspectiva da construção de novos conhecimentos, que não se limitam ao momento da formação inicial, mas principalmente, estende-se por todo percurso profissional do professor, podemos assim dizer, que formador, formando e conhecimento se faz mediante uma relação dialética, sendo esta, uma característica necessária à realização da práxis. Segundo Fiorentini, Sousa Jr. e Melo (2003) [...] o problema do distanciamento e estranhamento entre os saberes científicos, praticados/produzidos pela academia, e aqueles praticados/produzidos pelo professor na prática docente, parece residir no modo como os professores e os acadêmicos mantêm relação com esses saberes.

Entre os desafios com que os estudantes em Psicopedagogia são confrontados em sua prática psicopedagógica, exige com que se compreenda os processos simbólicos que ocorrem na interação educativa, e esta não ocorre num vazio social.

Em outras palavras, para que a pesquisa educacional possa ter maior impacto sobre a prática educativa, ela precisa adotar “um olhar psicossocial”, de um lado, preenchendo o sujeito social com um mundo interior, e, de outro, restituindo o sujeito individual ao mundo social.

Dessa forma, destaca-se a necessidade de pensar a prática e a teoria de estudantes em Psicopedagogia a partir da sondagem das representações sociais em sua formação acadêmica, uma vez que a concepção enfatiza a importância para a compreensão dos fenômenos educacionais, não apenas numa perspectiva macroscópica, mas também para análises mais detalhadas de aspectos do cotidiano, dos saberes das instituições educacionais, relações pedagógicas, entre outros. Atualmente a teoria vem se difundindo nos meios acadêmicos brasileiros solidificando-se em diferentes domínios como história, antropologia, saúde e educação.

O crescente número de pesquisas fundamentadas na Teoria das Representações Sociais pode ser, portanto, decorrente de dois fatores, que não podem ser vistos de forma isolada; primeiro, o desenvolvimento e solidificação da teoria como aporte teórico-metodológico e, em segundo lugar, decorre da crise de paradigmas científicos que colocou em discussão a tradição científica cartesiana como método infalível de compreensão da realidade até então predominante na pesquisa nesse campo.

Entende-se Representação Social como uma teoria ou ciência coletiva destinada à interpretação e intervenção no real, indo além do que é imediatamente dado na ciência ou na psicologia, da classificação de fatos e eventos. Através do senso comum que se elaboram coletivamente nas interações sociais, sujeito-sujeito e sujeito-instituição, num determinado tempo, em uma cultura e espaço próximo, na tentativa de tornar o estranho familiar e dar conta do real.

No processo de interação social, o sujeito elabora o conhecimento, vai se socializando, reconstruindo valores e ideias que circulam na sociedade. Segundo Moscovici (1969), toda representação é de alguém tanto quanto de alguma coisa. É uma forma de conhecimento por meio da qual aquele que conhece se substitui no que é conhecido.

A teoria das representações sociais, por valorizar o conhecimento empírico e a interação entre o indivíduo e o social, sobre a produção dos saberes social. Saber, aqui se refere a qualquer saber, mas especificamente aos saberes cotidianos, e que pertencem ao mundo social.

As representações são prescritivas, isto é, elas se impõem sobre nós com uma força irresistível. Essa força é uma combinação de uma estrutura que está presente antes mesmo que nós comecemos a pensar e de uma tradição que decreta o que deve ser pensado. Tem papel fundamental na dinâmica das relações e nas práticas sociais, tornar familiar o não-familiar.

Portanto, o estudo procura revelar o que vem sendo pesquisado na área da educação usando as representações sociais como aporte teórico, o peso dessa pesquisa no conjunto geral das diferentes regiões, além de identificar as temáticas pesquisadas e abordagens metodológicas mais frequentes. Destaca-se, ainda, nesse conjunto de estudos, as pesquisas voltadas para a formação de professores.

A partir desta concepção, esta investigação envia ao entendimento flexibilizado dos sujeitos, de modo aprofundado sob a teoria das representações sociais, por entender ser esta área de conhecimento a mais apropriada à compreensão de docência.

Essa valorização representa um avanço e contribui para o enriquecimento e aprofundamento das ciências psicossociais, pois as representações sociais são fenômenos complexos sempre ativados e em ação na vida social, envolvendo elementos (informativos, cognitivos, ideológicos, crenças, valores, atitudes, imagens) que são organizados sob a aparência de um saber que diz algo sobre o estado da realidade.

 O conceito de representação social é definido como [...] uma forma específica de conhecimento, o saber do senso comum, cujos conteúdos manifestam a operação de processos generativos e funcionais socialmente marcados. De uma maneira mais ampla, ele designa uma forma de pensamento social (Jodelet, 1993).

As representações sociais são modalidades de pensamento prático orientadas para a compreensão e o domínio do ambiente social, material e ideal. Enquanto tal, elas apresentam características específicas no plano da organização dos conteúdos, das operações mentais e da lógica.

Dessa forma, faz-se necessário comprovar, mais uma vez, a necessidade de se optar pelas representações sociais como eixo norteador da investigação, por dar conta de descrever, analisar e explicar o objeto de estudo dessa pesquisa nas suas diversas dimensões, formas e funcionamento.

Método

Participaram deste estudo 5 estudantes, que compuseram dois grupos: 3 estudantes em formação do curso pós-graduação em Psicopedagogia e 2 estudantes concluintes do referido curso. São alunas de uma instituição privada do Recife, elas possuem formação acadêmica em pedagogia e atuam na docência, como professoras do ensino fundamental de 1º ao 5º ano em instituições públicas e privadas.

A pesquisa nasce como consequência do interesse de conhecer e pesquisar sobre a formação profissional em Psicopedagogia, sua identidade e atuação profissional com o objetivo de refletir sobre a formação do Curso de Psicopedagogia e sua atual perspectiva. A metodologia utilizada garantiu o enriquecimento dos resultados. O levantamento qualitativo foi realizado em março de 2015, por meio de entrevista semiestruturada e abordou dois tópicos.

Selecionamos os participantes dessa pesquisa com base nos seguintes critérios: a diferenciação de suas experiências, formação acadêmica e práticas sociais, e um segundo elemento, poderia propiciar configurações interessantes à representação dos estudantes sobre o curso de pós-graduação em psicopedagogia. Incluiu-se nessa amostra estudantes iniciantes e concluintes do curso de psicopedagogia em instituição privada, sendo todas graduadas no curso de licenciatura em pedagogia e atuantes na docência.

O trabalho de campo constituiu-se de dois momentos. No primeiro momento, foi traçado perfil dos participantes, atuação e formação profissional. No segundo momento, formam realizadas entrevistas semiestruturadas. Essa modalidade de entrevista, tal como uma conversa, segue seu próprio curso, embora o entrevistador tenha em mente os tópicos que deseja abordar e os objetivos que pretende atingir. Os dados aqui apresentados referem-se aqueles obtidos através das entrevistas.

Procedimento de análise

Foi utilizada a análise usando, principalmente, as proposições de Tardif (2002). Realizou-se uma leitura inicial das entrevistas, analisando o conjunto das informações obtidas, de forma a compreender a visão de mundo do entrevistado, sem encapsular dados em categorias prévias.

A partir da leitura minuciosa de cada entrevista, identificam-se os princípios temáticos dos entrevistados, buscando-se localizar as concepções da parte empírica desse estudo, procurando refletir sobre os saberes dos estudantes que têm origem na sua trajetória pessoal e formação inicial. Logo após, o interesse centrou-se nos saberes oriundos da formação profissional.

A interpretação das respostas dos participantes, tendo em vista o referencial teórico escolhido, exigiu um olhar analítico que captasse as respostas a partir da condição e lugar em que o discurso do formando estava sendo produzido. Por isso, foi incluído questões que procuravam explicitar a significação do tempo na construção dos saberes, as dificuldades encontradas na teoria/prática, a percepção dos estudantes de psicopedagogia sobre como deve ser ou é a intervenção e atuação do psicopedagogo.

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Nessa perspectiva, as análises das entrevistas emergiram os seguintes aspectos de respostas: a) saberes pessoais da formação profissional e b) saberes provenientes da formação acadêmica.

Resultados e discussão

1. Saberes pessoais da formação profissional

Quando falamos sobre saberes pessoais, construídos durante a formação acadêmica, foram apresentadas diferentes justificativas para a escolha do curso de pós-graduação em psicopedagogia, onde reflete na escolha da futura profissão e na sua forma de ser.

Por uma questão de identificação, porque ele é muito abrangente, então nele a gente vai aprender como intermediar as dificuldades de aprendizagem, essas coisas. Então, quando a gente observa a grade do curso, a gente vê, realmente, que vai abranger muita coisa, por essa questão de abrangência eu me identifiquei, né (suj. 1 - Paula).

Pelo momento de muitas mães também que tem a criança com aquela patologia e não quer que revele e que mostre isso, difícil de aceitar; a aceitação dos pais. Estou em uma escola, por conta disso, para mostrar a elas, não para mostrar que sou psicóloga ou psiquiatra, mas o caminho para indicar a elas onde guiar os seus filhos, para o desenvolvimento deles ser melhor dentro da escola. (suj. 2 - Maria)

Diante da dificuldade apresentada em sala de aula, via necessidade em estudar, de buscar conhecimento para lidar com os problemas que existem em sala de aula (suj. 4 - Katia).

O papel da psicopedagogia é identificar problemas no processo de aprendizagem do estudante, tanto quanto, trabalhar para a superação das dificuldades apresentadas. Utilizando instrumentos, técnicas e metodologias específicas e articulando conhecimentos nas diferentes áreas, o psicopedagogo intervém mediando no processo de aprendizagem. Portanto, esta área de conhecimento multidisciplinar, interessa-se em compreender o movimento de construção cognitiva no processo de aprendizagem das crianças, adolescentes e de adultos (Santos, 2010).       

Foi possível identificar três argumentos que indicam a influência da experiência na profissão, vivenciadas durante a docência na sua área de atuação. Para exemplificar a identificação da construção de valores da história e trajetória acadêmica das participantes, faz-se importante analisar os depoimentos através de sua construção ao longo da sua vida acadêmica. Entende-se, que a formação deve contemplar os diferentes tipos de saberes, a valorização dos saberes experienciais e a competência profissional, que surge como algo vital para o fazer docente (Carvalho; Brito, 2007).

As entrevistadas constroem assim, diversos repertórios sobre a atuação do psicopedagogo. No âmbito das representações sociais, sobre a área de atuação e intervenção do psicopedagogo, recorrem a um saber prático, reafirmando um saber de senso comum, demonstrando incertezas aos saberes científicos e teóricos. As mesmas afirmam:

Atua (pausa) em escolas, hospitais, empresas, também em instituições, como a AACD, onde o trabalho dele é muito importante, já fiz um trabalho lá e nosso trabalho é muito importante. (suj. 1 - Paula)

Nosso curso é institucional, né. Mas tem a clínica (pausa), tem em empresas. O leque do trabalho é amplo. (Suj. 2 - Maria)

Na questão educacional, na questão daqueles problemas de aprendizagem, que as vezes vem tantos conflitos, tantos equívocos, que a gente não consegue trabalhar, resolver, né. Tanto com a família, como em questões em sala de aula. Muito importante a gente procurar se informar e buscar conhecimentos pra lidar com essas situações, porque a cada dia torna-se mais difícil (suj. 5 - Marcia).

Os saberes requeridos, identificam-se com uma ação baseada na racionalidade técnica e na experiência das mesmas, influenciada pela lógica da atuação do psicopedagogo no mercado.

Com certeza, muito importante, porque vai facilitar a vida do pedagogo. O psicopedagogo vai ajudar, vai facilitar e enriquecer, vai vir com outra estrutura, com outra base, para ele ter um caminho norte de se guiar com essas crianças, que essa geração de crianças, tá tendo muitos problemas (suj. 2 - Maria).

Tem uma importância muito grande, tem um olhar diferenciado, né. Já tenho um conhecimento bem amplo que permite ele de atuar de uma forma diferenciada e de forma específica com cada aluno/com cada caso. (suj. 4 - Katia)

Tais informações, reforçam que os saberes construídos na formação profissional e os saberes da experiência decorrem, em grande parte, da dificuldade de ancorar a funcionalidade do psicopedagogo para o âmbito escolar, num domínio em que faltam respostas e dá ênfase as incertezas, indo em comparação com outras categorias familiares, como a pedagogia e a psicologia.

2. Saberes provenientes da formação acadêmica

As entrevistadas ressaltam a vida acadêmica como fonte de conhecimento e aprimoramento de uma identidade pessoal e da influência de seu saber como professor.

Estou gostando, porque está fundamentando, está contribuindo para formação do nosso trabalho como, não só como educador, mas agora como psicopedagoga, dando continuidade. E está ampliando meus conhecimentos. Os professores estão seguros, como estou no começo, não posso assim, nem como avaliar, futuramente posso até responder mais, mas de início está indo bem (suj. 1 - Paula).

O curso já está contribuindo, porque eu já estou trabalhando com as crianças, com os aspectos que a professora já passou, a gente já está detectando a criança que escreve muito forte, "o porquê"; se escreve muito fraco, que fura a folha, que não consegue ter noção do espaço de escrever numa folha, escreve direto com o caderno aberto. Tem criança que escreve e vai simbora e eu já estou detectando e colocando em prática em sala de aula, trabalhando como os dois (suj. 3 - Edilene).

Contribuiu bastante, tinha certas dificuldades que eu tinha, eu consegui agora conciliar e consigo ajudar meus alunos, como os pais deles. Existem problemas que eu já resolvia e não sabia que estava fazendo a coisa certa e resolvendo correto (risos), não tinha aquele conhecimento, quando você está estudando, você diz: "Eita, eu fazia isso, aquilo ali" e não sabia, não tinha aquele conhecimento concreto, mas agora eu tenho certeza que estou no caminho certo (suj. 4 - Katia).

É a fase crítica, mascarada pelos erros, pelas tentativas de acertar e a necessidade de pôr em prática seus argumentos adquiridos durante a formação profissional, com o tempo e com a prática os estudantes aprendem a lidar com as certas situações, já vivenciadas durante a prática profissional. A atividade teórica por si só não leva à transformação da realidade; não se objetiva e não se materializa, não sendo, pois, práxis. Por outro lado, a prática também não fala por si mesma, ou seja, teoria e prática são indissociáveis como práxis (Pimenta, 2005).

Isso nos remete a importância de considerar, tais afirmativas, como fonte de reflexão para a capacitação docente das estudantes durante a sua formação acadêmica, visto que, os saberes teóricos e práticos da profissão em detrimento com os saberes construídos pelas experiências vivenciadas no cotidiano são mais importantes para as mesmas. 

Nesses casos, tudo se passa como se houvesse uma dissociação entre os domínios da teoria e da prática. Às estudantes caberia, como certezas, as representações cotidianas e a prática escolar com os alunos. O conhecimento acadêmico pouco se tornou relevante para as respostas das entrevistadas.

Há casos, porém, onde uma das participantes, demonstra sentimentos de insatisfação com a formação vivenciada e na construção de seus saberes para prática docente.

Há certas matérias que deixa a desejar. Deveria ter acrescentado mais (pausa) na matéria de educação especial e outra que falava sobre psico, neuro. O curso está na metade e de repente acaba, naquela área de neuropsicologia. Querendo buscar mais e não consegue porque terminou o curso (suj. 3 - Edilene).

Certamente, a formação é um processo e, como tal, se constrói em momentos peculiares para cada sujeito. Em seus relatos, as estudantes destacam o espaço profissional como um elemento importante para a construção dos saberes.

Caracterizando a ação como prática social, é interessante observar a dimensão atribuída pelas estudantes, as relações interpessoais para sua formação e especialmente aquelas vivenciadas na sua experiência profissional.

Ao serem questionadas sobre os saberes provenientes da formação, tentam manter o contato da teoria com a prática, vivenciadas em sala de aula, desde o início do curso, de acordo com os depoimentos das entrevistadas, a prática e a teoria potencializadas no decorrer do curso.

Afirma Tardif (2002) que os saberes profissionais são personalizados e situados. São saberes personalizados no sentido de serem apropriados, incorporados, subjetivados, de levar em consideração o contexto social-cultural-político-econômico no qual o docente está inserido. E são situados porque são saberes construídos em detrimento de uma dada situação onde ganham sentido.

A formação continuada deverá ter como paradigma uma prática inovadora em contínuo desenvolvimento, exigindo do profissional uma atualização constante não somente em eventos e cursos, mas nas reflexões permanentes e autônomas sobre a sua prática.

Em questionamento da formação continuada, cursos e palestras as participantes relatam importância, mas que a escassez de tempo impede a realização de novos conhecimentos na área.

Não, até pela questão de tempo, a gente que trabalha na escola praticamente o dia todo e aos sábados aqui, então assim, não tenho tempo por enquanto. É muito importante, muito importante, porque capacita melhor o profissional e dá mais ferramentas para trabalhar (suj. 1 - Paula).

No momento não participo, tem um menino lá, que faz faculdade, e ele está fazendo curso que está dentro da psicologia e me convidou pra ir. É importante porque vai agregar mais. Vamos se qualificar mais pra poder atuar (suj. 2 - Maria).

Neste sentido, a formação continuada apresenta-se como sendo uma condição imprescindível para o desenvolvimento das competências, habilidades e saberes adquiridos durante a formação inicial, mas também representa um espaço de construção e reconstrução de novos conhecimentos e práticas pedagógicas.

Talvez as práticas, realizadas durante a formação, sejam intuitivas, mas, demonstram elementos que estão presentes na formação dos seus saberes profissionais, além da prática e experiência, prevalece, também, os conhecimentos adquiridos no espaço acadêmico.

Considerações finais

A partir das representações sociais apreendidas entre pós-graduandos do Curso de Psicopedagogia de uma instituição privada, percebe-se a presença de categorias que demonstram dúvidas e incertezas quanto a atuação do profissional.

A formação do psicopedagogo, tanto a inicial quanto a contínua, precisa ser consistente, crítica e reflexiva, capaz de fornecer os aportes teóricos e práticos para o desenvolvimento das capacidades intelectuais do formando, direcionando-o ao seu fazer psicopedagógico.

O educando ao ter domínio dos conhecimentos teóricos relativos às concepções de aprendizagem, fica clara sua decisão de escolher as melhores formas de trabalhar. Sendo esta formação orientada pelos princípios da abordagem sócio-histórica, evidencia-se a superação das dificuldades e aponta-se para novas possibilidades.

De maneira geral, à atuação destes futuros psicopedagogos, entende-se que grande parte quer atuar na área profissional, aprimorando a atuação já existente. A identidade profissional constrói-se pelo significado que cada professor, enquanto ator e autor, confere à atividade docente no seu cotidiano, com base em seus valores, em seu modo de situar-se no mundo, em sua história de vida, em suas representações, em seus saberes, em suas angústias e anseios, no sentido que tem em sua vida o ser professor (Pimenta; Anastasiou, 2002).

No âmbito das representações sociais, duas ordens de preocupação estão subjacentes ao desenvolvimento deste artigo. A primeira, de natureza eminentemente teórica, foi a de demonstrar que a teoria das representações sociais oferece um instrumental teórico-metodológico de grande utilidade para o estudo da atuação do imaginário social sobre o pensamento e as condutas de pessoas e grupos.

A segunda preocupação, foi estimular a reflexão dos participantes sobre as possibilidades oferecidas por esse campo de estudo, levando os mesmos a pensamentos reflexivos sobre a área profissional em formação.

Além de trazer à tona os conteúdos envolvidos nas representações sociais dos estudantes de pós-graduação em psicopedagogia, nossa pesquisa evidenciou o caráter instável das mesmas.

Portanto, procurou-se através deste artigo retratar o Curso de Psicopedagogia, com base na Teoria das Representações Sociais, para que, por meio destas representações, todos os envolvidos com essa problemática procurem estratégias que proporcionem um entendimento simultâneo e positivo nas Representações sociais dos pós-graduandos e de toda a sociedade, pois compreendendo, que tais representações sociais podem ser modificadas e aprimoradas por cada indivíduo.

Num cenário de incertezas e mutabilidades constantes, temos um estudante, que nesse sentido, exerce um papel imprescindível e insubstituível para a construção dos saberes provenientes à formação acadêmica e a formação profissional que são pertinentes à construção dos conhecimentos. Sendo assim, esse profissional necessita ter uma participação ativa frente às práticas psicopedagógica e curriculares que ocorrem no decorrer do curso.

Os processos formativos emergem como responsáveis por proporcionar aos futuros psicopedagogos essa base para seu exercício profissional, embora tenhamos consciência de que essa formação inicial não será suficiente para a preparação do mesmo, pois este deverá aprimorá-la na sua vivência profissional, nas suas experiências como psicopedagogo e como transformador da realidade onde atua.

Referências

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Denise Vieira de Vasconcelos
Francisco Barbosa de Oliveira


Publicado por: Denise Vieira

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
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