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Analise do elemento “Morte” no poema “Morte e vida severina” de João Cabral de Melo Neto

Educação

Análise sobre o elemento “Morte” no poema modernista “Morte e vida Severina”, o auto de Natal de João Cabral de Melo Neto.

Resumo

Este artigo tem como objetivo analisar o elemento “Morte” no poema modernista “Morte e vida Severina”, o auto de Natal de João Cabral de Melo Neto. O que se pretende é, discorrer sobre esse elemento em específico dentro de toda a obra, de forma que a compreensão dela ocorra do micro para o macro. Ou seja, ao buscar adentrar no tema morte inserido na obra do autor, procura-se compreender a significação desse elemento na construção desta, já que tal elemento é citado em grande parte desta construção poética. A análise foi realizada a partir da relação estabelecida entre a obra escrita pelo autor e a adaptação da mesma para animação, de forma que os recursos audiovisuais colaborasse com a interpretação do texto.

Palavras-chave: Modernista, Morte, Poema.

Introdução

Ao buscarmos materiais que nos permite compreender em sua totalidade uma obra modernista, vemos que pouco encontramos sobre os elementos individuais que dão corpo á obra. A proposta dessa análise sobre o poema “Morte e vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, foi elaborada tendo em vista que as obras literárias são abordadas nas escolas apenas de forma superficial, deixando de analisar todos os elementos que caracterizam a obra e a estrutura estética do autor. A princípio, foi realizada uma breve introdução a vida do autor João Cabral de Melo Neto, para , em seguida, discorrer sobre sobre a obra e seu objeto de análise. Para realizar a análise, foi realizada a leitura da obra de duas formas: a obra escrita e a adaptação audiovisual dela. Essas leituras proporcionaram uma visão mais crítica e ampla do poema em questão. No decorrer do artigo, foram inseridos alguns trechos da obra que abordam o tema morte, seguidos de uma interpretação deste trecho.

Desenvolvimento

O autor

João Cabral de Melo Neto, poeta da 3° fase modernista, nasceu no dia 9 de janeiro de 1920 em Recife, Pernambuco. Passou a infância nas cidade de São lourenço da Mata e Moreno e estudou no Colégio Marista, também em Recife. Em 1941, o autor participou do Primeiro Congresso de Poesia do Recife, e em 1942 publicou sua primeira coletânea de poemas com o livro Pedra do Sono, mesmo ano em que se mudou para o Rio de Janeiro e prestou concurso para o funcionalismo público. Nos anos que se seguiram, trabalhou no Departamento de Arregimentação e Seleção de Pessoal do Rio de Janeiro. Em 1945 publicou seu segundo livro “O Engenheiro” e em 1947, o autor ingressou na carreira diplomática passando a viver em várias cidades do mundo. Em 1955, publicou "Morte e vida severina e outros poemas em voz alta". Foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras, tomando posse em 1969. Ele casou-se primeiro com Stella Maria Barbosa de Oliveira, com quem teve cinco filhos e em 1992, casou-se com a poetisa Marly de Oliveira, falecendo aos 79 anos, no dia 9 de outubro de 1999, ao sofrer um ataque cardíaco.

A obra

O poema “Morte e vida Severina” de João Cabral de Melo foi publicado em 1955. A obra é um auto de Natal constituída de versos curtos dividido em 18 quadros, que apresentam rima e sonoridade e trata do tema “seca” de forma clara, objetiva e linguagem regionalista. No poema, o autor baseou sua criação na seca do nordeste, utilizando os recursos: fome, morte, busca constante por trabalho e sobrevivência. Em seu desenvolvimento, acompanhamos a história de um retirante, que em sua caminhada em busca de melhores condições de vida ao tentar ir viver no litoral pernambucano, encontra diversos personagens e situações no percurso. Chegando a cogitar a hipótese de se atirar da ponte em um rio, para acabar com sua vida severina. Mas no fim de sua jornada, ao desejar “saltar da ponte da vida”, ele se depara com um novo elemento “o nascimento”, que pode não ser a resposta que ele procurava sobre o fim da vida, mas reafirma um recomeço da vida diante da morte.

Análise

Para realizar a análise do elemento escolhido, busquei relacionar a obra escrita com a adaptação audiovisual adaptada para os quadrinhos pelo cartunista Miguel Falcão, preservando o texto original da obra de João Cabral de Melo Neto. O recurso digital me permitiu maior visibilidade sobre a temática da obra, pois ilustra de forma bem rica o cenário da história e todos os momentos de reflexão que ocorrem durante a jornada de Severino. Ao ler a obra, é possível identificar claramente todos os elementos na animação, que é feita em preto e branco, mas os tons vão clareando ou escurecendo conforme ocorre a mudança de elementos da narrativa. É importante dizer que, nesses momentos, ocorre alguma situação em que o Severino se depara com a morte, o que ocorre muitas vezes durante seu trajeto. No início da obra, o personagem faz uma apresentação de si mesmo muito peculiar ao comparar-se com outros Severinos, como mostra no trecho a seguir:

"E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina: que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte,de fome um pouco por dia(de fraqueza e de doença é que a morte severina ataca em qualquer idade, e até gente não nascida)." (p. 02 Livro virtual)

O trecho acima, encontramos logo no início do poema, em “O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI”. Nessa primeira parte, Severino se apresenta e faz em seu diálogo com o leitor uma espécie “descaracterização” do “Eu”, pois ele fala que se chama Severino, como muitos outros severinos, filhos de muitas mães chamadas “Maria”. Neste momento, ele fala que todos os Severinos nascem, crescem e levam a mesma vida “severina”, morrendo antes do 10, 20 ou 30 anos. No que refere-se especificamente ao elemento morte, o autor expõe logo no inicio da caminhada de Severo, o contato com a morte, em "Ó IRMÃOS DAS ALMAS! IRMÃOS DAS ALMAS! NÃO FUI EU QUEM MATEI NÃO!" situação muito comum no nordeste, de acordo com o personagem, como mostra o trecho a seguir:

"A quem estais carregando, irmãos das almas, embrulhado nessa rede? dizei que eu saiba. A um defunto de nada, irmão das almas, que há muitas horas viaja à sua morada. E sabeis quem era ele, irmãos das almas, sabeis como ele se chama ou se chamava? Severino Lavrador, irmão das almas, Severino Lavrador, mas já não lavra. — E de onde que o estais trazendo, irmãos das almas, onde foi que começou vossa jornada? — Onde a Caatinga é mais seca, irmão das almas, onde uma terra que não dá nem planta brava. — E foi morrida essa morte, irmãos das almas, essa foi morte morrida ou foi matada? — Até que não foi morrida, irmão das almas, esta foi morte matada, numa emboscada. — E o que guardava a emboscada, irmão das almas e com que foi que o mataram, com faca ou bala? — Este foi morto de bala, irmão das almas, mas garantido é de bala, mais longe vara. — E quem foi que o emboscou, irmãos das almas, quem contra ele soltou essa ave-bala? — Ali é difícil dizer, irmão das almas, sempre há uma bala voando desocupada." (p. 3 e 4 Livro virtual)

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Neste trecho, Severino encontra dois homens carregando um terceiro, que está morto, em uma rede. Ocorre então um diálogo, entre os dois homens que carregavam a rede e Severino. Neste diálogo, podemos ver que há o elemento morte tratado com naturalidade pelos personagens, visto que a morte é coisa muito comum para eles, que estão diante dela o tempo todo. Notamos também que um dos fatores que leva a morte (no ambiente em que ocorre a história), além da fome, é as brigas que ocorrem por terras que ainda dão o que comer ao povo. Podemos ver, que o homem que está sendo carregado havia morrido em uma emboscada, pois plantava palha no único hectare que tinha, o que demonstra um motivo fútil ao leitor, mas relevante para os personagens. Estabelecendo uma relação com a animação, ocorre nesse momento do diálogo vários tons de preto, tornando o desenho mais escuro e em dado momento Severino conversa com os dois outros homens sentado na rede, como se a narrativa dos homens estivesse sendo feita sobre a vida dele. Vendo por esse ponto, nota-se que Severino dialoga constantemente com a morte e vai mostrando-se cada vez mais cansado diante da vida que ele leva. O segundo trecho que retrata a presença constante da morte, é o que ocorre quando Severino escuta uma novena ao longe, descobrindo ao chegar que se trata de uma “cantoria de excelência ao defunto”:

"— Finado Severino, quando passares em Jordão e o demônios te atalharem perguntando o que é que levas... — Dize que levas cera, capuz e cordão mais a Virgem da Conceição . — Finado Severino, etc... — Dize que levas somente coisas de não: fome, sede, privação. — Finado Severino, etc… — Dize que coisas de não, ocas, leves: como o caixão, que ainda deves. — Uma excelência dizendo que a hora é hora. — Ajunta os carregadores que o corpo quer ir embora. — Duas excelências… -...dizendo é a hora da plantação. — Ajunta os carregadores… -...que a terra vai colher a mão." (p. 07 livro virtual)

Já neste trecho, João Cabral de Melo Neto, traz uma reflexão sobre a vida e a morte, ao descrever que o defunto leva com a morte, as mesmas misérias que tinha em vida. Com ele, será enterrada a fome, a sede, as dívidas ( no caso o caixão que não pagou), mas no desfecho, enfatiza que o defunto tem pressa em ir embora, representando o fim deste ciclo de sofrimento. E assim, o poema segue cheio de trechos falando de morte e de vida severina. Em dado momento, o próprio Severino fala deste elemento sempre presente:

"— Desde que estou retirando só a morte vejo ativa, só a morte deparei e às vezes até festiva; só a morte tem encontrado quem pensava encontrar vida, e o pouco que não foi morte foi de vida Severina (aquela vida que é menos vivida que defendida, e é ainda mais Severina para o homem que retira)." (p. 7 e 8 livro virtual)

Outro ponto da obra que traz morte como elemento mais presente na obra, é o momento em que Severino, cada vez mais cansado da viajem, decide perguntar a uma senhora que está na janela de sua casa, se tem trabalho para ele por ali:

"— Essa vida por aqui é coisa familiar; mas diga-me retirante, sabe benditos rezar? sabe cantar excelências, defuntos encomendar? sabe tirar ladainhas, sabe mortos enterrar? — Já velei muitos defuntos, na serra é coisa vulgar; mas nunca aprendi as rezas, sei somente acompanhar. — Pois se o compadre soubesse rezar ou mesmo cantar, trabalhávamos a meias, que a freguesia bem dá. — Agora se me permite minha vez de perguntar: como senhora, comadre, pode manter o seu lar? — Vou explicar rapidamente, logo compreenderá: como aqui a morte é tanta, vivo de a morte ajudar. — E ainda se me permite que volte a perguntar: é aqui uma profissão trabalho tão singular? — É, sim, uma profissão, e a melhor de quantas há: sou de toda a região rezadora titular. — E ainda se me permite mais outra vez indagar: é boa essa profissão em que a comadre ora está? — De um raio de muitas léguas vem gente aqui me chamar; a verdade é que não pude queixar-me ainda de azar. — E se pela última vez me permite perguntar: não existe outro trabalho para mim nesse lugar? — Como aqui a morte é tanta, só é possível trabalhar nessas profissões que fazem da morte ofício ou bazar." (p. 10 e 11 livro virtual)

Neste diálogo, Severino busca um trabalho e repouso no lugar em que ele chega, porém nenhuma de suas qualificações servirão de ajuda, de acordo com a senhora que conversa com ele, pois a única coisa certa e que garante o sustento é trabalhar com a morte, já que essa ocorre muito neste local. Assim, como esse trechos supracitados, segue toda a narrativa da obra “Morte e vida Severina”, trazendo o elemento morte como um recurso que alivia as dores da vida.

Considerações finais

Ao realizar a leitura da obra e sua adaptação, constata-se que João Cabral de Melo Neto fala da do tema “Seca” de forma crítica e também reflexiva, trazendo um olhar mais amplo sobre questões sociais que não são discutidas abertamente, que não são discriminadas para que a sociedade veja a vida dos sertanejos como ela realmente é. Ele aborda o elemento morte de forma pesada e realista, trazendo em vários momentos que ela é vista como necessária e a solução mais fácil para “pular da ponte da vida”. Ele relaciona o buraco da terra, onde os severinos são enterrados como o único pedaço de terra que os pertenceu na vida e a terra em si, como a roupa e conforto que eles não tinham, trazendo a morte, como um benefício, um desfecho melhor para a vida severina.

Referências

Biografia de João Cabral de Melo Neto. Disponivel em: https://www.ebiografia.com/joao_cabral_de_melo_neto/#:~:text=Jo%C3%A3o%20Cabral%2 0de%20Melo%20Neto%20(1920%2D1999)%20foi%20um,da%20Academia%20Brasileira% 20de%20Letras Acesso em 18/11/2020.

Livro digital Morte e vida Severina. Disponivel em: http://bibliotecadigital.puc campinas.edu.br/services/e-books/Joao%20Cabral%20de%20Melo%20Neto.pdf Acesso em: 18/11/2020.

Morte e Vida Severina | Animação – Completo. Disponivel em: https://www.youtube.com/watch?v=clKnAG2Ygyw&feature=emb_logo Acesso em 18/11/2020.

Link do Artigo salvo em pdf nas normas da abnt: file:///C:/Users/Joyce/Downloads/Artigo%20de%20Literatura%20%20(3).pdf

 

 

 

FACULDADE DE SÃO BERNARDO DO CAMPO

JOYCE IRENE MORAIS RIBEIRO

ANÁLISE DO ELEMENTO “MORTE” NO POEMA “MORTE E VIDA SEVERINA” DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO

Trabalho apresentado ao Curso de Letras da Faculdade de São Bernardo do Campo, como requisito parcial para aprovação na unidade curricular de Literatura: Teorias da Contemporaneidade.

Professora: Sonia Melchiori Galvão

SÃO BERNARDO DO CAMPO 2020


Publicado por: Joyce Irene Morais Ribeiro

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Meu Artigo. O Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.