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A intertextualidade em Dias & Dias, de Ana Miranda

Educação

Confira aqui um estudo sobre os tipos de intertextualidades existentes na obra Dias & Dias, da autora Ana Miranda.

RESUMO: Este trabalho objetiva fazer um estudo sobre os tipos de intertextualidades existentes na obra Dias & Dias, da autora Ana Miranda. A princípio, discute o conceito de intertextualidade. Em seguida, analisa os tipos de intertextualidades presentes na obra de Miranda. O estudo desenvolve-se por meio de pesquisa bibliográfica, cujas principais leituras são as de Bakhtin (2003), Carvalhal (1999), Nitrini (2010), Paulino; Walty; Cury (1995), entre outros. Na análise dos resultados, comprova-se que Miranda utiliza-se da intertextualidade para compor sua narrativa, uma vez que a obra Dias & Dias contém elementos que remetem à vida e às obras de Gonçalves Dias.

Palavras-chave: Intertextualidade. Criação literária. Dias & Dias.

1 INTRODUÇÃO

A prática intertextual é um recurso utilizado em diversas situações que envolvem a escrita/leitura de textos. No que se refere à criação do texto literário, é comum vermos os escritores, ao construírem seus textos, inserirem nos mesmos algo que outrora já foi dito. Por isso, a escolha do tema desta pesquisa justifica-se na visão de querer aprofundar os conhecimentos acerca do que seja intertextualidade, bem como a forma com que se manifestam na literatura os tipos intertextuais.

A intertextualidade é, sem duvida, um recurso que põe em prova a questão do texto inédito, pois, aos olhos leigos, o escritor que se utiliza da intertextualidade demonstra certa incapacidade de produzir algo novo.  Porém, a questão do que seja novo se tornou algo complicado, pois em meio ao bombardeio de informações que recebemos quase que involuntariamente, somos colocados no meio de várias ideias que se disseminam facilmente, graças à tecnologia.

Podemos perceber também que, ao produzir o texto literário, o escritor é influenciado pelas leituras que ele mesmo já fez ao longo de sua vida. Portanto, o fato de ele escrever sobre determinado conteúdo que já foi escrito por outro, tem relação com aquilo que ele aprendeu, e essa aprendizagem colabora para a criação e o aperfeiçoamento do fazer poético.

Nesta pesquisa, o estudo da criação do texto literário, dar-se-á por meio da obra Dias & Dias, de Ana Miranda. Nela, vemos a intertextualidade como um recurso comumente utilizado pela autora. Essa obra busca trazer para atualidade um grande escritor que firmou suas raízes no Romantismo. Gonçalves Dias é o autor homenageado por Miranda nesse romance. É comum encontrarmos, nas obras de Miranda, menção a outros escritores, uma vez que essa prática da escritora já se tornou bastante conhecida pelo seu público.

Outro fato importante é que Miranda, além de inserir em sua escrita momentos pelos quais seus homenageados passaram, também se preocupa em reviver e ao mesmo tempo transpor os momentos históricos ligados à época de seus precursores, ou seja, aquilo que era vivido e/ou escrito nas obras de seus antecedentes. Ela faz uma reescrita e põe uma nova roupagem para esses fatos. Por este motivo, é notório verificarmos a presença da intertextualidade em suas obras.

Em Dias & Dias não podia ser diferente. A autora escreve um romance no qual insere marcas biográficas de Gonçalves Dias, bem como passagens de algumas obras do mesmo. Cabe ao leitor identificar esses trechos pertencentes a Dias, que a autora utiliza constantemente sem realizar, às vezes, os destaques comuns quando fazemos o uso de passagens referentes a obras de outros autores.

Além de transpor a biografia de Gonçalves Dias para a sua obra, Ana Miranda incorpora a obra do poeta ao permitir que os versos e a musicalidade da temática lírica romântica gonçalvina dancem/ecoem pelo seu romance. Para isso, a escritora se apropria de versos, às vezes, versos inteiros, que nem sempre estão destacados na obra. Tal estratégia intertextual permite a Miranda escrever um livro a partir de Gonçalves Dias, um romance polifônico, num diálogo crescente e constante entre textos. (FERRAZ, 2012, p.84)

Pretendemos, com a obra Dias & Dias, estudar o fenômeno da intertextualidade, bem como as formas em que a mesma aparece ao longo de toda a narrativa. Além disso, buscaremos entender o processo da criação do texto literário. Para isso, contamos com o apoio de autores como Bakhtin (2003), Carvalhal (1999), Nitrini (2010), Paulino; Walty; Cury (1995), entre outros que nos falam a respeito da criação do texto literário, da necessidade de haver uma boa comunicação entre aquele que escreve e aquele que lê, o diálogo entre diferentes textos, e claro, o próprio fenômeno intertextual e as suas formas de se apresentarem nos textos.

2 INTERTEXTUALIDADE

2.1 O MUNDO INTERTEXTUAL

É comum encontrarmos em toda a literatura, e, em especial na literatura contemporânea, a prática da intertextualidade. Esse exercício intertextual se deve pelo fato de que há nos textos literários diversas vozes e diferentes discursos que se cruzam e acabam mostrando uma mesma ideia. Isso faz com que nossos escritores contemporâneos façam uma visita aos textos já escritos, e, a partir deles, comecem a criar uma nova roupagem para as ideias já conhecidas, porém com um olhar diferencial.

O termo intertextualidade foi criado por Julia Kristeva para defender que nenhum texto se compõe sozinho. “Todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto”. (KRISTEVA, 1969, p.102 apud NITRINI, 2010, p.161). Porém, antes de Kristeva, outro estudioso já trabalhava com essa temática, mesmo que com outra nomenclatura, a chamada teoria do dialogismo. Foi o pensador russo Mikhail Bakhtin que deu início a essa teoria. Para Bakhtin (2003), nenhum discurso se constitui sozinho, ou seja, sempre haverá um motivo e/ou influência para a prática de um determinado diálogo. Dessa forma, sempre encontraremos a voz do outro presente em nosso discurso.

Segundo Costa (2001), no dialogismo, o sujeito do discurso sempre utiliza as palavras que aprendeu do discurso do outro. Essa utilização acontece tanto passivamente, quando ele põe em prática as palavras que herdou das gerações passadas e do meio em que vive, como também, de forma intencional, na qual, o sujeito do discurso utiliza palavras de outros, de forma intencionada, citando palavras mesmo sem colocá-las de forma explícita. Dessa forma, o dialogismo de Bakhtin é algo essencialmente subjetivo, social, plurilinguístico e heterogêneo, no qual tudo irá depender da boa discursividade entre os sujeitos participantes do diálogo.

Nessa perspectiva, temos a possibilidade de verificar as vozes presentes nos textos. Existem textos polifônicos e monofônicos. Os primeiros abrem caminhos para que possamos enxergar as várias vozes que permeiam a construção de um texto, já no segundo, ficam menos perceptíveis as vozes dos outros no texto.

Ainda com relação à teoria do dialogismo, Freitas (2011) afirma que, ao falar de diálogo, Bakhtin não se refere apenas ao lado das construções sintáticas das frases, mas também às relações semânticas presentes no ato da comunicação. Isso nos remete à importância do contexto, no qual determinada construção dialógica irá depender dos fatores extralinguísticos para que a comunicação possa ser realizada com êxito.

Natureza dialógica da consciência, natureza dialógica da própria vida humana. A única forma adequada de expressão verbal da autêntica vida do

homem é o diálogo inconcluso. A vida é dialógica por natureza. Viver significa participar do diálogo: interrogar, ouvir, responder, concordar, etc. Nesse diálogo, o homem participa inteiro e com toda a vida: com os olhos, os lábios, as mãos, a alma, o espírito, todo o corpo, os atos. Aplica-se totalmente na palavra, e essa palavra entra no tecido dialógico da vida humana, no simpósio universal (BAKHTIN, 2003, p. 348).

Através de um estudo mais aprofundado, Kristeva (1969) renovou o conceito de dialogismo de Bakhtin. Segundo a pesquisadora, para que exista intertextualidade, é preciso que o leitor reconheça a presença de um texto ou de fragmentos deste, em outro, passando a estabelecer relações entre eles. Segundo Freitas (2011), ao estabelecer o conceito de intertextualidade, Kristeva chama de “texto” o que Bakhtin denominou de “enunciado”. Por causa disso, o termo “dialogismo” foi substituído por “intertextualidade”. Com essa nova denominação, Kristeva fez uma mudança em relação ao pensamento de Bakhtin, pois o mesmo tem definições diferentes para “enunciado” e “texto”. Para ele, o “enunciado” é aquilo que se põe em prática no momento do diálogo, já o “texto”, é a materialização do enunciado, ou seja, aquilo que aparece de forma escrita. Assim, o enunciado é construído a partir da comunicação entre os interlocutores e o texto é forma materializada desse enunciado. Além disso, o mesmo autor ainda ressalta uma condição para que ocorra a intertextualidade, é necessário antes de tudo, que os textos existam independentes um do outro.

O termo intertextualidade, cunhado por Kristeva, levou outros autores a também tratarem de forma mais íntima esse termo, e com isso, algumas tipologias foram percebidas e expostas. Genette (2006), afirma que a intertextualidade é apenas um dos elementos que compõem as teorias ligadas à produção e interação com os textos literários. Assim, para se estudar um determinado texto, é necessário que se leve em consideração alguns fatores que influenciaram a produção deste, dentre eles, o contexto no qual está inserido e as relações implícitas e explícitas com outros materiais já publicados.

Por este motivo, Genette (2006), apresenta uma tipologia que aborda os tipos de relações existentes entre os textos: intertextualidade, caracterizada como presença implícita ou explicita de um texto em outro por meio de citação, alusão e plágio; paratextualidade, que diz respeito aos elementos que ficam ao redor do texto principal, como o título, prefácios e ilustrações; metatextualidade, que acontece quando um texto comenta outro sem necessariamente citá-lo. Geralmente a metatextualidade apresenta-se no campo das críticas e interpretações do leitor; arquitextualidade, que está relacionada a determinada categoria de texto, por exemplo, um poema de um autor canônico, tem arquitextualidade com a classe dos poemas, e por fim a hipertextualidade, que trabalha com fenômenos como a paródia e o pastiche. Dentro dessa tipologia, merece destaque a intertextualidade, por ser o objeto de estudo desta pesquisa. É interessante como o autor conceitua de forma clara e objetiva a intertextualidade.

Parece-me, hoje, haver cinco tipos de relações transtextuais, que enumerarei numa ordem crescente de abstração, implicação e globalidade. O primeiro foi, há alguns anos, explorado por Julia Kristeva, sob o nome de intertextualidade, e esta nomeação nos fornece evidentemente nosso paradigma terminológico. Quanto a mim, defino-o de maneira sem dúvida restritiva, como uma relação de co-presença entre dois ou vários textos, isto é, essencialmente, e o mais freqüentemente, como presença efetiva de um texto em um outro. Sua forma mais explícita e mais literal é a prática tradicional da citação (com aspas, com ou sem referência precisa); sua forma menos explícita e menos canônica é a do plágio [...], que é um empréstimo não declarado, mas ainda literal; sua forma ainda menos explícita e menos literal é a alusão, isto é, um enunciado cuja compreensão plena supõe a percepção de uma relação entre ele e um outro. (GENETTE, 2006, p. 7-8)

Genette (2006) apresenta a intertextualidade como algo bastante restrito à presença implícita ou explicita de um texto em outro. O mesmo autor ainda deixa fora do campo da intertextualidade, a paródia e o pastiche, que são comumente encontrados como exemplos de intertextualidade. No geral, essa tipologia exposta por Genette (2006) deixa claras as mais variadas relações que podem haver entre os textos, bem como a complexidade pela qual o escritor tem que transitar para que possa dar vida a sua produção escrita.

Todas essas tipologias e outros conceitos a mais que rodeiam as teorias ligadas à literatura comparada, partem de um ponto em comum, a comparação. Para que possamos afirmar que um determinado texto tem a presença de outro e até mesmo de uma teoria textual, é necessário que nos valhamos da comparação.  Esta é uma atitude inerente ao homem e utilizada para os mais diversos momentos do cotidiano dos indivíduos.

Comparar é um procedimento que faz parte da estrutura do pensamento do homem e a organização da cultura. Por isso, valer-se da comparação é hábito generalizado em diferentes áreas do saber humano e mesmo na linguagem corrente, onde o exemplo dos provérbios ilustra a frequência de emprego do recurso. (CARVALHAL, 1999, p. 6)

Ao escrever um texto, o autor não pode negar as influências que recebeu das leituras de outros autores. Isso significa que nenhum escritor está isento de qualquer influência, pois o fato de um determinado escritor discorrer sobre algum assunto, implica que de alguma maneira ele foi influenciado por um antecedente seu.  Quando T.S. Eliot (1989) afirma, em A Tradição e Talento Individual, que nenhum escritor escreve sozinho, ele está nos dizendo que de alguma maneira, os escritores “mortos” influenciam os atuais escritores, auxiliando-os a comprovar com uma maior segurança aquilo que vem sendo defendido nos textos produzidos pelos escritores atuais.

Ainda sobre A Tradição e Talento Individual, Eliot (1989), ao discorrer sobre o fazer poético, levanta um questionamento sobre os textos literários da contemporaneidade. Sobre esses textos, fica evidente que os escritores modernos, na tentativa de resgatar aquilo que outrora já tinha sido defendido, fazem uma retomada das ideias já defendidas, daí novamente se chegar à conclusão da influência recebida dos antepassados. Para Eliot (1989), a tradição não é manter as características de um texto em outro, é algo de bastante amplitude que não se consegue por meio de herança, e sim por meio de uma luta constante do escritor em manter algo “vivo”, daí a profunda relação com os aspectos históricos em que o escritor está inserido.

A tradição implica um significado muito mais amplo. Ela não é herdada, e se alguém a deseja, deve conquistá-la através de um grande esforço. Ela envolve em primeiro lugar, o sentido histórico, que podemos considerar quase indispensável a alguém que pretenda continuar poeta depois dos vinte e cinco anos; e o sentido histórico implica a percepção, não apenas da caducidade do passado, mas de sua presença; o sentido histórico leva um homem a escrever não somente com a própria geração a que pertence em seus ossos, mas com um sentimento de que toda a literatura europeia desde Homero e, nela incluída, toda a literatura de seu próprio país têm uma existência simultânea e constituem uma ordem simultânea. (ELIOT, 1989, p. 39)

O talento individual defendido por Eliot nos faz perceber que o escritor tem a capacidade de resgatar o passado, trazendo-o para o presente. Isso acontece devido à intimidade que esse escritor tem com a sua história, capaz de conversar com seus antecedentes, colocando-os na atualidade.

Na França, antes do surgimento do termo intertextualidade, já se discutia a questão da influência de um texto em outro. A discussão acerca do que era novidade no âmbito da escrita gerava diversos conflitos a fim de explicar como se dava a utilização da ideia de um escritor no texto de outro. Somente com os estudos baseados em elementos pragmáticos, tais como o uso social da língua, é que se começou a perceber que toda essa questão de influência era normal na medida em que se aprendeu que o homem conduz a sua comunicação com o outro a partir de escolhas, que por sua vez, serão diferentes a cada situação comunicativa.

Ainda no contexto francês, é possível perceber que até o momento da difusão do conceito de intertextualidade, os críticos tinham em mente, que ao se utilizar das ideias de autores passados, os autores atuais tinham uma espécie de “dívida” com os “donos” daqueles ideais, por isso, sentiam a necessidade de que sua obra desse continuidade a esses ideais, sem que houvesse contradição sobre aquilo que já tinha sido publicado. Embora existisse esse pensamento por parte de muitos estudiosos da área da literatura comparada, Kristeva (1969) apud Nitrini (2010) levou ao público uma nova visão sobre o “problema” de se inserir no próprio texto aquilo que outrora tinha sido defendido por outro, afirmando ser uma prática normal dos escritores para com a escrita dos seus textos. “Diante disso, o que era entendido como uma relação de dependência, a dívida que um texto adquiria com seu antecessor, passa a ser compreendido como um procedimento natural e contínuo de reescrita dos textos”. (CARVALHAL, 1999, p. 51).

Diante dessa nova visão que se passou a ter sobre os textos, é importante que não nos detenhamos somente em encontrar nos textos, traços da intertextualidade. É preciso entender os motivos pelos quais um determinado escritor inseriu em sua obra, trechos implícitos ou explícitos de outro autor, buscando interpretar a fundo os objetivos pelos quais esse escritor utilizou-se do texto do seu antecedente. Essa é a verdadeira atitude do comparativista, sair da zona de conforto e adentrar no universo do escritor para tentar perceber as razões que o levaram a repetir em sua escrita as ideias do outro.

[...] Além disso, sabemos que a repetição (de um texto por outro, de um fragmento em um texto, etc.) nunca é inocente. Nem a colagem nem a alusão e, muito menos, a paródia. Toda repetição está carregada de uma intencionalidade certa: quer dar continuidade ou quer modificar, quer subverter, enfim, quer atuar com relação ao texto antecessor. A verdade é que a repetição, quando acontece, sacode a poeira do texto anterior, atualiza-o, renova-o e (por que não dizê-lo?) o re-inventa. (CARVALHAL, 1999, p. 53-54)

A literatura comparada deixa então de estudar apenas as igualdades existentes entre duas obras e passa a vê-las com uma forma de investigação e interpretação de fatores mais gerais como os aspectos sociais, políticos e culturais que fazem parte da história vivida pelos leitores.

O fator histórico tem a sua importância, uma vez que contribui para que o autor relacione o contexto social vivido no texto literário. Assim, segundo Nitrini (2010, p. 162), “O autor vive na história e a sociedade se escreve no texto”. O autor então, a partir das leituras dos seus antecedentes, insere em seu texto a sua visão, preservando a do outro e inserindo novas ideias.

Outro autor que trata do termo intertextualidade é Laurent Jenny. Segundo Nitrini (2010), Jenny contesta aquilo que foi defendido por Kristeva no âmbito da intertextualidade. Segunda o mesmo, a intertextualidade não é a soma de influências misteriosas e confusas, mas é um trabalho de assimilação de textos, no qual sempre haverá um texto principal que por sua vez comandará os outros, dando-lhes os devidos sentidos de estarem ali presentes. Sobre essa definição Nitrini (2010) ainda apresenta três pontos importantes sobre o pensamento de Jenny.

O reconhecimento da presença de outros textos em toda e qualquer obra literária.

O trabalho de modificação que os textos estranhos sofrem ao serem assimilados.

O sentido unificador que deve ter o intertexto, entendido como “texto absorvendo uma multiplicidade de textos, mas ficando unificado por um sentido” (NITRINI, 2010, p.164)

Nessa perspectiva, ao final da produção do texto com base em outros, é necessário que façamos a identificação daquilo que foi escolhido para entrar no “novo” texto, bem como o novo o intertexto, isto é, o novo texto que por sua vez é responsável pelo novo contexto na qual aquela ideia repetida está inserida. Nitrini (2010) ainda afirma que Jenny estabelece condições para que seja possível comprovar a intertextualidade numa obra literária. É preciso encontrar no texto elementos estruturados anteriores a ele, além dos lexemas. Dessa maneira, será mais fácil o reconhecimento da intertextualidade em uma unidade textual, bem como o contexto no qual está inserido.

Nitrini (2010) aborda também os pensamentos do comparatista espanhol  Cláudio Guillén. Segundo ela, esse crítico caracteriza a intertextualidade como uma teoria textual que está mais voltada para gerar concepções sobre os signos presentes no texto, do que abrir caminhos para a análise das relações existentes entre duas obras literárias. Seria apenas mais uma teoria que nos auxiliaria na leitura dos textos, porém não nos levaria a lugar nenhum.

O pensamento de Guilén acaba por empobrecer a teoria de Kristeva, não mostrando a devida importância que a leitura tem para os estudiosos da literatura comparada, tendo em vista que é por meio da leitura que os estudos começam a ser realizados.

2.2 ALGUNS TIPOS DE INTERTEXTUALIDADE

Como já foi dito, a intertextualidade pode se apresentar explícita e implicitamente. Podemos encontrar, no campo das intertextualidades explícitas: epígrafe, que se caracteriza como uma escrita introdutória do texto partindo do pensamento do outro, atribuindo-lhe um novo sentido. A epígrafe

[...] como se pode ver pela etimologia da palavra (do grego epi = em posição superior + graphé = escrita), epígrafe constitui uma escrita introdutória de outra. Ela implica sempre um recorte de outro texto que é presentificado e, conseqüentemente, modificado em seu contato com o novo texto, sobre o qual lança novos sentidos. O texto em epígrafe é presentificado e modificado porque se expõe, como recorte, à nova leitura. Por outro lado, modifica o texto a que está agregado.  (PAULINO; WALTY; CURY, 1995, 25-26, grifo do autor)

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Outro exemplo de intertextualidade explícita é a citação, que se apresenta como a presença de fragmento de um texto em outro. A citação é utilizada para reforçar uma ideia com base em consulta em outras fontes, demostrando uma maior segurança e clareza das afirmações expostas; referência, que tem por característica mencionar um texto em outro, fazendo com que o leitor consiga enxergar em sua leitura, as ideias do outro texto por meio de associações.

As intertextualidades implícitas, por sua vez, podem ocorrer de algumas formas: paráfrase, que se caracteriza como a repetição ou continuação de uma sentença, na qual o autor resgata as ideias de seus precursores atribuindo-lhes uma nova interpretação. Assim, a paráfrase está relacionada com as ideologias que rodeiam a continuidade de um mesmo pensamento; pastiche, que ocorre quando um autor utiliza abertamente o estilo do outro. O pastiche pode ser percebido quando determinado texto “assume traços de um estilo” (PAULINO; WALTY; CURY, 1995, p.40) de outra época.

Os recursos intertextuais empregados pelo escritor tornam evidente o quão complexo é o processo da produção escrita dos textos. São diversos meios que o escritor utiliza para dar vida a sua produção, levando-nos a perceber que não é tão fácil escrever algo novo, pois sempre haverá um alguém que compartilha dos nossos ideais. O que nos resta é utilizá-los, tentando renovar os conceitos e abrir novos olhares para as mesmas ideias que um dia já foram defendidas.

3 ANÁLISE DA OBRA DIAS & DIAS, DE ANA MIRANDA

Dias & Dias é um obra que possui ao longo do seu enredo fortes traços de intertextualidade. Ao escrever uma espécie de biografia romanceada da vida de Gonçalves Dias, Miranda compõe a sua narrativa utilizando intertextualidades implícitas e explícitas.

Podemos identificar na obra como a primeira presença de intertextualidade explícita, a epígrafe, pois a autora já começa apresentando no prefácio de sua obra, um trecho de um dos poemas mais conhecidos de Dias, Canção do exílio. “[...] Nosso céu tem mais estrelas/ Nossas várzeas têm mais flores/ Nossos bosques têm mais vida/ Nossa vida mais amores. [...]” (DIAS, 1960, p.12) A narrativa apresenta uma história de amor que por um motivo trágico não pôde se concretizar. Os personagens principais envolvidos nesse romance são Feliciana e Antônio. O personagem Antônio, é descrito ao longo da narrativa como o próprio Gonçalves Dias, pois os acontecimentos por ele vividos são os mesmos que ocorreram na vida de Dias.

Feliciana é a responsável por dar vida à narrativa. Essa personagem faz uma espécie de volta no tempo, pois o local onde começa a história é o mesmo em que termina com um final infeliz. Feliciana começa descrevendo como começou a sua paixão por Antônio. É nesse momento que podemos identificar a poesia Olhos Verdes, de Dias, colocada na história do casal.

Feliciana vai comprar feijão verde na venda do pai de Antônio e quem está na venda é o próprio Antônio. Na embalagem utilizada para colocar o feijão, havia um poema falando da paixão por uma moça que tinha os olhos verdes. Feliciana descobre o poema escrito na embalagem do feijão e começa a criar expectativas com relação ao sentimento que Antônio tem por ela. Mesmo sem ter os olhos verdes, Feliciana decide acreditar que aquele poema tinha sido feito para ela.

Dias firmou seu nome na literatura canônica por apresentar ao povo brasileiro aquilo que de mais natural havia em nossas terras no auge do Romantismo, o índio e tudo o que fazia parte do mundo desse ser, que aos poucos foi sendo valorizado e exaltado por meio da prosa e da poesia dos escritores nacionais. Para mostrar aquilo que Dias escrevia sobre o índio e o seu universo, Miranda utiliza outro recurso intertextual, a referência.

Só descobri que eram belos os índios, seus adornos, seus costumes, quando li as composições de Antônio, “I-Juca Pirama”, “Leito das folhas verdes”, “Marabá”, tão encantadoramente líricas, que falam no índio gentil, nos moços inquietos enamorados da festa, índios que às vezes são rudos e severos mas atendem meigos à voz do cantor,[...] tudo o que escreve Antônio em suas composições deixa-me afundada como a flor de “Não me deixes”! (MIRANDA, 2002, p. 30, grifo nosso)

Feliciana encantava-se por tudo o que Antônio (Gonçalves Dias) escrevia. No trecho citado, percebemos que Dias admirava a cultura do índio, buscando encontrar semelhanças com os povos de origem diferente. Outro ponto a ser observado, é que a referência aparece justamente quando Miranda introduz o nome de algumas obras escritas por Dias nas falas da personagem Feliciana. Os nomes destacados são exemplos de referências por se encaixarem no pensamento de Paulino; Walty e Cury (1995) quando elas dizem que se determinada obra apresentar pelo menor um nome que nos dirija a outra obra já conhecida, temos de fato a presença da referência.

Apesar de ser bastante conhecido por escrever sobre o índio, Dias também escreveu versos relacionados à temática amorosa. São os poemas amorosos gonçalvinos que Miranda apresenta com maior frequência em Dias & Dias.

[...] ele aprendeu a casar o pensamento com o sentimento, o coração com o entendimento, a idéia com a paixão, a colorir o mundo com sua imaginação, a fundir tudo isso com a vida e com a natureza, a purificar as coisas com o sentimento da religião e da divindade, a descobrir o espírito que o levaria pela vida, a santa Poesia, como ele mesmo diz no prólogo de seu primeiro livro, os Primeiros Cantos. (MIRANDA, 2002, p.49, grifo nosso)

Miranda continua utilizando a referência no momento em que ela usa as palavras que Dias escreveu no prólogo do seu primeiro livro Primeiros Cantos. No prólogo do livro citado, Dias escreve em primeira pessoa, já Miranda utiliza a terceira. Embora ocorra essa mudança, ainda podemos perceber que Miranda utiliza-se da fala do outro para compor a sua narrativa.

Mesmo sendo utilizadas as mesmas palavras em ambas as obras, podemos verificar que em cada obra o sentido será distinto, uma vez que as intenções são diferentes. Enquanto que em Primeiros Cantos o trecho citado acima faz uma espécie de introdução à obra, em Dias & Dias esse mesmo trecho serve para compor a vida do personagem Antônio retratada aos olhos de Feliciana.

Podemos utilizar o trecho acima para exemplificar também outro tipo de intertextualidade, a citação, pois conforme as partes destacadas, Miranda utilizou um fragmento relativamente extenso da obra de Dias. Outro exemplo de citação é quando Miranda usa o poema Seus Olhos, de Dias, para retratar a visão de Feliciana sobre a personagem Ana Amélia.

[...] olhos tão negros, tão belos, tão puros, de vivo luzir, estrelas incertas, que as águas dormentes do mar vão ferir; olhos tão negros, tão belos, tão puros, tão meiga expressão, mais doce que a brisa, - mais doce que o nauta de noite cantando,- mais doce que a frauta quebrando a soidão, esses os olhos de Ana Amélia vistos pelos olhos apaixonados de Antônio [...] (MIRANDA, 2002, p. 133, grifo do autor)

Agora vejamos o poema Seus Olhos, na versão de Dias, para comprovar a relação que há entre ele e a citação anterior.

Seus Olhos

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,

De vivo luzir,

Estrelas incertas, que as águas dormentes

Do mar vão ferir;

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,

Têm meiga expressão,

Mais doce que a brisa, - mais doce que o nauta

De noite cantando, - mais doce que a frauta

Quebrando a solidão.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,

De vivo luzir, [...] (DIAS, 1969, p. 31)

A personagem Ana Amélia é vista por Feliciana como uma rival, pois ela imaginava que Antônio sentia algo por Ana Amélia e por isso passa a descrevê-la utilizando o poema Gonçalvino Seus Olhos. Ao lermos os dois trechos de escritores diferentes, verificamos a presença do segundo trecho no primeiro, ou seja, há a comprovação de que realmente Miranda usou o texto de Dias.

Outro exemplo de citação aparece no exemplo a seguir: “[...] Quanto és bela, ó Caxias! – no deserto, entre montanhas, derramadas em vale de flores perenais, és qual tênue vapor que a brisa espalha no frescor da manhã meiga soprando à flor de manso lago.” (MIRANDA, 2002, p. 142, grifo do autor). Nesse exemplo, há a apropriação do poema Caxias que, na perspectiva de Miranda, serviu para compor a escrita bibliográfica de Dias em sua obra, e também para mostrar que Feliciana era uma admiradora de tudo aquilo de Antônio escrevia.

Caxias

Quanto és bela, ó Caxias! - no deserto,

Entre montanhas, derramada em vale

De flores perenais,

És qual tênue vapor que a brisa espalha

No frescor da manhã meiga soprando

À flor de manso lago.

Tu és a flor que despontaste livre

Por entre os troncos de robustos cedros,

Forte - em gleba inculta;

És qual gazela, que o deserto educa,

No ardor da sesta debruçada exangue

À margem da corrente. [...] (DIAS, 1969, p. 11)

O poema Caxias reforça a ideia de que Miranda busca reviver as obras de Dias. Um fato importante, é que a autora sempre procura encaixar os textos de Dias no contexto vivido por seus personagens.

Até o momento, as formas de intertextualidades apresentadas, foram identificadas em partes específicas do texto, ou seja, os tipos intertextuais foram facilmente identificados. Porém, a obra Dias & Dias nos permite encontrar alguns tipos de intertextualidades implícitas, aliás, esse tipo de intertextualidade é o mais utilizado por Miranda, uma vez que ela tem o costume de usar em suas obras, trechos de outros autores sem ter a preocupação de destacá-los.

O fato de Miranda não destacar os trechos dos outros autores provoca no leitor um verdadeiro desafio, pois este precisa ler com atenção para identificar as partes do texto pertencentes a outros autores.

Como intertextualidade implícita, temos a paráfrase, na qual o autor põe em seu texto algo já dito por outro a fim de complementar sua ideia. Podemos verificar como exemplo de paráfrase, o trecho a seguir:

[...] achei, aqui dentro de mim, de meu coração, que Antônio tinha escrito a “Canção do exílio” para mim, porque eu sabia remedar igualzinho o gorjeio do sabiá, então quando ele dizia “as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá”, para mim queria dizer que as mulheres do mundo não eram tão primores a desfrutar como as mulheres daqui, isso eu achava e acho ainda, e quanto ao sabiá, Antônio sabia que papai era um colecionador de sabiás, que tinha os mais belos sabiás das matas. [...] (MIRANDA, 2002, p. 140)

Miranda, além de mencionar o título de um famoso poema de Dias, compõe a fala da personagem Feliciana parafraseando um trecho desse poema. É importante lembrar, que o fato de Miranda construir a sua narrativa com “pedaços” de outras obras, não constitui plágio, pois a autora, além de fazer alguns destaques no final do livro, mostra as referências e a justificativa para ter feito sua obra com essa característica.

Continuando a intertextualidade implícita, podemos destacar outro tipo, o pastiche. Como já foi dito em outro momento, o pastiche ocorre quando o autor escreve seu texto seguindo o mesmo estilo de outro. Muitas vezes, o fato de escreverem sobre o mesmo assunto já configura o pastiche. Vejamos o exemplo:

[...] mas eu olhava as margens correndo aos meus olhos e esquecia meus remorsos, tudo me fascinava, a Barriguda, o moinho, a ave assustada, o romper d’alva, os chumaços de folhas de palmeira indaiá que os marujos punham no casco do barco para ajudar na flutuação, o amarrar a barcaça com cordas às árvores para controlar a rapidez da descida e a fim de manter a embarcação na parte que se podia navegar, um estreito canal bem no meio do rio, oh como o mundo era imprevisto. Eu nem merecia isso, as cachoeiras, Angical, Gato, uma flor na rama oculta, a máquina estrelada, o universo equilibrado nos ares, como tudo aquilo era possível? [...] (MIRANDA, 2002, p. 164)

Miranda descreve uma paisagem típica do Nordeste, uma vez que esse trecho se refere ao momento em que Feliciana estava viajando para o Ceará em busca do seu grande amor, Antônio. Podemos observar que a autora descreve detalhadamente o ambiente natural, dando nomes à flora da região. Essa característica de exaltar as belezas naturais e modo simples de levar a vida, também era utilizada por Dias, conforme o exemplo a seguir:

O Romper d'Alva

[...]

Porque as ramas do arvoredo,

Bem como as ondas do mar,

Sem correr sopro de vento,

Começam de murmurar?

 

Sobre o tapiz d'alva relva,

- Rocio da madrugada -

Destila gotas de orvalho

A verde folha inclinada.

 

Renascida a natureza

Parece sentir amor;

Mais brilhante, mais viçosa

O cálix levanta a flor.

 

Por entre as ramas ocultas,

Docemente a gorjear,

Acordam trinando as aves,

Alegres, no seu trinar.

[...] (DIAS, 1969, p. 118)

Ao lermos os textos de Miranda e Dias, podemos identificar algumas semelhanças, principalmente no que diz respeito à preocupação em mostrar ao leitor as riquezas naturais bem como a sua relação com o homem. Além disso, quando estudamos o pastiche nos vem à mente a questão da criação literária, pois no primeiro olhar Miranda parece “repetir” a escrita de Dias, porém depois de conhecermos melhor sobre ela e também sobre a criação de um texto literário, percebemos que tudo parece ter uma relação.

Numa época como a nossa, em que se comenta muito a morte da literatura, com a saturação estética impedindo a busca de propostas revolucionárias, o pastiche equivale a uma reação que se assume como repetição. Síntese que não pretende resolver o impasse da criação, o pastiche tem algo de nostálgico e algo de proposta suplementar ao passado. (PAULINO; WALTY; CURY, 1995, 42, grifo do autor).

Conforme o pensamento das autoras, o pastiche, quando colocado no âmbito da criação literária, assume um papel de complementação daquilo que outrora já foi dito. Ao utilizar esse recurso intertextual, Miranda procura dar uma nova roupagem ao pensamento de Dias, porém sem desvalorizar a criação do seu precursor. Ao fazer uma releitura de Dias, Miranda faz uma espécie de biografia romanceada, pois ao longo de toda a narrativa, fatos importantes ligados à vida de Dias, como obras escritas, cargos conquistados, nomes de familiares e a causa da sua morte foram inseridos no romance.

A questão da criação do texto literário também pode ser relacionada com os outros tipos de intertextualidade estudados até aqui. Como já foi dito, a epígrafe é utilizada pelo autor para engrandecer a sua obra. Ao colocar em seu texto algo que pertence ao legado de outro autor, determinado escritor pretende enriquecer o seu próprio texto, adequando as ideias do outro às suas.

Com a referência, a citação e a paráfrase também não é diferente, pois, ao utilizar-se desses recursos intertextuais, determinado autor tece seu texto referenciando, acrescentado e relacionando em certos momentos da criação do texto literário, elementos que já foram apresentados por outros autores.

Essa questão que o autor enfrenta no momento da composição do seu texto, remete às ideias já discutidas no início deste trabalho, ou seja, é cada vez mais complicado para um escritor trazer inovações para os leitores, principalmente aos leitores da contemporaneidade, pois estes, a cada dia recebem novas informações sobre diversos conteúdos.

Não podemos desconsiderar o pensamento de Eliot (1989), já apresentado nesta pesquisa, pois esse autor defende que o fato de os escritores conseguirem escrever sobre algo, é porque eles de alguma forma foram influenciados por seus precursores, que também escreveram sobre o mesmo assunto.

Além disso, também devemos considerar a questão da intencionalidade do escritor, ou seja, por algum motivo, determinado escritor utilizou a intertextualidade para que seu leitor pudesse captar a mensagem proposta. Muitas vezes, para alcançar as expectativas dos leitores, os escritores precisam utilizar as ideias de outros autores, para além de enriquecer seu texto, chamar a atenção do público, trazendo à tona aquilo que já foi conhecido em outra época.

Mais do que homenagear Gonçalves Dias, a intertextualidade em Dias & Dias, reescreve um passado para uma nova geração de leitores, que muitas vezes ficam esquecidos dos cânones literários. Miranda faz justamente essa volta no tempo, para construir um romance e, a construção desse texto literário é que chama a nossa atenção para a riqueza de detalhes e a nova roupagem dada a esse fazer poético.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Constatamos, através desta pesquisa, a presença da intertextualidade na obra Dias & Dias, de Ana Miranda. Esse recurso é bastante utilizado pela autora em diversas obras com o objetivo de trazer para a atualidade grandes personalidades que construíram um nome no âmbito literário.

A obra aqui estudada é composta por uma biografia romanceada, na qual Miranda utiliza a biografia, bem como a bibliografia de um grande autor, Gonçalves Dias, inserindo os acontecimentos reais deste autor na vida dos seus personagens.

A primeira abordagem desta pesquisa tratou de estudar o conceito de intertextualidade, levando em consideração os primeiros estudos de Bakhtin até o conceito elaborado por sua seguidora Kristeva. Além disso, são destacados também alguns tipos de intertextualidades que podemos encontrar na obra.

A segunda parte, por sua vez, tratou da análise da obra de Dias & Dias, buscando comprovar que a intertextualidade discutida na primeira parte, existe realmente na obra. A existência dessa intertextualidade trouxe para Dias & Dias, uma riqueza de detalhes ligados à forma com que Miranda escreveu sua narrativa. Ao mesmo tempo em que a autora faz uma espécie de “conversa” entre seu texto e a vida de Gonçalves Dias, ela demonstra que a criação literária é algo que depende muitas vezes de fatores relacionados à formação do próprio escritor, que por sua vez, utiliza-se de uma teoria apreendida para colocar em prática sua imaginação na criação do fazer poético.

Em suma, este trabalho busca proporcionar um conhecimento acerca da intertextualidade, bem como pretende levar ao público, alguns tipos de intertextualidade por meio da análise da obra citada anteriormente. Além disso, esta pesquisa deixa uma reflexão sobre os ideais existentes relacionados à criação do texto literário.

REFERÊNCIAS

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

CARVALHAL, Tania Franco. Literatura Comparada. São Paulo: Editora Ática, 1999.

COSTA, Nelson Barros da.  A produção do discurso lítero-musical brasileiro. – s. n. 486 f. Tese (Doutorado em Linguística Aplicada) – Curso de Linguística Aplicada, Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 2001.

DIAS, Gonçalves. Poesias. São Paulo, Agir, 1969. (Col. "Nossos Clássicos")

______. Poesias. 2ª ed. Rio de Janeiro: Agir, 1960.

ELIOT, T.S. Ensaios: Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. São Paulo: Art Editora, 1989.

FERRAZ, Bruna Fontes. A ressônancia poética na construção romanesca: memória e intertextualidade em Dias & Dias, de Ana Miranda. Revista CELL. V. 1, nº 1 p. 83- 93, 2012.

FREITAS, Carlos Rodrigues de. O desenvolvimento do conceito de intertextualidade. Icarahy, Rio de Janeiro, n.06, p. 27-42, 2011.

GENETTE, Gerard. Palimpsestos: A literatura de segunda mão. Tradução Luciene Guimarães et al. Belo Horizonte: Ed. Viva Voz, Faculdade de Letras da UFMG, 2006.

MIRANDA, Ana. Dias & Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

NITRINI, Sandra. Literatura Comparada: História, Teoria e Crítica. 3ª ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2010.

PAULINO, Graça; WALTY, Ivete; CURY, Maria Zilda. Intertextualidades: teoria e prática. Belo Horizonte: Lê, 1995.

Autor: ARAÚJO, Elton Amaral de
Coautor: NERY, Valéria dos Santos


Publicado por: Valeria

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