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A arte presente na sala de Educação Infantil

Educação

Confira aqui uma reflexão sobre a arte presente na sala aula da turma de Educação Infantil.

Diariamente, a pergunta que me faço na sala de aula de educação infantil é: Será que estou intervindo demais no desenvolvimento das crianças com relação à arte? Se o educador não souber mediar o processo pelo qual a criança está passando naquele momento, poderá prejudicar a atividade espontânea da criança? Tendo em vista essas dúvidas, venho compartilhar um pouco do trabalho realizado na sala de aula de uma escola privada de Porto Alegre, com sete alunos na faixa etária de três anos e quatro meses a cinco anos e um mês.

Procuro disponibilizar para meus alunos materiais diversos para que possam se expressar de várias maneiras. Não há no planejamento semanal um dia e hora marcados para se ter um momento dedicado às artes. Acredito que a arte deve estar presente todos os dias na sala de aula e busco uma junção entre a arte e a educação. Entendo que as crianças precisam se expressar de muitas formas, seja através do Teatro, da Música ou das Artes Plásticas. Toda a semana fazemos atividades ligadas às Artes Plásticas e ao faz de conta, presente no Teatro e a expressão corporal. Pela citação abaixo, pode-se perceber a importância de encorajar a criança ao invés de constrangê-la:

A criança pequena começa espontaneamente a exteriorizar sua personalidade e suas experiências interindividuais graças aos diferentes meios de expressão que estão a sua disposição: desenho e a modelagem, o simbolismo do jogo, a representação teatral (que procede imperceptivelmente do jogo simbólico coletivo), do canto, etc.; mas que, sem uma educação artística apropriada que consiga cultivar estes meios de expressão e encorajar as primeiras manifestações estéticas, a ação do adulto e os constrangimentos do meio familiar ou escolar tendem em geral a freiar ou contrapor-se às tendências artísticas ao invés de enriquecê-las. (PIAGET, 1954, apud FLECK, 2014, p. 1).

A Pedagogia “carrega” uma característica intervencionista, de ensinar a criança o como fazer. Tratamos muitas vezes a criança como uma tábula rasa, que nada sabe de arte e por isso precisamos dizer como pintar ou colar. O professor aponta com o dedo e diz: “É aqui que você deve colar”. Muitas vezes os professores fazem essas intervenções para que a atividade fique “bonitinha” e seja posteriormente mostrada os pais, já que alguns pais não gostariam de ver os filhos fazendo vários “riscos” sem sentido. Com a intervenção, além de influenciar a criança a fazer sempre da forma que queremos, estamos atrapalhando o seu processo criativo e formando um cidadão submisso e sem opinião.

Quando uma criança utiliza apenas uma cor de tinta, por exemplo, o professor muitas vezes não procura saber por que isso está ocorrendo. É mais fácil olhar para a criança e dizer: “Não vai mais usar essa cor, pega outra”. Ou então acontece algo que já presenciei enquanto estagiária: a professora rasgou a folha na qual a criança de três anos estava desenhando porque as cores estavam muito escuras.

Acreditando que o professor deve se (auto)avaliar sempre, no dia-dia faço anotações referentes ao processo realizado pelos alunos, sobre o como propus a atividade e como eles a desenvolveram. Também faço fotos e imagens, nas quais é possível perceber o desenvolvimento dos alunos, bem como a minha perante eles.

As Artes Plásticas e o Teatro na rotina.

Os alunos têm a sua disposição na prateleira, juntamente com os brinquedos, lápis de cor, giz de cera e folhas brancas de rascunho. Eles podem desenhar a hora que quiserem e quando solicitam a tesoura, sem ponta, eu a entrego. Eles adoram desenhar e recortar seus desenhos. Nas atividades “dirigidas” já trabalhamos com materiais diversos: argila, tinta, carvão, canetas coloridas, tinta congelada, tecido, EVA, cola colorida, tinta feita com suco de pacotinho, cola branca misturada com outros materiais (ervas, folhas, tintas). O suporte também muda, usamos pratos plásticos, CD'S, folhas brancas e coloridas (incluindo folhas pretas), papelão, papel pardo, entre outros. Estou sempre procurando novos materiais, técnicas e suportes.

O importante não é somente o material e sim a postura do professor: além de saber e compreender as etapas de desenvolvimento dos seus alunos, ele precisa estar atento ao fato de que nem sempre a criança fará a atividade da maneira como ele imaginou. Quando entrego a tesoura ao aluno de três anos não posso esperar que recorte como o de cinco anos, ou então que ambos tenham o mesmo interesse.

O Teatro não poderia ficar de fora da sala de aula, ainda mais quando tratamos de crianças. Para me ajudar em como inserir o Teatro na sala de aula, uso como referência: Olga Reverbel, Viola Spolin, Dilza Délia Dutra e Peter Slade. A oficina de Teatro acontece “oficialmente” nas sextas-feiras. Iniciamos a oficina com um aquecimento e após, com jogos de expressão corporal, damos vida a um corpo que, muitas vezes, fica “esquecido” na escola. Na hora de dramatizar, as crianças gostam de contracenar umas com as outras. Todos os dias as crianças da turma usam o jogo dramático na sala de aula e no pátio. De vez em quando, eu participo do jogo, para que todas as crianças possam participar do jogo. As crianças gostam quando os adultos e a professora participam. Dificilmente algum aluno não quer participar.

Poderia justificar o uso das Artes Plásticas dizendo que contribuem para o desenvolvimento da motricidade fina ou que o Teatro contribui para o desenvolvimento da linguagem verbal e da expressão corporal. Ora, será que a arte não pode estar presente na sala de aula por ser essencial na formação do cidadão?

A arte está na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, conforme artigo 26, parágrafo 2º: “O ensino da arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos.” Cabe ao professor interpretar a lei. Será que estamos promovendo o “desenvolvimento cultural dos alunos” quando os obrigamos a fazer as atividades do nosso modo? Mesmo que seja difícil (sim, eu sei o quanto é!) deixar de pedagogizar a arte e fazer dela algo prazeroso para os alunos, sabemos que ela é necessária para o desenvolvimento das crianças.

REFERÊNCIAS:

BRASIL. Senado Federal. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional: nº 9394/96. Brasília : 1996.

FLECK, Gisele de Cássia. A educação artística e a psicologia da criança – Piaget

Acessado em: http://www.ufrgs.br/psicoeduc/piaget/educacao-artistica dia 20 de maio de 2014 às 14 horas.

Ariane Simão de Souza é graduanda do curso de Pedagogia da UFRGS.
Currículo lattes: www.lattes.cnpq.br/6962071123667084
Para citação utilizar: SOUZA, A. S.


Publicado por: Ariane Simão de Souza

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

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