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INCLUSÃO NA EDUCAÇÃO FÍSICA

Educação Física

Veja aqui um estudo sobre a importância da Educação Física para alunos com deficiência.

Resumo: A educação inclusiva de maneira geral tem sido alvo de muitos debates ao longo dos anos. A Educação Física de maneira peculiar é parte significante e também alvo direto dessas discussões. Nesse sentido, o objetivo desse artigo é realizar uma meta-análise sobre alguns estudos significantes realizados entre os anos de 2003 e 2008, e, que trazem importantes considerações sobre a maneira que profissionais de Educação Física percebem esse processo. Após uma análise detalhada, percebemos que esses profissionais estão conscientes da importância da Educação Física para alunos com deficiência. Ao mesmo tempo, entretanto, não se sentem preparados para tal, afirmando existir uma grande distância entre o discurso teórico e a realidade prática. Como sugestões apontam a necessidade de se incluir temas mais específicos à inclusão na formação acadêmica, bem como a apoio de profissionais especializados que venham auxiliar em sua atividade prática.

Palavras-chave: Inclusão social; Educação inclusiva; Educação Física

1.Introdução

Vivemos numa época de transição caracterizada pelos intensos esforços em se colocar em prática um dos maiores desafios da sociedade: a educação inclusiva.

Esse tema, por sinal, tem sido alvo de muitos debates, de muitas discussões. No entanto, apesar dos avanços conquistados, o processo de educação inclusiva vê-se ainda imerso num imenso mar de dúvidas e incertezas. Os respaldos teóricos encontrados não são suficientes para efetivar de fato a prática da inclusão no ambiente escolar.

A Educação Física também representa parte significante na concretização desse processo. Contudo, assim como as demais disciplinas, se depara ainda com muitas dificuldades não estando totalmente preparada para lidar com esse tipo de situação.

Estamos assim, imersos numa realidade cercada de dúvidas, angústias e indagações. Partindo dessas considerações, o objetivo desse artigo é realizar uma meta-análise levantando algumas questões referentes a prática pedagógica da Educação Física escolar inclusiva, dialogando sobre as possíveis dificuldades que docentes e discentes podem apresentar, bem como também destacando algumas sugestões que possas contribuir para que a educação inclusiva realmente aconteça. Para tanto, utilizou-se artigos datados do ano 2003 ao ano 2008 que trazem importantes constatações sobre o referido tema.

2. Inclusão na Educação Física

2.1 Educação inclusiva

A educação inclusiva é descrita pelos autores como um processo que vem sofrendo inúmeras mudanças com o passar dos anos. De acordo com Sassaki, citado por Duarte e Aguiar (2005), esse processo vem acontecendo desde a década de 80. Para os autores é caracterizado como a prática de inclusão de todos, independente do seu talento, deficiência, etnia ou cultura.

Ao analisar esse processo no viés histórico, os autores destacam que importantes mudanças já aconteceram. De acordo com Rechineli et al (2008), verdadeiros absurdos aconteciam com pessoas com deficiência. Pessoas assim eram totalmente menosprezadas, destruídas ou até eliminadas da sociedade. Ou eram mortas, ou simplesmente abandonadas à própria sorte ficando a mercê de todo tipo de discriminação. A própria Igreja associava a deficiência ao pecado nesse período.

Essa visão holística e preconceituosa, de acordo com os mesmos autores, começou a mudar somente no final do século XX e início do século XXI, quando se viu a necessidade de a humanidade olhar a todas as pessoas com reconhecimento acreditando nas potencialidades e capacidades de cada um. Dentro dessa perspectiva, relatam como fator de destaque no período, o rompimento do até então paradigma excludente dando lugar à interação e valorização dos “corpos deficientes” da sociedade.

Nesse sentido, é válido destacar que a educação inclusiva tornou-se mais evidente a partir da Declaração de Salamanca que aponta importantes avanços no sentido de incluir alunos especiais em escolas regulares. Aliás, de acordo com Hegarty, citado por Rodrigues (2003), esse processo pode ser definido justamente como o desenvolvimento de uma educação apropriada e de alta qualidade para alunos com necessidades especiais na escola regular.

Entretanto, apesar dos grandes avanços conquistados em prol da inclusão, esse tema têm sido alvo de muitos debates ainda nos dias atuais. A grande verdade nesse momento destacada pelos artigos analisados, é que a inclusão de alunos com necessidades especiais, na escola regular, é o grande desafio para o século XXI. A Educação Física, por sinal, como componente curricular representa parte significativa nesse processo.

2.2 Educação Física Inclusiva

Para Rodrigues (2003), a Educação Física não pode ficar indiferente ou neutra no processo de educação inclusiva. Ela pode se constituir como um adjuvante ou até mesmo um obstáculo adicional nesse contexto, dependendo acima de tudo da maneira como fora trabalhada.

Mas antes de falar do momento presente, é preciso abordar um pouco dessa disciplina também no viés histórico. Rechinelli et al (2008), destacam as diferentes abordagens que caracterizaram a disciplina no decorrer do tempo, relacionando-as à questão da inclusão.

Segundo os autores, durante a abordagem Militar e Higienista, a Educação Física favoreceu em muito à exclusão. Isso porque, todos aqueles que não se encaixassem nos padrões de normalidade, que tivessem com algum tipo de moléstia ou deficiência física eram simplesmente proibidos de participar das aulas. Durante a abordagem Tecnicista, a exclusão também se mostrou evidente nas aulas de Educação Física, visto que somente os mais habilidosos eram valorizados. É válido destacar assim, que é somente a partir da abordagem desenvolvimentista que surgem as primeiras propostas em favor da inclusão. Os referidos autores destacam ainda outras abordagens (construtivista, crítico-superadora e sistêmica), que embora de maneira restrita, já abordavam em suas teorias princípios de uma proposta voltada à educação inclusiva. Nesse sentido, a abordagem sistêmica aparece como a primeira a discutir questões relativas à inclusão ao abordar o princípio da diversidade e da participação de todos independentemente das diferenças.

Ao falar novamente da atualidade, Rechinelli et al (2008), destacam as mudanças ocorridas na LDB e nos PCN’s, que trazem importantes avanços no sentido de facilitar a inclusão. Para eles, os PCN’s aparecem como o primeiro documento oficial a propor de forma efetiva o desenvolvimento de práticas pedagógicas voltadas à diversidade propondo a inclusão através de uma Educação Física aberta a todos, independente de suas diferenças. Aliás, os objetivos dos PCN’s em sua maioria, trazem vários elementos que favorecem à inclusão, visto que, o respeito ao outro, a cooperação e a solidariedade são amplamente valorizadas em seu contexto.

Entretanto, independentemente dos avanços conquistados na legislação no que se diz respeito à educação inclusiva, percebe-se uma grande diferença entre o discurso teórico e a realidade prática. Nesse sentido, os estudos analisados destacam as inúmeras e reais dificuldades encontradas pelos profissionais para colocar em prática de fato esse processo. Destacam também algumas vantagens.

Inicialmente, portanto abordaremos alguns aspectos positivos. Uma das vantagens citadas por Rodrigues (2003), refere-se a flexibilidade inerente aos conteúdos trabalhados em Educação Física.. Segundo o autor, o professor dessa disciplina possui uma maior liberdade em organizá-los facilitando a sua prática. Outra vantagem apontada pelo autor é de que os professores de Educação Física são vistos como profissionais que desenvolvem atitudes mais positivas perante os alunos que os demais professores, gerando assim atitudes mais favoráveis à inclusão. O terceiro aspecto destacado é que a Educação Física permite uma maior participação dos alunos nas atividades, inclusive daqueles que evidenciam dificuldades.

Entretanto, o referido autor destaca ainda importantes constatações referentes aos problemas também encontrados pelos professores de Educação Física. Assim sendo, no que se diz respeito a atitudes positivas dos profissionais, diz que não há homogeneidade e que sofrem influência de diferentes fatores. Nesse sentido, por exemplo, mulheres, professores mais experientes e que tem conhecimento do tipo de deficiência apresentam atitudes mais positivas em relação aos demais.

Outra problemática destacada ainda por esse autor, refere-se a formação dos professores, que raramente engloba aspectos referentes a Educação Inclusiva na sua formação acadêmica. Os conteúdos de informação sobre deficiência são freqüentemente inexistentes ou então pouco direcionados para a resolução concreta de problemas a serem encontrados.

O terceiro problema abordado refere-se a um número deficitário de professores de apoio que tenham formação em Educação Física. A maioria desses profissionais, são formados em outras áreas dificultando assim o auxílio aos professores de Educação Física quando assim se faz necessário.

Finalizando, Rodrigues (2003) destaca que mesmo tentando incluir, as aulas de Educação Física acabam sendo por si só excludentes. Isso porque se desenvolve numa escola cuja cultura possibilita a exclusão daqueles que não se enquadram nos padrões esperados. Da mesma forma, a cultura competitiva também pode ser um fator de exclusão, à medida que somente os melhores são valorizados desprestigiando assim a participação de todos.

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Em estudo semelhante, contudo ainda mais detalhado, Aguiar e Duarte (2005), trazem importantes constatações referentes a maneira como professores de Educação Física agem e reagem perante a proposta de educação inclusiva.

O estudo foi realizado com 67 assistentes técnicos pedagógicos de Educação Física de Diretorias de Ensino do Estado de São Paulo. Desses, 56,7 % tinham apenas graduação em Educação Física e 43,3 % tinham graduação e especialização na área. Cabe ressaltar ainda, que a grande maioria dos professores pesquisados (85%) tinha mais de 10 anos de tempo de atuação na Educação Física escolar.

Falando da pesquisa propriamente dita, os autores constataram que 82,1% dos participantes disseram ter conhecimentos sobre educação especial e Educação Física adaptada. Desses, 62,7% disseram ter obtido conhecimentos em palestras; 47,8% em leituras independentes; 38,8% em outras fontes; 29,9% em cursos de extensão; 13,4% em curso de graduação e 7,5% em curso de especialização. Vale lembrar que nessa questão os professores puderam assinalar mais de uma alternativa.

Em relação ao entendimento do conceito de inclusão, Aguiar e Duarte (2005) concluíram que 70,1% não tinham domínio da concepção da inclusão. Por outro lado, 29,1% responderam a questão apresentando alguns conhecimentos básicos de inclusão escolar, tendo uma resposta mais abrangente e significativa.

Outro dado importante apontado pela pesquisa é de que 71,6% dos professores disseram ter em suas escolas alunos com necessidades especiais e apenas 28,4% disseram não ter. Quanto ao tipo de deficiência, a maior parte era portador de deficiência física, seguida da auditiva, visual e mental.

Os autores destacam ainda que a maior parte dos professores pesquisados (62,7%), responderam que não tinham conhecimentos suficientes para incluir alunos deficientes em suas aulas. Ou seja, a grande maioria não se sente preparada para lidar com essas pessoas. Em contrapartida, como anteriormente descrito, a maior parte dos pesquisados disse ter conhecimentos sobre educação especial. Na realidade, esse fato comprova mais uma vez a grande lacuna existente entre o discurso teórico e a realidade prática. A grande dificuldade encontrada pelos profissionais é justamente concretizar tudo aquilo que o princípio da inclusão estabelece teoricamente.

Cabe ressaltar ainda, que após uma análise mais detalhada, os autores constataram que não somente os 67% não tinham conhecimento suficiente. Esse percentual sobe para 97% quando os professores foram indagados sobre a maneira que fazem para incluir alunos deficientes em suas aulas. Ou seja, dos 67 pesquisados somente 2 apresentaram respostas satisfatórias. Uma das respostas destacadas, por exemplo, é que o professor não deve dar maior atenção ao aluno deficiente. Deve, contudo, trata-lo de maneira natural, mostrando a ele que é capaz de realizar qualquer atividade. A segunda resposta convincente foi a de que o professor deve ter conhecimento das deficiências dos alunos procurando assim adequar a metodologia para que envolva a todos.

Sobre os requisitos necessários para auxiliar na inclusão do portador de deficiência nas aulas de Educação Física, os professores sugeriram cursos de capacitação e reciclagem sobre inclusão escolar; adaptação do espaço físico; material didático adequado; método adequado de ensino e apoio técnico-pedagógico especializado. Os cursos de reciclagem, por sinal, são defendidos em larga escala pelos autores do estudo, que segundo eles devem ser ministrados não somente por professores que tenham domínio teórico, mas que, sobretudo, tenham experiência prática em educação inclusiva.

Para finalizar ainda, o estudo mostra que 97% dos pesquisados acreditam que a participação do aluno portador de deficiência em aulas de Educação Física auxilia a inclusão dos alunos na comunidade escolar, facilitando a socialização, a cooperação e a aceitação dos demais alunos perante a presença de colegas com deficiência. Sendo assim, os autores destacam que a participação desses alunos no referido componente curricular pode favorecer ao desenvolvimento de atitudes constantes do paradigma da educação inclusiva. Entre as atitudes, citam a solidariedade, o companheirismo, a responsabilidade e o respeito ao outro sem discriminação de características pessoais, físicas, sexuais ou sociais. Essas atitudes, por sinal, vêm diretamente ao encontro das propostas estabelecidas pelos PCN’s, como já antes mencionado.

Nesse sentido, os estudos realizados nos mostram que ao mesmo tempo em que os professores estão conscientes da importância da Educação Física para portadores de deficiência, demonstram-se altamente preocupados com a maneira correta de agir nas mais diferentes situações que se deparam no seu dia-a-dia. Por sinal, essa é também uma das grandes preocupações de Rodrigues (2003), ao relatar que a discrepância entre as aparências e as realidades sobre as atitudes, a formação e o apoio que os professores de Educação Física dispõem é o grande desafio que paira sobre a efetivação da verdadeira inclusão no cotidiano escolar. O referido autor ainda traz importantes sugestões que poderão auxiliar para que a Educação Física realmente se torne um agente concreto de inclusão.

Como sugestão inicial, destaca que a educação motora proporcionada pela Educação Física é um direito de todos. Para tanto, não deve ser uma opção descartável ao passo que nenhum aluno deve ser dispensado dela. Outra sugestão apontada é a de que o futuro profissional deve ser formado para conhecer e aplicar conteúdos relacionados com o que se deseja que ele seja como profissional. Se por exemplo, for enfatizada a competição em sua formação, como esperar que ele valorize a cooperação em suas aulas? Da mesma forma, enfatiza que o professor deve ter um apoio especializado, que quando necessário seja específico e capaz de analisar com profundidade possíveis problemas que venham a acontecer. Por último, sinaliza que a Educação Física pode sim ser efetivamente uma área chave para tornar a educação mais inclusiva, podendo ser um agente de experimentação, inovação e de melhoria da qualidade pedagógica na escola.

3. Considerações Finais

Infelizmente, existe ainda uma grande distância entre a discussão teórica e a realidade prática no que se diz respeito à inclusão escolar. Já há algum tempo inúmeros esforços vem sendo feitos para inserir de fato esse processo no contexto escolar. Entretanto, compreendemos que as barreiras encontradas pelos profissionais da educação são muito maiores que as possibilidades até então obtidas.

Entendemos dessa maneira, que o ensino inclusivo ainda não preenche as expectativas no que se refere a qualidade do trabalho desenvolvido. O professor ainda não está preparado. A escola não está adequada. A sociedade como um todo não está consciente do seu dever. É bem verdade que alguns anos já se passaram, contudo compreendemos que as mesmas lacunas até então existentes, continuam presentes ainda nos dias atuais.

A Educação Física por sinal, como componente integrante do sistema de ensino, encontra-se também imersa nessa mesma situação. Embora consciente de sua importância nesse processo, os professores dessa disciplina também não se sentem preparados adequadamente para lidar com alunos deficientes, que por sinal são realidade presente na maioria das escolas.

Por outro lado sim, acreditamos que com muito esforço e dedicação a inclusão na escola pode sim acontecer. Para isso, todos precisam caminhar juntos buscando alternativas que venham a efetivar na prática tudo aquilo que está descrito teoricamente. A persistência é fundamental nesse processo, visto que a educação inclusiva ainda é um aprendizado e que certamente ocorrerá de forma lenta e gradual em nosso país.

Para finalizar, cremos que o ponto de partida para que a inclusão de fato aconteça seja a conscientização de todos. É preciso assim, formar uma sociedade que não somente aceite e valorize as diferenças individuais, mas que aprenda, sobretudo, a conviver com a diversidade humana por meio da compreensão e da cooperação.

Referências:

AGUIAR, J.S; DUARTE, E. Educação inclusiva: um estudo na área da Educação Física. Disponível em < http: www.scielo.com.br. Acesso em 23 de abril de 2010.

RECHINELI, A. et al. Corpos deficientes, eficientes e diferentes: uma visão a partir da Educação Física. Disponível em < http: www.scielo.com.br. Acesso em 23 de abril de 2010.

RODRIGUES, D. A Educação Física perante a educação inclusiva: reflexões conceptuais e metodológicas. Disponível em < http: www.scielo.com.br. Acesso em 23 de abril de 2010.

Tanise Concli - Especialista em Educação Física Escolar com ênfase: em recreação, saúde e fisiologia. Faculdade de Educação e Tecnologia da Região Missioneira-FETREMIS.
Carla Vasconcelos de Menezes - Mestre em Educação. Faculdade de Educação e Tecnologia da Região Missioneira-FETREMIS.


Publicado por: Carla Vasconcelos de Menezes

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