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ANÁLISE DAS CONDIÇÕES ERGONÔMICAS DOS PROFESSORES NO AMBIENTE LABORAL: UM ESTUDO DE CASO

Doenças e Saúde

As consequências na saúde dos professores causadas pelas dificuldades ergonômicas, condições de trabalho nas instituições e domicílios, riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e de acidentes.

RESUMO

Este artigo apresenta um estudo de caso sobre a análise dos riscos ergonômicos que docentes são expostos, almejando identificar seus impactos na saúde desses profissionais. Para nortear o estudo, buscou-se entender quais as consequências na saúde dos professores causadas pelas dificuldades ergonômicas físicas e organizacionais. A metodologia empregada foi quantitativa e qualitativa, aplicou-se uma pesquisa de campo com 29 questões, obtendo-se respostas de 83 indivíduos, com idades entre 18 e 74 anos, atuantes em diferentes níveis escolares, em Instituições Particulares, Estaduais, Municipais e Federais. As questões aplicadas eram relacionadas às condições de trabalho nas Instituições e domicílios, considerando-se aspectos ergonômicos. Com esse estudo conclui-se que os professores são colocados em riscos no exercício de sua função, tem sua qualidade de vida comprometida devido às dores crônicas e estes resultados reforçam a necessidade das Instituições organizacionais se preocuparem com esta questão, e elaborar o PPRA, CPMSO e atividades relacionadas ao assunto.

Palavras-chave: ergonomia; professor; saúde do trabalhador.

INTRODUÇÃO

O local de trabalho pode conter riscos que afetam a saúde do colaborador, e tais riscos apresentam-se na forma de poeiras, ruídos, calor, bactérias, produtos químicos ou provenientes da estrutura organização (MINISTÉRIO DO TRABALHO, 2018). Diante dos fatores levantados pelo MTE, a docência é umas das profissões que mais expõe o trabalhador a riscos, pois os professores estão sujeitos a riscos biológicos devido ao contato com inúmeros alunos, a riscos específicos como químicos ou insalubridade de acordo com sua área de atuação, riscos físicos e ergonômicos. A Unesco (2004) evidencia que, no Brasil, muitos profissionais dessa classe, além dos desafios acima citados, para compor um salário digno tem acúmulo de cargo em duas ou mais Instituições e acabam por enfrentar uma carga laboral superior às 44 horas/semanais como é previsto no art 318 da Lei 13. 415/2017 (BRASIL, 2017) ou as 8 horas/diárias recomendada na Lei 5.452/1943 art. 58 (BRASIL, 1943). Perante esse cenário, não é incomum nos depararmos com vários desses profissionais queixando-se de dores crônicas.

Os efeitos prejudiciais à saúde derivados da atividade produtiva têm sido uma preocupação dos autores desde o final do século XIX. (MENÉNDEZ-NAVARRO, 2019). Há diferentes pesquisas sobre a qualidade de vida associada às condições de trabalho. Nos estudos de Brasil et. al, (2008); Oler et. al, (2006); Monteiro et. al, (2007); as dores em diversas partes do corpo são as principais causas de perda de qualidade de vida dos colaboradores em diversos setores produtivos; acredita-se, portanto, que o mesmo ocorra com os professores Rêgo & Oliveira (2017).

Essas dores seriam causadas muitas vezes pela postura inadequada durante a execução de seu trabalho (escolar ou domiciliar), quando o local de trabalho não é saudável do ponto de vista antropométrico, biomecânico e fisiológico. Tais fatores, em conjunto, acabam por levar muitos casos de absenteismo ou até mesmo a necessidade de readaptação do trabalhador (RORATO & ESTENDER, 2019)

Docentes, de forma geral, independente dos níveis de escolaridade em que lecionam, não recebem a mesma atenção em relação à qualidade de condições de trabalho dada pelos empregadores de outros setores e, neste caso, as características do seu ambiente de trabalho não são apontadas como relevantes na motivação e conquista de resultados. Esta desvinculação pode ocorrer pelo fato dessa profissão não gerar lucro financeiro direto, como ocorre na indústria ou em outros segmentos.

Considerando as condições de trabalho apontadas, esse estudo se mostra bastante relevante, pois assim como qualquer outro colaborador, os docentes necessitam de condições de trabalho seguras e preventivas, que são garantidas pela legislação trabalhista. A Constituição Federal (1988) prevê que todos os trabalhadores têm direito a um ambiente de trabalho seguro e saudável (BRASIL, 1988). Assim como no art. 157 da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) de N° 5.452/1943 (BRASIL, 1943) é previsto a responsabilidade das empresas em fazer cumprir as normas de segurança e medicina do trabalho e informar os empregados sobre os riscos de acidentes do trabalho ou doenças ocupacionais.

Segundo Martins (2004), na condição de profissionais habilitados em educação, os docentes atuantes nas instituições Públicas ou Privadas, devem seguir as orientações jurídicas previstas na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) de N° 5.452/1943 (BRASIL, 1943) e a Lei N°9.394/1996 (BRASIL, 1996) que dispõe as Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB).

Sabe-se que, assim como em diversas áreas do estudo e desenvolvimento tecnológico que se destacaram durante e após a Segunda Guerra Mundial; com a ergonomia não foi diferente, embora sejam encontrados relatos anteriores a esse período, foi apenas após a terceira década do século passado que se encontrou um maior número de pesquisas relacionadas à avaliação e adaptação do espaço e ferramentas do trabalho aos funcionários. (ABRAHÃO & PINHO (2002), HUSE & CUMMINGS (1985)).

A Portaria nº 3.751/1990 estabelece a Norma Regulamentadora – 17 (BRASIL, 1990), que traz a definição de ergonomia que atende aos interesses do presente trabalho: a ergonomia é a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar um máximo de conforto, segurança e desempenho eficiente.

De acordo com a Secretaria de Inspeção do Trabalho (2002) e (MENÉNDEZ-NAVARRO, 2019), as características “psicofisiológicas” referidas na norma acima citada, dizem respeito a todo o conhecimento referente ao funcionamento do ser humano, em relação aos aspectos fisiológicos, antropológicos e psicológicos.

Para Rorato & Estender (2019), o emprego da ergonomia nas organizações promove resultados positivos para a saúde dos colaboradores e inúmeros benefícios para a mesma, e estas afirmações são baseadas nas melhorias significativas da eficiência e produtividade do colaborador quando este trabalha em condições adequadas, porém os autores concluem também que além do fator econômico, o maior benefício é a preservação do capital humano.

BRASIL, a portaria N° 3.751/1990 traz diversas resoluções sobre as condições de trabalho adequadas, o item 17.3.2.1, por exemplo, diz que os postos de trabalho devem atender aos critérios de conforto mínimo, tendo altura ajustável à estatura do trabalhador. Contudo, a realidade dos docentes tem se mostrado bem adversa e são frequentes os casos de queixas sobre as condições laborais, somados a sintomas psicossomáticos. Logo, uma associação entre ambos os aspectos parece ser algo necessário e inevitável.

Os docentes avaliados por Paschoal & Silva (2018) foram expostos a riscos ocupacionais, e esses, por sua vez, são constituidos por diferentes fatores que alteram o bem-estar do trabalhador, e que de certa forma acabam engendrando patologias físicas, e estas se tornam um dos principais motivos de ausências no trabalho, de acordo com os autores.

A portaria 3.214/1978 institui a Norma Regulamentadora – 9 (BRASIL,1978), que estabelece a obrigatoriedade do Programa de Prevenção de Riscos Ambientais – PPRA, que trata basicamente de um programa de higiene ocupacional que visa à proteção do trabalhador no ambiente laboral, devendo ser implantado pelas empresas juntamente com o Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional – PCMSO.

De acordo com Trivelato (2013), o PPRA é um documento fundamental para a proteção e saúde dos trabalhadores, e também para uma boa gestão de segurança e medicina do trabalho. Toda empresa, portanto, independente do número de colaboradores ou do grau de risco de sua atividade, são obrigadas a elaborar e implementar o PPRA, que irá atuar na prevenção e o controle da exposição ocupacional aos riscos ambientais. (MIRANDA & DIAS, 2004).

Consideram-se riscos ambientais os agentes químicos, físicos, biológicos, ergonômicos e os riscos de acidentes de trabalho. Estes fatores são capazes de causar danos à saúde e à integridade física do trabalhador em função de sua natureza, concentração, intensidade, suscetibilidade e tempo de exposição. (SANTOS, 2012).

Viegas et.al (2015) diz que a prevenção e controle dos riscos ambientais presentes nos locais de trabalho são controlados e monitorados a partir do mapeamento dos riscos e seus graus. O grau de risco é uma combinação entre o grau de efeito a saúde, e o grau de exposição de um dado agente em relação aos limites de tolerância (Miranda & Dias 2004). Sabe-se que esses agentes são muitos específicos, variando de ambiente para ambiente. Então, pode-se dizer que um determinado docente pode estar exposto à um risco em uma instituição e não estar em outra.

De acordo com Santos (2012), os riscos ambientais ou profissionais estão divididos em cinco grupos: riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e de acidentes.

Sobre os fatores de risco ergonômico, Sousa et. al. (2005) identificou as posturas adotadas pelos trabalhadores no seu desempenho profissional nas funções e atividades fisicas e manuais que obrigam a adoção de posturas como: hiperflexão ou hiperextensão da coluna dorso-lombar, sobrecargas musculares, pressão sobre os nervos, plexos nervosos e cartilagem infra-articular dos joelhos.

Riscos ergonômicos estão ligados a fatores externos do ambiente e interno do plano emocional, em síntese, quando há disfunção entre o indivíduo e o posto de trabalho. Estes riscos são contrários às técnicas de ergonomia, que propõem que os ambientes de trabalho se adaptem ao homem, proporcionando bem estar físico e psicológico.

Pensar na prática docente como uma atividade laboral saudável, longe de riscos ocupacionais, é pensar em uma profissão isenta de problemas que possam levar o trabalhador a se afastar ou deixar o trabalho (MARTINS, 2004; VIEGAS et. al 2015).

O presente artigo traz um estudo de caso que propõe a análise dos riscos ergonômicos aos quais os docentes são expostos, almejando, portanto, analisar a ergonomia física e organizacional, assim como, seus impactos na saúde desses trabalhadores. Para nortear o estudo, buscou-se responder à seguinte questão: quais são as consequências na saúde dos professores causados pelas dificuldades ergonômicas físicas e organizacionais.

MÉTODOS

Os métodos cientificos aplicados neste estudo foram qualitativos e quantitativo, ou seja, com a intenção de permitir uma análise completa, buscou-se com uma pesquisa de levantamento. Este tipo de pesquisa foi definida por Pereira et.al (2018) como realizada através da observação dos fenômenos, tendo posteriormente a aplicação de um questionário ou entrevista. Em relação as questões aplicadas neste estudo, as mesmas foram abertas com respostas livres e fechadas, ou seja: dicotômicas, nominais politômicas, limitadas contínuos e ordinais politômicas, que permitiram a análise do conteúdo qualitativa. Nesse estudo, a análise permeia os aspectos sobre as condições de trabalho dos colaboradores frente a riscos ergométricos, suas causas e consequências sobre a saúde.

Devido à complexidade do assunto, para se evitar equívocos na interpretação dos sintomas apontados pelos professores, houve-se a necessidade de elaborar perguntas que investigassem a ocorrência de outros riscos, como: químicos (poeira do pó de giz), físicos (ruídos) e de acidentes (condições dos pisos e a necessidade de subir escadas).

A aplicação de tal método gerou dados quantitativos que foram analisados por estatística descritiva, através dos gráficos gerados pelo Google documentos, que faz uso das funções estatísticas presentes no software Excel Office como, por exemplo: CONT.SE, CONT.SES e outras, possibilitando as análises dos resultados.

Para aplicação da pesquisa de levantamento foi elaborado um questionário contendo 32 questões, sendo que 23 questões eram dicotômicas, 2 questões nominais politômicas, que se refererem ao nível de escolaridade que lecionam e a origem das intituições, uma questão caracterizada como ordinal politômica, sobre os locais em que os docentes sentem dores, o questionário possuía ainda duas questões limitadas contínuos (sobre o ruído e o tempo de trabalho) e duas abertas com respostas dissertativas (idade dos entrevistados e sugestões de melhorias ergonômicas no setor de trabalho). A fim de indicar os aspectos centrais da pesquisa, 19 (dezenove) questões tinham caráter pessoal e 10 (dez) relacionadas ao posto de trabalho. O restante pertencia ao cabeçalho de identificação, sendo requeridas as seguintes informações: nome (campo de preenchimento optativo), sexo, idade, nível de escolaridade em que leciona e a origem da organização.

Para a elaboração do questionário foi utilizado o Google Forms, e o formulário gerado teve seu endereço eletrônico compartilhado por meio da plataforma de mensagens instantâneas Whatsapp. Inicialmente, o questionário foi compartilhado com 396 participantes dos grupos dessa plataforma, sendo esses professores das redes municipais, estaduais, federais e particulares de educação de diferentes níveis escolares, que receberam o convite para participar e compartilhar a  enquete, para coleta de dados. Este material ficou disponível durante quinze dias para preenchimento e forneceu, como resposta, um grupo de 83 indivíduos.

A opção por utilizar os recursos tecnológicos e as ferramentas da Web 2.0 na obtenção de dados neste trabalho mostrou-se vantajosa, principalmente por ter os recursos financeiros, e tempo, escassos para aplicação do estudo. Pode-se dizer que além dessas justificativas, há outras vantagens como as descritas por Mathias & Sakai (2013), Silva et.al. (2018), que seriam a possibilidade de acesso a plataforma em qualquer local ou horário, a economia de espaço no disco rígido, o fato de ser um serviço gratuito, a facilidade de uso do Google Forms, que não requer conhecimento de programação, e apresenta uma interface amigável, mostra-se mais interessante aos entrevistados do que a intervenção física. A aplicação eletrônica é sustentável, sendo ambientalmente correta por não possuir geração de resíduos ou passíveis ambientais como papel.

ANÁLISE DE RESULTADOS

Para o desenvolvimento deste trabalho, em torno de 400 professores receberam a solicitação de preenchimento de um questionário sobre as condições ergonômicas dos docentes no ambiente laboral. O questionário foi disponibilizado em um link através do Google Forms e compartilhado por WhatsApp, este método de realização foi selecionado na intenção de atingir um maior número de docentes. O questionário permaneceu disponível para preenchimento entre os dias 05/03/2019 e 20/03/2019. Neste período 83 formulários foram respondidos formando assim o grupo a ser estudado.

Sobre as características desse grupo cerca de 70 % eram sexo feminino e 30 % do sexo masculino; com idades entre 18 e 74 anos. Levantou-se em qual nível de escolaridade que estes professores lecionam, e 11,5 % trabalham na educação infantil, 14,1 % no ensino fundamental, 24,1 % no ensino médio, 41 % no ensino técnico e 37,2 % atuam no ensino superior. A somatória das porcentagens foi superior a 100 %, indicando que muitos destes docentes têm acúmulo de cargo em níveis de escolaridade diferentes, o que era possível selecionar ao responder este questionário. Porém, o mesmo não possibilitava mais de uma seleção no mesmo nível de escolaridade, caso houvesse esta possibilidade, acreditasse possivelmente, esse acúmulo seria ainda maior.

Em relação às Instituições, o maior número de entrevistados trabalha em Instituições Estaduais (48,7 %), seguido pelas Instituições Particulares (32,1 %), 12,8 % nas Instituições Municipais e 6,4 % trabalham em Instituições Federais.

Em relação ao tempo de trabalho na área acadêmica, 33,3 % estão lecionando há mais de 16 anos, 17,9 % há mais de 11 anos, 24,4 % há mais de 6 anos, 14,1% de 2 a 5 anos e 10,3 % está lecionando há menos de 1 anos. Estes dados são importantes para que se possa relacionar o tempo de serviço com doenças crônicas, afastamentos e readaptações.

No questionário, foi perguntada a carga horária semanal do professor disponibilizada para os trabalhos referentes às disciplinas que lecionam, e as respostas estão apresentadas na (Figura 1). Em relação a este parâmetro, 46,2 % dos entrevistados tem uma jornada de trabalho de 20 a 40horas/semanais, demonstrando o respeito das Instituições de Ensino frente à Legislação vigente, 40 horas/semanais. Porém, 20,5 % dos entrevistados relataram ter uma jornada acima das 44 horas/semanais, 9 % trabalham entre 50 e 60 horas/semanais e uma percentagem de 12,8 % indicou ter uma jornada superior a 60 horas/semanais. Estas percentagens indicam que dentre os 83 entrevistados 45 profissionais tem uma carga horária acima da estabelecida na CLT.

Figura 1. Carga horária indicada pelos professores referente às atividades relacionadas as disciplinas.

Analisando as respostas referentes à carga horária, esperava-se que a maioria dos professores cumprisse a carga de no máximo 40 horas/semanais, o que não foi observado, pois menos da metade dos entrevistados trabalham com esta carga horária. Uma interpretação para estes resultados pode ser aspectos relacionados à necessidade do docente em buscar um número maior de aulas, almejando conseguir uma remuneração mais compatível com os gastos necessários para ele e sua família. Dentre os professores, 53,8 % não ultrapassaram a carga de 40 h/semanais em uma única Instituição, mas na somatória das Instituições que lecionam esta carga horária foi ultrapassada. Novamente, pode-se relacionar esta situação à má remuneração das Instituições em relação aos valores de hora/aula e ao não pagamento da hora atividade que algumas Instituições Particulares, principalmente de nível superior, optam por não fazer, ou não fazem nos moldes que Instituições Públicas ou de Ensino Básico possuem.

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Outro dado evidenciado na pesquisa foi que apenas 15,4 % dos professores dizem ter uma doença de trabalho diagnosticada (Figura 2), esse percentual não aponta a profissão como segura para a saúde, e talvez seja um indício de que muitos desconhecem ter certas patologias ou não às relacionam com o ambiente laboral. Esta dúvida em relação ao número de casos de doenças serem inferiores às percentagens reais pode ser justificada no sentido de que 56,4 % disseram sentir dores crônicas e 28,2 % já foram afastados do trabalho por motivos de saúde, mas não relacionaram estas dores como sendo causadas pelo trabalho (Figura 3). Dentre as respostas, os lugares de dores mais apontados foram: a coluna lombar e cervical, cabeça, ombros, pescoço, braços, mãos, pernas e pés. Outros lugares como garganta, olhos, nariz e coluna dorsal, também foram mencionados, porém, com menor incidência. Nenhum entrevistado respondeu sentir dor no ouvido (Figura 4).

Figura 2. Percentagem de doenças diagnosticadas (não psicológicas).

Figura 3. Percentagem de afastamento do trabalho de docentes por motivo de saúde.

Figura 4. Locais apontados pelos professores que responderam ao formulário em relação aos locais do corpo em que sentem dores.

Complementando as informações apresentadas anteriormente, 28,2 % dizem já terem sido afastados do serviço por doenças não psicológicas e 3,9 % são readaptados em outras funções, esse número corresponde quase 5% de todo o grupo estudado.

O maior número das Instituições (61,3 %) disponibilizam para os professores quadros negros, o que gera a necessidade de dar aulas com a utilização de giz, o que, do ponto de vista ambiental das condições de trabalho, essa estrutura não seria a mais indicada, pois o pó do giz trata-se de um risco químico[1], e causam diversas patologias com graus variados de complicação. Considerando as respostas obtidas, pode-se observar que 51,9 % dos entrevistados disseram ter problemas alérgicos nas vias respiratórias, e 17,9 % tem alergias nas mãos causadas pelo giz, ou mesmo pela tinta da caneta utilizada, quando usam quadro branco.

Ainda sobre as estruturas físicas das Instituições, mais da metade dos participantes (50,6 %) afirmaram que não há piso anti-derrapante nas salas de aula, e a maioria (62,3 %) respondeu que nas salas de aula a iluminação é suficiente. Em relação ao barulho no ambiente de trabalho, 35,9 % acha o ruído adequado, 56,4 % relata que o som é alto, muito alto ou até mesmo insuportável [2]; e apenas 7,7 % identifica o ruído como baixo.

Os aspectos fisiológicos que podem estar relacionado com este ruído são os problemas vocais gerados nos profissionais por terem que elevar o tom de sua voz em períodos prolongados. O que pode ser comprovado pela indicação de que 48,7 % dos entrevistados afirmarem sentir rouquidão com frequência (Figura 5), indicando que o professor usa o sua voz de forma inadequada, por longo período de tempo, e como apresentado também, sabe-se que não há treinamentos adequados para isso. A Figura 6 demonstra que 94,8 % dos docentes disseram nunca ter recebido nenhuma informação sobre ergonomia ou treinamento em seu ambiente de trabalho.

Figura 5. Professores que sentem roquidão com frequência

Figura 6. Percentagem de professores que receberam orientação em sua Instituição de ensino sobre ergonomia.

Dentre as questões existentes no questionário, foi perguntado sobre a necessidade de se subir escadas para dar aulas e sobre o peso que o professor carrega no deslocamento das aulas. A Figura 7 indica que 85,9 % precisam subir escadas para dar aula e ainda obteve-se de resposta que 48,7 % disseram que necessitam carregar mais de 7 kg nas bolsas ou mochilas, o que pode ser uma das influências nas dores sentidas nos pés, pernas e coluna [3].

Figura 7. Percentagem de professores que responderam sobre a necessidade de subir em escadas para dar aulas.

Outro fator que pode influenciar em dores nas costas, joelhos, nervos e articulações, diz respeito ao mobiliário utilizado pelo docente, e questões foram formuladas para avaliar este fator no trabalho e em suas residências. Foram questionados ajustes adequados de quadro em sala de aula, cadeiras, mesas, suportes de computadores e livros, entre outros. Em relação ao quadro para as aulas, um maior número de docentes (89,6 %) disse que a lousa não apresenta ajuste para a altura do professor, sendo que 58,4 % precisam ficar nas pontas dos pés, agachados e/ou com os braços esticados para expor o conteúdo da aula no quadro. Esse é outro motivo que pode ser apontado como causador de patologias.

A respeito da mesa da sala de aula e da sala dos professores, 87 % diz não ter suporte para livros ou notebook, que seriam instrumentos que poderiam prevenir lesões na coluna cervical, pescoço e ombros. Sobre as condições das cadeiras, o número é ainda mais impactante, pois 88,3 % dos docentes disseram que as cadeiras não têm ajustes anatômicos e os professores ficam com as pernas penduradas ou encolhidas, 93,4 % disseram que as cadeiras não têm apoio para os braços, e 98,7 % que não há suporte para apoio dos pés.

Foi também feita uma questão para buscar uma comparação das estruturas encontradas nas Instituições de Ensino com as que estão presentes nas residências dos docentes. Neste sentido, 82,1 % dos entrevistados disse ter em sua hora atividade, realizada em casa, uma estrutura melhor do que as disponíveis nas escolas.

O questionário trouxe ainda uma pergunta sobre o hábito de passar protetor solar para trabalhar, considerando a exposição prolongada à luz, e 67,9 % responderam que não passam protetores diariamente. Sabe-se que muitos docentes não trabalham sob o sol, mas os mesmos são expostos a muitas horas de luz, que também agridem a pele.

Muitos docentes não posicionaram sua opnião frente as possíveis melhorias ergonomicas no trabalho, sobre isso pode-se apontar sem certeza a pressa do cotidiano, a falta de motivação por saber que a profissão encontra-se em declínio ou falta de conhecimento sobre o assunto. Das respostas que se obteve diversas fugiram do objetivo da questão, apontando problemas como excesso de aluno nas salas de aula, flexibilidade e controle da iluminação, ventilação, necessidade da redução da carga horária, melhores salários, mais respeito por parte das instituições, entre outras. Porém houve docentes que conseguiram entender o foco da pesquisa e apontaram a necessidade da elaboração do mapa de risco e do PPRA e também sugeriram a ginástica laboral, treinamentos, palestras e mais divulgação do assunto. Nesta questão uma resposta se destacou: a docente do ensino infantil apontou que em seu ambiente de trabalho não há mesas e cadeiras para melhor segurança das crianças, mas isso dificulta o trabalho e a saúde física, pois o esforço para exercer o planejamento escrito e as atividades e muito maior. Pode-se concluir após relato dessa profissional que a ginastica laboral é de suma importancia na manutenção da integridade física dessas professoras.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pode-se concluir nesse estudo de caso que os docentes são expostos aos riscos ambientais, e que é fundamental a elaboração do PPRA e PCMSO nas Instituições acadêmicas para prevenção da saúde e qualidade de vida dos professores. Conclui-se também que com o passar dos anos de trabalho em condições não favoráveis, cerca de 5 % dos docentes serão afastados ou readaptados; e mais da metade destes terão queda na qualidade de vida, causada por dores crônicas. Essas dores são causadas pela falta de estrutura adequada no ambiente de trabalho, como apontada nesse estudo.

Em uma leitura generalista das instituições, pode-se dizer que a saúde física e a qualidade de vida são prejudicadas, pois esses profissionais nas funções adotam posturas como: hiperflexão ou hiperextesão dos braços, ombros, pernas, pés, da coluna dorso-lombar e cervical, que há sobrecargas musculares, pressão sobre os nervos, plexos nervosos e cartilagem infra-articular dos joelho, desencadeado pelo peso carregado no deslocamento para suas aulas.

A profissão docente tem perdido credibilidade perante o poder público e social, e com as dificuldades econômicas que o país vem enfrentando nos últimos anos, impulsionou a procura em exercer a profissão como forma de complementação da renda familiar, pricipalmente nos níveis de educação técnica e superior em Instituições Particulares; pois estes níveis de formação são os menos exigentes em relação à formação pedagógica e científica dos docentes. Essa informação pode ser concluída em vista de que um pouco mais de 10 % dos entrevistados tem menos de um ano de atuação e que 48,8 % destes atuam num período inferior a cinco anos. Pode-se dizer então, que tal problemática leva a descaracterização da docência como profissão e retarda o progresso da saúde ocupacional nesta área.

Conclui-se também que os docentes não recebem instruções ergonômicas e treinamentos específicos, tornando-se esse um desconhecedor dos riscos que é exposto, e por esses motivos desconhece as agressões que se submete em seu ambiente laboral. Em busca de uma remuneração justa e satisfatória esses profissionais colocam sua saúde em risco.

O mobiliário não apresenta ajustes às variações anatômicas dos professores, indicando que as Instituições não investem da forma certa em infraestrutura na sala de aula, pois não proporcionam segurança ao colaborador. Além de capacitações acadêmicas, o professor não recebe treinamentos em ergonomia e não é auxiliado por fonoaudiólogas. Não foi possível perceber, nesse estudo, uma diferença expressiva em relação às Instituições Particulares; que de forma geral proporcionam ao docente as mesmas condições de trabalho do que as públicas.

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[1] Os riscos químicos são provocados por agentes e substâncias químicas, sob forma líquida, gasosa ou partículas e poeiras minerais e vegetais. Mauro, et.al . (2004). As poeiras alcalinas como calcário ocasiona doença pulmonar obstrutiva crônica e enfisema plumonar Santos, (2012).

[2] Os altos níveis de ruídos encontrados no ambiente escolar provocam queixas entre os docentes como: dor de cabeça, cansaço mental, baixa concentração, rouquidão, irritação e estresse. Silva (2018).

[3] Os discos lombares suportam pressões diferentes de acordo com a faixa etária, pois com o envelhecimento há uma redução da resistência do disco lombar. Finocchiaro, et.al (1978)

Por Rejane Gonçalves da Rocha - Aluno do curso de Engenharia de Segurança do Trabalho e Májida Farid Barakat - Orientador


Publicado por: Rejane Rocha

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