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O quê a educação pode fazer em tempos de pandemia: desafios no chão da escola

Atualidades

Abordagem da educação em tempos de pandemia.

Frente à pandemia de COVID-19, causada por um vírus altamente transmissível e de alcance planetário, o isolamento social foi apontado como estratégia diante a um quadro social complexo marcado pelo insuficiente investimento na área social e grande vulnerabilidade de ampla parte da população.

Em meio ao prolongado distanciamento social, multiplicação dos casos e incertezas diárias cerca de 190 países fecharam escolas e milhares de crianças e jovens foram sujeitados à necessária suspensão das aulas para impedir à propagação do novo coronavírus gerando entre outras demandas, a necessidade de reflexão contínua sobre meios para assegurar o direito à saúde e à vida de todos os membros da comunidade escolar sem, no entanto, colocar os demais direitos em risco.

Webnários sobre o tema passaram a ocorrer em profusão, os logaritmos divulgam diariamente uma enxurrada de sugestões de ferramentas informacionais para “salvar a educação” e algumas pesquisas começam a ser realizadas para auxiliar na tomada de decisões.

No entanto, as dúvidas e a preocupação em como apoiar os estudantes faz com que o estresse dos professores se acumule diante a tantas possibilidades anunciadas, nem sempre propostas com conhecimento real do que ocorre no chão das escolas ou firmadas em concepções educacionais sólidas, vindo as inúmeras e miraculosas soluções apontadas confundir mais do que esclarecer.

Diante à pressão que o setor educacional brasileiro está sofrendo para implementar de maneira aligeirada a Educação à Distância a notícia da tradução de um documento guia elaborado com consulta a noventa e oito países se mostra promissor.

O texto foi elaborado por Andreas Schleicher, diretor da área de educação da OCDE e por Fernando Reimers, professor de educação de Harvard, e se propõe a apresentar algumas das possíveis estratégias a serem tomadas pelos sistemas de educação diante à pandemia.

Muitos profissionais de educação terão uma história para contar sobre as estratégias imaginadas ou desenvolvidas durante este período. Certamente você conhece um professor que já pensou ou testou possíveis estratégias.

Porém, é necessário considerar que ao se tratar de educação estamos falando de uma área na qual os profissionais e os beneficiários precisam ser considerados para a tomada de decisões, sendo o respeito à diversidade princípio basilar, o que leva a necessidade de atentar para o impacto da interrupção prolongada dos estudos.

Primeiramente é necessário atentar ao fato de que ocorre perda de aprendizagens ao longo da suspensão das atividades letivas, principalmente junto aos estudantes de menor renda, e, em segundo, a gama de condições variadas a que os estudantes estão submetidos certamente ampliam as lacunas de oportunidades e acentuam as diferenças, dentre as quais se destacam:

  • Diferenças entre os alunos em relação ao apoio das famílias, que lhes pode ou não proporcionar apoio no processo de aprendizagem;
  • Diferenças na capacidade de cada unidade escolar de apoiar a aprendizagem dos estudantes remotamente;
  • Diferenças entre os estudantes em relação à sua resiliência e motivação para os estudos
  • Diferenças nas habilidades para aprender com apoio de recursos informacionais e realizar aprendizagem autodirigida

A diferença não é fator limitante, pois a troca de saberes pode ajudar na elaboração de respostas educacionais eficazes e, nessa direção ganha força a importância da cooperação é a troca de conhecimentos sobre o que as escolas e os professores estão fazendo para promover oportunidades educacionais a milhares de crianças e jovens afastados dos bancos escolares.

Com essa perspectiva, a leitura atenta do guia indica algumas possibilidades, a serem reelaboradas dentro da realidade de cada município, considerada a identidade de cada escola e de sua comunidade. No caso específico apontamos a necessidade de redobrada atenção para os municípios menores, com população entre 20 e 50 mil habitantes, dado a estes apresentarem estrutura técnica e financeira nem sempre compatível às necessidades.

Tal consideração e a consulta direta aos professores atuantes nessas localidades levou a identificação de quinze ações passíveis de desenvolvimento com vistas a mitigar o impacto da pandemia no setor educacional:

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  1. Estabelecer um comitê gestor com representação de segmentos que tragam perspectivas importantes e diversificadas para elaborar e desenvolver um plano para a promoção de oportunidades educacionais durante a pandemia;
  2. Desenvolver um cronograma e meios para uma comunicação segura, frequente e regular entre os membros do comitê, durante o período em que o distanciamento social estará em vigor;
  3. Estabelecer princípios para orientar a estratégia, com vistas a fornecer parâmetros e estabelecer foco para as iniciativas a serem realizadas;
  4. Estabelecer mecanismos de cooperação com os órgãos de saúde pública para que as ações de educação estejam em sintonia e ajudem a avançar os objetivos e estratégias de contenção da pandemia;
  5. Reelaborar continuamente o calendário escolar reduzindo o impacto sobre estudantes e professores;
  6. Definir claramente os papéis e expectativas dos professores para orientar e apoiar eficazmente a aprendizagem dos alunos na nova situação;
  7. Redefinir os objetivos curriculares e o que deve ser aprendido durante o período de distanciamento social;
  8. Elaborar um plano de ensino para o período de instrução presencial e remota;
  9. Propor soluções para a recuperação do tempo de aprendizado depois que o período de distanciamento social terminar;
  10. Realizar após o fim do período do distanciamento social o censo tecnológico da comunidade escolar, para averiguação da efetiva disponibilidade de dispositivos e conectividade;
  11. Identificar meios de garantir os recursos necessários para fornecer dispositivos e conectividade aos estudantes de baixa renda e professores;
  12. Promover a formação continuada dos professores para orientar e apoiar a aprendizagem autodirigida dos alunos e o uso de tecnologias informacionais - TICs;
  13. Criar um site para comunicação com professores, alunos e pais sobre objetivos curriculares, estratégias e sugestões de atividades e recursos adicionais;
  14. Se uma estratégia de educação online não for viável, desenvolver meios alternativos de ensino como programas de TV, DVD, podcasts, transmissões de rádio e pacotes de aprendizagem, seja em formato digital ou em papel;
  15. Cada escola deve desenvolver um plano de continuidade de operações.

O cenário social mais amplo demonstra que as dicotomias alardeadas por setores descompromissados com o bem coletivo, não colaboram para elaboração de proposições que efetivamente respeitem os direitos humanos. Assim, se a pandemia não reduz a responsabilidade das autoridades públicas a optar entre salvar vidas ou a economia, também não reduz a opção tão somente entre fazer ou não uso de tecnologias informacionais.

Evidências apontam que os sistemas educacionais não estão preparados para oferecer à maioria dos estudantes oportunidades de aprendizagem on line, as escolas não apresentam condições tecnológicas, os professores não estão suficientemente seguros em promover o engajamento no aprendizado remoto e os estudantes não tem conectividade ou habilidades para desenvolver aprendizagem autodirigida, além de que as plataformas, sistemas e inúmeros outros recursos atualmente disponíveis não estão suficientemente avaliados por pesquisas independentes para saber se cumprem as promessas anunciadas e conseguem promover a efetiva aprendizagem.

Diante às sugestões postas e consideradas as incertezas imperantes é certo que a educação e seus profissionais precisam ser respeitados e as soluções não se resolvem com um clique.

Referências

REIMERS, Fernando. Schleicher, Andreas. Um roteiro para guiar a resposta educacional à Pandemia da COVID-19 de 2020.1. Tradução para o português por Raquel de Oliveira e Revisão por Teresa Pontual e Claudia Costin. 2020.

FREITAS, Luiz Carlos. EAD, tecnologias e finalidades da educação. Blog do Freitas. Publicado em 17/04/2020

 

Vera Capucho é historiadora, mestre em educação e cursou doutorado na Universidade Nacional de La Plata/Arg. Membro da Red de Estudios Teóricos y Epistemológicos em Política Educativa – RELEPE. Atua como pesquisadora do HISTED-BR/UFSCAR e do NEPEDH/UFPE e especialista educacional na rede pública de ensino.


Publicado por: Vera CAPUCHO

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