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Entre o Depoimento e a Ficção: Trauma, Memória e Efabulação em António Lobo Antunes

Atualidades

Lobo Antunes aborda de forma crítica o autoritarismo salazarista, o romance, trata das memórias e também do estado na qual estas são concebidas e externadas e, consolida o pensamento coletivo e histórico à maneira de representar uma repulsa pelo que aconteceu na época.

No último quartel do século XX, tornaram-se ressurgentes as representações de memória nas mídias. Estas consistem nas  rememorações dos episódios de violência extrema vividos nas décadas anteriores ao fim do milênio (dos quais destaca-se o Holocausto judeu com a reclusão forçada, o extermínio em massa de pessoas e a permissão da maldade humana em potencial aos que se encontravam abaixo da suposta supremacia ariana). Pôde-se então lidar com o mal não como acaso divino, mas uma condição possível. Suas diferentes representações de depoimentos individuais passados requerendo a sua não-repetição. Sintetizando: a apresentação da supressão da alteridade e a representação massiva de suas consequências trágicas, visam a resgatar o passado para trazer um futuro onde eventos semelhantes não se repitam.

Tais fenômenos midiáticos não condizem com a fissura futurizante do início do mesmo século. Andreas Huyssen, no ensaio Passados Presentes: mídia, política, amnésia, diz que no decorrer do tempo houve “uma volta ao passado que contrasta totalmente com o privilégio dado ao futuro, que tanto caracterizou as primeiras décadas da modernidade do século XX” (HUYSSEN, 2008, p.9). Enquanto no início do século se desejava um futuro que rompia com o passado cronologicamente ligado a ele e se almejava a criação do Homem Novo, conforme imaginado pelos ideais nazifascistas ou estalinistas, vemos, a partir de meados da segunda metade do século XX, uma preocupação crescente com uma reavaliação crítica dos acontecimentos traumáticos do passado.

O holocausto, tido como divisor da visão tempo-espaço desde sua ampla replicação, serviu de gancho aos discursos de memória emergidos no final do milênio. Entretanto, mais do que servir apenas como representante de um trauma específico, o Holocausto foi cada vez mais se tornando um norteador, um evento-tipo que introduz no campo da moral o dever de memória para que nada similar a ele ocorra novamente. Servindo, dessa maneira, como grau de comparação para outras episódios de violência extrema, como a guerra da Bósnia, o massacre do Kosovo, as guerras coloniais, as ditaduras latino-americanas, entre outros. “O Holocausto perde sua qualidade de índice do evento histórico específico e começa a funcionar como uma metáfora para outras histórias e memórias”. (HUYSSEN, 2008, p.13). Sendo assim, o Holocausto universalizou a fissura em passado e abriu novas, num leque de depoimentos nacionais de eventos também trágicos.

Percebe-se também, que pela magnitude da violência causada na Segunda Guerra Mundial, os seus retratos vêm com viés revisionista recontando a história pela ótica das suas vítimas, não apenas dos vencedores como anteriormente. Márcio Seligmann-Silva, em Reflexões sobre a Memória, a História e o Esquecimento, referenciando Walter Benjamin, trata da figura do historiador num catador de trapos onde se deve:

salvar os cacos do passado sem distinguir os mais valiosos dos aparentemente sem valor; [porque] a felicidade do catador-colecionador advém de sua capacidade de reordenação salvadora desses materiais abandonados pela humanidade carregada pelo ‘progresso' no seu caminhar cego” (SELIGMANN-SILVA. 1999. p.77).

Para tal, é preciso trabalhar também a perspectiva do depoimento individual, coletar testemunhos para construir a história. Assim, há um esforço de contato com essa experiências individuais, que se encontram no subjetivo, no traumático, a fim de  documentá-las:

Não há mais aqui nem representação nem identificação, mas somente uma aproximação atenta daquilo que foge tanto das justificações da razão quanto das figurações de arte, mas que deve, porém, por elas ser lembrado e transmitido: a morte sem sentido algum, morte anônima e inumerável que homens impuseram a outros homens – e ainda impõem. (GAGNEBIN, 2009, p. 81)

A relação entre depoimentos e revisão crítica dos acontecimentos passados recupera a dialética entre memória e história. Entretanto, tratando-se de eventos de extrema violência, que desafiam os limites da representação, como lidar com a incapacidade de transmitir o ocorrido gerada pelo trauma? Os ambientes de batalha após a eclosão das grandes guerras, consistiam em espaços que rompiam com a expectativa dos que ali se encontravam: o inimaginável dos corpos empilhados e da morte de pelotões inteiros em segundos.

os combatentes voltavam mudos do campo de batalha não mais ricos, e sim mais pobres em experiência comunicável. [...]

Não havia nada de anormal nisso. Porque nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadas que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela guerra de material e a experiência ética pelos governantes. (BENJAMIN, 1936, p. 198)

O fenômeno de experiências sofridas, seus traumas absorvidos, e as revisões desse passado traumático feitos na procura de sua reflexão, foi presente a partir da experiência dos Campos nazistas, dos Gulags, dos manicômios, das guerras modernas, entre outros. Essa rememoração crítica do passado passou, portanto, a mediar experiências semelhantes aos campos e às batalhas na Europa, como, por exemplo, a Guerra colonial de Angola. Fenômeno traumático e marcante na sociedade portuguesa durante e após a época salazarista. A presente comunicação centra-se no romance Os Cus de Judas, de 1979, do psiquiatra, escritor e ex-tenente António Lobo Antunes, onde, o personagem, que partilha diversas vivências com o autor, narra suas experiências como médico de campanha durante a guerra colonial em Angola. Nesse sentido, o objetivo desta comunicação é pensar, a partir dos conceitos desenvolvidos até aqui, as relações entre memória e história, literatura e depoimento em Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes.

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A relação entre o personagem e as memórias do autor em Os Cus de Judas remete ao conceito de autoficcionalização, onde o indivíduo retira experiências da própria vida para compor seu personagem num processo de investigação psicológica de seu passado. Nesse sentido, por mais que seja calcado em elementos do real, o romance não se afasta da efabulação enquanto busca da representação literalizada do trauma no pós-guerra. O romance consiste num narrador em primeira pessoa falando das suas experiências da guerra para uma mulher que conhece num bar. Como essas experiências se converteram em trauma, há traços deste no que é narrado. O conteúdo do romance é extremamente gráfico e sugere uma perspectiva ‘caleidoscópica’ do vivido, onde as lembranças do passado retornam ao seu corpo de forma patológica, mimetizando operações mnemônicas ao embaralhar tanto o espaço geográfico quanto o tempo cronológico. A ida à guerra se mistura com a infância do personagem narrador e o espaço do romance transita entre Portugal e Angola de forma elástica, caracterizando um indivíduo fraturado por suas vivências traumáticas.

Além das vivências do autor, o jogo temporal e espacial da narrativa pode ser pensado como uma forma de subversão dos mitos de fundação ideológica do salazarismo, que eram inculcados nos soldados mandados para a guerra. Ideais como o nacionalismo, Deus, a pátria e o respeito às hierarquias funcionavam como promessas que, quando confrontadas com a realidade da guerra colonial se mostravam vazias e enganosas. Idealizações da realidade que contrastavam com a experiência da guerra e são constantemente contrapostas ao longo do romance, reiterando um efeito de presença obsessiva do passado no presente do personagem narrador:

Trazíamos vinte e cinco meses de guerra nas tripas, vinte e cinco meses de comer merda, e beber merda, e lutar por merda, e adoecer por merda, e cair por merda, nas tripas, vinte e cinco intermináveis meses dolorosos e ridículos nas tripas, de tal jeito ridículos que, por vezes, à noite, no jango de Marimba, desatávamos de súbito a rir, na cara uns dos outros, gargalhadas impossíveis de estancar, observávamos as feições uns dos outros e a troça escorria-nos em lágrimas de piedade, e de escárnio, e de raiva, pelas bochechas magras, até que o capitão, com a boquilha sem cigarro entalada nos dentes, se sentava no jipe e principiava a buzinar, espantando os morcegos das mangueiras e os insetos fantásticos de Angola, e nos calávamos como as crianças se calam a meio do seu choro, olhando as trevas em torno numa surpresa imensa. (ANTUNES, 1979, p. 106)

Memória individual e a memória coletiva se entrelaçam. As vivências descritas pelo personagem narrador são, nesse sentido, memórias não apenas de um indivíduo, mas de diversos combatentes que retornaram diferentes dos campos de batalha, empobrecidos de experiências comunicáveis. No romance Os Cus de Judas, ambos planos se representam plasticamente nas memórias do narrador. No pelotão pairam o trauma e a incomunicabilidade pós-guerra. O primeiro por se absorver da expectativa inimaginável e a segunda, por contrastar com a ausência de  comparativos e linguagem para narrar o que aconteceu:

Quem veio aqui não consegue voltar o mesmo, explicava eu ao capitão de óculos moles e dedos membranosos colocando delicadamente no tabuleiro, em gestos de ourives, as peças de xadrez, cada um de nós, os vivos, tem várias pernas a menos, vários braços a menos, vários metros de intestino a menos [...] a guerra tornou-nos em bichos (LOBO ANTUNES, 1979, p. 123).

No espaço romanesco a verdade pode ser concebida não apenas pela representação do que de fato aconteceu, mas por meio daquilo que seria verossímil. Nesse sentido, o autor aqui trata da vivência não necessariamente como testemunhal, mas como experiências relacionáveis àqueles que participaram da guerra colonial. Assim, a efabulação do romance é calcada nas relações de memória, não apenas individuais, como as coletivas e gerais ao homem contemporâneo ao final do século XX, o que, não necessariamente, diz respeito apenas ao português. A memória é descrita pelo traumático e o traumático vem com a desordem concebida pela vivência do ambiente. Ambos sugerem nova matéria romanesca para construir o estado das memórias do protagonista.

Conclui-se, que as memórias, ao fim do século XX tomaram um papel midiático, histórico e artístico que tinha como objetivo sua própria representação por meio do depoimento e do histórico para que tragédias de escala mundial, como genocídios e preconceitos nunca mais se repetissem. O traumático, por corresponder a vivências radicalmente subjetivas, serviu como material de estudo da história, do documental e como via de novas possibilidades de produção literária. No romance em questão, Lobo Antunes aborda de forma crítica o autoritarismo salazarista, consolidando na obra também o pensamento coletivo e histórico à maneira de representar uma repulsa pelo que aconteceu na época. O romance, embora trate das memórias, também trata do estado na qual estas são concebidas e externadas. Retrata o trauma, recorre à memória e busca a efabulação, tudo não apenas do horror universal da guerra, mas da massa em confusão que pode ser gerada interiormente após esta.


Publicado por: Israel Natã de Almeida Francisco

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
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