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COVID-19: a maior tragédia da história brasileira: passamos de 100 mil óbitos

Atualidades

Análise sobre COVID-19: a maior tragédia da história brasileira e as principais pandemias.

A pior crise sanitária e a maior tragédia brasileira de todos os tempos. No Brasil, os primeiros casos importados foram notificados em São Paulo, com passageiros egressos da Itália.

Como o vírus é novo e têm-se pouco conhecimento de sua gravidade e comportamento em saúde pública, nas várias partes do mundo, a Organização Mundial de Saúde decretou Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, em 30 de janeiro de 2020.

Em três meses, a covid-19 matou no Brasil mais do que outras doenças, catástrofes naturais, tragédias e mazelas urbanas, como a violência, problema endêmico no País.

A pandemia é uma epidemia que ocorre em todo o mundo mais ou menos ao mesmo tempo. Pandemias são mais prováveis com novos vírus. Como não temos defesas naturais contra eles ou medicamentos e vacinas para nos proteger, eles conseguem infectar muitas pessoas e se espalhar facilmente e de forma sustentada.

HISTÓRICO DAS PANDEMIAS

PANDEMIA DO SÉCULO XIV – PESTE NEGRA

A peste negra foi uma pandemia que matou cerca de um terço da população que habitava o continente europeu em meados do século XIV. A doença era disseminada a partir das pulgas que continham a bactéria causadora da peste (Yersinia pestis).

Na Era Medieval, era comum a morte dos pacientes entre 2 e 7 dias após o aparecimento dos sintomas. Hoje em dia, com o avanço da medicina, a doença pode ser tratada e a taxa de mortalidade por peste negra é baixa. O tratamento é feito com antibióticos e há a necessidade de isolamento durante cerca de 6 dias.

Foi uma das mais devastadoras pandemias na história humana, resultando na morte de 75 a 200 milhões de pessoas na Eurásia.

PANDEMIA DE 1889 – 1890

A pandemia de influenza de 1889 e 1890 foi a última do século XIX e a primeira da “era bacteriológica”. Ocorreu na Rússia, São Petesburgo, e rapidamente se disseminou pela Europa, Ásia e América. A gripe que acometia a Europa, onde foi chamada de Morbus maximus epidemicus, e teria chegado ao Brasil, no porto de Salvador, em um navio vindo de Hamburgo, na Alemanha, e se espalhado pelo País. Não se tem registro sanitário do número de brasileiros afetados nem a morbidade e letalidade.

PANDEMIA DE 1918 – 1920 – A GRIPE ESPANHOLA

A pandemia de origem duvidosa, começou na Ásia ou nos campos militares no interior dos Estados Unidos da América, devido ao intenso  movimento de transporte de tropas das nações aliadas, e teve  a designação espanhola pelo fato de que a Espanha, neutra na 1ª Guerra Mundial, fez notificação oficial à Organização Mundial de Saúde sobre a doença que devassava vidas no país com grande contagiosidade, morbidade e letalidade.

Essa pandemia foi marcada por extrema abrangência, agressividade e contagiosidade, acreditando-se que teria vitimado 38 milhões de pessoas na Europa e na América. Embora em muitas partes do mundo não existam dados, estima-se que tenha infectado 50% da população mundial, 25% tenham sofrido uma infecção clínica e a mortalidade total tenha sido entre 40 e 50 milhões. O número de 20 milhões de mortes, citado com frequência, é visivelmente muito baixo.

No Brasil, os números de doentes e mortos são estimados e variáveis. Em São Paulo e Rio de Janeiro, as maiores cidades brasileiras na época, estima-se que morreram pelo menos 35.240 pessoas devido à gripe. Dentre essas vítimas está o 5º presidente do Brasil, o advogado e Conselheiro do Império, o Sr. Francisco de Paula Rodrigues Alves.

O agente biológico causador da doença foi identificado como o vírus do tipo A (H1-N1), introduzido no país por tripulantes do navio inglês "Demerara" que, saindo de Liverpool, na Inglaterra, atracou e desembarcou passageiros nos portos de Recife, Salvador e Rio de Janeiro. 

PANDEMIA DE 1957 -1958 – GRIPE ASIÁTICA

Originária da China, no continente asiático, essa influenza levou a óbito 4 milhões de pessoas e afetou cerca de 40% a 50% da população mundial. 25% a 30% desta, apresentou a forma clínica benigna típica da doença, enquanto a maioria faleceu de pneumonia bacteriana secundária.

O agente causal dessa pandemia foi o vírus Influenza A/Cingapura/1/57(H2N2), com as glicoproteínas HA e NA diferentes de todos os tipos anteriores, que substituiu o Influenza A (H1N1), que circulava no mundo desde a pandemia de 1918-1920. O isolamento do vírus aconteceu primeiramente no Japão, em 1957, seguido dos Estados Unidos e Inglaterra, no mesmo ano.

Atingindo todos os continentes, a gripe asiática (H2N2) resultou num número estimado de 4 milhões de mortes com 1/4000 da população mundial infectada.

No Brasil, a notificação da gripe asiática foi registrada durante o inverno nos meses de julho e agosto na cidade de Uruguaiana-RS, tendo sido identificado o mesmo vírus (H2N2), cepa Cingapura. A gripe se espalhou de Uruguaiana por todo o território nacional, com maior morbidade nas grandes capitais. Não se tem precisamente o número de infectados e mortes registrados oficialmente no Brasil.

PANDEMIA DE 1968 – 1969 – GRIPE DE HONG KONG

Uma variação genética do H2N2, o H3N2, deu origem a Gripe de Hong Kong, cujo vírus foi identificado e isolado nessa cidade chinesa em 1968, com maior incidência de 40% na população de faixa etária de 10 a 14 anos, e hospitalização e mortalidade entre idosos, jovens e indivíduos com riscos definidos em doenças crônicas e  cardiopulmonares.

No Brasil, a doença não teve maiores agravos de morbidade, mortalidade e letalidade, sendo considerada um episódio sazonal de poucos prejuízos sanitários e de saúde. Os sintomas provocados por este vírus são os clássicos da clínica de gripe: febre alta com início agudo, cefaleia, dores articulares, constipação nasal e inflamação de garganta e tosse. Em alguns casos pode haver vômito e diarreia, sendo estas manifestações pouco frequentes e mais comuns em crianças.

PANDEMIA DE 1977 – 1978 – GRIPE RUSSA

Essa epidemia considerada pelos epidemiologistas, sanitaristas e historiadores como “Benigna”, teve origem em outubro de 1977 na Rússia e um ano após estava disseminada pelo mundo. O tipo A (H1-N1), de origem suína, mostrou a capacidade do suíno de, como hospedeiro, recombinar o vírus e transmiti-lo ao ser humano. Jovens com menos de 20 anos e crianças foram as faixas etárias mais atingidas, registrando-se alta mortalidade e morbidade nesses grupos etários, principalmente nos países de clima frio do leste europeu e na Ásia.

PANDEMIA 2003 -2004 – GRIPE AVIÁRIA

Em 1997, foi registrada na Ásia, a transmissão de um vírus de Influenza aviária para humano. O (H5N1), como foi denominado, de alta patogenicidade, se espalhou rapidamente pela Europa, Ásia e África. A partir de 2003, o vírus tem sido detectado sazonalmente em países asiáticos e africanos com alta morbidade e letalidade.

Estudos mais recentes mostram que esse vírus pode infectar vários tipos de aves e até mamíferos, o que requer das autoridades sanitárias vigilância epidemiológica e sanitária permanente.

Como segundo maior produtor de carnes de aves do mundo, face a esse novo agravo à saúde humana e animal, o Brasil, através do MAPA, instituiu um Programa Oficial de Vigilância para o vírus da Influenza Aviária (IA).

O monitoramento permanente do MAPA, em todo o Brasil, revelou que, no período 2004-2007, houve reação sorológica positiva em aves de produção comercial em Rondônia; isolamento do vírus IA (subtipo H3) em aves capturadas em sítios migratórios no Pará e Pernambuco e identificação de subtipos H2, H3 e H4 em aves de subsistência nos Estados do Amazonas, Pará, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Desde o ano 2000, o Brasil implantou o Plano Nacional da Vigilância da Influenza, estabelecida com base nas redes de unidades de saúde sentinela e de laboratórios, com os seguintes objetivos: “monitorar as cepas do vírus de influenza que circulam nas regiões brasileiras; avaliar o impacto da vacinação contra a doença; acompanhar a tendência da morbimortalidade associada à doença; responder a situações inusitadas; detectar e oferecer resposta rápida à circulação de novos subtipos que poderiam estar relacionados à pandemia de influenza; produzir e disseminar informações epidemiológicas”. (Costa L, Pandemias de Influenza).

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Em 2005, por Decreto Presidencial, foi criado o Grupo Executivo Interministerial (GEI), com a finalidade de acompanhar e propor as medidas emergenciais necessárias para a implementação do Plano de Contingência Brasileiro para a Pandemia de Influenza, cuja primeira versão foi apresentada em novembro daquele ano. O GEI era composto por representantes de 16 órgãos da Presidência da República e Ministérios.

PANDEMIA DE 2009 – GRIPE A (H1N1) – GRIPE SUÍNA

A primeira pandemia do século XXI teve origem no México, no dia 07 de abril de 2009, sendo o vírus isolado no dia 23 de abril por americanos e canadenses no Laboratório do Centers for Disease Control – CDC de Atlanta, EEUU. Tratava-se do tipo A (H1N1) de origem suína e que a Organização Mundial de Saúde-OMS classificou como tipo A (H1N1) pdm 09 – Gripe Suína.

A gripe suína de alta contagiosidade e virulência se espalhou rapidamente do México para a Europa, Canadá, Sudeste asiático, África e América Latina. No período pós-pandêmico, que durou até agosto de 2010, tinha atingido 214 países infectados, causando morte de 18.500 pessoas e infecção de 575.400.

No Brasil, em 2009, foram notificados 88.464 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), dos quais 50.482 foram confirmados como influenza A (H1N1). 2.060 óbitos. O Estado do Rio de Janeiro teve uma das maiores prevalências da doença do país, sendo 5.293 casos de SRAG, com 2.777 casos confirmados.  A taxa de mortalidade foi de 1.1 para cada 100 000 habitantes.

As maiores taxas de mortalidade foram observadas em pessoas com idade entre 50 e 59 anos e de 30 a 39 anos, e em crianças menores de 2 anos de idade. Cerca de 75% das mortes ocorreram em indivíduos com doenças crônicas subjacentes.

PANDEMIA DE 2019 - SARS-CoV-2 – COVID-19

O 'distanciamento ou afastamento social' envolve um conjunto de ações que busca diminuir a velocidade de disseminação de uma doença contagiosa. Isso é essencialmente feito limitando o número de pessoas com quem você tem contato.

Os investigadores admitem que existem ainda várias incógnitas, como saber ao certo se o vírus continuará a circular depois desta primeira onda - cenário que consideram provável - se se torna endêmico como outros coronavírus ou a gripe e se, nesse caso, haverá um ou mais surtos por ano, o que vai depender da imunidade conferida pela exposição à doença.

Se não for permanente, os modelos apontam para surtos anuais ou a cada dois anos, o que também vai depender da imunidade de grupo - como evolui a percentagem da população com defesas, que a equipa estima mais uma vez que tenha de chegar aos 70% para funcionar como barreira contra a doença.

Os modelos dos investigadores de Harvard sugerem ainda que os surtos com início nos meses de outono/inverno tenderão a ter picos maiores, mas o SARS-COV-2 pode proliferar em qualquer altura. Certo parece também que, após, o levantamento das medidas, o vírus tende a reaparecer, mas a equipe constata que uma maior supressão de contatos e mais prolongada no tempo poderá levar a surtos maiores. Um alerta que poderá ser tido em conta numa fase em que a maioria dos países europeus estuda a melhor forma de reabrir a economia e planejar um regresso à normalidade. "Medidas de distanciamento social mais longas e restritivas nem sempre se correlacionam com maiores reduções do pico da epidemia. No caso de um período de 20 semanas de distanciamento social com uma redução de 60% no R0 (o número de contágios causado por cada doente infectado). A equipe diz que os cenários apontam para as maiores reduções do pico de infeções quando as medidas conseguem dividir os casos de forma igual entre ondas - dos cenários em que as medidas de distanciamento social são temporárias, a equipa conclui que medidas com uma duração de 20 semanas (cinco meses) mas moderadas (uma redução de 20% a 40% nos contatos) produzem nos modelos as epidemias com picos menos elevados de casos e menor dimensão final.

A China usou de medidas de isolamento e testagem em massa, chegando a testar até 10.000 pessoas em um único dia, fechou comércios, escolas e fronteiras rapidamente, mediu a temperatura das pessoas, rastreou aqueles com quem os infectados tinham tido contato, testaram e isolaram. Agora vivem um momento de casos praticamente zerados. O perigo agora é outro, uma volta brusca as atividades pode levar a uma segunda onda de casos e mortes, já que é pouco provável que uma parte relevante da população tenha se tornado imune (apesar de quase 100 mil casos, lembre-se que a China é o país mais populoso do planeta). Por isso o retorno será gradual e embasado em dados epidemiológicos e mantendo distanciamento social e vasta testagem na população.

O Brasil superou neste sábado (8) a triste marca de 100 mil mortes pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2), segundo levantamento do consórcio de veículos de imprensa a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde. O total de óbitos registrados é de 100.240, com 2.988.796 casos de Covid-19.

Segundo a chegar aos 100 mil mortos, Brasil teve rápida alta de casos está ao lado dos Estados Unidos em relação aos países que já registraram mais de 100 mil óbitos por COVID-19. Estados Unidos superaram 161 mil óbitos e se aproximam de 5 milhões de casos. A diferença é enorme em relação ao Reino Unido, que está na terceira posição, com 46.651 vidas perdidas. Na América Latina, o México é a segunda nação que mais teve mortes por coronavírus, com 51.311.

A primeira vítima no Brasil foi uma mulher de 57 anos, que morreu em São Paulo em 12 de março, a morte foi divulgada no dia 17 daquele mês. Desde então, foram menos de cinco meses até a marca de 100 mil mortes. A Covid-19 deixou mortos em 3.692 dos 5.570 municípios brasileiros, ou 66,2% do total.

Os números que colocam o Brasil em destaque negativo já superam o total de mortos em eventos como a Gripe Espanhola (35.240 mortos) a Guerra do Paraguai (50 mil soldados mortos). Em outro comparativo, é possível apontar que apenas 324 dos 5.570 municípios brasileiros tinham, em 2019, mais de 100 mil habitantes, segundo o IBGE.

O descaso, a falta da devida importância com a doença, a falta de uniformidade nas medidas de prevenção e de distanciamento social levaram o Brasil para a maior tragédia de sua história com o maior número de óbitos e de contaminados em um evento em todos os tempos. 

Referências bibliográficas

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Publicado por: Benigno Núñez Novo

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