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A MIDIATIZAÇÃO DA INFÂNCIA

Atualidades

Relacionar a midiatização, conhecida popularmente como divulgação de algo por meio da mídia, com a infância abordando suas influências e consequências para as crianças e a sociedade como um todo.

RESUMO

O presente artigo trata-se de um estudo sobre a midiatização da infância. Essa pesquisa tem por objetivo geral relacionar a midiatização, conhecida popularmente como divulgação de algo por meio da mídia, com a infância abordando suas influências e consequências para as crianças e a sociedade como um todo. De acordo com o estudo bibliográfico desenvolvido, é possível mostrar que a comunicação se moldou a essa “nova” fase cheia de oportunidades para o mercado, uma vez que a infância não foi realidade para muitos indivíduos. Para o embasamento teórico se utilizou, primordialmente, o livro de Stig Hjarvard: A midiatização da cultura e da sociedade, além de outros textos e artigos de estudiosos do assunto. Por fim, o estudo constatou que o processo de midiatização da infância é reflexo da transformação porquê passou essa fase aliada ao desenvolvimento da comunicação na sociedade.

Palavras-chaves: Midiatização. Infância. Comunicação. Criança.

ABSTRACT

This article is about a study on the mediatization of childhood. This research has as a general objective to relate the mediatization, popularly known as the dissemination of something through the media, with childhood addressing its influences and consequences for children and society as a whole. According to the bibliographic study developed, it is possible to show that communication has shaped this "new" stage full of opportunities for the market, since childhood was not reality for many individuals. For the theoretical basis, the book of Stig Hjarvard was used primarily: The mediatization of culture and society, as well as other texts and articles by scholars of the subject. Finally, the study found that the process of mediatization of childhood is a reflection of the transformation, because this stage allied to the development of communication in society.

Keywords: Mediatization. Childhood. Communication. Child.

1. INTRODUÇÃO

A midiatização diz respeito às transformações estruturais de longa duração na relação entre a mídia e outras esferas sociais (HJARVARD, 2014) sendo assim, passamos constantemente por tais mudanças e provocamos novas a cada dia, pois a mídia e a sociedade já são indissociáveis no século XXI. Nesse contexto, após a leitura do livro base desse artigo: A midiatização da cultura e da sociedade de Stig Hjarvard, em que pude conhecer amplamente o tema, é perceptível a ligeira transformação da infância frente as “novas” formas de comunicação e suas enunciações. Quais foram de fato as mudanças que a infância sofreu? Elas prejudicam o desenvolvimento das crianças como cidadãs? A mídia alterou a vida das crianças? Por que a mídia ver no público infantil um grande mercado consumidor? Essas são alguns dos questionamentos que sugiram após a leitura base desse artigo e suas respostas reafirmam a extensa relação entre mídia e sociedade.

Nesse contexto, a midiatização da infância é uma temática contemporânea e nesse artigo é discorrida com atenção para o tempo atual, sem esquecer de olhar para o passado e suas propostas futuras. A contemporaneidade é uma singular relação do indivíduo com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, dele toma distâncias (AGAMBEN, 2009); segundo Nietzsche ainda, por seu aluno Roland Barthes, o contemporâneo é o intempestivo, o inesperado.

Dessa forma, embora a reflexão sobre os pontos positivos e negativos desse processo no contexto do leitor também sejam profícuos, o propósito maior do presente estudo foi relacionar o processo da midiatização com a fase da infância, a fim de detectar algumas de suas influências e consequências para a sociedade.                                                                                                                           

2. MIDIATIZAÇÃO: O QUE É?

Segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (DPLP), midiatização é um substantivo feminino que significa ato de midiatizar. Mas, além da definição da palavra, a midiatização é ainda usada como um conceito para descrever o processo de expansão dos diferentes meios técnicos e considerar as inter-relações entre a mudança comunicativa dos meios e a mudança sociocultural. Entretanto, muito embora vários pesquisadores utilizem o conceito de midiatização, cada um lhe dá o significado que melhor lhe agrada. Desse modo, o conceito de midiatização é tratado com múltiplas vozes, mas aqui nos restringiremos ao básico para a compressão do assunto maior discutido.

O jornalista filósofo brasileiro Paulo Gasparetto (apud GOMES, 2008) dá uma maior amplitude a midiatização dizendo que ela “nos coloca numa outra galáxia que supera a chamada Aldeia Global; é um processo mais avançado do que uma simples retribalização; a Galáxia Midiática (ou midiatizada) cria o fenômeno da glo(tri)balização”, sinalizando a possibilidade da busca de uma visão mais unificada da sociedade. Neste sentido, a midiatização estrutura-se como um processo mais complexo que traz no seu interior os mecanismos de produção de sentido social.

Ou seja, a sociedade em que vivemos não é só a “comunidade” mediada pelos meios, mas a sociedade permeada por processos e técnicas midiáticas (SODRÉ, 2002). Ao referir-se às transformações sociais viabilizadas pelas tecnologias, Sodré lembra que a mídia e as tecnologias de comunicação produzem transformações importantes no modo de presença do indivíduo do mundo contemporâneo. Em sua essência, o campo midiático é responsável por promover conexões e interações entre os campos sociais. Os campos estão sendo exigidos pelas aceleradas inovações tecnológicas e as rápidas mudanças socioculturais, a redefinir suas estratégias, seus discursos, suas posições.

A midiatização gera “efeitos”; não somente “efeitos” de uma consequência imediata e unilateral, mais também de consequências longas e imparciais como é o caso do que vai ser explanado nos próximos tópicos desse artigo: a midiatização na infância.

3. A TRANSFORMAÇÃO DA INFÂNCIA

Os dicionários da língua portuguesa registram as palavras infância como o período de crescimento que vai do nascimento até o ingresso na puberdade, por volta dos doze anos de idade, e criança como menino ou menina no período da infância. Segundo a Convenção sobre os Direitos da Criança, aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em novembro de 1989, "criança são todas as pessoas menores de dezoito anos de idade". Já para o Estatuto da Criança e do Adolescente (1990), criança é considerada a pessoa até os doze anos incompletos. Não há um consenso em relação a definição de criança, mas sim ao período da infância.

Infância tem um significado genérico e, como qualquer outra fase da vida, esse significado é função das transformações sociais: toda sociedade tem seus sistemas de classes de idade e a cada uma delas é associado um sistema de status e de papel (FROTA, A. M. M. C., apud KHULMANN, 1998).

O sentimento de infância na sociedade data a partir do século XIX, pois antes disso, as crianças eram tratadas como adultos em miniatura ou pequenos adultos (ÀRIES, 1978). Os cuidados especiais que elas recebiam, quando os recebiam, eram reservados apenas aos primeiros anos de vida, e aos que eram mais bem localizados social e financeiramente. Após o período da Segunda Guerra Mundial, a industrialização e urbanização separaram lar e espaço de trabalho e aos poucos diminuíram a importância das crianças para a força de trabalho, a criança passou de um lugar sem importância a ser o centro da família. Ao mesmo tempo, a ampliação do ensino obrigatório implicava que as crianças e jovens passariam as primeiras duas ou três décadas de suas vidas fora das instituições da sociedade adulta. Mas, claro que essas condições e inovações não alcançaram homogeneamente a todos, já que em pleno século XIX existem crianças trabalhando, longe da educação.

Estudos divulgados no livro Teorizando a Infância em 1998 comprovam que no passado as pesquisas privilegiavam o conceito da criança como um “vir a ser”, isto é, como um ser humano “em desenvolvimento”, considerando as diferentes etapas de sua formação desde a infância até a idade adulta; as pesquisas mais recentes, por sua vez, consideram muito mais a criança como um “ser”, isto é, como criatura já dotada de caráter social e cultural. Ou seja, as correntes de pesquisas mais recentes consideram a criança como um indivíduo ativo e autoconfiante que interage com seu ambiente de diversas maneiras, sem necessariamente ser guiado por um caminho completo de desenvolvimento rumo à idade adulta. Com efeito, a infância se converteu, gradualmente, em um domínio autônomo de experiência e de cultura separadas do mundo adulto. Atribui-se ao mundo infantil uma série de valores positivos, como diversão, fantasia e criatividade em contraste com o penoso fardo que o trabalho, a rotina e os deveres impõem ao mundo adulto. Na realidade, as crianças passam muitos anos em outro mundo social, o mundo da escola, da família e do lazer, com normas distintas do mundo adulto.

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Nesse sentido, a célere expansão do mercado de consumo no período do pós-guerra também fez crescer as oportunidades e a importância das atividades de lazer nessa cultura que se desenvolvia. O ato de brincar tornou-se em grande medida uma atividade mental que envolve, entre outros processos, imaginação, planejamento, simulação, comunicação, representação de papéis, entrelaçados com a manipulação de representações e narrativas audiovisuais. A atividade física ainda é, até certo ponto, um componente necessário do ato de brincar, mas a manipulação de objetos já não envolve a mesma ação sensório-motora concreta (HJARVARD, 2014). Os brinquedos e brincadeiras pouco recordam a vida dos pais como outrora, blocos de madeira, bonecas e pique-esconde são muito inferiores aos atrativos smartphones e vídeo games que conectam as crianças com todo o mundo.

Em suma, as transformações porque passou o mundo da infância também se refletiram no tratamento midiático dispensado a esses segmentos da população, incluindo a escolha dos veículos de comunicação quanto aos tópicos e ao modo de dirigir-se às crianças.

4. O PROCESSO DE MIDIATIZAÇÃO DA INFÂNCIA

A transformação da infância abordada no tópico anterior deste artigo se esbarra no início do processo de midiatização deste grupo pelo contato e interação com os meios de comunicação. Não apenas os brinquedos e as brincadeiras materialmente foram modificados, mas também as ideologias e intenções que eles carregam para o seu público. Há meio século, os brinquedos para as crianças eram miniaturas da realidade dos adultos para distrair e ensinar os menores, hoje, no entanto, como aqueles habitam mais o mundo imaterial e virtual as intenções com essas brincadeiras são maiores que apenas diversão, elas representam a criação de novos e potenciais consumidores para um mercado em ascensão.

Paralelamente à modernização e à crescente afluência que marcaram a segunda metade do século XX, um maior número de famílias de baixa renda no mundo ocidental adquiriu espaço doméstico suficiente para que os filhos tivessem seus próprios quartos; com a quantidade crescente de dispositivos de mídia presentes nos lares em geral, o ambiente doméstico se torna mais individualizado e privado (HJARVARD, 2014). Esse fator, aliado a um maior tempo dos pais dedicado ao trabalho, devido a demanda do mercado capitalista, reduz o tempo de convívio destes com seus filhos. Nesse sentido, as grandes indústrias passaram a voltar suas ações e campanhas para esse grupo agora vulnerável e sedento de distrações particulares. 

Nesse contexto, a televisão teve papel fundamental com a introdução de programas e desenhos com características que atraíssem as crianças como cores vibrantes, músicas ritmadas e personagens fictícios. Até que se institucionalizou, nos anos 50 nos Estados Unidos, o horário fixo infantil: as tardes da semana e as manhãs de sábado e esse foi o ponto de partida para a interação entre a indústria da mídia e a indústria de brinquedos. Nesse período, as empresas de brinquedos infantis começaram a propagar seus produtos e o crescimento abrupto dos seus lucros abriu portas para o início do consumismo infantil.

A desregulamentação da televisão norte-americana intensificou a comercialização da TV infantil, que se converteu no mais importante canal de comunicação da indústria de comunicação de brinquedos com seus consumidores (HJARVARD, 2014) e ganhou visibilidade em muitos outros países nos anos 90, inclusive no Brasil. Com o tempo, os personagens dos mais famosos desenhos infantis televisivos passaram a estarem presentes em todo tipo de produto com o único objetivo de chamar atenção das crianças para comprá-los.

“Elas (as crianças) são os principais alvos dos profissionais que trabalham com marketing, não só porque querem conquistá-las desde cedo, mas também pelo fato das mesmas influenciarem de maneira decisiva no consumo dos adultos. Podemos claramente perceber isso em propagandas de carros, viagens de férias, produtos de limpeza, entre muitos outros. Elas são exploradas de forma assustadora e desumana; e o pior, imperceptivelmente” (DANTAS, J.G.;RODRIGUES, E. G. B., 2011).

Dessa forma, as crianças estão sujeitas ao que a filósofa política alemã Hannnah Arendt (1951) afirmava que acontecia com os líderes totalitários de massa que baseavam sua propaganda na correta suposição psicológica de que, sob tais condições, alguém poderia fazer as pessoas acreditarem nas afirmações mais fantásticas um dia e confiar que, se no dia seguinte fossem dadas provas irrefutáveis de sua falsidade, elas se refugiariam no cinismo; em vez de abandonar os líderes que haviam mentido para elas, elas protestariam que sabiam o tempo todo que a declaração era uma mentira e admirariam os líderes por sua superior inteligência tática, mas as crianças não possuem seu senso crítico desenvolvido para avaliar tal questão e aceitam tudo o que lhe é dito sem filtros, não conseguem diferenciar a venda de um produto de uma manipulação abusiva para o consumo do mesmo.

Em suma, com a midiatização da infância, as crianças estabelecem contato próximo com uma cultura global predominantemente voltada para o mercado e o consumo, tanto quanto subordinada às demandas da moda, representadas por atualizações contínuas e consumo incessante, segundo Christensen (1986) citado por Hjarvard (2014, p.215).

Ser criança foi uma condição conquistada pelos jovens há pouco menos de um século. Porém, sob a influência de determinados fatores, as crianças não querem mais ser crianças, iniciando na vida adulta muito precocemente. Segundo a professora indiana Durham (apud DANTAS, J. G.; RODRIGUES, E. G. B., 2011)    “Parecemos estar voltando a um tempo em que a infância não se distinguia da fase adulta, na qual o conceito de “abuso infantil” era desconhecido”. Portanto, até que ponto estamos progredindo?

5. CONCLUSÃO

Nesse artigo sobre a midiatização da infância, primeiro foi abordado o significado de midiatização e alguns de seus conceitos discutidos pelos especialistas da comunicação, em seguida discorremos as transformações socioculturais porquê passaram as crianças ao longo do tempo e por fim, como se dá o processo de midiatização da infância. Nesse seguimento, foi discutido as influencias e consequências desse processo na sociedade, tal qual foi o objetivo geral, sempre se atendo as questões contemporâneas mais relevantes e fugindo das longas e complexas discussões da comunicação que são potências para discorrer outros artigos. Em suma, vale ressaltar que na sociedade em que vivemos a mídia já faz parte da nossa cultura, entretanto, deve-se haver uma maior humanização na forma com que se produz e recebe os conteúdos midiáticos por parte das pessoas, e aqui em especial, das crianças, pois é inegável sua capacidade de formação e difusão de valores. A midiatização da infância, portanto, deve ser consciente e fecunda.

6. REFERÊNCIAS

AGAMBEN, G. O que é o contemporâneo? e outros ensaios [tradução Vinicius Nicastro Honesko]. Chapecó, Santa Catarina. Editora Unochapecó, 2009.

CARLSSON, U.; FEILITZEN, C. V. A criança e a mídia: imagem, educação e participação. São Paulo: Cortez, 2002; Distrito Federal: UNESCO, 2002.

DANTAS, J. G.; RODRIGUES, E. G. B.; Infância midiatizada: a difícil tarefa de ser criança em tempos de globalização. 2011. 10f. XIII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste. Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2011.

FROTA, A. M. M. C. Diferentes concepções da infância e adolescência: a importância da historicidade para sua construção. 2006. 147f-160f. Artigo- Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007.

GASPARETTO, P. R.; A complexidade do conceito de midiatização e a construção de novas comunidades de pertencimento. 2013. 13f. II Colóquio Semiótica das Mídia. Japaratinga, Alagoas, 2013.

GOMES, Pedro Gilberto. 2008. Midiatização e processos sociais na América Latina. Organizadores: Antônio Fausto Neto, Pedro Gilberto Gomes, José Luiz Braga e Jairo Ferreira, São Paulo: Paulus – (Coleção Comunicação).

HJARVARD, S. A midiatização da cultura e da sociedade. São Leopoldo: UNISINOS, 2014.

MÜLLER, Luís - Hannah Arendt explica como a propaganda se utiliza da mentira para desgastar a moralidade – 2018. Disponível em: . Acesso em: 21 jun. 2018.

PEDRO GILBERTO GOMES. Midiatização: um conceito, múltiplas vozes. Revista Famecos. Porto Alegre, v. 23, n. 2, maio, junho, julho e agosto de 2016.

SODRÉ, Muniz. 2002. Antropológica do espelho. Uma teoria da comunicação linear e em rede. Petrópolis: Vozes, Brasil.


Publicado por: Taís Mendes Araujo dos Santos

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.
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